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NOUVELLE VAGUE (2025) Dir. Richard Linklater


Texto por Marco Fialho

O título Nouvelle Vague pode sugerir algo que o filme não aborda, no caso, uma discussão sobre um dos mais viscerais movimentos vanguardistas do cinema do Século XX. Na verdade, o filme do cultuado diretor Richard Linklater (da icônica trilogia "Antes do amanhecer") trata especificamente dos bastidores do clássico Acossado (1960), do mais profícuo diretor advindo deste movimento, o genial Jean-Luc Godard. 

Esse esclarecimento creio ser fundamental para não alimentar uma expectativa mais genérica do filme, por mais que os principais personagens do movimento apareçam aqui e ali em alguns momentos, todos devidamente nomeados, para não pairar dúvidas, tal como um documentário tradicionalmente faz botando aquela legenda no instante que o personagem entra em cena. Fiquei até a perguntar se esse artifício não seria didático demais, mas creio que ele até se afina com o didatismo que a direção abraça desde o início. 

Confesso que esse didatismo imposto na narrativa de Richard Linklater incomoda. Por isso mesmo, Nouvelle Vague se parece com uma aula de como um diretor revolucionário como Godard filmava, subvertendo todas as regras estabelecidas até 1960 pelo cinema clássico e até o não tão clássico assim, como o neorrealismo e a vanguarda russa de Eisenstein. Talvez seria oportuno retirar Vertov dessas regras, embora a própria ideia de instituir uma construção cinematográfica pelo ritmo não servisse igualmente ao propósito de montagem que Godard procurava à época. O filme de Godard buscou sim diversas referências da narrativa clássica, com certeza, mas também não deixou de tensionar com essas abordagens ao propor um jogo cinematográfico com ideias impostas pelo mercado como o da fomentação do stars system, o final feliz e da montagem linear, apenas para citar alguns.

O mal estar da atriz Jean Seberg ao trabalhar com Godard é um dos pilares do filme de Linklater, acostumada a trabalhar dentro de uma lógica de estúdio completamente diversa, com planificações rigorosas, ensaios, estudos de personagem e outras organizações que Godard não só questionou como fez questão de por abaixo. Mas essa contradição entre o desejo da atriz/estrela e o diretor excêntrico movimenta Nouvelle Vague, embora acentue o tal didatismo que mencionei anteriormente. 

A impressão que fiquei durante a fruição de Nouvelle Vague foi uma necessidade de Linklater de mais parecer do que realmente ser, de mostrar aquele processo como algo vivo e novo. O filme dentro do filme fica engessado, especialmente por Linklater tenta emular situações que retumbam bastante artificiais e sem a devida verdade. Tudo soa posado, falso, evidente que sim, ainda mais que sabemos que estamos vendo imagens de fatos que supostamente aconteceram. A irregularidade das atuações, igualmente colaboram para isso, sobretudo a de Aubry Dullin, como Jean-Paul Belmondo, que reverbera pouco convincente na maior parte do tempo.

Se Godard revirou o mundo do cinema em 1960 com sua saudável rebeldia e iconoclastia, o filme de Linklater se mostra careta, convencional e nada dialógico com Acossado, por mais que o diretor emule na cara grande diversos planos utilizados por Godard em carros e nas ruas de Paris, o faz de maneira mecânica e didática. A cada cena, a preocupação de Linklater é uma tentativa de desnudar os métodos idiossincráticos de Godard, mas que para o espectador vão apenas parecer insólitos e frutos de uma arrogância juvenil de um crítico de cinema que queria fazer filmes enquanto escrevia suas críticas.

Do restante dos cineastas da Nouvelle Vague, Richard Linklater dá um maior destaque a François Truffaut, inclusive Nouvelle Vague inicia com o sucesso de Os Incompreendidos no Festival de Cannes, onde Jean-Luc Godard estava presente. Mas sinceramente, o Truffaut que vemos ali parece possuir pouco brilho e um pouco besta, como se fosse uma estrela de maior expressão em relação a Godard. Basta ler um texto de Godard na Cahiers du Cinéma para saber o quanto Godard sempre foi um pensador rebuscado e com um texto brilhante e lúcido. Fiquei com a ideia, de que Godard era visto como um maluco pelos colegas de revista, um dado para o diferenciá-lo dos restantes. 

É logico que sempre vale à pena assistir a esses filmes sobre os bastidores, porque as pesquisas revelam curiosidades que podem agradar aos fãs e apreciadores em geral. Mas esse tipo de filme, me causa um incômodo, como se a vida pudesse ser vivada novamente, como se o passado pudesse se repetir. Mas aí, me vem logo o pensamento de Karl Marx sobre a repetição na história: "A história se repete, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa". Os cineastas como um todo, poderiam ter essa frase estampada em todos os sets de filmagem. Como ela faria bem ao cinema.  

Comentários

  1. Eu ainda prefiro o filme de mesmo titulo de Godard onde ele demonstra o neoliberalismo matando as ideias coletivistas. Trotta

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