Texto por Marco Fialho
A diretora alemã Nele Wohlatz vem realizando filmes sobre a experiência de ser imigrante. Seu longa anterior, O Futuro Perfeito já versava acerca do processo de adaptação de imigrantes chineses na Argentina, país em que a diretora já morou. Agora, Nele Wohlatz desembarcou em Recife para filmar Dormir de Olhos Abertos e dar continuidade às suas reflexões sobre a vida cotidiana dos imigrantes chineses. O filme conta com Kleber Mendonça Filho e Emilie Lesclaux como um dos produtores associados, isto é, Nele não desembarcou em Recife desamparada, mas na melhor companhia possível.
O mais interessante de Dormir de Olhos Abertos é a simplicidade na qual Nele Wohlatz enseja sua mise-en-scène, sem arroubos interpretativos ou movimentos frenéticos de câmera, mas com a devida paciência para deixar o tempo se expandir numa Recife ensolarada. Se por um lado, existe uma praia tomada por tubarões, por outro, grandes prédios instauram um vazio existencial, com seus concretos frios, sem calor humano, onde as línguas não conseguem dialogar sequer o básico.
Assim, Kai (Liao Kai Ro) uma turista chinesa e Fu Ang (Wang Shin-Hong), um chinês dono de um falido quiosque de vendas de guarda-chuvas no Centro de Recife travam uma inusitada amizade. Ela tentando se encontrar em meio a uma viagem onde tudo começou mal com o seu namorado a largando sozinha em um aeroporto na China e ele tentando viabilizar um negócio para lá de furado, numa cidade onde o forte não são as chuvas. O filme tem esse viés, de trabalhar com encontros e desencontros inesperados de pessoas tentando se comunicar em uma terra estrangeira, com uma cultura completamente diferente da sua, onde cheiros e sabores destoam sobremaneira.
Mas Dormir de Olhos Abertos expande sua trama ao introduzir uma outra personagem, Xiao Xing (Xiao Xing Cheng), outra chinesa, em um passado bem próximo, que conviveu com Fu Ang quando este estava chegando em Recife. O entrecruzamento dos tempos acontece por meio dos inúmeros cartões postais em que Xiao Xing registra sua relação afetiva com Fu Ang e que vão parar casualmente nas mãos de Kai. Em várias narrações em off nos chegam as impressões poéticas e sensíveis de Xiao, que expressa nesses escritos como vê e sente o cotidiano dela e o de Fu Ang, numa Recife hostil e em franco crescimento econômico. Os registros imagéticos dessa frieza e distanciamento estão habilmente documentados e não passam desapercebidos pela câmera de Nele Wohlatz.
Entretanto, não há dogmatismo na construção do roteiro de Dormir de Olhos Abertos, do tipo brasileiros cruéis e exploradores contra chineses explorados. Há inclusive a personagem da tia de Xiao, uma bem-sucedida empresária do comércio e que explora a mão-de-obra dos parentes e outros conterrâneos, sem mostrar muita preocupação com eles. Sim, o capitalismo se mostra em sua dubiedade, de um lado promessas de enriquecimento, de outro, dureza e humilhação em ter de aceitar qualquer serviço para não morrer de fome. Esse contraste está no filme e às vezes se concentra em Fu Ang, que perpassa por essas duas perspectivas.
Tem uma sequência quase sem diálogos ou falas, mas que diz muito sobre o que é se sentir estrangeiro. A personagem Kai, a turista chinesa, vai a um museu histórico onde se depara com imagens pomposas da corte brasileira do século XIX e automaticamente se abre um fosso imenso, pois aquelas imagens entram em choque com a Recife do século XXI. Há ali uma brutal diferença, dois tempos que na cabeça dela não dialogam, não colaboram para o entendimento do presente, mesmo que saibamos que diz, e muito, sobre os nossos dias atuais.
Entretanto, é o olhar de Xiao que traduz, com seus textos muitas vezes duros e cruéis, a difícil tarefa de ser estrangeiro em um país ao mesmo tempo festeiro e hostil. A obsolescência programada capitalista está presente em seus escritos, que se mostram atentos aos fenômenos sociais e seus impactos no cotidiano. Nele Wohlatz trabalha tudo isso com sutileza, às vezes em detalhes, de aparelhos domésticos em mal funcionamento, caso do ar-condicionado do hotel de Kai. A diretora também registra a solidão da imigração, a sensação contínua de desamparo que se sente. Por isso, um aquário com peixes no apartamento em que a tia de Xiao "empresta" para seus trabalhadores chineses dormirem é tão simbólico. O patrão dá a comida e a hospedagem, os trabalhadores sua mão-de-obra barata, são os escravizados da contemporaneidade.
No capitalismo atual, os donos parecem entes invisíveis, inclusive, mal sabemos para quem trabalhamos. Em Dormir de Olhos Abertos essa representação se faz presente pelas imagens. Mal conseguimos ver os rostos dos patrões chineses, os tios de Xiao, eles são inacessíveis. Esse não deixa de ser um recado explícito de quem a diretora quer mostrar: o foco nos trabalhadores, suas vidas, dificuldades, culturas e costumes. E mais, mostrar as diferenças. E tem várias cenas sobre isso. Lembro aqui de uma cena que achei extraordinária sobre o Carnaval, em que Xiao diz: "E o Carnaval, o que dizer dele, sobre ele? Tudo parece Carnaval, nunca sei quando ele começa ou termina". Essa é visão precisa e oblíqua, construída de fora para dentro, de quem vem ao nosso país e não compreende tudo que vive. E tem outra, quando um trabalhador diz que nós falamos lento. Nele Wohlatz mostra que a crítica mordaz não é privilégio só de quem domina.
Se pensarmos bem, podemos chegar a um ponto interessante, de que os escritos de Xiao são o elemento mais expressivo de Dormir de Olhos Abertos. E eles o são justamente por fazerem o mesmo que o próprio filme de Nele Wohlatz faz, isto é, serem um inventário de alguns sentimentos de quem se depara com a sensação de ser imigrante. Por mais precário que isso pareça ser, é um ato fundamental, um memorial sensorial acerca dessa experiência profunda e difícil de ser expressa, seja por escrito ou em forma de cinema.
Comentários
Postar um comentário
Deixe seu comentário. Quero saber o que você achou do meu texto. Obrigado!