Texto por Marco Fialho
As primeiras imagens de Oeste Outra Vez são emblemáticas e elas expressam uma aridez fora do comum para um país como o nosso. Mas essa aridez passa longe do gratuito, ela é um marco de identidade dos personagens que acompanharemos logo a seguir, numa briga a mão, com claro caráter cômico, por conta de uma mulher. E diga-se de passagem que essa é a única e rápida vez que uma mulher aparece no filme.
A maior marca de Oeste Outra Vez está na transposição dessa paisagem para uma interiorização dos personagens. É um filme de fora para dentro, onde a paisagem e o distanciamento do território se desloca para dentro do filme com uma força impressionante, esse é o dispositivo que vemos o diretor Érico Rassi aplicar com tremenda eficácia em sua obra.
A exploração da aridez do território traz Oeste Outra Vez para o ambiente do faroeste, para a masculinidade desse universo cinematográfico que tanta história fez na cinematografia clássica dos Estados Unidos e da Itália, com a sua vertente sensacional e inusitada de seus spaguettis. Mas citar os italianos aqui é propício, ainda mais porque o que eles fazem é uma releitura do gênero estadunidense em pleno anos 1968, o mesmo que Érico Rassi faz aqui em pleno anos 2020. A ideia do inóspito, do ambiente sem lei, onde os homens tratam de construir os códigos de convivência (ou sua ausência) ao seu bel-prazer.
Oeste Outra Vez mira a sua câmera para uma região do país desconhecida pelos centros urbanos, lança luz para um Brasil que cheira rusticidade e bílis, imerso em práticas sujas, que discursa sobre um sangue contaminado que flui por debaixo da pele, de uma superfície social que escorre para as entranhas abjetas. A masculinidade tóxica que opera lá pelos rincões e atravanca uma convivência harmoniosa. A sua cara mais interiorana possui uma faceta diferente, mais explícita do que nos centros mais urbanos. Esse é um filme radiográfico, visceral, para se ver os pulmões frágeis do nosso país, os rins secos e os fígados cansados de filtrar tanta cachaça. A vida sombria se afirma sem a presença feminina, que se manda, para escapar da vida opressiva reservada para si.
Se a cor alaranjada conforma a pele de Oeste Outra Vez, suas entranhas são tão secas quanto o tom descolorido dos figurinos de Totó (Ângelo Antônio), Jerônimo (Rodger Rogério) e Durval (Babu Santana). Eles são sem graça, desprovidos de charme e só falam por meio da linguagem da violência. Afinal, esses são personagens sem pensamento, são figuras fantasmagóricas de uma humanidade imersa na decadência moral. São subprodutos sociais. Totó é um comerciante sem produto e clientes, mas todos são apenas vultos ridicularizados de algo que apenas lembra o que é ser humano, até os matadores de aluguel são despreparados e arremessados nessa vida em troca de qualquer trocado ou quem sabe um prato de comida. Essa é a ironia, o deboche que o filme encampa. Érico Rassi sabe como joga-los no mundo e dar a eles a coloração devida.
A narrativa concisa executada por Érico Rassi em Oeste Outra Vez merece não só ser mencionada como também refletida. A maneira como o diretor trabalha suas elipses e na eliminação de elementos causais irrelevantes. Um bom exemplo é como os matadores acham Totó e Jerônimo escondidos na casa do primo (Antônio Pitanga) do segundo, sem que saibamos como isso ocorreu ou quantos dias se passaram. Esse tratamento da reconstrução do tempo é uma marca do cinema contemporâneo, que sacode essas ideias de controle e organização do tempo que as narrativas ancoradas numa concepção mais clássica trabalham comumente. Outro exemplo é o do sumiço da mulher de Durval, que somos levados a concluir que também o abandonou. A cena em si não está no filme, mas não precisa, basta ver Durval preparando a sua comida e a comendo sozinho para se deduzir.
O imobilismo da câmera na maior parte de Oeste Outra Vez se coaduna com a vida vazia e sem propósito dos personagens, o quanto eles parecem não avançarem em suas existências e como incorpora a paisagem em sua dramaturgia. A economia de recursos empregada por Érico Rassi é crucial na construção da sua mise-en-scène e confere ao filme uma sensação constante de um anti-clímax, já que esse é um faroeste atualizado, com nuances cômicas, sem grandes arroubos e com mortes secas, nada glamourizadas. A música oscila entre um violão melancólico para as cenas mais corriqueiras e o cancioneiro brega (Nelson Ned, João Mineiro e Marciano, Joaquim e Manuel e Nilton Cesar) que versa fundamentalmente sobre amores desfeitos e traições, para as cenas de bares, que soam como uma espécie de chiste. Assim, Érico Rassi compõe a ambiência, a realidade desse espaço geográfico tão específico, mas o faz entretanto desdramatizando a narrativa, sem apelar para soluções de ação ou para o melodramático, mas sempre esbarrando na ridicularização dos personagens.
