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SUÇUARANA (2025) Dir. Clarissa Campolina e Sergio Borges


Texto por Marco Fialho

Mais do que ver Suçuarana como um road movie, vejo-o como um filme-deslocamento. Isso porque não é justamente a experiência que constrói a personagem Dora (Sinara Teles), mas sim a ausência dela. Suçuarana discute a falta de acolhimento de uma personagem que não acha seu lugar no mundo, pelo menos tal como ele está alicerçado. Creio ser difícil abrir um diálogo com esse filme sem se compreender a relação que ele instaura com o mundo e com os espectadores, a consciência intrínseca do desemparo que não só vemos, mas que também sentimos ao assistir o filme. O deslocamento físico da personagem aqui corresponde a um deslocado dela do mundo.    

Suçuarana é aquele filme que vem, passa por nós e aparentemente vai embora, mas deixa em algum lugar dentro de nós, suas fraturas enraizadas. A sua relação com o tempo e espaço está relacionada com a ação deslocada de Dora pelo mundo, mas também com o seu mundo interior. Assim, tempo e espaço são ditados pela maneira inorgânica como Dora transita pelo mundo. Nitidamente, ela não pertence a ele. As referências dela não se estabelecem numa diacronia, ela vagueia por um mundo predominantemente hostil como um persistente fantasma, sem encontrar afetos que a convidem a fixar sua existência nele. O problema dela não é propriamente com outros seres, mas com a estrutura social tal como ela é organizada.

Um ponto fundamental levantado por Suçuarana é acerca da organização do mundo do trabalho na contemporaneidade, de como é crescente a desvalorização do humano no processo de produção, e que transforma as relações em algo descartáveis. Dora, o tempo todo está deslocada desse mundo onde o dinheiro está no centro, onde a busca da experiência foi dissipada pelo imediatismo das relações como um todo, seja no trabalho ou nas afetividades. Há uma solidão profunda, um sentimento que algo está desgarrado, de que uma peça está desencaixada de seu conjunto e é essa noção de incompletude e transitoriedade que permeia Suçuarana, desde o início até o fim.    

A sequência que melhor expõe a pessoa de Dora é a que um homem esquece o casaco no bar e ela o devolve sem vasculhar se nos bolsos havia algo de valor. O dinheiro estava ali disponível para Dora e o homem não acredita que ela não o pegou. Essa falta de confiança no outro é um motor que dita o mundo de hoje, o impulso de levar vantagem a todo instante em cima dos outros. Mas o mundo real conhece outra lógica, como a das devastações, da mineração que draga as riquezas e aniquila a paisagem de um lugar. Por isso é relevante que Clarissa e Sergio não percam a oportunidade de registrar esse território e solo específicos, onde a vida foi literalmente sugada pela força implacável do dinheiro e da ambição, que transforma fábricas em ruínas e vidas em papéis a serem levados ao sabor dos ventos.   

Mas o que seria um elemento a definir Dora, e seu papel no mundo tal como ele está constituído? Me parece que Clarissa Campolina e Sergio Borges não estão preocupados em decidir sobre isso. Na mise en scène de Suçuarana não se pretende fomentar uma teoria acerca das ações de sua personagem, apenas registra seus passos. A câmera não se deixa seduzir pela personagem ou se encanta por ela, apenas a segue. Não sabemos bem aonde ambas irão dar. Dora apenas carrega consigo uma foto da mãe tirada em um lugar chamado Vale do Suçuarana, onde passou a infância enquanto a mãe cortava cana-de-açúcar. Ali se guarda uma réstia de luz, de esperança de vida a ser lembrada como uma experiência compartilhada com algum afeto. Ernesto, personagem interpretado pelo sempre sensacional Carlos Francisco, diz a ela que já viajou muito por aqueles caminhos e que jamais soube da existência de tal Vale do Suçuarana. Nessa fotografia, se revela um vestígio, uma possibilidade de vida plausível, mas ela não deixa de ser uma imagem fantasmagórica, prestes a ser apagada pelo tempo. 

Assim, Dora vai dormindo por cantos variados, uns hostis outros mais afetuosos. Encontra uma fábrica abandonada, onde um grupo está a pegar as peças do que sobraram dela para serem vendidas. Essa fábrica não deixa de ser um simbólico desse mundo que se desfaz em ruínas, ditado pela insegurança e pelo temporário, um mundo em constante deslocamento de si mesmo. Em conversa com Carmela Fialho, minha companheira de vida, de textos e viagens pelo cinema e pelo mundo, ela me disse que Suçuarana a fez lembrar de Arábia, o belíssimo filme também mineiro de Affonso Uchôa e João Dumans. Sei lá, pode até ser, inclusive Dumans aparece nos créditos de Suçuarana como um consultor de roteiro, o que me faz acreditar de que isso diga algo sobre o comentário de Carmela, que sequer assistiu aos créditos, que diga-se de passagem é algo que sempre acompanho nos filmes (hábito cada vez mais raro dentre os espectadores, uma pena, pois eles dizem sobre um filme). 

Mas voltando a Arábia, vale comparar que vejo essa obra como mais lírica e afetuosa com os personagens, algo que não ocorre tanto em Suçuarana, onde sinto um maior distanciamento no tratamento da direção com os personagens. Não vejo aqui um quê de esperança nesse mundo macro apresentado pelos diretores, pelo menos tal como ele está caminhando atualmente. Inclusive, vejo nesse filme personagens claramente deslocados, mas isso não é algo novo na filmografia dos seus diretores. Em Céu Sobre os Ombros, Sergio Borges, um dos diretores de Suçuarana, também demonstra afeição por personagens que de certa forma causam estranhamentos na sociedade. Clarissa Campolina também, em Canção ao Longe (2022) já abordou uma personagem deslocada e incomodada com o mundo familiar e a sociedade como um todo. São personagens francamente desenraizados, que perambulam pelo mundo em busca de algum tipo de amparo. Portanto, os filmes-deslocamentos não deixam de estar há algum tempo, no campo de visão desses diretores, visivelmente inconformados com o mundo.

Entretanto, o que mais me agrada em Suçuarana é o quanto esse deslocamento não vem com discursos prontos ou cartilhas contra o sistema, embora a insatisfação com a organização social esteja implícita no processo de Dora pelo mundo. Seu caminhar não é algo glamourizado, pelo contrário, é cru e vemos um mundo bem difícil de se viver e isso fica claro em algumas caronas onde até um estupro é tentado. O preço de estar nesse mundo violento é cobrado sistematicamente. Nada é de graça. Em um mundo marcado pela falta e a ausência, atrai-se facilmente a mesquinharia, o jogo sujo, a constatação de que já que a vida não vale muito, resta o "me dá aqui o meu". A sujeira do mundo nunca está em um só lugar, sabemos que ela se alastra como uma peste. Mais do que pessimismo, creio que Suçuarana quer mostrar a dureza do desamparo e o quanto é preciso dar o próximo passo. 

Suçuarana é sobre um ciclo de devastação espiritual que já começou no Planeta e que cada vez mais se aprofunda. A impressão que eu tenho é que o filme não tem início, nem meio, nem fim. Ele começa no meio de uma vida, transcorre e acaba deixando claro de que algo ali não terminou, ainda está em curso. Ou melhor, o filme acaba antes da vida de Dora e isso é um registro interessante que nos faz pensar. A vida dela como personagem existiu antes e continuará existindo depois que os créditos subirem, e isso nos coloca um pouco naquele caminhão em que Dora está dentro, sem saber qual será a próxima esquina ou parada a ser confrontada tanto por ela quanto por nós.

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