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NINO DE SEXTA A SEGUNDA (2025) Dir. Pauline Loquès

Texto por Marco Fialho A primeira imagem de Nino de Sexta a Segunda , diz muto sobre o que veremos no restante do filme. O protagonista Nino é visto apenas parcialmente na tela enquanto fala com uma atendente em um hospital, e com isso, a diretora estreante em longas Pauline Loquès salienta a personalidade de Nino e o desafio do próprio filme de desvelar esse personagem em franco processo de autoconhecimento ao descobrir que sofre de uma grave doença.  A interpretação de Théodore Pellerin como Nino é extraordinária e lhe valeu um prêmio de ator revelação no César, conhecido como o Oscar do cinema francês, além de angariar um prêmio semelhante no prestigioso Festival de Cannes de 2025. Outro prêmio recebido por Nino de Sexta a Segunda  foi o de Melhor Primeiro Filme de um(a) diretor(a), também no César.  Como Nino é um personagem em busca de si mesmo, a diretora mostra os três dias dele antes do início do tratamento e essa peregrinação é colaborada pelo fato do rapaz ter p...
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ECLIPSE (2026) Dir. Djin Sganzerla

Texto por Carmela Fialho e Marco Fialho Eclipse parte de uma lenda indígena que trata de dois elementos separados pelas suas naturezas (sol e lua), e juntados pelas garras da onça, guardiã das estrelas, segundo a tradição indígena. Essa explicação serve de metáfora para que a diretora Djin Sganzerla adentre em um universo para lá de atual, o da cultura da violência do patriarcado contra a mulher.  Na trama, Cleo (Djin Sganzerla) é uma astrofísica que estuda os corpos celestes, isto é, vive o maior tempo cuidando de fenômenos espaciais enquanto não vê fatos que ocorrem na Terra e que afetam diretamente a sua vida. É o caso do casamento que mantem com o advogado Tony (Sergio Guizé), do qual espera um filho, que a trata como princesa, mas oculta segredos sinistros no tempo em que não está com ela.  Mas é justamente no encontro com a sua meia-irmã indígena Nalu (Lian Gaia), que a sua vida tem uma reviravolta. Eclipse é um filme com fortes tintas sociais e construído numa narrativa...

AQUI NÃO ENTRA LUZ (2026) Dir. Karol Maia

Texto por Marco Fialho Falar das domésticas no Brasil sempre é revirar e reavivar o tema da origem escravocrata de nossa complexa formação social. Isso porque essa atividade profissional se relaciona direta e profundamente com as estruturas coloniais que se sustentaram pelo trabalho escravo. Aqui Não Entra Luz , dirigido por Karol Maia, trata frontalmente dessa questão tão delicada que precisa ser debatida com maior constância no Brasil. A ideia de realizar o documentário partiu da experiência de Miriam, a mãe da diretora, que trabalhou a vida toda como doméstica e babá em casas luxuosas de famílias privilegiadas economicamente em São Paulo. Quem são essas mulheres? O que elas vivem e sonham? Quais as humilhações elas sofreram no decorrer de suas carreiras como domésticas? Para quem tem um mínimo de consciência de como o Brasil se estrutura socialmente, essas são perguntas nas quais intuímos as respostas. O filme exibe imagens de senzalas e de quartos de empregadas, ambos projetados se...

O DESPERTAR DE LILITH (2016) Dir. Monica Demes

Texto por Marco Fialho O Despertar de Lilith parte de uma adaptação contemporânea da mitologia de Lilith, uma enigmática personagem que foi mulher de Adão antes de Eva, mas não se submeteu a ideia de inferioridade, e se manda do paraíso para se tornar uma figura demoníaca. Recentemente, foi ressignificada como símbolo de liberdade e resistência feminista contra o patriarcado. O filme narra a história de Lucy (Sophia Woodward), uma jovem que vive oprimida em uma rotina insuportável, entre a vida com o autoritário e indiferente marido Jonathan (Sam Garles); o trabalho na loja de conveniência de um posto de gasolina, cujo pai é o chefe e trabalha numa oficina mecânica nos fundos da loja; e ainda precisa aturar o assédio sexual do mecânico Arthur (Matthew Lloyd Wilcox), que tenta estuprá-la.  A narrativa da diretora Monica Demes se constrói sem pressa, em um límpido e marcante P&B. O clima opressor é ditado por cenas com poucos diálogos e um clima sonoro que salienta o tom misterio...

A FÚRIA (2024) Dir. Ruy Guerra e Luciana Mazzotti

Texto por Marco Fialho Como é notável ver um diretor consagrado, como Ruy Guerra, com 93 anos dirigir um filme tão jovem em frescor e pulsação como é  A Fúria , mesmo que a direção seja dividida com Luciana Mazzotti. Que vigor, emana de cada quadro filmado por essa obra absolutamente genial. Impressionante como tudo que ecoa na tela é tão demolidoramente brasileiro. Ali está a nossa história e também a de Ruy Guerra, lembrando que aqui ele fecha a trilogia iniciada em Os Fuzis (1964), um dos maiores filmes do cinema brasileiro e continuada em  A Queda (1976), que dividiu a direção com Nelson Xavier. O roteiro maravilhoso é de Pedro Freire e Leandro Saraiva, tendo sido finalizado pela própria direção.  Os dois filmes ( Os Fuzis e A Queda ) invadem A Fúria , tal como um documentário, eles interagem com a  narrativa de A Fúria e com os corpos de alguns personagens, como Mario (antes Nelson Xavier e agora Ricardo Blat). Mas o que seria de A Fúria sem a excepcional conc...

