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FRANKENSTEIN (2025) Dir. Guillermo Del Toro


Texto por Marco Fialho

Depois de tantos filmes lançados, já podemos afirmar que Guillermo Del Toro é um cineasta afeito ao espetáculo e à fábula. Na refilmagem de Frankenstein, um sonho acalentado pelo diretor desde sempre, da importantíssima Mary Shelley, uma escritora fundamental e pilar da ideia de literatura de ficção científica. Entretanto, mais do que um filme de terror, Frankenstein de Del Toro ganha em dramaticidade pela forma que adapta Shelley. 

Se Frankenstein impressiona por um lado, em especial por demarcar bem as contradições e as ambiguidades do caráter humano, por outro, faz uso de um CGI (Imagens Geradas por Computador) que incomoda, como o da criação de animais que tornam esquisitas e artificiais determinadas imagens, assim como alguns cenários que fazem a atmosfera do filme parecer mais um ambiente de videogame do que uma locação de cinema, com alguma veracidade. São elementos que fazem o espectador imergir em uma realidade que denota artificialidade e atrapalha o contato com o lado fantástico da obra de Del Toro. 

A artificialidade técnica de Frankenstein prejudica a obra de Guillermo Del Toro, embora ela por si não consiga cegar outras qualidades que lhes são inerentes. O diretor não se deixa levar totalmente pelo espetaculoso e esse aspecto salva Frankenstein da hecatombe visual que poderia mergulhar. Um dos grandes méritos de Del Toro está no desenvolvimento dos personagens. Há um cuidado na delineação de cada um, a começar por Oscar Isaac (um pouco histriônico, mas entregue ao personagem) como Victor Frankenstein, um ambicioso cientista que acredita ser Deus e depois cai no arrependimento, por considerar que criou uma aberração, uma monstruosidade. Mia Goth (da trilogia X) está ótima como Elizabeth, a menina que se encanta pela Criatura. Christoph Waltz recria outro alucinado, o rico Harlander. Mas a grande interpretação fica a cargo de Jacob Elordi, como a própria Criatura. Nele está contido os maiores significados de Frankenstein, as incongruências e o quanto é contraditório o caráter humano.

A quem conseguir se abstrair do CGI, pode se apreciar o belo conceito fotográfico, inteiramente calcado na ideia de ambiguidade que conduz Frankenstein desde o início do filme. Em várias cenas, a luz quase estourada e contrastada pelas sombras, o que faz com que a ambiência traduza a intenção de Del Toro em salientar dualidades presentes nos personagens. Todos são terríveis e amáveis ao mesmo tempo. Elizabeth é demoníaca com a sua língua ferina que contrasta com sua beleza e porte angelical. Contudo, é a criatura que melhor sintetiza essa característica de dualidade. Sua aparência e atitudes estão sempre a beirar o dócil e a animalidade. Esse é um mérito da maquiagem, mas também da interpretação de Jacob Elordi. 

Em algumas obras, o excesso de divisão em capítulos incomoda demais, mas Guillermo Del Toro habilmente não caiu nessa armadilha. Divide basicamente o filme em duas partes, a da narração de Victor Frankenstein e depois ao mostrar a visão da Criatura, esta a mais surpreendente e bela. Vale a pena frisar o quanto de acerto tem nessa versão quando Del Toro enfatiza o viés do personagem da Criatura. O filme cresce com as dúvidas filosóficas e existencialistas vindas de vários personagens, mas sobretudo da Criatura. 

Falar de Frankenstein é ainda discutir o papel da ciência e suas limitações. Essa versão tem uma sequência logo no início de um tribunal Real de Medicina a julgar os estranhos experimentos de Frankenstein, ligados à reinvenção da vida em corpos mortos. Del Toro não se prende muito na discussão, embora essa seja um tema expressivo do século XIX, época em que o romance de Shelley foi criado. A reflexão é interessante ao mostrar que até a ciência (algo benéfico à humanidade) precisa de limites e também está suscetível aos arroubos, ambições e distorções. Se em séculos anteriores a religião levou seus pressupostos à morte, basta aqui pensar na inquisição, este pensamento invadiu a ciência e creio que a denúncia de Shelley sobre esses limites tenha atingido seu auge nas teorias escalafobéticas do nazismo hitlerista. 

Del Toro preserva muito do viés romântico da história original de Shelley para filmar o seu Frankenstein. A maior mudança está em Elizabeth, que no livro se casa com Frankenstein enquanto Del Toro prefere a colocar como uma mulher que se encanta com a Criatura, enquanto no livro ela é morta por ele. Esse encantamento das mocinhas pelas figuras de aparências monstruosas, já estavam presentes em outras obras do diretor, como A Forma da Água (2017). As cenas de Elizabeth com a Criatura são ao meu ver as mais interessantes do filme, o fascínio dela por uma pureza humana que só poderia estar ali, nessa criatura criada a partir de emendas de corpos diversos. 

A Criatura é um ser curioso, que como qualquer um de nós, busca saber quem ele é, de onde veio e para onde pode ir. O fascínio com os sentimentos verdadeiros de uma família, a mesma que vai despertar a monstruosidade dele e fazê-lo descobrir que a sua maior infelicidade é a sua imortalidade, a condenação de viver em um corpo dado como monstruoso por todos que encontra pelo caminho. "Não consigo morrer, nem viver". Essa é a sentença dessa criatura, que Del Toro humaniza como sempre gosta de fazer em seus filmes em relação a elas, causar uma provocação de quem seriam os maiores monstros de uma sociedade. 

Com Frankenstein, Del Toro começa a sair dos maniqueísmos ao buscar interpretações mais complexas, de que a violência está na origem da sobrevivência dos animais e homens e que ela não é definidora em si de caráter. As ações monstruosas estão em todos, assim como a docilidade e a capacidade de ajudar ao outro. No final, a o arrependimento de Frankenstein por tentar emular Deus. Há uma evidente visão religiosa no cerne dessa discussão proposta já por Shelley em seu livro escrito no século XIX, de que o homem não poderia ocupar o lugar de Deus. Para os ateus, essa é uma discussão infundada, afinal, para eles só caberia aos homens mesmo a criação de tudo, inclusive da ideia de Deus. Mas considero interessante o filme levantar essas questões originárias e pô-las na mesa de discussão.   

Comentários

  1. Querido Marco, que alegria poder visitar seu site depois de assistir um filme e encontrar sempre a sua crítica tão perspicaz e interessante sobre tudo! Adorei o filme, pela ênfase nos dilemas filosóficos tão atuais entre ética, religião e ciência, e por privilegiar a poesia do texto de Shelley. Sabia que algo tinha me incomodado na estética do filme e foi ótimo ler a sua crítica ao uso desmedido da CGI, certamente uma tentação perigosa para os realizadores atuais. Abraços.

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    1. Obrigado Vicente! Também adorei ter o seu retorno reflexivo acerca desse filme e dos textos aqui publicados. Abraços!!

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