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2025 - CINEFIALHO EM 100 FILMES





Esse é o segundo ano que o CineFialho lança uma lista tão extensa, com 100 filmes. Tenho consciência que toda forma de organizar uma lista tem suas limitações. Alguns críticos a fazem com títulos vistos em um determinado ano, independente de serem filmes exibidos em cinema, festivais, links ou streamings. Esta lista parte somente de uma maneira de visionamento: a dos filmes lançados comercialmente nos cinema. Essa é a régua escolhida pelo CineFialho. 

Esse foi um ano em que a discussão sobre a taxação sobre os streamings não só não avançou, como representou uma derrota para quem acredita na necessidade de por limites fiscais e de conteúdo nesses players que hoje caminham para firmar um monopólio no mercado do cinema, e em 2026, essa discussão continuará, com certeza.

Essa lista serve também para ampliar o tempo de discussão de alguns desses filmes que passaram velozmente pelo circuito e muitas vezes não foram automaticamente para nenhum serviço de streaming. O grande protagonista dessa lista, por isso mesmo, é o cinema independente. Por isso, pouco se verá aqui filmes blockbuster. Alguns filmes constam com uma máquina de marketing assustadora, enquanto outros não possuem muita grana e estrutura de lançamento, o que na prática faz muita diferença. Creio que a crítica deve contribuir para equilibrar essa desigualdade assustadora nos lançamentos, entre se ter, se ter pouco ou simplesmente não se ter nenhum marketing.


Não deem tanta importância para as colocações dos filmes na lista, elas são tão arbitrárias tanto quanto esta ou qualquer outra lista de filmes. Várias posições que os filmes ocupam hoje, amanhã poderiam variar sem o menor problema e sem crise maior de consciência.






100) FRANKENSTEIN - Dir. Guillermo Del Toro

Comentário: Del Toro já ocupou uma prateleira bem mais acima nas minhas preferências, mas preciso admitir que ele vem caindo. Mesmo ainda sendo um nome a respeitar e a observar, sua subserviência ao espetáculo com uma camada de CGI vinda de brinde decepcionou a quem ama cinema e não aprecia tanto a supremacia dos efeitos especiais no cinema.

99) TEMPO SUSPENSO - Dir. Olivier Assayas 

Comentário: Pode não ser o melhor filme de Olivier Assayas, mas o prestigioso diretor francês foi um dos poucos realizadores a querer falar sobre a época da pandemia. E o fez acompanhado por um dos maiores atores franceses do momento: Vincent Macaigne. O clima intimista prevalece em um filme para se refletir acerca de um das mais traumáticas épocas da humanidade.


















 

98) OH, CANADA - Dir. Paul Schrader

Comentário: Foi bom assistir a volta do astro Richard Gere para as telas de cinema. Muitos reclamaram que o filme era por demais confuso, mas acredito que essa era a intenção de Schrader ao realizá-lo assim. Pode não ser o melhor trabalho do diretor, mas é digno e ousado. E Gere está ótimo, como sempre e o elenco de apoio é luxuoso, com destaque para a presença de Uma Thurman.











Crítica: OH, CANADA (2024) Dir. Paul Schrader


97) OS ENFORCADOS - Dir. Fernando Coimbra

Comentário: Com "Os Enforcados", Fernando Coimbra reafirma sua aproximação ao universo de Nelson Rodrigues, o que é ótimo, mas se compararmos esse com "O Lobo Atrás da Porta", seu primeiro longa, tudo fica bem menor. Ainda bem, que o filme tem um elenco de peso, como Leandra Leal, Irandhir Santos, Irene Ravache, Ernane Moraes, Augusto Madeira e o excepcional Stepan Nercessian para segurar os alguns deslizes do roteiro.

Crítica: OS ENFORCADOS (2025) Dir. Fernando Coimbra


96) A LENDA DE OCHI - Dir. Isaiah Saxon

Comentário: Esse passou desapercebido pelo circuito comercial, mas tem a energia daqueles filmes de magia dos anos 1980. Se o circuito fosse mais generoso teria um sucesso bem maior, e olha que chegou amparado pela poderosa A24. Mesmo que o roteiro seja fraco, há um visual bem urdido que lembra a Idade Medieval e faz valer uma investida. Ainda de quebra, tem Willem Dafoe no elenco.   











A LENDA DE OCHI (2024) Dir. Isaiah Saxon


95) ANDY WARHOL - UM SONHO AMERICANO - Dir. L' Ubomír Ján Slivka

Comentário: Andy Warhol por si, já é um grande atrativo, e o diretor tenta abarcar muitos detalhes sobre esse artista que tão bem expressa ideias sobre o mundo contemporâneo. Uma pena ele expandir tanto suas perspectivas e tornar o resultado excessivamente saturado, mas não deixa de ser uma joia a ser vista e admirada.  


 







Crítica: ANDY WARHOL - UM SONHO AMERICANO (2024) Dir. L' ubomír Ján Slivka 


94) NOEL ROSA - UM ESPÍRITO CIRCULANTE - Dir. Joana Nin

Comentário: Esse belo documentário sobre o maior gênio do bairro de Vila Isabel, no Rio de Janeiro, tem um importante enfoque por trazer Noel Rosa para dialogar com o presente. Mas é inevitável sermos atraídos pela música e histórias desse artista que precocemente nos deixou aos 27 anos, mas o pouco tempo entre nós foi o suficiente para compor tantas pérolas da nossa música.  











NOEL ROSA - UM ESPÍRITO CIRCULANTE (2025) Dir. Joana Nin


93) NOUVELLE VAGUE - Dir. Richard Linklater

Comentário: Que Richard Linklater é um cineasta de mão cheia, a Trilogia "Antes do Amanhecer" não deixa dúvidas. Mas essa é aquela ideia fenomenal que enfraquece o tema pela abordagem careta de algo que é verdadeiramente revolucionário. "Acossado" merecia mais. Jean-Luc Godard, idem. Mas quem é o doido que não quer assistir a esse filme de bastidor?  


 










Crítica: NOUVELLE VAGUE (2025) Dir. Richard Linklater


92) ENTRE DOIS MUNDOS - Dir. Emmanuel Carrère

Comentário: Quem não gosta de ver um filme quando ele traz estampado o nome de Juliette Binoche? Mais do que talento Binoche tem carisma, sua imagem parece estabelecer uma afinidade indissolúvel com a câmera. Mas nem sempre ela se mostra boa para escolher projetos. Esse tem lá suas implicações éticas, pois sua personagem se passa por alguém que não é, para o fim de uma pesquisa de campo. O melhor aqui é ver muitas atrizes desconhecidas dando um show nas cenas com Binoche.

Crítica: ENTRE DOIS MUNDOS (2025) Dir. Emmanuel Carrère 


91) O RETRATO DE NORAH - Dir. Tawfik Alzaidi

Comentário: Esse filme foi uma grata surpresa lançada no ano. Uma denúncia poderosa contra a opressão fundamentalista que oprime mulheres, professores e crianças. Muito bom como o trabalho fotográfico consegue representar o obscurantismo político. O final do filme fica devendo, mas não compromete a contundência e a denúncia contra a opressão religiosa.











Crítica: O RETRATO DE NORAH (2023) Dir. Tawfik Alzaidi


90) DELÍRIO - Dir. Alexandra Latishev Salazar

Comentário: O raro às vezes é bom. Poucos são os filmes da Costa Rica que chegam por aqui e "Delírio" é um exemplar interessante, repleto de um misticismo tipicamente latino e um filme preocupado em criar uma atmosfera de suspense e claustrofobia. Uma casa que diz muito sobre personagens, quase todos mulheres que temem a presença quase sempre violenta dos homens.    





