Pular para o conteúdo principal

Postagens

A FÚRIA (2024) Dir. Ruy Guerra e Luciana Mazzotti

Texto por Marco Fialho Como é notável ver um diretor consagrado, como Ruy Guerra, com 93 anos dirigir um filme tão jovem em frescor e pulsação como é  A Fúria , mesmo que a direção seja dividida com Luciana Mazzotti. Que vigor, emana de cada quadro filmado por essa obra absolutamente genial. Impressionante como tudo que ecoa na tela é tão demolidoramente brasileiro. Ali está a nossa história e também a de Ruy Guerra, lembrando que aqui ele fecha a trilogia iniciada em Os Fuzis (1964), um dos maiores filmes do cinema brasileiro e continuada em  A Queda (1976), que dividiu a direção com Nelson Xavier. O roteiro maravilhoso é de Pedro Freire e Leandro Saraiva, tendo sido finalizado pela própria direção.  Os dois filmes ( Os Fuzis e A Queda ) invadem A Fúria , tal como um documentário, eles interagem com a  narrativa de A Fúria e com os corpos de alguns personagens, como Mario (antes Nelson Xavier e agora Ricardo Blat). Mas o que seria de A Fúria sem a excepcional conc...
Postagens recentes

A SOMBRA DO MEU PAI (2025) Dir. Akinola Davies Jr.

Texto por Marco Fialho Qual a relação da política em nossas vidas? Raramente nos perguntamos isso, embora esse peso seja mais efetivo do imaginamos em nosso cotidiano. A Sombra do Meu Pai , produção inglesa dirigida pelo diretor nigeriano Akinola Davies Jr., aprofunda essa interação de uma maneira sensível, tendo duas crianças como importantes alicerces narrativos, o que confere ludicidade e maior carga emotiva ao filme.  Essas crianças são dois irmãos nigerianos, Olaremi (Chibuike Marvellous Egbo), de 11 anos e Akinola (Godwin Egbo) de 8 anos, que vivem com seus pais numa região afastada do Centro e raramente veem o pai Folarin (Sopé Dirísù), um homem de pouco estudo, precisa ir buscar o sustento da família na agitada Capital Lagos. A política está a todo instante como um pano de fundo na trama, seja por manchetes de jornais impressos, nos noticiários da TV ou nas ruas de Lagos, com discussões sobre a eleição e com grupos militares carrancudos desfilando com seus carros do exércit...

ZICO, O SAMURAI DE QUINTINO (2026) Dir. João Wainer

Texto por Marco Fialho Preciso começar esse texto com um relato pessoal. Quando o Zico começou a jogar no profissional do Flamengo, em 1974, eu tinha 9 anos, idade que comecei a jogar bola na escola e na rua. Eu morava ao lado do Maracanã e assistia a quase todos os jogos do Flamengo. Por isso, quem me conhece sabe das minhas duas maiores paixões, o futebol e o cinema. Ainda hoje, com 60 anos de idade, jogo futebol todo o domingo e faço isso como uma homenagem a Zico, para mim o maior jogador depois de Pelé.  Escrevo essas palavras preliminares para situar a todos sobre o meu comprometimento emocional perante o tema. Acredito que a minha experiência de 40 anos no cinema permita que eu consiga refletir acerca do documentário Zico, O Samurai de Quintino , dirigido por João Wainer.  Lá pelo meio da projeção do filme comecei a me indagar de qual era o mote principal da proposta de João Wainer e confesso que fiquei confuso, pois não consegui identificar a intenção da direção. Evide...

ESPECIAL GIALLO COM OS FILMES SEIS MULHERES PARA O ASSASSINO (1964), TENEBRE (1982), UMA LAGARTIXA NUM CORPO DE MULHER (1971) E NO QUARTO ESCURO DE SATÃ (1972)

Texto por Marco Fialho   Giallo , um terror à italiana Esse texto foi realizado para uma mostra temática em homenagem ao Terror Giallo, nas Unidades do Sesc em todo o Brasil, em 2018 e 2019. A sedução exercida pela imagem é algo que muitos pensadores vem tentando compreender melhor. Mas quando essa sedução é permeada pela violência, a questão se torna um pouco mais complexa e nos faz indagar sobre o papel da imagem em nosso mundo contemporâneo. O terror é a vertente que mais se defronta com essa questão, e é no giallo , faceta italiana desse subgênero do terror, que talvez deixe mais evidente a relação entre violência, imagem estilizada e bela.  É sempre importante relativizar o que representa socialmente uma imagem. Ela não pode ser analisada simplesmente como uma verdade pronta e acabada. Uma imagem sem contexto descamba inevitavelmente para o blefe. Por isso, contextualizar, analisar, criticar e relativizar são atos necessários para a compreensão mais complexa ace...

SUSPÍRIA (1977) Dir. Dario Argento

Texto por Marco Fialho Quem não considera Dario Argento um grande diretor de cinema, só pode ser pelo preconceito em relação ao gênero terror. E essa rejeição é fácil de constatar nos principais livros considerados de referência histórica. Os diretores de terror não estão neles e esse alijamento é um fato que aos poucos vem mudando, para o  bem do cinema. Precisamos admitir, que Dario Argento como realizador é extraordinário, assim como Mario Bava (talvez o pai do subgênero g iallo  e maior influência de Argento), Lucio Fulci e Sergio Martino. Se alguém ainda duvida do talento esbanjado nesse estilo cinematográfico italiano, basta ir ao cinema para ver o relançamento do clássico Suspíria (1977), um dos grandes filmes dos anos 1970, com suas cores radiosas e contundência estilística inquestionáveis. Incompreensível foi constatar qual seria a necessidade de Luca Guadagnino, em 2018, refilmar essa obra tão perfeita. Qual seria o intuito, diminuí-la com uma versão inferior? Se era...

