Pular para o conteúdo principal

A VERDADEIRA DOR (2024) Dir. Jesse Eisenberg

Texto por Marco Fialho

O ator e diretor Jesse Eisenberg sabe como surpreender em A Verdadeira Dor. Se as primeiras cenas sugerem uma comédia no estilo de Se Beber Não Case..., felizmente, o que vem depois, segue outros rumos. Temos sim um típico road movie, onde a experiência da viagem é inesperada e reveladora. Não que haja grandes descobertas, as reviravoltas são mais interiores e esse é um mérito do filme de Eisenberg, virar a chave da extroversão para introversão na hora certa.

O roteiro do próprio Eisenberg é um achado, pois a maior qualidade desse filme está na maneira como os personagens vão se transformando na estrada e a direção não perde tempo com preâmbulos ao começar a história na embarque dos personagens. Benji  (um Keiran Culkin irritante de bom) e David (um Jesse Eisenberg bem contido) são oriundos de uma família judaica e não se veem há muito tempo, mas mesmo assim decidem fazer uma viagem improvável à Polônia com um grupo que concentra outros judeus e convertidos. O objetivo da dupla de primos é visitar às suas origens culturais e visitar a casa da falecida avó numa cidade da Polônia. É bonito ver como Eisenberg se contenta em ser escada em seu próprio filme, para que o ator Keiran Culkin possa brilhar.

A Verdadeira Dor é uma história fundamentalmente de personagens, e por isso mesmo, um filme de atores. Eisenberg explora muito bem as dicotomias existentes tanto entre os primos, um expansivo, solteiro, emotivo e sincero, e outro introvertido, casado, racional e calado. A partir dessas característica Eisenberg cria um jogo entre eles, se apoiando ainda na presença dos outros personagens que estão realizando a visita à Polônia com eles, fora o guia contratado.

Com grande interesse observei o trabalho de câmera da direção. Reparei o uso de muitos planos fixos, embora o filme possa ser compreendido como um road movie. Curioso esse contraste entre movimentos dos personagens em contraste quase sempre com o imobilismo da câmera. Mas esse detalhe fica um pouco obliterado pelos muitos cortes dentro da cena que Eisenberg realiza. Nas cenas onde se movimenta a câmera, a direção a faz com muita leveza, de maneira a não repararmos esse deslocamento devido à sua suavidade.

A parte musical do filme não deixa de ser importante de ser pensada. Quase toda as músicas executadas são valsas, estudos, prelúdios e noturnos, sempre para piano, de Frédéric Chopin, famoso e importante compositor de origem polonesa, que se notabilizou pelo estilo romântico no Século XIX. Essas sonoridades perpassam todo o filme, desde a primeira cena até o final. Elas espelham a introspecção a qual o filme almeja dos seus dois personagens principais.

O mais interessante de A Verdadeira Dor é banhar a sua história com as mais variadas possibilidades de análises sobre ela. Eisenberg sempre deixa uma porta entreaberta a ser explorada, ou até mesmo indagada, e isso só faz ampliar as leituras possíveis para o filme. Um dado sobre o passado de Benji revelado quase no fim faz a gente repensar cenas inteiras que vieram antes, em especial conversas e atitudes as mais antipáticas e reativas do personagem. Fora a força que Eisenberg imprime na relação entre os primos, os conflitos, o cuidado e os gatilhos do passado que toda a relação íntima possui. 

Se tem algo que nos aproxima do filme é a maneira singela na qual Eisenberg trabalha o personagem de Benji. Em verdade, existem vários Benji no transcorrer do filme. Primeiro um espertalhão, depois um implicante e logo adiante um ranzinza. Mas a visita ao campo de concentração funciona como um divisor de águas radical do comportamento dele. Ao sentir no local a tal verdadeira dor a dele própria é suspensa em nome da empatia. A Verdadeira Dor mescla melancolia e comédia de forma desconcertante. E como Jesse Eisenberg é hábil em transitar por essas searas, conduzindo o público pela mão para a seguir deixá-lo desamparado, tal como Benji.      

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

CLOSE-UP (1990) Dir. Abbas Kiarostami

Texto por Marco Fialho "A arte é um sentimento que se experimenta, que o artista desenvolve nele para compartilhar com os outros". Frase que o personagem Sabzian atribui a Leon Tolstói Estudar o cinema de Abbas Kiarostami é mergulhar no imaginário do cinema. Um dos ícones do cinema iraniano dos anos 1980 e 1990, o diretor realizou obras cruciais para o pensamento cinematográfico contemporâneo. Obras como Gosto de Cereja (1997), Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987), Através das Oliveiras (1994), A Vida e Nada Mais (1992), e outras já produzidas nos século XX1, como Dez (2002), Cópia Fiel (2010) e Um Alguém Apaixonado (2012), todas fundamentais e merecedoras de serem estudadas, não só individualmente, mas também em conjunto para melhor se compreender o pensamento original desse cineasta iraniano, que junto com tantos outros seus contemporâneos, como Mohsen Makhmalbaf, Jafar Panahi e Majid Majidi, formaram a base do que hoje chamamos de cinema iraniano. Mas nesse texto vou come...

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

RETROSPECTIVA VIVIAN OSTROVSKY

Texto por Carmela Fialho Retrospectiva Vivian Ostrovsky "Para mim, cinema experimental significa ter liberdade total - liberdade de duração, de tema, de forma.(...) fazer o que você quer sem se submeter às regras comerciais. São outros valores, não é tanto sobre ser longe da indústria, mas sobre liberdade de criação. De resto, é frustrante ver que hoje o cinema está cada vez mais padronizado, com poucas surpresas".  Vivian Ostrovsky em entrevista inédita a Fernanda Pessoa, extraído do Catálogo do 31º Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade 2026. Na retrospectiva Vivian Ostrovsky, assistimos ao programa 2, denominado corpos em trânsito, com os filmes Movie ( V.O.)  (1982); Idas e Vindas   (1984); Copacabana Beach  (1983); Domínio Público  (1996); e U.S.S.A (1985). O que unifica os cinco curtas são as filmagens de corpos humanos em diferentes atividades do cotidiano em várias regiões do planeta, como Estados Unidos, França, Brasil e a antiga União ...