 






DELÍRIO (2024) Dir. Alexandra Latishev Salazar


89) DAAAAAALÍ ! - Dir. Quentin Dupieux

Comentário: Esse é aquele típico filme que se adora ou se odeia. Eu gostei sobretudo pelo diretor Quentin Dupieux não usar o filme como uma mera biografia sobre o excêntrico artista Salvador Dalí, o que seria algo banal e esperado. Ao invés disso, ele aposta no universo surrealista e realiza uma fábula cômica e desconcertante sobre esse grande mestre da pintura. Uma delícia de viagem onírica.   


 Crítica: DAAAAAALI ! Dir. Quentin Dupieux


88) 3 OBÁS DE XANGÔ - Dir. Sérgio Machado

Comentário: Como poderia dar errado um documentário que junta Jorge Amado, Dorival Caymmi e Carybé? A interação entre esses três artistas é justamente a maior graça do filme e fica irresistível pensar a cultura afro-baiana a partir deles. A força do filme é mostrar como esses 3 obás se tornaram os grandes divulgadores e criadores de uma certa imagem da Bahia. Tudo embalado pela música de Caymmi.  











3 OBÁS DE XANGÔ (2024) Dir. Sergio Machado


87) A MEMÓRIA DO CHEIRO DAS COISAS - Dir. António Ferreira

Comentário: O cinema português é um dos maiores do mundo. Esse singelo filme apenas reafirma a força dessa cinematografia. José Martins é um ator excepcional e infelizmente pouco conhecido. O filme perpassa temas profundos como o do colonialismo, o do envelhecimento. O diretor António Ferreira nos mostra como podemos aprender em qualquer momento de nossa vida, inclusive na velhice.  




 







Crítica: A MEMÓRIA DO CHEIRO DAS COISAS (2025) Dir. António Ferreira


86) HOMEM COM H - Dir. Esmir Filho

Comentário: "Homem com H" é um filme que se realiza tal como o seu protagonista, como um grande espetáculo cinematográfico. Ney Matogrosso merecia uma cinebiografia ficcional à altura.  O filme também ficará marcado pela interpretação visceral de Jesuíta Barbosa. Se "Homem com H" passa longe da perfeição, tudo é compensado pela música contagiante do cantor e pelo capricho visual do filme.  


 










Crítica: HOMEM COM H (2025) Dir. Esmir Filho


85) CHICO BENTO E A GOIABEIRA MARAVIÓSA - Dir. Fernando Fraiha

Comentário: É muito difícil produzir um filme para a criançada e convencer de verdade. Primeiro acerto e mérito é tratar as crianças com inteligência e não como bocós, como muitos filmes o fazem. Outra coisa: é preciso ter um protagonista com a luz e o carisma de Isaac Amendoim. Aqui, provou-se que é possível falar de consciência política para os mais jovens. De quebra, ainda tem "Romaria" no final, pra gente sair cantando. 




















CHICO BENTO E A GOIABEIRA MARAVIÓSA (2024) Dir. Fernando Fraiha



84) PEDAÇO DE MIM - Dir. Anne-Sophie Bailly

Comentário: Trazer personagens DEF (pessoas com deficiência) para serem discutidas no cinema é algo fundamental. Mesmo que esse falhe ao colocar o ponto de vista do filme na mãe e não nos DEF, ainda sim tem momentos de grande beleza e traz perguntas e dúvidas importantes. A direção de atores é o maior trunfo dessa obra que trata com franqueza e sem medo de um tema sensível e que a maioria foge.  














Crítica: PEDAÇO DE MIM (2024) Dir. Anne-Sophie Bailly


83) A VERDADEIRA DOR - Dir. Jesse Eisenberg

Comentário: É interessante como o diretor transita pelo humor e pelo drama sem maiores grilos. Keiran Culkin está muito bem e ganhou muitos prêmios nessa atuação, que poderia ter pendido para um humor boboca, mas sabe jogar com o passado de uma maneira cáustica e arrasadora. Como encarar um passado demolidor e não ser por ele tocado verdadeiramente?  











Crítica: A VERDADEIRA DOR (2024) Dir. Jesse Eisenberg 


82) VITÓRIA - Dir. Andrucha Waddington

Comentário: Se existe algo mágico na face da Terra, o seu nome é Fernanda Montenegro. Como é bom vê-la em cena em um filme onde o seu protagonismo é total. Mas essa obra se destaca ainda pelas minúcias com que Andrucha constrói sua mise en scène, e as cenas das xícaras são um primor. E como é incrível ver as ruas de Copacabana ser filmada com a vivacidade e a riqueza que merece.










Crítica: VITÓRIA (2024) Dir. Andrucha Waddington


81) AS MAIS PRECIOSA DAS CARGAS - Dir. Michel Hazanavicius

Comentário: As animações em longa-metragem voltadas para o público adulto são raras e normalmente muito impactantes. O visual aqui de uma Europa gélida, branca e soturna é o que confere o tom amargo dessa animação, que narra o horror das vítimas do holocausto. Mas o melhor é ter ainda o luxo de uma narração em off com a voz de nada mais do que o astro francês Jean-Louis Trintignant.  











Crítica: A MAIS PRECIOSA DAS CARGAS (2025) Dir. Michel Hazanavicius


80) CÓDIGO PRETO - Dir. Steven Soderberg

Comentário: Mesmo que esses filmes de espionagem sejam esquecíveis logo que saímos do cinema, e esse não é diferente, eu adoro acompanhar, ou pelo menos tentar, as ações mirabolantes e os personagens fluidos e escorregadios. Soderberg pode não ter atingido a plenitude prometida lá no começo da carreira, mas sempre garante o básico. E com Cate Blanchett puxando o elenco, essa se torna uma tarefa fácil de alcançar.  












Crítica: CÓDIGO PRETO (2024) Dir. Steven Soderbergh


79) NOSFERATU - Dir. Robert Eggers

Comentário: Coragem é o que não faltou ao ousado Robert Eggers quando decidiu refilmar um dos maiores clássicos do cinema expressionista. O apuro visual chamou a atenção, pois o capricho é imenso, mas ficou igualmente a sensação de que Eggers abusou do esteticismo a ponto de esquecer de trabalhar mais minuciosamente o suspense em si. É Nosferatu entrando na Era do espetáculo. Pelo menos é bonito de ver.  











Crítica: NOSFERATU (2024) Dir. Robert Eggers


78) ANORA - Dir. Sean Baker

Comentário: Quem me acompanha sabe o quanto eu sou fã de Sean Baker, mas sinceramente "Anora" não manteve o mesmo padrão de suas obras anteriores. O velho sonho de Cinderela, tema recorrente de Baker, é aqui concebido com menos profundidade, mas vale pela interpretação magnética de Mikey Madison. O filme narra um desmoronamento de um sonho, no caso, o da protagonista Ani. 











Crítica: ANORA (2024) Dir. Sean Baker


77) VALOR SENTIMENTAL - Dir. Joachim Trier

Comentário: Joachim Trier tinha uma joia nas mãos. Durante dois terços do filme me encantei, mas o terço final decepcionou demais. Mas vale pela interpretação magistral de Stellan Sgargard, que está melhor que Renate Reinsve e Ellen Fanning. O que começa de maneira promissora, como um belo protótipo do cinema contemporâneo, termina como um dramalhão besta e de conciliação familiar patética. Triste assim.  











