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DAAAAAALÍ ! Dir. Quentin Dupieux


Texto por Marco Fialho

Daaaaaali! é uma intrigante fábula onírica e cômica de Quentin Dupieux. Não é um filme biográfico sobre Salvador Dali, mas sim sobre o universo e a personalidade do artista espanhol, mais especial sobre sua personalidade egocêntrica. 

A mistura de fábula e comédia leva o filme para um registro bem longe do realismo. A narrativa vai se delineando de maneira onírica, nos obrigando sempre a rever nossos pontos de vista. Quentin Dupieux é bem feliz em suas escolhas narrativas e temos a impressão de que estamos assistindo a um conto literário visual. 

Os 70 minutos do filme caem como uma luva em sua precisão rítmica. Nada parece fora de lugar, nem mesmo o constante desconcerto de um sonho que parece infinito. O jogo do infinito e da finitude são elementos intrínsecos à obra de Dali e eles estão presentes também no filme. Um exemplo ótimo desse jogo acontece logo no início, quando Dali chega no hotel para dar uma entrevista e ele caminha pelo corredor até chegar ao quarto. O tempo ali é expandido ao máximo e se torna insuportável. Enquanto ele anda pelo corredor, as duas moças que o esperam na porta do quarto lembram da água que o pintor exigiu, elas ligam duas vezes para a recepção pedindo a água e uma delas vai ao banheiro e volta enquanto Dali continua vindo na direção delas no corredor. Dupieux faz uma brincadeira ardilosa com esse tempo expandido que o cinema explora tão bem. O resultado dessa sequência é cômico e dialoga com essa entrevista que durante todo o filme a jornalista tentará realizar com ele, mas que sempre é cancelada por um detalhe que Dali implica. O diretor aqui assume o ar zombeteiro para tripudiar do espírito genioso e antipático do pintor.

As interpretações inusitadas são mais um dos aparatos na narrativa. Há um visível contraste entre as interpretações de todos os personagens e a de Dali. O pintor surrealista possui nada menos que 6 atores o representando (Didier Flamand, Édouard Baer, Pio Marmaï, Jonathan Cohen, Alain Chabat, Gilles Lallouche), o que já é por si só surreal, pois cada um imprime um toque próprio a sua personalidade, o que extingue qualquer possibilidade de coerência ao personagem e à própria narrativa, como se essa profusão de atores servisse para boicotar o próprio filme. Dois destaques no elenco merecem menção. Anaïs Demoustier está maravilhosa como Judith Rochant, uma inexperiente e indecisa jornalista, contratada por Jérõme (um ótimo Roman Duris), um chefe disposto a tudo para fazer uma entrevista com Dali. Esses dois atores estão em um registro mais convencional, diferente dos 6 Dali, todos exacerbadamente excêntricos, histriônicos e intragáveis, bem sintonizados com o perfil que Dali sempre gostou de vender em sua imagem pública. 

Evidente que a narrativa surrealista é evocada, mesmo que ela surja domesticada por sonhos lineares que conseguimos concatenar com certa facilidade. Há sim, algo que flerta aqui e ali com o surrealismo cinematográfico de Dali e Bunuel, lá do final dos anos 1920 (O Cão Andaluz) e início dos anos 1930 (A Idade do Ouro), inclusive pelo tango que adentra sonoramente no filme e que remete à estreia de Dali e Bunuel no cinema. 

Daaaaaali! brinca obstinadamente com o aspecto mais egocêntrico do mestre espanhol, sua dubiedade que servia como um amparo para transitar em meios contraditórios, como a liberdade artística, o catolicismo e a monarquia. Os sonhos que vão se misturando e que paralelamente vão se tornando filme são ideias criativas engendradas pela direção de Quentin Dupieux, que aposta numa metalinguagem interminável, tal como aqueles espelhos que apontam para o infinito. Dessa forma, os espelhos se espandem, a ponto de um Salvador Dali ver um Salvador Dali mais velho, em um tempo mais distante. O pensamento delirante de Dali ganha espaço e voz nessa proposta de homenagear, criticar, debochar e brincar, tudo isso ao mesmo tempo. Essas maluquices de Dupieux podem soar enfadonhas para alguns, mas revelam um Dali insuportável, o que não deixa de ser uma crítica justa ao mestre espanhol.

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