Texto por Marco Fialho
Logo no início de Volveréis, uma ideia de separação do casal Ale (Itsaso Arana) e Alex (Vito Sanz) aparece na trama, embora Ale revele que essa ideia seria perfeita para um filme, mas que na vida real talvez não funcionasse. Eles tem 15 anos de relacionamento e decidem adotar uma sugestão do pai de Ale (Fernando Trueba), de que os casais deveriam fazer uma festa de separação ao invés de uma de casamento. O filme de Trueba segue o trilho das grandes comédias dramáticas urbanas, bem ao feitio daquelas nova-iorquinas de Woody Allen.
Mas a informação mais crucial de todas está implícita. Ale é cineasta, enquanto Alex é ator, assim, essa é uma trama totalmente contaminada pelo elemento cinematográfico. Volveréis não deixa de ser um filme dentro do filme, um tipo de metalinguagem viável, embora na maioria do tempo, sutil. O que parece desde o início é que o filme de Ale é o próprio filme que estamos vendo, e é nessa confusão que Volveréis se afirma como obra.
Volveréis possui uma estrutura narrativa leve para tratar de um tema caro à contemporaneidade: os relacionamentos amorosos e os processos que levam à união e à separação. A trama do filme se organiza em torno da tal festa de separação que o casal Ale e Alex quer oferecer aos familiares e amigos, para comunicar o fim do relacionamento deles. Volveréis pode ser visto como uma comédia romântica diferente e provocadora, disposta a por em xeque o tema do casamento monogâmico em meio a uma cidade grande como Madrid.
Ale e Alex são levados apenas por uma certeza, a de que devem se separar e festejar isso. Trueba não se interessa nas premissas dessa separação, apenas faz os personagens comunicarem isso ao entorno, avisando sobre a inusitada festa. Tudo aqui beira o surreal, como se a nossa vida contemporânea fosse calcada em atitudes inesperadas e somente ações extremas permitem revelar as motivações dos personagens, um tipo de viver por impulso ou plantar fatos novos para uma vida desprovida de sentidos. A certeza da separação hoje é algo considerado inevitável quando um casal esboça uma vida a dois.
Vivemos em um mundo onde a ficcionalização da vida atingiu uma patamar altíssimo, e Trueba trabalha bem com essa sensação incômoda de que precisamos nos reinventar com posturas extremadas. Ambos personagens convivem com o universo da representação e tentam se provocar por meio de um evento insólito inventado por eles. A todo instante, eles repetem para os outros personagens sua decisão de separação com um convite de uma festa e o mais dramático e cômico de Volveréis está nas reações díspares que vemos de cada um.
Jonás Trueba realiza uma obra sensível, atenta ao mundo contemporâneo e que trata com inteligência o público, com uma trama dúbia, que oscila entre o dramático e o cômico sem exagerar nem se definir entre um ou outro. Explorando bem uma mise en scène onde a câmera flutua como se o filme estivesse embalado pela ficção que corre em paralelo. Volveréis é uma história que volteia o amor, mas que prefere flertar mais com o absurdo de um mundo onde a ideia de casamento parece se banalizar aos nossos olhos.

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