Crítica: VALOR SENTIMENTAL (2025) Dir. Joachim Trier


76) SUÇUARANA - Dir. Clarissa Campolina e Sergio Borges

Comentário: Esse é um ótimo filme de uma safra mineira de respeito, que mostra uma personagem feminina, Dora, em busca de seu lugar no mundo, que se mostra hostil e violento. Adoro a narrativa crua que os diretores Clarissa e Borges adotam para a narrativa e como projetam personagens desamparados imersos numa ideia de contemporaneidade fluida.   


Crítica: SUÇUARANA (2025) Dir. Clarissa Campolina e Sergio Borges 



75) A FANFARRA - Dir. Emmanuel Courcol

Comentário: "A Fanfarra" é um filme sobre redenção e construção de uma amizade. Narra o encontro de dois irmãos separados no berço e que se reconectam pela música. O forte aqui é a química entre os atores que ocorre no ato da filmagem, algo bem raro de acontecer e até de se perceber. Guardo esse filme com um grande carinho em mim. 





















74) A BATALHA DA RUA MARIA ANTÔNIA - Dir. Vera Egito

Comentário: Falar da ditadura militar se transformou em algo fundamental, especialmente para que à época de exceção jamais retorne ao nosso país. Essa é uma obra de um motim de resistência de jovens universitários, todo filmado em plano-sequência. Esse é um filme de grande movimentação dos personagens e por isso é um imenso prazer poder acompanhar a relação da câmera com os atores.  











Crítica: A BATALHA DA RUA MARIA ANTÔNIA (2023) Dir. Vera Egito


73) O ÚLTIMO AZUL - Dir. Gabriel Mascaro

Comentário: O que mais me agrada no filme é a interpretação magistral de Denise Weinberg. Não gosto da construção distópica de Mascaro, nem do trabalho de Santoro, um personagem vazio e perdido no filme. "O Último Azul" tem lá seus momentos pelos barcos que ludibriam pessoas vendendo uma bíblia digital ou quando a baba azul do caracol entra em cena. Mas ao final, o que fica mesmo é o talento de Denise Weinberg. 











Crítica: O ÚLTIMO AZUL (2024) Dir. Gabriel Mascaro


72) HONEY, NÃO - Dir. Ethan Coen

Comentário: A ideia de Ethan Coen de criar uma personagem bonita e sapatão como detetive particular foi fenomenal, afinal, assim ela pode no decorrer da trama enfrentar assediadores tóxicos com mais armas do que o restante das mulheres. Mas o filme é feliz em explorar na contemporaneidade o atraso e o arcaico em uma pequena cidade no interior dos Estados Unidos. E mais... Margaret Qualley está arrasando.  











Crítica: HONEY, NÃO! (2025) Dir. Ethan Coen


71) LISPECTORANTE - Dir. Renata Pinheiro

Comentário: Esse é um filme que explora a vida cultural de Recife, com magnetismo incomum, a partir de uma casa abandonada que pertenceu a Clarice Lispector. Adoro a evocação de um Recife nostálgico, de um passado que insiste em gritar. De resto, a presença sempre luminosa de Marcélia Cartaxo é um a mais nesse turbilhão de emoções que é "Lispectorante".   











Crítica: LISPECTORANTE (2024) Dir. Renata Pinheiro


70) SEU CAVALCANTI - Dir. Leonardo Lacca

Comentário: Se fosse pelo carisma do protagonista, "Seu Cavalcanti" seria o filme do ano. Que personagem! Uma sessão da tarde divertidíssima e boníssima de assistir. Adorei ver e está na minha lista de revisitações para 2026. Lacca mostra que às vezes não precisamos ir tão longe para encontrar nossos personagens, que muitas vezes eles estão bem próximos de nós. 


 










Crítica: SEU CAVALCANTI (2023) Dir. Leonardo Lacca


69) A HISTÓRIA DE SOULEYMANE - Dir. Boris Lojkine

Comentário: A câmera a serviço da dinâmica de vida de um refugiado e de sua capacidade de sobreviver no inferno do exílio. Essa pode ser a síntese desse filme que escolhe a frontalidade como método de abordagem, nessa ficção que mesmo que não ouse tanto formalmente, oferece um retrato consistente de Souleymane, homem preto que enfrenta a intolerância em seu país e o racismo da branquitude francesa. 











Crítica: A HISTÓRIA DE SOULEYMANE (2024) Dir. Boris Lojkine


68) NADA - Dir. Adriano Guimarães

Comentário: Nunca o título de um filme mostrou tão pouco sobre ele. Ao contrário do que se possa pensar, "Nada" é um filme ambicioso, que quer falar do mal estar da contemporaneidade, da obsolescência vital das novas tecnologias, incapazes de realmente estabelecer diálogo. Essa premissa não é pouca e sim complexa e o filme enfrenta a dura realidade usando estratégias do cinema fantástico do mockumentário (falso documentário).    











Crítica: NADA (2024) Dir. Adriano Guimarães


67) PONTO OCULTO - Dir. Ayse Polat

Comentário: Esse filme passou quase invisível pelo circuito, mas merecia mais atenção tanto pelo roteiro esmerado quanto pela direção atenta aos detalhes e com uma montagem descontínua onde o tempo se mostra fragmentado. A certa altura, a câmera de Ayse Polat se coloca como personagem e desconcerta as imagens de antes. Há um uso inteligente das chamadas câmeras de segurança. Um filme para ser visto com o máximo de atenção. 











Crítica: PONTO OCULTO (2023) Dir. Ayse Polat


66) RITAS - Dir. Oswaldo Santana e Karen Harley

Comentário: "Ritas" é tão apaixonante quanto a sua protagonista, a nossa Rita Lee. Um filme que termina e queremos assistir de novo e de novo, pois Rita Lee é puro prazer para os olhos e ouvidos. Um filme sobre a inteligência e sobre uma mulher que soube ser numa época em que as mulheres eram educadas à subserviência. Esse é um documentário pulsante e apaixonado, por isso maravilhoso.











Crítica: RITAS (2025) Dir. Oswaldo Santana e Karen Harley


65) LAN, O CARICATURISTA - Dir. Pedro Vinicius

Comentário: Tem documentários que são importantes por mostrar a qualidade de uma trajetória artística pouco conhecida ou reconhecida em partes dela. A simplicidade narrativa do documentário faz ressaltar o personagem, um tímido homem da Toscana que amou a vida, as mulheres e adotou o Rio de Janeiro como seu lar. Interessante como o mais apaixonado dos cariocas sequer nasceu aqui. 











Crítica: LAN, O CARICATURISTA (2025) Dir. Pedro Vinícius


64) BRINCANDO COM FOGO - Dir. Delphine Coulin e Muriel Coulin

Comentário: Em cinema jamais podemos ser dogmáticos. Particularmente, jamais fui fã de Vincent Lindon, mas continuo vendo seus filmes mesmo assim. Eis que "Brincando com Fogo" me surpreendeu. Esse é um filme necessário que enfrenta um dos temas mais difíceis da nossa Era, a do crescimento das ideologias fascistas. O resultado é comovente e Lindon arrasa na interpretação.