A SOMBRA DO MEU PAI (2025) Dir. Akinola Davies Jr.

Texto por Marco Fialho Qual a relação da política em nossas vidas? Raramente nos perguntamos isso, embora esse peso seja mais efetivo do imaginamos em nosso cotidiano. A Sombra do Meu Pai , produção inglesa dirigida pelo diretor nigeriano Akinola Davies Jr., aprofunda essa interação de uma maneira sensível, tendo duas crianças como importantes alicerces narrativos, o que confere ludicidade e maior carga emotiva ao filme.  Essas crianças são dois irmãos nigerianos, Olaremi (Chibuike Marvellous Egbo), de 11 anos e Akinola (Godwin Egbo) de 8 anos, que vivem com seus pais numa região afastada do Centro e raramente veem o pai Folarin (Sopé Dirísù), um homem de pouco estudo, que precisa ir buscar o sustento da família na agitada Capital Lagos. A política está a todo instante como um pano de fundo na trama, seja por manchetes de jornais impressos, nos noticiários da TV ou nas ruas de Lagos, com discussões sobre a eleição e com grupos militares carrancudos desfilando com seus carros do exé...

ZICO, O SAMURAI DE QUINTINO (2026) Dir. João Wainer

Texto por Marco Fialho Preciso começar esse texto com um relato pessoal. Quando o Zico começou a jogar no profissional do Flamengo, em 1974, eu tinha 9 anos, idade que comecei a jogar bola na escola e na rua. Eu morava ao lado do Maracanã e assistia a quase todos os jogos do Flamengo. Por isso, quem me conhece sabe das minhas duas maiores paixões, o futebol e o cinema. Ainda hoje, com 60 anos de idade, jogo futebol todo o domingo e faço isso como uma homenagem a Zico, para mim o maior jogador depois de Pelé.  Escrevo essas palavras preliminares para situar a todos sobre o meu comprometimento emocional perante o tema. Acredito que a minha experiência de 40 anos no cinema permita que eu consiga refletir acerca do documentário Zico, O Samurai de Quintino , dirigido por João Wainer.  Lá pelo meio da projeção do filme comecei a me indagar de qual era o mote principal da proposta de João Wainer e confesso que fiquei confuso, pois não consegui identificar a intenção da direção. Evide...

ESPECIAL GIALLO COM OS FILMES SEIS MULHERES PARA O ASSASSINO (1964), TENEBRE (1982), UMA LAGARTIXA NUM CORPO DE MULHER (1971) E NO QUARTO ESCURO DE SATÃ (1972)

Texto por Marco Fialho   Giallo , um terror à italiana Esse texto foi realizado para uma mostra temática em homenagem ao Terror Giallo, nas Unidades do Sesc em todo o Brasil, em 2018 e 2019. A sedução exercida pela imagem é algo que muitos pensadores vem tentando compreender melhor. Mas quando essa sedução é permeada pela violência, a questão se torna um pouco mais complexa e nos faz indagar sobre o papel da imagem em nosso mundo contemporâneo. O terror é a vertente que mais se defronta com essa questão, e é no giallo , faceta italiana desse subgênero do terror, que talvez deixe mais evidente a relação entre violência, imagem estilizada e bela.  É sempre importante relativizar o que representa socialmente uma imagem. Ela não pode ser analisada simplesmente como uma verdade pronta e acabada. Uma imagem sem contexto descamba inevitavelmente para o blefe. Por isso, contextualizar, analisar, criticar e relativizar são atos necessários para a compreensão mais complexa ace...

SUSPÍRIA (1977) Dir. Dario Argento

Texto por Marco Fialho Quem não considera Dario Argento um grande diretor de cinema, só pode ser pelo preconceito em relação ao gênero terror. E essa rejeição é fácil de constatar nos principais livros considerados de referência histórica. Os diretores de terror não estão neles e esse alijamento é um fato que aos poucos vem mudando, para o  bem do cinema. Precisamos admitir, que Dario Argento como realizador é extraordinário, assim como Mario Bava (talvez o pai do subgênero g iallo  e maior influência de Argento), Lucio Fulci e Sergio Martino. Se alguém ainda duvida do talento esbanjado nesse estilo cinematográfico italiano, basta ir ao cinema para ver o relançamento do clássico Suspíria (1977), um dos grandes filmes dos anos 1970, com suas cores radiosas e contundência estilística inquestionáveis. Incompreensível foi constatar qual seria a necessidade de Luca Guadagnino, em 2018, refilmar essa obra tão perfeita. Qual seria o intuito, diminuí-la com uma versão inferior? Se era...

CINCO TIPOS DE MEDO (2025) Dir. Bruno Bini

Texto por Marco Fialho O maior atrativo de Cinco Tipos de Medo , filme dirigido por Bruno Bini, é a qualidade de sua produção. Tecnicamente, sua realização é realmente impecável. Contudo, essa eficiência técnica garante em si um resultado satisfatório para o filme? A resposta a essa pergunta depende de alguns fatores, como por exemplo, qual é a motivação do espectador ao entrar numa sala de cinema? Se o interesse dele é de puro entretenimento ou de refletir mais a fundo sobre as temáticas que uma obra se propõe retratar.   Se o interesse do espectador for meramente se entreter, Cinco Tipos de Medo vai satisfazer, já que o maior objetivo dessa obra é fazer o público grudar na cadeira pelo suspense e se deixar levar pela trama de ação onde o maior mote é o apelo dramático. Mas se o espectador se debruçar criticamente sobre o que é realmente construído a partir do filme, sua conclusão será outra. A grande questão que envolve a ideia de entretenimento é quando ela escamoteia a ide...