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AS MENINAS EXEMPLARES (2025) Dir. João Botelho

Texto por Marco Fialho Se o público brasileiro pouco sabe sobre o cinema português, imagina sobre o filme de comédia feito por aquelas bandas. As Meninas Exemplares  dirigido por João Botelho talvez seja uma boa oportunidade para uma aproximação.  Esse é deveras um filme de época nada convencional, que se utiliza do falso como um instrumento para se discutir relações familiares e interpessoais no mundo contemporâneo. Por isso mesmo,  As Meninas Exemplares pode ser visto como um formato de contrafábula, onde se ri ou se ironiza acerca de um universo ficcional, com toques teatrais que reforçam o artificialismo da proposta narrativa. Na trama, Sofia (Rita Durão), Madalena (Catarina Wellenstein) e Camila (Crista Afaiate) são três meninas que se unem durante as férias para viverem momentos de violência, repressão familiar e também de delícias que só a vida pode proporcionar. Mas essas personagens nos chegam com doses de assombro ao constatarmos que atrizes adultas estão a inte...
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A NOITE DE ALAÍDE (2026) Dir. Liliane Mutti

Texto por Marco Fialho Apesar da palavra racismo não ser pronunciada uma só vez em A Noite de Alaíde , documentário com toques ficcionais da diretora Liliane Mutti, ela ecoa a todo o instante no filme. Talvez essa fosse a intenção da produção, evidenciar sem precisar gritar o óbvio, de que a cantora Alaíde Costa foi preterida pela Bossa Nova pela cor da pele, inclusive no grupo que foi tocar no famoso show do Carnegie Hall, em 1962. Isso não quer dizer que o filme fuja do tema, ele apenas evita citar nomes e deixa à vista os fatos ocorridos.    A Noite de Alaíde ainda ronda nomes igualmente negros da nossa música que estiveram fortemente presente na carreira de Alaíde Costa, caso de Johnny Alf, Moacyr Santos, Baden Powell, sem contar com as gravações que fez com Milton Nascimento. O mais brilhante no filme é a construção que ele faz da diversa carreira de Alaíde Costa, de sua versatilidade como intérprete durante os discos gravados no decorrer dos anos. Ainda há entrevistas va...

SALVAÇÃO (2026) Dir. Emin Alper

Texto por Marco Fialho Ao ver Salvação pensei de imediato o quanto o cinema turco deveria chegar mais ao nosso circuito, na maioria das vezes levado por uma sucessão de desperdícios comerciais. Lembrei também na marca consistente e impactante da obra monumental de Nuri Bilge Ceylan no próprio cinema turco, em especial o drama consistente e duro que o cinema turco sabe explorar como poucos.  Salvação , premiado com o Urso de Prata no Festival de Berlim,   tem uma intensidade dramática que há muito o cinema hollywoodiano perdeu, e cito esse cinema especificamente por ser o que infelizmente mais nos chega por aqui. O filme narra a história de como se constrói líderes destrutivos, qual a atmosfera e circunstâncias que os forjam e os mantém. É interessante como o diretor Emin Alper soma à narrativa dramática o thriller e elementos fantasmagóricos que fortalecem à trama e o envolvimento do espectador.  Há uma tensão permanente em torno do personagem de Mesut (Caner Cindoruk), u...

TOQUINHO - ENCONTROS E UM VIOLÃO (2025) Dir. Erica Bernardini

Texto por Marco Fialho O documentário Toquinho - Encontros e um Violão , dirigido por Erica Bernardini, opta por uma abordagem mais afetiva do que biográfica do famoso compositor paulista. Os momentos tanto da infância quanto da carreira profissional em si são narrados pelo próprio Toquinho ou por familiares e amigos. Esse é um traço fundamental do filme, proporcionar um mergulho no talento do artista como compositor e instrumentista.  Erica Bernardini constrói sobre Toquinho uma visão muito próxima, calcada pelos depoimentos do irmão João e de artistas próximos a ele, como Carlinhos Vergueiro, Pedro Bial, Ornella Vanoni, Andreas Kisser, Jane Duboc, Eduardo Gudin, Roberto Rivellino, Amilson Godoy, entre outros. Há uma primazia dos depoimentos filmados na atualidade, enquanto o material de arquivo é usado pontualmente em algumas situações, especialmente na fase áurea do artista, quando firmou parceria com Vinícius de Moraes, um dos maiores poetas brasileiros e famoso por letrar músi...

NÓS ACREDITAMOS EM VOCÊS (2025) Dir. Charlotte Devillers e Arnaud Dufeys

Texto por Marco Fialho Carl Theodor Dreyer, cineasta dinamarquês e um dos pioneiros da linguagem cinematográfica, mostrou em A Paixão de Joana D'Arc (1928) o quanto um plano, no caso o close-up, pode ser determinante para que o espectador perceba o filme de uma maneira específica. O close-up na obra dinamarquesa em questão salienta a dramaticidade das cenas e nos faz sentir na própria pele a ardência do fogo e as angústias daquela mulher.  O resgate da obra de Dreyer me foi despertado durante a projeção de Nós Acreditamos em Vocês , drama francês dirigido a quatro mãos por Charlotte Devillers e Arnauld Dufeys e premiado com uma menção especial de melhor primeiro filme, no Festival de Berlim 2025. Essa premiação se mostra coerente especialmente pela forma como o filme acolhe o plano próximo. O seu uso calculado permite uma dupla função: a de concentrar e a de juntar a emoção do espectador com a da personagem Alice, numa interpretação difícil de Myriem Akheddiou, cujo desafio é criar...