Crítica: BRINCANDO COM FOGO (2025) Dir. Delphine Coulin e Muriel Coulin


63) O GRANDE GOLPE DO LESTE - Dir. Natja Brunckhorst

Comentário: Quando política e comédia encontram o tom certo, o resultado é sempre fantástico, crítico e engraçado. O humor de "O Grande Golpe do Leste" vem das situações, não de piadas forçadas inseridas pelo texto. E não bastando mais nada, ainda tem a talentosíssima Sandra Hüller no elenco, mesmo que a maior estrela aqui seja a atriz mirim Lotte Sirin Kelling, interpretando a menina prodígio Mini.  










Crítica: O GRANDE GOLPE DO LESTE (2024) Dir. Natja Brunckhorst


62) LUIZ MELODIA - NO CORAÇÃO DO BRASIL - Dir. Alessandra Dorgan

Comentário: A beleza desse documentário reside no fato da diretora Alessandra Dorgan conseguir retratar a alma do cantor e compositor do Estácio. Ela realiza uma viagem deliciosa ao universo do artista e quem ganha com isso são os espectadores. O ponto de vista é todo dele, mas as canções nos chegam não só pela sua bela voz, mas também pela dos diversos artistas que sempre amaram gravá-lo.










Crítica: LUIZ MELODIA - NO CORAÇÃO DO BRASIL (2024) Dir. Alessandra Dorgan 


61) MORRA, AMOR - Dir. Lynne Ramsay

Comentário: A diretora Lynne Ramsay realiza uma obra de impacto ao construir uma reflexão perturbadora sobre a ideia de matrimônio na contemporaneidade. E Jennifer Lawrence é a espinha dorsal dessa história sobre como os corpos reagem às tradições e pressões sociais. Um filme que instiga a pensar sobre o feminino, o masculino e o casamento. É Lawrence em seu melhor e desafiador momento da carreira.











Crítica: MORRA, AMOR (2025) Dir. Lynne Ramsay


60) BABY - Dir. Marcelo Caetano

Comentário: Esse é um filme estilisticamente com um olhar nostálgico lá para os anos 1970 e 1980, que o leva para um diferencial em relação às outras produções atuais. João Pedro Mariano constrói um personagem vibrante e tocante. A atmosfera lembra "Querelle" de Fassbinder, em um mergulho dramático em um submundo belamente encenado. "Baby" é um cinema queer de responsa.    









 


Crítica: BABY (2024) Dir. Marcelo Caetano


59) TRÊS AMIGAS - Dir. Emmanuel Mouret

Comentário: Mouret vem se firmando como um dos grandes discípulos de Woody Allen, com seus textos afiados, temas românticos e grande preocupação com a relação dos atores com a mise en scène. E mais, como é bom ver Vincent Maicagne em cena, no fundo, esse é um filme escrito sob medida para o seu talento. "Três Amigas" é uma comédia romântica adulta, que contrasta com várias infantilóides filmadas em Hollywood.  











Crítica: AS TRÊS AMIGAS (2024) Dir. Emmanuel Mouret 


58) FOI APENAS UM ACIDENTE - Dir. Jafar Panahi

Comentário: Que me desculpe o hype em cima dessa obra de Panahi, mas não consegui me conectar como sempre acontece com suas obras anteriores. E minha implicância com "Foi Apenas um Acidente" não é com a sua forma cinematográfica, mas sim com a sua postura infantil na política. Tem seus momentos? Verdadeiramente tem, mais falha quando pensa a militância política de seus personagens e isso eu não relevo. 











Crítica: FOI APENAS UM ACIDENTE (2025) Dir. Jafar Panahi  


57) ERNEST COLE: ACHADOS E PERDIDOS - Dir. Raoul Peck

Comentário: Raoul Peck é um dos melhores documentaristas do mundo. Obra a obra isso vai ficando evidente. Ao pinçar a história de Ernest Cole, um fotógrafo hoje bem pouco conhecido e trazê-lo para luz, ele reafirma o seu propósito de grande documentarista, preocupado em frisar a importância do contexto para a análise do personagem. Um filme vibrante, justo e eloquente. E que beleza que é a trilha toda inspirada no cool jazz. Imperdível e necessário.









Crítica: ERNEST COLE: ACHADOS E PERDIDOS (2024) Dir. Raoul Peck


56) CYCLONE - Dir. Flavia Castro

Comentário: Flavia Castro é uma diretora inspirada e que sempre mereceu atenção pelos documentários. Mas ela se sai muito bem na sua incursão pela ficção ao resgatar a figura de uma artista feminista, que foi renegada pelo modernista Oswald Andrade. Castro ainda se destaca pela concepção visual e na maneira hábil de conduzir as atrizes. Luiza Mariani está fenomenal como a protagonista em luta por visibilidade e justiça.    











Crítica: CYCLONE (2025) Dir. Flávia Castro

 

55) O REFORMATÓRIO NICKEL - Dir. RaMell Ross

Comentário: Como é importante a gente ter um cinema negro nos Estados Unidos disposto a rever a história racista desse país que se diz gigante, mas é apequenado pelas injustiças sociais, tal como nós aqui no sul do Continente. Mas o tom impressionista de RaMell Ross também chama a atenção, com câmeras subjetivas e com ângulos inusitados. Uma obra cinematograficamente para lá de positiva e necessária. 











Crítica: O REFORMATÓRIO NICKEL (2024) Dir. RaMell Ross



54) SEMPRE GAROTAS - Dir. Shuchi Talati

Comentário: Esse é um filme indiano sobre o processo de amadurecimento de uma menina entrando na adolescência. "Sempre Garotas" sabe explorar as contradições sociais na Índia e o papel das mulheres na educação de outras mulheres. O ponto de vista que temos é o da personagem adolescente e isso funciona para que fiquemos com as mesmas dúvidas que ela. 





















53) O MACACO - Dir. Oz Perkins

Comentário: Esse foi um ano com muitos filmes hypados de terror. Confesso que a maioria não fez minha cabeça, mas "O Macaco" me chamou a atenção, mesmo não tendo recebido o merecido foco dos outros. A relação com o passado é o maior destaque da trama, onde a direção de Oz não esquece das referências do Giallo italiano para construir sua mirabolante história em torno de um brinquedo macabro.     





















52) DORMIR DE OLHOS ABERTOS - Dir. Nele Wohlatz

Comentários: Essa é uma produção diferente, que mostra a vida de imigrantes chineses em Recife. A diretora é chinesa, mas os produtores são o nosso Kleber Mendonça Filho e Emilie Lesclaux. Um filme que se afirma pela discussão frontal do que é ser um imigrante e que se propõe a discutir ainda como se definem essas vidas em meio à fria exploração capitalista.  











Crítica: DORMIR DE OLHOS ABERTOS (2024) Dir. Nele Wohlatz 


51) UM COMPLETO DESCONHECIDO - Dir. James Mangold

Comentário: O diretor James Mangold centra sua obra nos anos inicias da carreira de Bob Dylan, até os momentos em que o seu sucesso se afirmaria. Se Timothée Chalamet poderia ser considerada uma escolha duvidosa para muitos, as filmagens demonstraram sua imensa capacidade de não só viver esse ícone da contracultura estadunidense como de cantar ele próprio as músicas com uma competência extraordinária.  











Crítica: UM COMPLETO DESCONHECIDO (2024) Dir. James Mangold


50) CRIATURAS DA MENTE - Dir. Marcelo Gomes

Comentário: O maior mérito de "Criaturas da Mente" é o de trazer um tema inusitado, o do poder do sono e a importância do sonho para nós. Marcelo Gomes quer estudar o tema porque segundo ele não consegue mais sonhar. Ele parte dos estudos de Sidarta Ribeiro para averiguar algo ilimitado e às vezes abstrato para muitos: o poder da mente humana e sua relevância para a nossa vida no que tange a explorar a sua riqueza e potencial. 








