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SEX (2023) Dir. Dag Johan Haugerud


Texto por Marco Fialho

Enquanto espectadores, esperamos do cinema duas situações básicas: assistirmos a mais um filme ou sermos surpreendidos por ele. Sex, drama norueguês dirigido por Dag Johan Haugerud, se enquadra bem na segunda opção por trazer uma abordagem inesperada e um roteiro intrigante. Ou para ser mais preciso ainda: desconcertante. 

Apesar de ser um filme onde os diálogos são longuíssimos, e os planos não tão dinâmicos, a direção se revela enigmática com ângulos e movimentos que despertam a atenção. As câmeras são quase imóveis, mas quando ela se movimenta, somos atraídos e conduzidos elegantemente por elas. O diretor gosta de usar o zoom da câmera para nos aproximar ou afastar de algumas cenas, seja para revelar algo ou para restringir o nosso campo visual. Esses artifícios combinam magistralmente com o âmbito temático abarcado em Sex.

A premissa de Sex é simples até em demasia. O que surpreende é o conteúdo em si e o ponto de vista irônico das discussões, o encaminhamento que cada personagem toma na história. Dois personagens guiam a trama, ambos são limpadores de chaminé. Um deles faz sexo com um cliente, e diz isso não interferir na sua heterossexualidade, e o outro, tem sonhos com David Bowie, que o vê como mulher. A partir desses fatos inusitados, a direção puxa fios que levantam discussões, no mínimo interessantes sobre masculinidade e gênero, o que não é muito habitual no cinema nórdico, em especial pelos personagens serem dois homens cis.

O mais incrível ainda são as inúmeras perguntas que o filme traz, tendo em vista que estamos lidando com uma sociedade onde a organização e os papéis matrimoniais são demarcados quase que matematicamente. A monogamia e a heteronormatividade são padrões considerados orgânicos socialmente na Noruega. Por isso, quando um dos personagens começa a relatar, com o máximo de naturalidade, para o seu colega de profissão a transa com outro homem, e depois com o mesmo desembaraço para a esposa, somos igualmente tomados pela surpresa. 

Esse evidentemente é um tema delicado, e a reação da esposa é a mais previsível possível, ao esboçar um sentimento de repulsa pelo marido, que considera um traidor. As discussões se alongam, e vão sendo detalhadas cena a cena sobre o que é ser adúltero e quais os limites da traição dentro do casamento. O outro colega também aprofunda suas questões sobre se sentir bem por ser visto como uma mulher em seus sonhos. Fiquei a imaginar como os noruegueses receberam o filme, ao ver um personagem masculino e cis expondo uma experiência homossexual como algo normal de acontecer.

As atuações são fantásticas, porque palavras duras são ditas sem gritaria, numa sociedade que não exalta a espetacularização do cotidiano. Até o número musical do colega de trabalho na igreja, numa vertente estética delicadamente queer, acontece com uma certa discrição. Tudo, aliás, em Sex, tem elegância. A fragilidade é posta à prova e cada personagem lida com as questões com o máximo de racionalidade possível. Quem for sugestionado pelo título para ver cenas de sexo, se frustrará, já que elas não estão presentes no filme. O final aberto, só vem a agregar mais pontos para a narrativa inspirada de Sex, que flui desde o início com muita cadência e sutileza, mesmo nas horas onde a corda dramática e temática é esticada pela direção.                   

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