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PECADORES (2025) Dir. Ryan Coogler


Texto por Marco Fialho e Carmela Fialho

O cinema negro dos Estados Unidos vem se fortalecendo mercadologicamente como nunca. Diretores como Jordan Peele (Corra!, Nós e Não! Não Olhe!), Barry Jenkins (Moonlight e Se a Rua Beale Falasse), Ava DuVernay (13ª Emenda e Selma) e Shaka King (Judas e o Messias Negro), Raoul Peck (Eu não Sou Seu Negro). Se falarmos mais retroativamente, encontraremos Spike Lee (com os clássicos Faça a Coisa Certa, Malcoln X, e os atuais Infiltrado na Klan e Destacamento Blood), Melvin Van Peebles (Sweet Sweetback's Baadasssss Song e Posse: A Vingança de Jesse Lee) e a força do movimento Blaxploitation dos anos 1970, e o ineditismo de Oscar Micheaux nos anos 1920 e 1930. 

O fato atual é que o cinema negro não é mais reservado a um nicho. Os diretores mais recentes mostram uma penetração cada vez mais efetiva no mercado. Pecadores, mais recente filme de Ryan Coogler (Creed e Pantera Negra) vem comprovar isso. O diretor inicialmente caminha a sua história para um drama racial, de dois irmãos gêmeos (Michael B. Jordan), sugestivamente apelidados de Fumaça e Fuligem. Ambos, depois de cometerem assaltos a trens e bancos, e acumularem uma grana com outras atividades ilícitas em Chicago, voltam para sua terra natal, no Delta do Mississipi para abrir um clube de blues

Ryan Coogler não se contenta em apenas retratar um drama racial e político na terra da Ku Klux Klan, opta por acrescentar a isso uma fantasia de terror afro-vampiresca surpreendente passada nos anos 1930, repleta de simbolismos culturais de dominação branca e resistência negra. Pecadores é um petardo desconcertante de Coogler, uma fábula alegórica sobre a opressão branca. Alguns podem mencionar que a Ku Klux Klan está escamoteada no filme e por isso o viés político estaria camuflado pela incorporação da história do vampiro. Mas analisamos pelo fato político, a Klan está presente ideologicamente, mesmo que nos nossos dias não seja mais recorrente aquelas ações com homens encapuzados incendiando casas, as práticas racistas continuam vigorando em outras estratégias, como as mensagens que se proliferam nas redes sociais de grupos de extrema direita que fomentam e apoiam a continuação do racismo.

Um tema interessante que o diretor Ryan Coogler trata é o da confirmação do racismo na sociedade dos Estados Unidos e como a ascensão financeira nada muda a situação. Fumaça e Fuligem voltam ao Mississipi para comprar uma serraria para implementar seus planos de abrir um saloon musical dedicado ao blues e o dinheiro não é capaz de apagar o racismo, que é algo mais profundo, ligado a um passado difícil de ser apagado.     

Como tocamos no assunto Ku Klux Klan vale mencionar que os vampiros de Pecadores representam uma nova faceta do racismo, composta pela cooptação e depois regida pelo apagamento cultural. Há uma iniciativa de fazer uma cooptação pela música, tirando a Klan do caminho para se manter o domínio cultural do consumo e o próprio racismo. Interessante como o roteiro trabalha os coadjuvantes, como a esposa Annie (Wunmi Mosaku), que domina a arte das ervas e tem status de curandeira na comunidade. Sua crença na sabedoria ancestral é tamanha que ela pede ao marido que a mate, caso seja contaminada pelos vampiros. Essa ancestralidade é justamente o que está para ser quebrada e esquecida, e Annie funciona como uma guardiã dessa tradição. Os saberes herdados e o papel dos griot (detentores do saber ancestral pela oralidade) para a perpetuação da cultura dos antepassados. E o mergulho de Pecadores na ancestralidade é fundamental para se pensar a política racial dos Estados Unidos anos 1930 e para se entender o processo tanto do apagamento quanto da cooptação do negro pelo sistema econômico dos brancos. 