 



Crítica: CRIATURAS DA MENTE (2024) Dir. Marcelo Gomes 


49) PEQUENAS COISAS COMO ESTAS - Dir. Tim Mielants

Comentário: Confesso que fui com os dois pés atrás conferir esse filme estrelado por Cillian Murphy, por causa de "Oppenheimer", mas ainda bem que fui assistir. Um filme de pequenos gestos, embora carregue consigo uma crítica mordaz à tradição católica. Cillian Murphy está ótimo, mas a presença pontual de Emily Watson como uma madre superiora é, como sempre aliás, arrebatadora. Um pequeno grande filme.  











Crítica: PEQUENAS COISAS COMO ESTAS (2024) Dir. Tim Mielants


48) PARTHENOPE, OS AMORES DE NÁPOLES - Dir. Paolo Sorrentino

Comentário: Sorrentino sempre filma com classe e sofisticação, o que irrita muita gente, mas esse tão criticado filme tem beleza, e muita. Adoro como o diretor trabalha a mitologia napolitana na decadente Nápoles do presente. Celeste Dalla Porta toma conta da cena e permite Sorrentino esparramar sua verve onírica felliniana por todos os cantos do filme, com toda a extravagância que o cinema permite.  










Crítica: PARTHENOPE: OS AMORES DE NÁPOLES (2024) Dir. Paolo Sorrentino


47) O SÍTIO - Dir. Silvina Schnicer

Comentário: Há, em "O Sítio", uma atmosfera sinistra e fantástica que ronda uma trama típica de uma família de classe média na América Latina. O bucólico inspira silêncios aterradores e a imagem entrega angústia e sufocamento. Gosto de como a crueldade permeia as cenas e a infância, sem psicologismos baratos que costumeiramente fazem do espectador passivo. O fogo como expressão de apagamento e negação de uma ideologia repressora que prioriza uma suposta e enganosa segurança.  











Crítica: O SÍTIO (2024) Dir. Silvina Schnicer


46) SERRA DAS ALMAS - Dir. Lírio Ferreira

Comentário: Lírio Ferreira mostra como que um filme é capaz de desconstruir uma rede de domínio social, indo do interior para a Capital Recife e depois voltando para o interior do Estado de Pernambuco. O poder é algo complexo e "Serra das Almas" desvela isso como poucos filmes conseguem. Como dizia Glauber Rocha "mais forte são os poderes do povo", sina que KMF já havia revelado em "Bacurau". O Nordeste brasileiro é danado!  











Crítica: SERRA DAS ALMAS (2024) Dir. Lirio Ferreira 


45) APOLO - Dir. Thainá Müller e Isis Broken

Comentário: Eis um filme desconcertante e fascinante. A dupla Tainá Müller e Isis Broken (que também é personagem) realizam uma obra com forte viés humanista ao penetrar na vida de um casal trans. O afeto está no cotidiano desse casal que decide ter um filho, o Apolo. O filme é todo narrado para ele, a grande estrela que irradia o amor que está no ar nesse belo e necessário documentário. 











Crítica: APOLO (2025) Dir. Tainá Müller e Isis Broken


44) SEGREDOS - Dir. Daniele Luchetti

Comentário: "Segredos" é um filme vigoroso, denso, de um diretor que lá nos anos 1990 me cativou com uma comédia que introduzia cenas com animação. Daniele Luchetti continua a brilhar, só que agora com um drama mais pungente. "Segredos" é uma história de amor doída, profunda e até onírica. O filme tem nada mais nada menos do que uma trilha de cair o queixo do grande Thom Yorke, integrante do famoso grupo RadioHead. 











Crítica: SEGREDOS (2024) Dir. Daniele Luchetti 


43) VOLVERÉIS - Dir. Jonás Trueba 

Comentário: Como é divertido assistir a um filme que sabe brincar com o jogo entre cinema e vida. Histórias que transpiram realidade, mas que nos lembram que são ficcionais. Jonás Trueba segue a tradição de talento e realiza um filme cinematograficamente expressivo. Que fantástica a ideia de que comemorar a separação é mais interessante do que festejar a união em um casamento. Mais uma vez é Woody Allen inspirando os novos realizadores.  











Crítica: VOLVERÉIS (2025) Dir. Jonás Trueba


42) A QUEDA DO CÉU - Dir. Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha

Comentário: "A Queda do Céu" se constrói na necessidade de se ver a cultura indígena para além de sua circunscrição territorial. Por isso, a ideia de Eryk e  Gabriela é tão certeira, a de partir das filosofias de Davi Kopenawa para discutir os direitos dos povos originários brasileiros. Há não só um respeito pela noção de tempo dos Yanomamis quanto uma transformação dele em uma camada poética imprescindível para pensar essa cultura. Esse é um primor de documentário.











Crítica: A QUEDA DO CÉU (2024) Dir. Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha


41) KASA BRANCA - Dir. Luciano Vidigal

Comentário: No cinema contemporâneo, fala-se muito em território. "Kasa Branca" é um filme que cumpre esse desígnio com uma competência ímpar. Luciano Vidigal nos arremessa para a periferia de maneira quase mágica, com personagens encantadores e vivíssimos. Essa é a melhor forma de tirar a periferia da invisibilidade, com carisma de um elenco impecável a mostrar o valor incomparável da amizade e do coletivo na vida brasileira. 










 

Crítica: KASA BRANCA (2024) Dir. Luciano Vidigal


40) A MULHER NO JARDIM - Dir. Jaume Collet-Serra

Comentário: Adoro filme que radicaliza um determinado ponto de vista na trama. É o caso do filme de terror "A Mulher no Jardim", que merecia uma melhor sorte nos cinemas. A partir de um trauma da protagonista acompanhamos a incômoda presença dessa mulher toda vestida de preto sentada no jardim da família. Jaume Collet-Serra empilha camadas simbólicas e reais nessa macabra história sobre saúde mental na contemporaneidade.











Crítica: A MULHER NO JARDIM (2025) Dir. Jaume Collet-Serra


39) SEM CHÃO - Dir. Yuval Abraham, Basel Adra, Hamdan Ballal e Rachel Szor

Comentário: Esse é um documentário cru sobre o extermínio dos palestinos na faixa de Gaza. Basel Adra registra in loco, o terror da força policial de Benjamin Netanyahu, que bombardeia escolas, hospitais e residências. "Sem Chão" realiza um registro distópico de uma guerra desigual e desumana. Como a câmera acompanha a saga palestina no ensejo das agressões, ela raramente está estática e simboliza a própria instabilidade da população palestina nos territórios ocupados por Israel. Doc imprescindível.  











Crítica: SEM CHÃO (NO OTHER LAND) 2024 Dir. Yuval Abraham, Basel Adra, Hamdan Ballal e Rachel Szor


38) ENTERRE SEUS MORTOS - Dir. Marco Dutra

Comentário: Admiro a audácia de Marco Dutra em realizar um filme repleto de riscos narrativos. O estranhamento que "Enterre Seus Mortos" evoca é salutar dentro de um cinema cada vez mais domesticado pelo afago no espectador. Esse é um filme adulto, duro e que não entrega sua trama logo na primeira esquina da história. E Selton Mello está soberbo, sem carisma algum, o que é raro na sua carreira. Um filme que denuncia um mundo que caminha para o fim, sobretudo pela frieza que cultivou nas pessoas.  











