Texto por Marco Fialho Quem acompanha o diretor Eduardo Nunes desde o seu primeiro longa, o belíssimo Sudoeste (2011), sabe o quanto o seu cinema é singular. Em seu terceiro projeto, Cinco da Tarde podemos comprovar a originalidade narrativa emanada de sua obra. Um filme que impõe um ritmo e que nos lança numa imersão no tempo das personagens, o que nos faz querer acompanhá-lo do início ao fim. Na trama, Anabel (Bárbara Luz, de Ainda Estou Aqui ), uma jovem de 17 anos, perde a vó e precisa lidar com essa ausência, com a falta dela depois de tanto compartilhamento de vida e de cotidiano, já que a mãe mora longe, em Belo Horizonte. Ela é acolhida nesse momento difícil pela sua vizinha Meiko (a estreante Sharon Cho), mas o filme é mais sobre Anabel, de como ela vai lidar com a solidão e o desemparo afetivo que sente, especialmente porque o filme se desenrola durante a pandemia da Covid-19, época marcada pelo isolamento social. Bárbara Luz constrói uma personagem com rara sensibilidade e n...
Texto por Marco Fialho Criadas é um filme sobre relações interpessoais e uma casa numa região hoje gentrificada na capital paulista. A direção de Carol Rodrigues explora essa casa como o simbólico de uma opressão racista e classista revelada a partir do encontro entre Mariana (Ana Flavia Cavalcanti) e Sandra (Mawusi Tulani), duas primas negras que vivenciaram a mesma casa, mas com experiências e posições completamente diferentes. Mariana como a filha da dona da casa e Sandra como a filha da empregada doméstica Ivone. No transcurso de Criadas fica evidente o quanto a casa se coloca como um personagem crucial e carrega memórias e fantasmas sociais para além da família e de seus empregados, pois ela representa em sua própria divisão espacial uma forma de poder e opressão. Não casualmente, os fantasmas do passado brotam inconscientemente por meio de Mariana e Sandra, afinal não há como conceber o presente apagando os fatos vividos naquele ambiente. Criadas é sobretudo uma...