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ENTRE DOIS MUNDOS (2025) Dir. Emmanuel Carrère



Texto por Marco Fialho

Marianne Winckler (interpretada pela sempre extraordinária Juliette Binoche) é uma escritora de sucesso em Paris, que decide escrever um livro sobre faxineiras e vai anonimamente para Caen, uma cidade litorânea da França, se iniciar nessa profissão para poder conhecer o cotidiano do trabalho e das trabalhadoras do ramo. Considero importante começar a falar de Entre Dois Mundos pela sinopse pois ela traz em si o dilema ético que o filme encampa.

Evidente que a primeira indagação que fazemos é sobre a complicação de Marianne de viver uma vida que não é a sua enquanto outros estão ali porque não possuem outras alternativas e como o filme lida com essa situação. Dessa forma, a questão ética passa a ser também do filme que igualmente precisa lidar com a mesma situação de sua protagonista. Entre Dois Mundos expõe bastante a situação do estudo de Marianne, mas resolve não indagar muito sobre ela, apenas vai levando de acordo com a vivência da personagem, que passa por um curso e depois começa a trabalhar na limpeza de cinemas, hotéis, escritórios, balsas e outros lugares. 

A direção de Emmanuel Carrère é descritiva ao priorizar enfocar o cotidiano de Marianne, assim acompanhamos sua saga pelo mundo da limpeza e as relações que estabelece com as colegas de trabalho. A pessoalidade é um dos traços mais marcantes, pois nesse mundo de dificuldades a solidariedade está bastante presente e o filme trabalha muito esse que será um dos problemas que Marianne terá que enfrentar mais à frente, quando for descoberta a finalidade da sua presença nesse trabalho.   

Chama a atenção o vigor do trabalho de Juliette Binoche, o compromisso com a verdade de sua personagem e a interação com as outras atrizes, todas excelentes no papel de faxineira. Entre Dois Mundos acerta, e muito, em mostrar o cotidiano dessas mulheres, de dar visibilidade a uma profissão que muitos preferem sequer ver, e de evidenciar as relações de solidariedade entre elas. Emmanuel Carrère trabalha muito com os olhares, o que faz a sua proposta de mise-en-scène brilhar, com fluência, ao fazer tudo parecer espontâneo. A câmera opera uma leveza cênica como se apenas flagrasse aquele cotidiano simples, mas repleto de vida e calor humano.

Se narrativamente Entre Dois Mundos flui linearmente com tranquilidade, sem grandes sobressaltos, seguindo a proposta cênica de Emmanuel Carrère, há justamente na questão da abordagem algo que precisa ser levantado e discutido. Se Marianne fala para as colegas de trabalho acerca do que a motivou estar ali, fatalmente elas poderiam passar a atuar e se investir de um personagem, ao invés de apenas viverem suas vidas como fariam normalmente. 

O filme então esbarra em algo sutil e delicado para o próprio processo de pesquisa que envolve os artistas que precisam pesquisar um determinado ofício para realizar o seu trabalho. Há, basicamente, duas maneiras de realizar essa tarefa da pesquisa de personagem. Uma, a maneira que Marianne fez, de forjar uma identidade momentânea para poder se tornar o próprio objeto, mas creio que esse método não permite que a pessoa observe tanto o outro, afinal, precisa ela dar conta do serviço. A outra maneira de fazer a pesquisa seria a da identificação desde o início do processo e a realização de um acompanhamento desse cotidiano, em comum acordo. O último seria mais honesto e transparente, o outro, soaria como algo desonesto. 

A intensidade do resultado dessas escolhas pode ser artisticamente diferente, mas coloca em questão a invasão de privacidade sem a autorização do principal envolvido e da contínua sensação de ter sido objetificado por um projeto de outra pessoa. O final do filme, pelo menos permite que esse incômodo permaneça, como um grande silêncio difícil de ser preenchido.

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