Crítica: ENTERRE SEUS MORTOS (2024) Dir. Marco Dutra


37) AMIZADE - Dir. Cao Guimarães

Comentário: Se você nunca viu nenhum filme de Cao Guimarães, você anda procurando filme no lugar errado. Mas se você já viu e não gosta, sinto que você já esteja dominado por alguma ideia já programada de cinema. "Amizade" é mais um filme não só de invenção, mas um filme de autorreinvenção desse diretor fantástico vindo de MG. Aqui, Cao poetiza o tema da amizade e realiza mais um filme intuitivo sobre memória, calcado na sua inteligência privilegiada. 









 


Crítica: AMIZADE (2024) Dir. Cao Guimarães


36) BUGONIA - Dir. Yorgos Lanthimos

Comentário: Que Lanthimos exagera em suas abordagens, isso já sabemos. Entretanto, em "Bugonia" o exagero surge mais controlado na mise en scène, o que me agradou muito. Adorei a reflexão que o diretor lança sobre o quanto estamos afundando o planeta e como estamos lidando com isso. A trama em si é recheada de dúvidas e permite leituras diversas, o que também é maravilhoso. "Bugonia" é Lanthimos em plena forma.  











Crítica: BUGONIA (2025) Dir. Yorgos Lanthimos


35) UMA BATALHA APÓS A OUTRA - Dir. Paul Thomas Anderson

Comentário: Apesar de ser um fã de PTA, esse não é o filme dele que mais gostei. Tem seus momentos brilhantes, algumas atuações sensacionais, mas para mim não atingiu o seu mais alto nível com "Uma Batalha Após a Outra". Contudo, gostei de ver a parceria inédita entre o diretor e Di Caprio e Sean Penn arrasando como um militar bem escroto. É um filme cômico, daqueles para não se levar a sério, inclusive o viés político que nunca é verdadeiramente enfrentado pela direção.  











Crítica: UMA BATALHA APÓS A OUTRA (2025) Dir. Paul Thomas Anderson


34) O CASTIGO - Dir. Matías Bize

Comentário: Esse poderoso filme todo filmado em plano-sequência tem uma força por nos colocar dentro desse drama de um filho que se perde em meio a uma floresta na Argentina. Vivemos juntos o drama familiar, suas angústias e seus segredos. Tudo é muito vivo e real nessa história. Além disso tudo provoca uma reflexão forte sobre a maternidade em nosso mundo contemporâneo. 











Crítica: O CASTIGO (2022) Dir. Matías Bize


33) OS MALDITOS - Dir. Roberto Minervini

Comentário: "Os Malditos" é um tipo de filme antibelicista, que foca em um destacamento em deslocamento para o oeste dos Estados Unidos. Não é um filme fácil, sua narrativa é lenta e angustiante e dedicada a explorar como cada um dos soldados chegou até o exército. Ficamos a nos perguntar até o final: "pra quê serve a guerra, qual a sua utilidade?" É bom lembrar, que "Os Malditos" é indicado só para os fortes!   










 

Crítica: OS MALDITOS (2024) Dir. Roberto Minervini


32) PRÉDIO VAZIO - Dir. Rodrigo Aragão

Comentário: Rodrigo Aragão é um cineasta vindo do município praieiro de Guarapari e "Prédio Vazio" se passa justamente na sua terra natal. Como sempre, Aragão demonstra ser afeito ao terror, gênero a que se dedica integralmente. Esse trabalho destaca-se por mostrar a dureza que é viver numa cidade onde só atrai turismo durante o período de veraneio e o filme versa sobre isso, sobre o abandono. Mas o melhor mesmo é ver em acena Gilda Nomacce, uma das maiores atrizes brasileiras. Vejam a hilária entrevista dela em um canal de TV à época da divulgação do filme.      











Crítica: PREDIO VAZIO (2024) Dir. Rodrigo Aragão


31) SOL DE INVERNO - Dir. Hiroshi Okuyama

Comentário: "O Sol de Inverno" é um filme terno e dirigido com talento pelo jovem diretor Hiroshi Okuyama. Gosto como essa obra segue a tradição de alguns diretores fantásticos, como Ozu, que sempre trabalhou com planos fixos, o que o obrigou a pensar bem onde colocar a câmera em cada cena. "O Sol de Inverno" possui essa linhagem austera, e que traz uma agradável leveza à mise en scène 










 

Crítica: SOL DE INVERNO (2024) Dir. Hiroshi Okuyama


30) LUMIÈRE, A AVENTURA CONTINUA! - Dir. Thierry Frémaux 

Comentário: Um filme maravilhoso para quem ama o cinema. Descobrir essas imagens iniciais, quando a ideia de cinematógrafo era maior do que a do cinema é algo que beira o mágico. Thierry Frémaux nos brinda com imagens desconcertantes, além de límpidas devido uma restauração recente. Esse documentário nos permite ver o cinema ainda como um apetrecho puramente fotográfico, como registro da vida moderna, como uma aventura e um amor de ver o mundo em movimento projetado numa tela.  











Crítica: LUMIÈRE, A AVENTURA CONTINUA! (2025) Dir. Thierry Frémaux


29) ENSAIOS SOBRE YVES - Dir. Patrícia Niedermeier

Comentário: Esse é um filme-ensaio, um encontro de dois artistas brilhantes: Yves Klein e Patrícia Niedermeier. A paixão de Patrícia pela obra de Klein é apaixonada e apaixona quem está assistindo a esse belo filme. O monocromatismo em sua magnitude, inteireza e beleza. A arte reinventa a vida e essa obra nos leva a pergunta sobre o sentido de ambas. Basta querer se jogar no abismo que ambas oferecem.        











Críticas: ENSAIOS SOBRE YVES (2023) Dir. Patrícia Niedermeier (A crítica)

ENSAIOS SOBRE YVES (2023) Dir. Patrícia Niedermeier (um ensaio)


28) LEVADOS PELAS MARÉS - Dir. Jia Zhang-Ke

Comentário: O cinema de Jia Zhang-Ke é completo, ora documenta ora ficcionaliza. A China é tão personagem quanto Bin. "Levados Pelas Marés" mostra a evolução econômica e cultural da China, esse país que crescer estrondosamente ano a ano. Jia expõe como em nome da nação o indivíduo ficou a ver navios e vive desamparado e perdido em meio às transformações ininterruptas sofridas pelo país.   











Crítica: LEVADOS PELAS MARÉS (2024) Dir. Jia Zhang-Ke


27) QUERIDO TRÓPICO - Dir. Ana Endara

Comentário: "Querido Trópico" é um ótimo exemplo do cinema feito no Panamá, país que quase não chegam produções por aqui. Que filme humano, disposto a trabalhar as relações com dignidade e respeito. Em um mundo onde os idosos estão cada vez mais isolados, o cuidado e o carinho ainda são armas poderosas. E o que dizer de Paulina García, essa atriz sempre disposta a se aprimorar e nos emocionar. 











Crítica: QUERIDO TRÓPICO (2025) Dir. Ana Endara 



26) SÍNDROME DA APATIA - Dir. Alexandros Avranas

Comentário: É preciso ter estômago para assistir a um filme grego, suas narrativas são sempre nevrálgicas e corrosivas. "Síndrome da Apatia" é cruel ao tratar da política imigratória do Estado sueco em relação aos russos. Cada cena é uma facada e a secura do tema também se impõe à narrativa azeitada com planos fixos e secos. Não é um filme para todos os públicos, mas quem suporta sai do cinema com muitas reflexões na cabeça.  















