Texto por Marco Fialho e Carmela Fialho
Muitos filmes podem ser essenciais, mas só alguns são imprescindíveis. Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe (título livremente adaptado do original em inglês: Put Your Soul On Your Hand And Walk), dirigido pela cineasta iraniana exilada Sepideh Farsi, fala frontalmente do massacre realizado pelo Estado de Israel nos civis palestinos em Gaza, e antes de tudo é um documento em tempo real dessa tragédia que só se agrava com os dias.
O filme é sustentado por videochamadas realizadas pela diretora para o celular de Fatma Hassona, uma mulher de 24 anos que tenta levar uma vida simples nesse território constantemente bombardeado e dominado pelas tropas israelenses. As ligações começam a ser gravadas em abril de 2024 e vão até abril de 2025. Nesse período de tempo vê-se a situação de Fatma caminhar para o pior, com as explosões sendo cada vez mais próximas dela. Fatma está sitiada em casa, tem medo de sair e ser morta por atiradores israelenses colocados nos telhados dos prédios.
Poucas imagens não vem das videochamadas, como algumas notícias extraídas de jornais televisivos, como Al Jazira e CNN, em que ouvimos falas agressivas de Benjamin Natanyahu e um vídeo enviado por Fatma com uma bonita música de sua autoria. Cabe destaque especial para as fotografias realizadas por Fatma das ruas de Gaza destruídas pelos constantes bombardeios israelenses e as imagens cotidianas da população tentando sobreviver em condições precárias, com um olhar atento às crianças. Perto do final do filme vemos imagens vindas de dentro um carro ou de uma moto (não fica muito claro isso) que trafega pelas ruas totalmente destruídas de Gaza. Algumas denúncias são feitas, como a existência apenas de um hospital em atividade, em meio a uma guerra que mata e fere centenas de pessoas por dia.
Como personagem, Fatma se revela surpreendente e carismática, sempre rindo, mesmo diante da tragédia diária em que vive, com 13 parentes já mortos na guerra. Fatma mostra a foto de cada uma delas (todas sorrindo), um momento triste a ser registrado, com crianças e jovens incluídos nessa lista macabra. Fatma diz que o seu sorriso é o riso da resistência, de quem tem orgulho de ser palestino e lutar pela terra em que nasceu e se criou.
Durante algumas videochamadas realizadas entre as duas, ocorrem explosões muito próximas e Fatma vira o celular em direção à janela para mostrar em tempo real a explosão acontecendo. Em várias ligações, o sinal de internet fica muito ruim ou ocorre desconexão das chamadas. Uma amizade vai sendo estabelecida a partir das ligações, e a presença de Sepideh Farsi se torna importante para se renovar a esperança de Fatma. Numa das chamadas, ela cita uma fala que viu no filme Um Sonho de Liberdade, produção dos Estados Unidos dirigida por Frank Darabont: "a esperança é uma coisa muito perigosa". Essa frase nos bate forte, pois esperançar em Gaza representa assumir o risco de morrer a qualquer momento, por duvidar que a morte possa chegar em nós.
Um alento para Fatma é saber que Sepideh Farsi está sempre um país diferente e isso mexe com a imaginação de Fatma que passa a imaginar uma possibilidade de viver em um país sem a violência explícita que ela precisa enfrentar no seu cotidiano. As cenas em close são bastante impactantes. Ver o rosto jovem e bonito de Fatma tentando resistir e sonhar com uma outra realidade impressiona qualquer espectador. Tem ligações onde Fatma não tem luz e seus depoimentos reafirmam a constante falta de comida em Gaza. Segundo ela, a base da comida chegam em latas e alguns itens como frango são cada vez mais improváveis. Chocolate então, um sonho quase irrealizável.
O formato das videochamadas aumentam a sensação de prisão de Fatma, que diz com constância que está presa e sonha ir para um lugar de natureza abundante para admirar o ar puro e a tranquilidade. Quando a diretora pergunta sobre um desejo, Fatma retruca de imediato com seu inglês quase insuficiente: ir em um parque de diversão. De tanto viver nessa realidade, Fatma desenvolve uma síndrome de distração, como se o cérebro dela quisesse se desligar daquele mundo violento movido por uma tensão permanente.
A última conversa entre Sepideh e Fatma ocorre quando a cineasta comunica a seleção do filme para o Festival de Cannes. E quando se combina a ida de Fatma para a sessão especial do filme. Um dia após essa ligação, um ataque aéreo deu fim a vida de Fatma e mais 6 familiares que moravam com ela. Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe aborda uma tragédia que vai muito além de Fatma, mas que mostra o quanto é difícil sobreviver como civil diante de tantos ataques criminosos contra a população de palestinos que moram em Gaza.
Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe é um documentário em que a direção participa diretamente como personagem. Há um visível excesso de videochamadas selecionados para o filme, o que em determinado momento causa um cansaço no espectador, por serem mensagens reincidentes. Deve ter sido difícil para a diretora Sepideh Farsi ter que cortar alguns trechos que ficaram desnecessariamente na montagem final, pois há uma relação afetiva envolvida que oblitera e dificulta se fazer determinados cortes que deixariam o material mais enxuto, sem prejuízo para o resultado final.
Ainda assim, esse é aquele filme que vale como um poderoso registro histórico de uma época distópica, que infelizmente não é ficção e ratifica o valor inestimável de cada vida ceifada pela intolerância política e pelo genocídio encampado pelo Estado de Israel e um governo de extrema direita que em nome do fim de um movimento chamado de terrorista, implementa um ainda mais feroz, deixando no ar a pergunta: Será que o ditado "dente por dente, olho por olho" é a melhor saída para dar fim a essa guerra? O sorriso luminoso e constante de Fatma parece contradizer o tempo todo essa visão belicosa da vida.

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