Pular para o conteúdo principal

LAN, O CARICATURISTA (2025) Dir. Pedro Vinícius


Texto por Marco Fialho

Lan, O Caricaturista é um documentário intimista, um retrato sensível de um dos grandes desenhistas em atividade no Brasil até pouco tempo atrás. A proposta do diretor Pedro Vinícius valoriza tanto o artista quanto a personalidade desse italiano vindo da Toscana que adotou o Rio de Janeiro como sua residência. O diretor centraliza sua narrativa na casa fora da cidade do Rio de Janeiro que Lan passou seu final de vida com tranquilidade ao lado da amada Olivia, sua esposa por mais de 50 anos. Por mais que o filme traga algumas imagens de arquivo, a narrativa prioriza imagens de Lan em sua vida cotidiana em sua bucólica fazenda.

Tudo flui de maneira bem lenta ao ritmo de Lan, muitas vezes curtindo sua poltrona em companhia de uma taça de vinho e relembrando fatos da vida pessoal e profissional, ou o vemos em sua mesa de trabalho esboçando um desenho e discursando sem pressa sobre a vida. O tema da memória aqui é central, nessa história contada de maneira a respeitar o ritmo do artista. Vários causos pitorescos são lembrados, em especial os relacionados à carreira que desenvolveu tanto no Uruguai quanto no Brasil. Lan narra episódios da época em que trabalhou no jornal de Eva Perón nos idos dos anos 1940 e início dos 1950, oportunidade em que foi intimado pela chefe a desenhar mais mulheres, o que viria a transformar a carreira do jovem artista.

O documentário explora bastante suas paixões, como as mulheres, o futebol, o desenho, a caricatura e a música (em especial o samba). O encanto pela cultura popular carioca está mais do que presente e encontra-se surpreendentemente enraizado no trabalho. A direção de Pedro Vinícius é de rara sensibilidade e extremamente minuciosa na produção das imagens, quase sempre desfocadas nas bordas para emular a visão precária de Lan à época das filmagens.     

A simplicidade da proposta combina com a vida pretendida por Lan, sem grandes sustos ou arroubos. A profusão de closes no rosto do caricaturista preenche a tela grande, com sua invasão deliberada prestes a revelar os pensamentos e o espírito quieto e firme do artista. Chama atenção a sua visão crítica acerca do mundo, revelada no seu trabalho como chargista político e caricaturista, em especial no longo tempo que foi funcionário do Jornal do Brasil. Inclusive, Lan gostava de dizer que o papel da caricatura não era destacar o aspecto ridículo do retratado, mas sim a essência de uma pessoa, vislumbradas por seus traços mais marcantes, uma arte da observação.

Entretanto, mesmo que o documentário mergulhe na delicadeza para falar de seu protagonista, não se deve esperar de Lan, O Caricaturista grandes ousadias formais, o diretor Pedro Vinícius não pretende aqui, para a nossa felicidade, lançar desafios de linguagem ou narrativas rocambolescas. O filme parte da vida de um casal que ama dividir a vida até o fim da vida, um exercício fundamentalmente de memória e de amor. A trilha sonora de Pablo Uranga sabe não só se colocar a serviço da ideia de leveza como a reafirma sistematicamente. A música diegética é incorporada à narrativa com uma naturalidade espantosa, às vezes proporcionada pelo próprio protagonista, que ama ouvir seus lps. 

Lan, O Caricaturista se prende muito aos detalhes, na vida de um homem que valoriza as pequenas coisas, como o farfalhar do fogo e o prazer de sentir o corpo se aquecer com ele, acompanhado de um bela taça de vinho, claro. O filme me passou esse calor, essa vontade de abraçar o personagem, em sua aparente indiferença a ele. A câmera oscila ora invasão, pelos closes no rosto e ora distanciamento, como se quisesse respeitar o tempo do artista. Curioso como a direção não tensiona as cenas, não faz provocações e parece flutuar pela maravilhosa casa de Lan.  

A sutileza de algumas cenas me encantou, assim como a tranquilidade com que o protagonista desliza pelo cenário. Assim, vemos Lan se divertir com suas memórias, passear pela linda parte externa da casa e dissertar sobre seu deslumbramento com o Rio de Janeiro, que descreve como cidade-mulher, com suas curvas e temperada com uma cultura popular envolvente. 

Contudo, Lan sabe saborear igualmente o presente e isso fica latente quando ele diz que a cidade grande nos faz compulsoriamente desviar o olhar para o chão, devido aos desníveis das ruas e seus obstáculos constantes e que a experiência de viver na fazenda deslocou seu olhar para observar a beleza do céu. Pedro Vinicius assume o risco de caminhar na mão inversa da espetacularização tanto do filme quanto do personagem e assim vai além da homenagem, ao alinhar a obra à vida de Lan e deixando o passado brotar pela memória do entrevistado com um gosto doce de quem sabe que revestiu de sentido sua vida. A tal sensação de dever cumprido, que Lan em uma fala quase no final profere. E assim o filme se vai como o seu protagonista, se apagando com delicadeza.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

CLOSE-UP (1990) Dir. Abbas Kiarostami

Texto por Marco Fialho "A arte é um sentimento que se experimenta, que o artista desenvolve nele para compartilhar com os outros". Frase que o personagem Sabzian atribui a Leon Tolstói Estudar o cinema de Abbas Kiarostami é mergulhar no imaginário do cinema. Um dos ícones do cinema iraniano dos anos 1980 e 1990, o diretor realizou obras cruciais para o pensamento cinematográfico contemporâneo. Obras como Gosto de Cereja (1997), Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987), Através das Oliveiras (1994), A Vida e Nada Mais (1992), e outras já produzidas nos século XX1, como Dez (2002), Cópia Fiel (2010) e Um Alguém Apaixonado (2012), todas fundamentais e merecedoras de serem estudadas, não só individualmente, mas também em conjunto para melhor se compreender o pensamento original desse cineasta iraniano, que junto com tantos outros seus contemporâneos, como Mohsen Makhmalbaf, Jafar Panahi e Majid Majidi, formaram a base do que hoje chamamos de cinema iraniano. Mas nesse texto vou come...

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

RETROSPECTIVA VIVIAN OSTROVSKY

Texto por Carmela Fialho Retrospectiva Vivian Ostrovsky "Para mim, cinema experimental significa ter liberdade total - liberdade de duração, de tema, de forma.(...) fazer o que você quer sem se submeter às regras comerciais. São outros valores, não é tanto sobre ser longe da indústria, mas sobre liberdade de criação. De resto, é frustrante ver que hoje o cinema está cada vez mais padronizado, com poucas surpresas".  Vivian Ostrovsky em entrevista inédita a Fernanda Pessoa, extraído do Catálogo do 31º Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade 2026. Na retrospectiva Vivian Ostrovsky, assistimos ao programa 2, denominado corpos em trânsito, com os filmes Movie ( V.O.)  (1982); Idas e Vindas   (1984); Copacabana Beach  (1983); Domínio Público  (1996); e U.S.S.A (1985). O que unifica os cinco curtas são as filmagens de corpos humanos em diferentes atividades do cotidiano em várias regiões do planeta, como Estados Unidos, França, Brasil e a antiga União ...