Por isso, é importante pensar como os brancos estão inseridos na história do filme. Remmick, o líder dos vampiros, simula um conjunto desconjuntado de country, com um casal de brancos vampirizados por ele, com o objetivo de adentrar no clube de blues dos irmãos Fumaça e Fuligem. Coogler costura bem os medos, afetos e a sedução do dinheiro para convencer os negros que estão no clube de blues. É bastante interessante a maneira como o diretor trabalha a questão do dinheiro. Se para os negros o dinheiro não é suficiente para acabar com a nódoa racista, para os brancos o dinheiro é capaz de cooptar a carência financeira dos negros, inclusive para fazê-los astros da música nacional. Pecadores abarca tanto as tradições europeias dos brancos quanto as do negros por meio da música e outros saberes de seus antepassados. E vale registrar a presença do ótimo ator Delroy Lindo, como o músico Slim, um guardião da cultura do blues, que irradia luz em suas aparições em cena.

Já citamos anteriormente acerca dos saberes ancestrais que o filme aborda, mas ainda não discutimos o aspecto pós-moderno de Pecadores de no meio do baile de blues abrir um espaço atemporal e mágico para a aparição da música feita pelos negros no decorrer dos séculos desde os tempos ancestrais até o século XXI. Assim, de repente, presente, passado e futuro se misturam de maneira sobrenatural e surpreendente à uma das cenas, que para nós é a mais impactante e criativa de todo o filme.         

A história narrada por Ryan Coogler se passa praticamente em dois dias, sendo prioritariamente em um dia apenas, o da inauguração do clube de blues. Entretanto, lá no final, Coogler nos leva para os anos 1992, para mostrar um show de Sammie Moore, ou apenas Sam (Miles Canton e Buddy Guy, numa bela homenagem ao grande músico do blues), um sobrevivente dos ataques dos vampiros em 1932. Não tínhamos ainda falado de Sam, esse personagem crucial para a trama, o do jovem negro talentoso que traz a alma do blues no sangue, que remete ao tal pacto com o demônio tantas vezes já citado no cinema, como em Coração Satânico (1987), de Alan Parker (que também realizou Mississipi em Chamas, onde a Ku Klux Klan está no cerne da problemática racista do filme), e especialmente, A Encruzilhada (1987), de Walter Hill, que narra também um jovem em busca do sucesso e mais tarde descobre a tentação demoníaca por trás dessa realização e reconhecimento como grande músico e compositor, como se revivesse a história do lendário rei do blues, Robert Johnson. O Wudu, um tipo de ritual religioso dos negros afro-americanos, é o meio pelo qual os espíritos evocam os talentos ancestrais. Não por acaso, o pai de Sam é um pastor da igreja evangélica, que vê no blues um ritmo enfeitiçado pelo diabo. 

Pecadores por tudo isso que já mencionamos, e talvez por outras camadas não abordadas aqui, é um filme que merece ser observado e analisado com mais atenção. Cabe ainda dizer o quanto impressionante é o som desse filme, não só pela trilha musical, mas pelo cuidado para que cada cena tenha uma sonoridade própria, com sons vindo de trás, do lado e de maneira sempre imprevisível, a ponto de olharmos para fora da tela para procurar cada som que a obra evoca. É um som envolvente, em especial para quem puder vê-lo numa sala imax, onde tela toma toda a parede e o som se propaga exatamente de onde se deve em cada cena, provocando uma imersão total com o filme.  

Contudo, finalizamos nossa análise dissertando sobre o desfecho da obra, de como Ryan Coogler aborda simbolicamente a relação entre os músicos negros e a carreira musical, de como se deu também a relação com os brancos, que controlam os espaços de shows. Há uma sacada muito interessante da direção de mostrar o quanto é possível o artista se manter firme, não cooptado, que é o caso de Sam no filme e seguir na carreira até o fim da vida. Sam durante toda a trama se mantém convicto de seu propósito de não largar o seu violão, instrumento simbólico do blues do Delta do Mississipi. O filme inspira e mostra a força espiritual dos negros em uma sociedade adversa, racista e cruel para os que vieram das camadas mais pobres de um país. E aqui não estamos falando de Brasil, mas sim do chamado grande Estados Unidos.

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