ANATOMIA DO CAOS (2026) Dir. Dandara Ferreira

Texto por Marco Fialho Uma das facetas mais relevantes do filme documentário é a da denúncia, o poder que uma obra tem de mexer com a memória coletiva, para que se possa manter acesa a lembrança de um acontecimento. A pandemia do Coronavírus foi um marco para que nos fez enxergar como um país unido em torno de um problema comum, a de um vírus mortal que se alastra rapidamente pela propagação da saliva humana, o que trazia uma necessidade de isolamento social.  Anatomia do Caos , documentário dirigido por Dandara Ferreira ( Meu Nome é Gal ), prima pela concisão e precisão ao abordar as investigações da CPI do Coronavírus, que ocorreu no Senado Federal durante o governo genocida de Bolsonaro. Vale ressaltar o quanto ainda é doloroso voltar a esse tema que causou tanto sofrimento para o nosso país. Oficialmente foram mais de 700 mil mortes e um legado de maldade explícita de um governo que brecou todas as possibilidades de contornar o caos sanitário resultante de uma pandemia. Assim, ...

UMA INFÂNCIA ALEMÃ (2025) Dir. Fatih Akin

Texto por Marco Fialho São muito os filmes que retratam a infância durante a 2ª Guerra Mundial, podemos citar aqui Adeus, Meninos (1987), de Louis Malle; Esperança e Glória (1987), de John Boorman; Império do Sol  (1987), de Steven Spielberg;  Filhos da Guerra (1990), de Agnieszka Holland;  Vá e Veja (1985), de Elem Klimov, apenas para citar alguns, e todos entre 1985 e 1990. Todos esses abordam a posição de crianças separadas de suas famílias em plena guerra e sempre do lado da resistência.   Por isso, Uma Infância Alemã tem um diferencial em relação a essas obras por centrar a discussão em torno de uma criança do lado alemão, de Nanning (Jasper Billerbeck), uma criança cuja família defende e acredita na ideologia nazista. Ele e a família, são de Hamburgo, mas vivem na Ilha de Amrum e o filme mostra as vivências desse menino em meio ao inferno da guerra em 1945, nos últimos instantes da supremacia nazista. É interessante pensar o quanto o ambiente da guer...

NINGUÉM PODE PROVAR NADA - A INACREDITÁVEL HISTÓRIA DE EZEQUIEL NEVES

Texto por Marco Fialho Em documentários como Ninguém Pode Provar Nada - A Inacreditável História de Ezequiel Neves  a melhor coisa a fazer é buscar ser coerente com o personagem retratado, e nesse ponto, o diretor Rodrigo Pinto acerta em cheio o alvo. Falar de Ezequiel Neves, conhecido pela sua verve, rebeldia incontrolável e uma anticaretice extrema, é por si um imenso desafio, que a direção dribla com bastante desenvoltura.  O documentário traz momentos diversos da trajetória dessa personalidade que foi ator, jornalista e produtor musical, além de ator da vida, como bem define Cazuza em certo momento do filme. Rodrigo Pinto narra Ninguém Pode Provar Nada... sem pressa, valorizando bem todas as principais fases de Ezequiel, sem procurar esconder as polêmicas e idiossincrasias do personagem e isso valoriza a abordagem. Rodrigo Pinto não abre mão de nada, usa filmes dos quais Ezequiel participou como ator, voz off, ficção, imagens de arquivo e até inteligência artificial em nar...

AS CORRENTES (2025) Dir. Milagros Mumenthaler

Texto por Marco Fialho As Correntes , filme dirigido pela cineasta argentina Milagros Mumethaler, é uma pérola escondida em meio a um circuito que canibaliza talentos em troca de um faturamento marqueteiro. Algumas obras são propositadamente superdimensionadas e empurradas pelas nossas goelas pela força destrutiva do dinheiro, que no cinema está longe de erguer coisas belas para encher o mercado com um bando de xaropadas desclassificáveis.  Em As Correntes , a diretora Milagros nos brinda com uma obra refinada e inteligente ao instigar o espectador durante toda a projeção. Na tela vemos Lina, uma estilista de moda que está recebendo um prêmio pelo seu trabalho, mas logo as primeiras imagens somos convidados a acompanhar uma mulher em crise. Na primeira imagem de Lina, ela aparece refletida em um vidro, enquanto vemos vultos de pessoas passando e a paisagem de uma cidade da Suíça. Tudo ali não se vislumbra nítido, como se a falta de clareza já dissesse algo sobre o que assistir...

CINCO DA TARDE (2025) Dir. Eduardo Nunes

Texto por Marco Fialho Quem acompanha o diretor Eduardo Nunes desde o seu primeiro longa, o belíssimo Sudoeste (2011), sabe o quanto o seu cinema é singular. Em seu terceiro projeto, Cinco da Tarde podemos comprovar a originalidade narrativa emanada de sua obra. Um filme que impõe um ritmo e que nos lança numa imersão no tempo das personagens, o que nos faz querer acompanhá-lo do início ao fim. Na trama, Anabel (Bárbara Luz, de Ainda Estou Aqui ), uma jovem de 17 anos, perde a vó e precisa lidar com essa ausência, com a falta dela depois de tanto compartilhamento de vida e de cotidiano, já que a mãe mora longe, em Belo Horizonte. Ela é acolhida nesse momento difícil pela sua vizinha Meiko (a estreante Sharon Cho), mas o filme é mais sobre Anabel, de como ela vai lidar com a solidão e o desemparo afetivo que sente, especialmente porque o filme se desenrola durante a pandemia da Covid-19, época marcada pelo isolamento social. Bárbara Luz constrói uma personagem com rara sensibilidade e n...