CINCO TIPOS DE MEDO (2025) Dir. Bruno Bini

Texto por Marco Fialho O maior atrativo de Cinco Tipos de Medo , filme dirigido por Bruno Bini, é a qualidade de sua produção. Tecnicamente, sua realização é realmente impecável. Contudo, essa eficiência técnica garante em si um resultado satisfatório para o filme? A resposta a essa pergunta depende de alguns fatores, como por exemplo, qual é a motivação do espectador ao entrar numa sala de cinema? Se o interesse dele é de puro entretenimento ou de refletir mais a fundo sobre as temáticas que uma obra se propõe retratar.   Se o interesse do espectador for meramente se entreter, Cinco Tipos de Medo vai satisfazer, já que o maior objetivo dessa obra é fazer o público grudar na cadeira pelo suspense e se deixar levar pela trama de ação onde o maior mote é o apelo dramático. Mas se o espectador se debruçar criticamente sobre o que é realmente construído a partir do filme, sua conclusão será outra. A grande questão que envolve a ideia de entretenimento é quando ela escamoteia a ide...

DIVA FUTURA (2026) Dir. Giulia Louise Steigerwalt

Texto por Carmela Fialho Diva Futura , dirigido por Giulia Louise Steigerwalt, procura abordar a indústria pornográfica italiana a partir da agência que dá título ao filme. A narrativa se desenvolve durante as décadas de 1980 e 1990, época na qual as atrizes Cicciolina (Lidija Kordic) e Moana Pozzi (Denise Capezza) estavam em alta no mercado pornográfico italiano e mundial. Diva Futura foca principalmente na figura de Riccardo Schicchi, interpretado por Pietro Castellitto, idealizador da empresa, que tinha como objetivo encontrar talentos profissionais voltados para conteúdos cinematográficos adultos. Giulia Louise Steigerwalt se baseia no livro da secretária de Schichi, Debora, interpretada por Barbara Ronchi. Apesar da agência de modelo Diva Futura ter sido criada por Ricardo e Cicciolina, pouco destaque é dado à personagem, com alguns momentos em que ela realmente participa do desenrolar da trama, sendo reservado a Cicciolina bem menos tempo de tela do que mereceria, devid...

MIRRORS Nº 3 (2025) Dir. Christian Petzold

Texto por Marco Fialho É chover no molhado dizer que o realizador alemão Christian Petzold está entre os grandes cineastas contemporâneos. Obras como Em Trânsito (2018), Afire (2023) e Phoenix (2014) são alguns exemplos de sua capacidade criativa de por em suspenso as ideias cristalizadas dos espectadores sobre identidades fraturadas por guerras e outros litígios humanos.  Agora com Mirros Nº 3  o diretor se embrenha em diversas encruzilhadas e labirintos da condição humana, penetra nas subjetividades mais enclausuradas e nas esperanças mais palpáveis que surgem pelos caminhos da vida. Aqui, tanto Laura (Paula Beer, sua atriz fetiche) quanto Betty (Barbara Auer, simplesmente estupenda) se encontram por um acidente do destino, cada qual vivendo suas tragédias pessoais. Petzold mostra sua genialidade ao conduzir a trama revelando quase nada das vidas pregressas delas, como se assim desse pelo cinema mais uma oportunidade para ambas reconstruírem suas frágeis existências. A narra...

PAPAGAIOS (2025) Dir. Douglas Soares

Texto por Marco Fialho Papagaios é um filme talhado para o talento do ator Gero Camilo. Cada aparição sua é uma dádiva, é impossível não admirar cada segundo em que ele está em cena como Tunico. Mas Papagaios felizmente não é só isso, a direção de Douglas Soares também merece destaque por apresentar uma mise-en-scène bem construída, econômica, elegante e instigante, que não mostra tudo, que se esquiva no momento certo, dando espaço para a dubiedade da trama. Papagaios centra sua narrativa em um universo típico da contemporaneidade, o das subcelebridades, essas pessoas que mesmo não tendo um talento em especial, buscam a fama a qualquer preço, graças ao papel que desempenham os meios de comunicação. Tunico poderia ser um personagem dos atuais reality shows , mas não, ele é o que chamamos de papagaio de pirata, isto é, aquela pessoa que se põe atrás de uma reportagem para aparecer, mesmo que seja em segundo plano.  Tunico não é o único a exercer esse papel, volta e meia um pequeno gr...

BELADONA (2026) Dir. Alanté Kavaïté

Texto por Marco Fialho Beladona , dirigido pela diretora Alanté Kavaïté (filha de lituanos) ,   é um filme que investe numa ideia distópica em um futuro próximo. A história é cercada por mistérios e se passa em uma ilha onde moram alguns idosos cuidados pela jovem Gaëlle (Nadia Tereszkiewicz), que resistem a uma política do governo que os capturam para os obrigarem a viver presos, afastados da sociedade.  No filme, a ilha é abalada pela chegada de dois jovens irmãos, Aline (Daphné Patakia) e David (Dali Benssalah), que contrariam o sistema rígido mantido por Gaëlle. Os irmãos seduzem os idosos com suas visões ousadas sobre a vida e irritam Gaëlle.  Beladona pode ser lido como uma metáfora sobre como podemos modificar nossa forma de viver, visando a alargar a nossa vivência feliz nesse mundo. Mas a diretora Alanté Kavaïté toma um caminho que pouco desnuda os verdadeiros interesses dos dois irmãos e dos próprios idosos, fazendo emergir do filme um interesse pela dúvida...