Pular para o conteúdo principal

O CASTIGO (2022) Dir. Matías Bize


Texto por Marco Fialho

O Castigo, dirigido por Matías Bize, é um drama de grande impacto dramatúrgico e cinematográfico. O diretor transforma seu fiapo de história em um grande teatro a céu aberto. A história do casal Ana (Antonia Zegers) e Mateo (Nestór Cantillana), cujo filho de sete anos desaparece em um região de floresta na Argentina, logo depois que os pais o abandonam para lhe dar um castigo, lança uma intriga familiar densa desde o começo e só vai se intensificando a cada novo momento. 

A decisão de Matías Bize de filmar tudo em um único plano-sequência é o grande achado do filme. Apesar do cenário ser amplo, o de uma estrada cujo entorno é todo de uma floresta, há uma sensação de sufocamento incessante, pois a câmera está sempre a registrar a angústia do casal. A estrada e a beira da floresta (a câmera jamais adentra tão fundo nela) formam o palco dos 87 minutos que para os espectadores voam. Essa falta de interrupção da câmera (não há um corte feito em um fundo preto ou branco) aumenta a tensão e faz os atores viverem com muita verdade as cenas que a câmera vai cuidadosamente desenhando. 

O que mais me fascinou em O Castigo foi o tom certo empregado nas cenas, desde os momentos mais tensos até os que se busca algum equilíbrio emocional frente ao drama extremo. É preciso destacar o quanto todas as situações foram ensaiadas com grande precisão, não há deslizes nem nas interpretações nem no movimento da câmera, que consegue boa estabilização mesmo estando na mão durante todo o tempo, sempre manuseada por Gabriel Díaz, que também assina a fotografia do filme.

Há de se destacar portanto a combinação e a sincronização do roteiro de Coral Cruz com a direção de Matías Bize. O que sabemos desde o início contrasta frontalmente com o que saberemos na parte final do filme. Se na primeira parte temos a preocupação pelo desaparecimento do menino; na segunda o que emerge na história é a sua capacidade de adentrar na rotina dessa família de uma maneira desconcertante. Há um momento de explosão onde a trama toma um novo ritmo a partir das revelações da personagem Ana. O que ouvimos é algo profundo, sincero e que coloca o mundo dessa mulher em outra perspectiva. Primeiro, Coral Cruz e Matías Bize nos levam para um julgamento dessa mãe, depois obrigam que nós passemos a observar a vida dessa mulher sob outros ângulos. A vida dela torna-se o central e se sobrepõe ao próprio drama da perda do filho. Inclusive, O Castigo, em certo momento nos pergunta: o que significa realmente a perda? O filme vem e nos joga na cara as tantas perdas que sofremos em nossa trajetória e algumas provocadas por nós mesmos.     

Confesso que há muito um filme não puxa meu tapete da forma que O Castigo fez. E com que final somos agraciados por Coral e Matías. Eu diria que o final é digno de um filme do neorrealismo italiano, já que nos obriga a pensar o drama a partir do fato que nos é posto à frente. Quando os créditos sobem, ficamos a imaginar sobre como aquelas vidas irão continuar suas trajetórias. A pergunta sobre o que virá se impõe, só que o filme nos impinge a ficar com ela. Nos deixa com uma baita batata quente nas mãos e mexe poderosamente com nossas cabeças. O Castigo tem o potencial de se projetar da tela e ganhar o mundo. Fiquei a pensar o quanto as indagações de Ana baterão forte em muitas mulheres. Esse é um filme que tem a capacidade de interrogar e impactar o mundo no seu ponto mais nevrálgico, o das decisões que tomamos na vida e que muitas vezes elas são irreversíveis. Se isso não é puro cinema contemporâneo, eu não sei mais o que é.

                   

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

CLOSE-UP (1990) Dir. Abbas Kiarostami

Texto por Marco Fialho "A arte é um sentimento que se experimenta, que o artista desenvolve nele para compartilhar com os outros". Frase que o personagem Sabzian atribui a Leon Tolstói Estudar o cinema de Abbas Kiarostami é mergulhar no imaginário do cinema. Um dos ícones do cinema iraniano dos anos 1980 e 1990, o diretor realizou obras cruciais para o pensamento cinematográfico contemporâneo. Obras como Gosto de Cereja (1997), Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987), Através das Oliveiras (1994), A Vida e Nada Mais (1992), e outras já produzidas nos século XX1, como Dez (2002), Cópia Fiel (2010) e Um Alguém Apaixonado (2012), todas fundamentais e merecedoras de serem estudadas, não só individualmente, mas também em conjunto para melhor se compreender o pensamento original desse cineasta iraniano, que junto com tantos outros seus contemporâneos, como Mohsen Makhmalbaf, Jafar Panahi e Majid Majidi, formaram a base do que hoje chamamos de cinema iraniano. Mas nesse texto vou come...

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

RETROSPECTIVA VIVIAN OSTROVSKY

Texto por Carmela Fialho Retrospectiva Vivian Ostrovsky "Para mim, cinema experimental significa ter liberdade total - liberdade de duração, de tema, de forma.(...) fazer o que você quer sem se submeter às regras comerciais. São outros valores, não é tanto sobre ser longe da indústria, mas sobre liberdade de criação. De resto, é frustrante ver que hoje o cinema está cada vez mais padronizado, com poucas surpresas".  Vivian Ostrovsky em entrevista inédita a Fernanda Pessoa, extraído do Catálogo do 31º Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade 2026. Na retrospectiva Vivian Ostrovsky, assistimos ao programa 2, denominado corpos em trânsito, com os filmes Movie ( V.O.)  (1982); Idas e Vindas   (1984); Copacabana Beach  (1983); Domínio Público  (1996); e U.S.S.A (1985). O que unifica os cinco curtas são as filmagens de corpos humanos em diferentes atividades do cotidiano em várias regiões do planeta, como Estados Unidos, França, Brasil e a antiga União ...