  







25) VOCÊ É O UNIVERSO - Dir. Pavlo Ostrimov

Comentário: O universo é amplo e infindo aos nossos olhos, mas "Você é o Universo" é bem mais do que isso. Que filme humano e bem construído. E pasmem, todo filmado na Ucrânia, mas aqui não tem Zelenski nem propaganda política, para a nossa felicidade. Que ator é Volodymyr Kravchuk, pois o filme é praticamente um monólogo, desse homem que vê o nosso planeta explodir, enquanto ele paira sobre o espaço, praticamente sozinho. Não lembro de ter visto um filme tão cativante como esse em anos.     























24) TELEFÉRICO DO AMOR - Dir. Veit Helmer

Comentário: "Teleférico do Amor" é cinema filmado como música, seu ritmo se sustenta do início ao fim, que obra. O diretor Veit Helmer abre mãos dos diálogos e sustenta seu filme pelas ação dos corpos de atores maravilhosos. Tem um toque surrealista encantador, um quê de absurdo que inebria os sentidos. Adoro a sincronicidade dos bondes que sobem e descem numa montanha. Um cinema, infelizmente, raro de passar por aqui.  




















23) A NATUREZA DAS COISAS INVISÍVEIS - Dir. Rafaela Camelo

Comentário: Uma das coisas mais difíceis de realizar em um filme como "A Natureza das Coisas Invisíveis" é tratar de um tema tão cascudo como a morte tendo a vida como principal força motora dos personagens. O filme parte de uma emergência de hospital para um sítio bucólico, que pode ser visto como mágico, ainda mais quando pensamos em duas crianças perambulando por ele. Rafaela Camelo filma uma ode sincera e verdadeira sobre o amor e o cuidado. 





















22) YÕG ÃTAK: MEU PAI, KAIOWÁ - Dir. Sueli Maxakali, Isael Maxakali, Roberto Romero e Luisa Lanna

Comentário: Esse documentário merece toda a atenção do público brasileiro, não só por retratar a busca de uma indígena pelo seu pai Kaiowá, mas por buscar construir uma narrativa cinematográfica a partir da própria cultura indígena. Esse fato cria um estranhamento para o espectador branco, que passa a ver um filme sob princípios que lhe são alheios. Mas essa é a força desse cinema, o da reinvenção da linguagem pelos indígenas. Isso é simplesmente fenomenal.       





















21) GUARDE O CORAÇÃO NA PALMA DA MÃO E CAMINHE - Dir. Sapideh Farsi
 
Comentário: Poucos filmes são um documento em tempo real de um processo de injustiça e violência. "Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe" é. Fatma Hassona é filmada em ligações por celular em meio a bombardeios de Israel. Ele está em casa. As imagens dela revelam o absurdo dessa guerra em Gaza, uma mulher adulta e jovem refém em sua própria casa. Um filme em que o coração dela fica nas nossas mãos.




















20) TRILOGIA DREAMS, LOVE E SEX - Dir. Dag Johan-Haugerud

Comentário: Toda trilogia tem lá os seus altos e baixos. Essa não fica atrás, dos três filmes, Sex é disparado a meu ver o mais interessante e intenso. Óbvio que todos tem suas qualidades, embora vê-los juntos se tem um panorama interessante sobre a sociedade norueguesa contemporânea. Dreams foi o mais premiado dos três, embora Sex seja a mais enfático ao discutir uma sexualidade mais fluida entre os homens. Love, por sua vez, é mais leve e mostra uma descrença geracional em relação ao casamento. Todos os três filmes trabalham homens, mulheres e adolescentes em um novo mundo, em que os paradigmas de comportamento, inclusive sexual, se modificaram enormemente. Esse é um belo documento da nossa época.    





















19) ANIMALE - Dir. Emma Benestan

Comentário: Esse filme passou bem desapercebido no nosso circuito, mas o vejo como um dos filmes mais importantes exibidos por aqui em 2025. "Animale" retrata o estupro de uma jovem toureira que tenta se firmar numa profissão essencialmente masculina e machista. É uma bela metáfora de uma sociedade opressora e a diretora Emma Benestan sabe se valer do body horror para valorizar o seu filme, que adentro pelo universo do fantástico como uma forma de resistência da personagem.   





















18) A SEMENTE DO FRUTO SAGRADO - Dir. Mohammad Rasoulof

Comentário: Como é interessante a perspectiva que o diretor Mohammad Rasoulof encontrou para edificar uma crítica ao regime autoritário e fundamentalista do Irã. Rasoulof desconstrói os absurdos políticos a partir de uma família, mas não uma qualquer, a de um membro do governo. A opressão feminina é um dos pontos cruciais e contraditórios que o filme explora. Uma pedrada no status quo da política iraniana.  





















17) PATERNO - Dir. Marcelo Lordello

Comentário: Gosto como o diretor Marcelo Lordello monta um quebra-cabeça a partir de um único personagem, Sergio, interpretado brilhantemente pelo ator Marco Ricca. Os meandros das famílias que comandam a política vão descortinando como se configura a estrutura de poder em Pernambuco. "Paterno" é sobre como esse poder se alastra pelas elites e permanece enferrujando a sociedade por dentro.             
















 



16) AS CORES E AMORES DE LORE - Dir. Jorge Bodanzky

Comentário: É incrível como o diretor Jorge Bodanzky soube construir um filme que consegue jogar com elementos táteis e abstratos. Cartas e pensamentos simbolizam um universo ambivalente que sintetizam a arte e o amor em cada beirada exposta da narrativa desse documentário. Aos poucos vamos penetrando no passado e no caráter de Lore, uma mulher independente tomada pelo amor à arte. Um filme que exala sensibilidade e beleza, realizado por um dos maiores mestres do nosso cinema.   


















 

15) FLOW - Dir. Gints Zilbalodis

Comentário: Essa animação deu o que falar, mobilizou todo o espectador que se deparou com ela. Sem ter um diálogo sequer, comunicou mais do que a maioria dos filmes que desperdiçam palavras ao vento. Cada personagem que entra em cena enriquece de graça a história. São bichos que vão se unindo para tentar sobreviver a uma catástrofe natural. A humanidade desses animais é de cortar o coração mais empedernido. Eles agem como deveríamos agir e isso é tudo.     





















14) PECADORES - Dir. Ryan Coogler

Comentário: "Pecadores" mostra a força do cinema negro que há muito grita pelos rincões dos Estados Unidos. A magia desse filme é inquestionável, desde a sua bela fotografia até a música contagiante vindo dos bares mais rudimentares. A entrada de vilões em forma de vampiro vem sacramentar a opressão branca por meio de uma representação fantástica da realidade. Um filme importante para a cultura de resistência dos negros dos Estados Unidos.



















13) SORRY, BABY - Dir. Eva Victor

Comentário: A simplicidade na qual a diretora Eva Victor imprime na narrativa de "Sorry, Baby" é tocante. Não é fácil construir um personagem e a diretora a faz com uma sutileza que só os grandes conseguem, com uma câmera discreta, quase sempre fixa. Esse é um filme de personagem, de Agnes, uma mulher que luta contra si mesma e contra uma sociedade que empilha os dissensos. Uma obra que inspira encantamento.






