A caracterização dos personagens se realiza sem grandes floreios. Não há nada de especial em nenhum deles, todos aparentam vir do mundo real, mas a ausência de emoções induz a uma irrealidade, que é adicionada tal como uma pitada de um anti-tempero. Assim, Oeste Outra Vez faz lembrar o nosso mundo, mas deixa muito evidente que é, antes de ser um espelho fiel do nosso mundo, cinema. É como uma imagem fraturada, desigual, enfim, estranha. E o estranhamento é um dos motores do cinema contemporâneo. Os matadores são arremedos de matadores, assim como Totó é de comerciante. Essa lógica de mundo só faz sentido no universo cinematográfico montado por Érico Rassi e a sua beleza é justamente a imensa capacidade de rir de si mesmo. A masculinidade tóxica está ali, presente, a tal ponto de se prescindir de se ter as mulheres em cena, como se o mundo real fosse constituído dessa forma. Essa exacerbação dos personagens masculinos é que envereda o filme para uma conclusão de que esse é um mundo degenerado. É a ficção documentando um certo mundo a seu modo e isso é brilhante. Daí, o formato faroeste fazer tanto sentido na ideia de mise-en-scène de Rassi, ele está ali para forjar esse microcosmos imerso pela violência e pela ausência da lei. O poder policial sequer aparece por ali, nem qualquer rastro do poder público.
Caso alguém tenha alguma dúvida se esse filme é sobre uns ridículos e pobres moços valentes, para aqui tomar emprestado um termo do compositor Lupicínio Rodrigues em sua clássica canção, sobre essas existências masculinas frágeis e violentas, basta observar a cena final filmada em um bar encravado na esquecida cidade de São João D'aliança, no interior de Goiás, uma das mais expressivas de nosso cinema recente. Se Érico Rassi realizou até então um filme com planos estáticos, ali no final é quando a câmera vai se afastando para vermos dezenas de homens cantando e dançando sozinhos. A ausência feminina chama a atenção e crucial para se pensar esse plano. Durante o desenvolvimento da história, somos informados que todos os personagens foram abandonados por suas parceiras, o que de certo é chocante e representativo para refletir acerca do universo de Oeste Outra Vez. Sr. Totó fala com a ex-mulher pelo telefone, pede para ela voltar, mas não basta. Ela sabe que nada mudaria no futuro e o arrependimento dele se desfaria rapidamente.
Oeste Outra Vez precisa ser melhor estudado, pois são inúmeras as sutilezas em meio a esse mundo áspero que retrata. O simbolismo da cachaça como o combustível para suportar a vida e do limão para poder encarar o azedo da existência. Em dois momentos, Sr. Totó explica para o ex-capanga (nome de matador de antigamente) Jerônimo qual é a regra do jogo da sinuca e novamente o simbólico se impõe. "Se você matar uma das bolas do adversário, essa bola morre, mas se você jogar a sua própria bola na caçapa, você é quem morre." É evidente que o tema aqui não é sinuca, tanto que lá no fim, o jogo vira uma grande brincadeira entre eles, que subvertem a regra e praticam uma dança. Sim, nem sempre alguém precisa ganhar e o outro morrer. Mas como diz o refrão da canção final, cantada por Nelson Ned, "tudo passa, nada fica, nada ficará. Só se encontra a felicidade quando se entrega o coração." Oeste Outra Vez sabe ser triste, subversivo e engraçado ao mesmo tempo. Uma preciosidade obrigatória para podermos falar de um cinema brasileiro essencialmente contemporâneo.
Perfeito! Concordo com tudo o que Cc escreve, contudo, senti falta de sus análise da cena em que os dois capangas contratados por Durval estão sua no quarto de uma pensão e, num clima carregado de homoerotismo, ambos hesitam em explicitar seus desejos e passar ao ato. Cena fortíssima, digna de Almodóvar, Pasolini, Aïnouz... Por fim, como vc bem observou, este filme requer ser revisto algumas vezes e merece muitas reflexões, tal o número de camadas que se pode desvelar. Fabuloso!
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