Texto por Marco Fialho
Teleférico do Amor, um filme cômico dirigido pelo diretor alemão Veit Helmer, é daqueles filmes para serem sentidos como música, definido por uma marcação rítmica que dita toda a sua narrativa. A ausência de diálogos e uma interpretação com forte presença corporal são outras marcas fundamentais que conformam a comicidade das cenas, em que personagens se colocam em situações inusitadas.
O filme narra a história de duas jovens mulheres, Iva e Nino, que trabalham no teleférico que liga uma pequena cidade do interior da Alemanha com uma aldeia nas montanhas. É justamente na brincadeira em cima da sincronia de dois bondes, um que desce e outro que sobe, que o diretor Veit Helmer constrói uma história de amor leve e surpreendente. O gerente do teleférico se torna o principal oponente das duas e um tabuleiro de xadrez torna-se um ótimo simbolismo para as relações, o distanciamento e o tempo: primeiro, de Nino com o gerente; depois entre Iva e Nino.
Teleférico do Amor pode ser visto como uma comédia light LGBT ou até como uma comédia romântica LGBT. Não há cenas explícitas, apenas situações sugestionadas. O carinho entre Iva e Nino é praticamente automático e várias cenas fofas são realizadas a partir dessa relação, como o sanduíche caprichado de Iva para Nino ou a série antológica de declarações sincrônicas entre as duas planejadas para o instante exato da sincronização no ar dos dois bondes, todas muito criativas e divertidas.
Esse é um filme que consegue ser leve e subversivo ao mesmo tempo. Teleférico do Amor ainda lembra o humor gélido e desconcertante de Aki Kaurismäki, um dos maiores cineastas da atualidade. As esquetes foram muito bem pensadas pela direção, tanto que quando chega lá no meio da trama, já ficamos esperando a próxima brincadeira dos personagens. Se estabelece um jogo, que tem uma função tanto narrativa quanto cênica, além de incorporar uma crítica às posturas autoritárias do gerente.
É muito bom ver uma comédia alemã com esse espírito rebelde e contestador. Me fez lembrar outras comédias alemãs como Homens (1985), de Doris Dörrie, e a sueca O Ilusionista (1984), de Jos Stelling, que com um humor irônico e levemente ácido criam situações inteligentes e cinematograficamente bem filmadas. Interessante como o diretor Veit Helmer traça encontros onde os corpos estão distantes, mexendo com o poder de sedução e com a criatividade de duas mulheres descobrindo e cultivando o amor entre elas.
A cena da orquestra com instrumentos improvisados com peças utilizadas no cotidiano dos moradores reafirma a ideia de sincronicidade da direção do filme, que sublinha a beleza da concepção visual de Teleférico do Amor. A música como um todo ajuda a imprimir o ritmo do filme, tal como se faz nos espetáculos de circo. O espírito de solidariedade e comunidade surgem com força política. O amor de Nino e Iva aproxima e atiça o amor entre as personagens infantis. É linda a cena em que a menina pinta os lábios com caneta pilot vermelha se espelhando no batom de Iva, um imiscuir do sentido da brincadeira com o amor.
Teleférico do Amor resgata uma ideia de um cinema que esbarra numa estética circense, quase ingênua, ou que se faz de ingênua para ao mesmo tempo seduzir e debochar do poder instituído. As cores e os figurinos evocam também uma ideia circense, como um clown prestes a rir do que merece ser ridicularizado. Mas o filme, incorpora ainda uma sobriedade nessa brincadeira, ao extrair os diálogos explicativos que só tornariam algum fato da história redundante. Essa é uma obra que traz algo de redenção, que quer mudar o mundo pelo amor e pela força sensorial do cinema.

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