12) A PRAIA DO FIM DO MUNDO - Dir. Petrus Cariry

Comentário: Dificilmente uma obra cinematográfica consegue penetrar tão fundo em uma estrutura social carcomida como faz Petrus Cariry em "A Praia do Fim do Mundo". E o faz com tanto afeto quanto com a firmeza de que quem quer fazer uma denúncia. A dureza das rochas da praia simboliza as almas que por ali perambulam sem ter um destino seguro. Um filme para ficar marcado em nosso cinema, com a presença de Marcélia Cartaxo, um de nossos maiores talentos.





















11) OESTE OUTRA VEZ - Dir. Érico Rassi

Comentário: Um filme de machos para questioná-los e deixá-los em suspenso. É lindo ver a masculinidade tóxica ser revelada e defenestrada numa mesma obra. "Oeste Outra Vez" é um drama travestido de um faroeste caboclo, uma farsa árida de um local sem lei, com homens vazios simulando coragem e poder. Érico Rassi realiza um filme seco e desdramatizado pela ausência feminina, que precisa ser refletido para o bem de nós homens, em um país tomado pelo feminicídio.      





















10) MEMÓRIAS DE UM VERÃO - Dir. Charlie McDowell

Comentário: Um filme singelo e delicado. Assim eu nomeio essa obra que aparentemente parece sem pretensões artísticas ou de conteúdo, mas ao contrário, é tomada pela beleza da paisagem e é por ela que os personagens se expressam, a partir do contato com ela que um olhar para o mundo se forja. Se isso não é muito, eu não sei o que é. Ainda tem uma Glenn Close sublime, impecável e total. 



















09) MANAS - Dir. Marianna Brennand

Comentário: A partir do enredo de "Manas" seria mais fácil realizar simplesmente um filme denúncia sobre a violência rotineira contra as jovens mulheres no ambiente amazônico. Mas para além do que é necessário ser dito, Marianna Brennard não se contenta apenas com isso e sabe construir uma atmosfera poética. Não à toa, logo na cena inicial, a diretora nos adentra primeiramente com o som do rio e um som de barco. Assim, natureza e uma invenção humana revelam a doçura e a dureza da vida contraditória que veremos a seguir. Um cinema brasileiro poético e cru ao mesmo tempo. Um primor.  





















08) O QUE A NATUREZA TE CONTA - Dir. Hong Sang-soo 

Comentário: A cada nova obra lançada, Sang-soo mostra porque é um dos mais importantes realizadores da atualidade. Esse coreano filma filosoficamente, fabrica pensamento com tamanha simplicidade que tudo parece ser banal e sem importância. A crise geracional está no cerne dessa obra em que Sang-soo questiona os jovens contemporâneos. Adoro como o vento e as árvores criam uma frágil harmonia, que logo a seguir vai se desfazer. Sang-soo e o gosto de escancarar a crise entre os humanos.     























07) THE MASTERMIND - Dir. Kelly Reichardt

Comentário: Kelly Reichardt é uma cineasta imprevisível e genial. "The Mastermind" é mais uma obra incomum de sua atual safra. Ela subverte o filme de assalto, extraindo o planejamento e tudo que costuma envolver essas narrativas. O protagonista não tem carisma algum e é sem graça, que se envereda pelo mundo do crime por opção. Reichardt poderia fazer uma comédia, um filme de ação, mas faz sobre a banalidade e o vazio de um pequeno-burguês.   





















06) MEU BOLO FAVORITO - Dir. Maryam Moghaddam e Behtash Sanaeeha

Comentário: Esse filme levanta tantas questões em seu cerne ao mesmo tempo que propõe uma mise en scène inspiradíssima. Sua rebeldia é tão impactante e radical, mas não deixa de ser doce, carinhosa e afetuosa. "Meu Bolo Favorito" inspira muitos sentimentos mesmo e condena frontalmente o regime de exceção iraniano. É melhor morrer feliz do que continuar se enganando na mentira medíocre de um cotidiano vazio. Não há idade para resistir à opressão, nem para tentar ser feliz.   





















05) CLOUD - NUVEM DE VINGANÇA - Dir. Kiyoshi Kurosawa

Comentário: Há muito, o cinema de Kiyoshi Kurosawa vem se destacando, com suas tramas misteriosas. Em "Cloud" os bastidores da exploração capitalista eclode de maneira significativa. Kiyoshi vai do mundo organizado e normatizado pelo trabalho até a vida se transformar no próprio inferno. O clima de faroeste e terror ocupam a cena quando o ambiente fica contaminado pelo dinheiro. Temos aqui mais uma parábola do dinheiro fácil no cerne do capitalismo. 





















04) AS AVENTURAS DE UMA FRANCESA NA COREIA - Dir. Hong Sang-soo

Comentário: Huppert parece sempre caber como uma luva nas macias mãos de Sang-soo. A interpretação indefinida da atriz favorece muito significado à mise en scéne desse coreano genial. O diretor fala da
frieza dos métodos de ensino de língua para discutir algo mais amplo: a falta de sentimento no mundo. Por isso, a bebida alcóolica é tão importante nos enredos dele, pois possibilitam a quebra do automatismo nas conversas. Aqui Sang-soo sugere uma outra forma de se forjar as relações humanas. Simplesmente fantástico.      






















03) MISERICÓRDIA - Dir. Alain Guiraudie

Comentário: A partir do microcosmo social podemos entender melhor os mecanismos que organizam o mundo. Creio que essa ideia contamina "Misericórdia". Gosto do humor subterrâneo e subjacente que ronda esse filme de Alain Guiraudie. O filme é fundamentalmente sobre o que não está à vista, sobre as camadas que socialmente não revelamos às pessoas, por isso "Misericórdia" é tão fantástico, por ir nos revelando as camadas invisíveis da sociedade. Assassinatos, segredos e revelações vão se enfilerando, para o prazer voyeurístico do público. Por isso, eu chamei "Misericórdia" do "Twin Peaks" de Guiraudie, de como um assassinato pode revelar tanto de uma pequena cidade. Aqui, os cogumelos possuem um caráter simbólico. Que obra-prima!     



















02) GRAND TOUR - Dir. Miguel Gomes

Comentário: "Grand Tour" deveria ter sido bem mais do que foi no circuito das salas de cinema no Brasil. Uma obra-prima a ser descoberta, de certo. Miguel Gomes inverte a lógica eurocêntrica para poder reconstruir e desconstruir o que a política colonialista significou para o mundo dominado. O que o diretor propõe aqui é mostrar que o que acreditamos ser cultura é pura construção elitista. Óbvio que isso não é pouco, pois precisamos urgentemente reconhecer culturas milenares que foram sucumbidas ou postas para debaixo do tapete pela força das armas.    






















01) O AGENTE SECRETO - Dir. Kleber Mendonça Filho

Comentário: O que "O Agente Secreto" nos proporciona é um absolute cinema! KMF nos traga para uma viagem imaginária e violenta calcada na mais brutal realidade do golpismo sul-americano. Essa obra é um puro suco de pirraça pernambucana, que veio para nos desestruturar por dentro e implantar uma narrativa distópica. Sim, aqui é a narrativa que impõe o distópico que é viver nesse país marcado pelas desigualdades e pela dicotomia social que só poderia serem explicadas numa lógica fantástica. São pernas cabeludas a levar mortes, tubarões a engolir tudo o que passa pela frente, inclusive gente. Há um mundo secreto sempre a ser descoberto entre agentes e filmes blockbuster numa montagem anarquicamente disruptiva. Aqui a devoração foi total e genial. 
     

















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