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VALOR SENTIMENTAL (2025) Dir. Joachim Trier


Texto por Marco Fialho

A reluzente mise en scène de Joachim Trier logo se impõe em Valor Sentimental. O cineasta possui um talento especial de unir arrojo interpretativo e câmera invasiva, que parece sempre estar em descoberta de algo mais. Surpreendentemente, o primeiro personagem a ser revelado em Valor Sentimental é a casa da família da jovem atriz Nora (Renate Reinsve), lar que permanece de pé por várias gerações. Trier quer pontuar a importância de um bem imóvel, não pela questão financeira, mas sim em nome de uma determinada tradição familiar que está no cerne de sua obra.

A princípio, essa camada física da casa encobre outras, em especial a dos sentimentos dos personagens que foram formados nela, como as irmãs Nora e Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas), que carregam o peso do abandono do pai Gustav (Stellan Skarsgard), um famoso cineasta que colocou a carreira na frente da família. Para Gustavo, o que restou foi uma vida sem a esposa, distante das filhas e repleta de ressentimentos. Com a morte da mãe (que estranhamente não se constitui como personagem), o pai reaparece, e não satisfeito, com uma proposta de dirigir a filha em um novo trabalho, depois de 15 anos afastado do cinema. Com o tempo, a bela casa espelha esse mundo de aparências onde as relações estão carcomidas e denotam a decadência de uma típica família pequeno-burguesa de Oslo, Capital da Noruega. 

Nora recusa o trabalho oferecido pelo pai, deixando evidente o quanto o quer distante. Eis que uma estrela hollywoodiana, Raquel Kemp (Elle Fanning) entra em cena como a atriz que fará o papel recusado por Nora. Assim, as rachaduras da casa mostram o quanto simbolizam uma lenta e derradeira ruína que se aproxima e um desmoronar inevitável se aproxima. Esse sentimento se mistura à narração inicial onde se descreve uma casa pulsante e cheia de vida, toda baseada numa redação que Nora escreveu quando criança para uma lição escolar. Sim, até por dentro das belas casas existem histórias tristes e tragédias, não sendo essa diferente.    

Trier constrói Nora como uma mulher talentosa, embora insegura emocionalmente e coloca o passado familiar como a fonte de atitudes instáveis da atriz. A dramaticidade das cenas é latente, ainda mais quando Gustav impõe sua presença onipotente, antes ausente e agora onipresente, portanto, ameaçadora. O conflito entre e Nora e ele é o que guia a atenção dos espectadores. A excelência interpretativa de Renate Reinsve e Stellan Skarsgard são o ponto alto de Valor Sentimental, o que o sustenta com um certo vigor. Até então, a direção de Trier está ao nível do impecável. Mas eis que os problemas dramatúrgicos começam a aparecer e comprometer o rigor cênico que até então vigorava.

O maior problema de Valor Sentimental está no seu terço final, quando Trier perde o prumo dramático da obra. Se Trier joga duro com os sentimentos até então, mais para o final vai esmorecendo e cedendo ao dramalhão, até finalizar de maneira previsível, com uma conciliação forçada entre pai e filha, o que se desenhava nos planos em que os rostos deles se fundem em um só, numa emulação tola e forçada de Persona, a obra máxima de Bergman e do cinema escandinavo. O artifício da aproximação é bem besta e acontece quando Gustav leva o roteiro para Agnes ler e depois repassar para Nora. Antes tem uma conversa entre ele e Raquel Kemp, em que diz não haver sentido em fazer aquele papel. Em paralelo, Nora entra em crise com o seu trabalho no teatro. Tudo cai em um automatismo inocente, de fios que por coincidência, repentinamente se encontram, o que faz toda a carga dramática desabar por completo. 

O roteiro de Valor Sentimental começa a ficar engessado, com atitudes que lembram um efeito dominó dramático. Tudo passa a seguir uma linha reta previsível para que os ressentimentos encruados anos a fio se dissolvam em um simples passe de mágica. Trier resolve um sério abandono parental quase por encanto e pela bondade inata de Nora, depois que vê o pai numa cama de hospital e de ler o roteiro do filme do pai como um pedido de desculpas e arrependimento. 

O que inicialmente era um drama consistente, se torna um filme com uma cara de fórmula de Netflix, mesmo sendo essa uma produção Mubi, inclusive a produção do filme de Gustav seria Netflix, fato que desperta um misto de curiosidade e desconfiança. Seria Valor Sentimental um recado da Mubi para Netflix, como se expressasse uma ambição de se tornar não só uma concorrente direta, mas um desejo de se transformar do tamanho da rival Netflix? Mas o mais bizarro é Joachim Trier ter se curvado ao sucesso a qualquer preço, aceitando realizar uma obra que se contenta em acariciar o espírito passivo dos espectadores e a abraçar a complacência e a indulgência como força motriz na construção final de sua obra. Lamentável.

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