Pular para o conteúdo principal

CLOUD - NUVEM DE VINGANÇA (2024) Dir. Kiyoshi Kurosawa


Texto por Marco Fialho

Por trás da aparente superficialidade de Cloud - Nuvem de Vingança, novo filme de Kiyoshi Kurosawa, se esconde uma visão cinematográfica muito cruel acerca do mundo capitalista contemporâneo. A começar pelo título, que faz uma clara alusão às nuvens, lugar responsável pelo etéreo no mundo ilimitado proporcionado pela tecnologia. A palavra cloud também pode se associar ao aspecto sombrio do mundo, que aqui igualmente faz bastante sentido.

Kiyoshi abandona as suas famosas análises familiares para adentrar na vida de Yoshii (Masaki Suda) um jovem que trabalha numa fábrica, mas que nas horas vagas revende produtos na internet. O sucesso do rapaz leva ele a pedir demissão, mesmo com o seu chefe o seduzir com contínuas propostas de promoções. Yoshii se junta com Akiko (Kotone Furukawa), sua namorada e vai viver em um bairro no meio do mato, bem afastado de Tóquio. Logo, começa a ser perseguido por intrigas inventadas por colega que quer se associar a ele para um grande negócio, tendo o seu inconformado ex-chefe na fábrica como outro inimigo em potencial. 

O mais interessante em Cloud - Nuvem de Vingança é como Kiyoshi Kurosawa arquiteta a trama, começando como se tudo transcorresse em um ambiente tomado pela normalidade, numa vida organizada pelo trabalho e pelo relacionamento amoroso. De repente, o diretor dá uma guinada e leva a narrativa para outro lugar ao instaurar um clima de suspense e terror na história desse rapaz que apenas queria ganhar o seu dinheiro com as revendas de produtos. Kurosawa transforma o filme em uma parábola sobre essa sociedade que só pensa em enriquecer, mesmo que essa riqueza fique sempre impalpável e nas nuvens. 

Se inicialmente Cloud - Nuvem de Vingança sugeria um drama de um jovem em busca de estabilidade financeira, logo depois a trama vira um inferno onde a sobrevivência fala mais alto. A fotografia de Yasuyuki Sasaki acompanha o processo de virada desse mundo de promessas para um mundo que beira o apocalíptico. Os tons mais sombrios prevalecem e as cores mais vivas ficam ausentes na trama, ao máximo aparecendo no figurino de Akiko, onde o vermelho deixa no ar se a intenção é a paixão ou o sangue. 

Kiyoshi Kurosawa também introduz elementos de faroeste na trama, com o surgimento de Sano (Daiken Okudaira), um assistente que se torna um tipo de anjo da guarda de Yoshii. Os duelos armados ainda evocam abertamente uma mise-en-scène do faroeste inserida dentro da história de suspense e terror que o filme encampa como a principal linha narrativa. A própria nuvem das armas, pode ser mais uma metáfora que o título implicitamente carrega.  

O maior mérito de Kurosawa em sua proposta narrativa é a de tornar sua obra algo nitidamente paródica, onde a realidade fica a todo momento em paralelo, perambulando e contornando os rumos extremados que a história assume. Em Cloud - Nuvem de Vingança, Kurosawa constrói com sagacidade e competência perfis bem delineados, que representam bem a ganância social devidamente incrustada em cada um deles, inclusive em Akiko. Para quem quer pensar o papel animalesco do dinheiro nesse mundo onde a violência se impõe socialmente, esse é um filme bem propício para se fazer essa análise.          

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

PECADORES (2025) Dir. Ryan Coogler

Texto por Marco Fialho e Carmela Fialho O cinema negro dos Estados Unidos vem se fortalecendo mercadologicamente como nunca. Diretores como Jordan Peele ( Corra! , Nós  e Não! Não Olhe! ), Barry Jenkins ( Moonlight e Se a Rua Beale Falasse ), Ava DuVernay ( 13ª Emenda  e Selma ) e Shaka King ( Judas e o Messias Negro ), Raoul Peck ( Eu não Sou Seu Negro ). Se falarmos mais retroativamente, encontraremos Spike Lee (com os clássicos  Faça a Coisa Certa , Malcoln X , e os atuais  Infiltrado na Klan e Destacamento Blood ), Melvin Van Peebles ( Sweet Sweetback's Baadasssss Song e Posse: A Vingança de Jesse Lee ) e a força do movimento Blaxploitation dos anos 1970, e o ineditismo de Oscar Micheaux nos anos 1920 e 1930.  O fato atual é que o cinema negro não é mais reservado a um nicho. Os diretores mais recentes mostram uma penetração cada vez mais efetiva no mercado. Pecadores , mais recente filme de Ryan Coogler ( Creed e Pantera Negra ) vem comprovar isso. ...

MOSTRA CINEBH 2023

CineBH vem aí mostrando novos diretores da América Latina Texto de Marco Fialho É a primeira vez que o CineFialho irá cobrir no modo presencial a Mostra CineBH, evento organizado pela Universo Produção. Também, por coincidência é a primeira vez que a mostra terá inserido um formato competitivo. Nessa matéria falaremos um pouco da programação da mostra, de como a curadoria coordenada pelo experiente Cleber Eduardo, montou a grade final extensa com 93 filmes a serem exibidos em 8 espaços de Belo Horizonte, em apenas 6 dias (26 de setembro a 1º de outubro). O que atraiu o CineFialho a encarar essa cobertura foi o ineditismo da grande maioria dos filmes e a oportunidade mais do rara, única mesmo, de conhecer uma produção independente realizada em países da América Latina como Chile, Colômbia, México, Peru, Paraguai, Cuba e Argentina, sem esquecer lógico do Brasil.  Lemos com atenção toda a programação ofertada e vamos para BH cientes da responsabilidade de que vamos assistir a obras di...