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VELHOS BANDIDOS (2025) Dir. Cláudio Torres

Texto por Carmela Fialho O filme Velhos Bandidos do diretor Cláudio Torres pretende ser uma comédia recheada de aventuras usando truques de montagem que buscam trazer à trama agilidade e uma linguagem de filme de assalto.  Mesmo contando com grandes atores como Fernanda Montenegro, Ary Fontoura e Lázaro Ramos, o filme não consegue produzir no espectador grandes envolvimentos, pois a história já é bastante batida nos filmes de Hollywood, onde os bandidos enganam seus comparsas para ficar com o roubo. As estratégias de enganação dos velhos bandidos são bastante manjadas e durante a história já deduzimos o próximo passo, e assim, poucas são as surpresas. A trilha sonora utilizada também não traz grandes novidades, empregando músicas conhecidas do grande público, que buscam uma comunicação instantânea como o clássico do cancioneiro popular mundial  What a Wonderful World , imortalizado por Louis Armstrong e aqui interpretado pela carismática e talentosa Marisa Monte.  O maio...
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PELE DE VIDRO (2023) Dir. Denise Zmekhol

Texto por Marco Fialho Com tantos lançamentos fracos no mercado cinematográfico atual, ver um documentário maravilhoso como Pele de Vidro passar marginalmente no circuito brasileiro chega a ser uma afronta à inteligência brasileira. O título se refere a um ostentoso prédio localizado no Centro da capital de São Paulo e que representou um marco para a arquitetura modernista brasileira dos anos 1960. A diretora Denise Zmekhol é filha do já falecido arquiteto Roger Zmekhol, que projetou o prédio. Como homenagem, a diretora narra o filme como uma carta de reconciliação com o pai, já que no momento de sua morte eles estavam brigados. Pele de Vidro parte do individual, do familiar para atingir o geral e esse processo de expansão é realizado com imensa precisão, fazendo que o documentário se transforme em matéria de interesse para o nosso país.  Por isso, o que mais surpreende em Pele de Vidro  não é exatamente o interessante tom confidencial e pessoal que o filme engendra, mas sim c...

O OLHAR MISTERIOSO DO FLAMINGO (2025) Dir. Diego Céspedes

Texto por Marco Fialho O Olhar Misterioso do Flamingo é um filme sobre corpos e afetos que sobrevivem à aridez de um mundo brutal. O diretor Diego Céspedes realiza uma obra onde o lúdico vence o preconceito e a violência transfóbica.  Em plena região do deserto de Atacama, no norte do Chile, corpos trans resistem a uma aridez que ultrapassa a do território geológico, ora com graça ora com violência. Sobretudo, esses são corpos de enfrentamento, jamais passivos. As dicotomias mostradas na obra são desafiadoras para quem vive numa época estigmatizada pela chamada peste (ou se preferir, AIDS). Estamos na década de 1980 e no meio desses corpos misteriosos, tem Lidia (Tamara Cortes), uma menina de 12 anos criada por Flamingo (Matías Catalán), uma das mulheres trans que vive na casa comandada pela transmatriarca Jiboia (Paula Dinamarca).  Chama a atenção a meticulosa direção de elenco de O Olhar Misterioso do Flamingo , fora a mise-en-scène que coloca o espectador bem próximo dos pe...

A GRAÇA (2025) Dir. Paolo Sorrentino

Texto por Marco Fialho Paolo Sorrentino ( A Grande Beleza ) é um cineasta vibrante. Suas narrativas mergulham na alma dos seus protagonistas e A Graça vem reafirmar essa marca indelével desse diretor que é um dos maiores de sua geração, além de selar uma parceria de longa data com o genial Toni Servillo, agraciado no Festival de Veneza com o prêmio de melhor ator por este trabalho.    A Graça narra os últimos dias de mandato de Mariano de Santis, um presidente da república que precisa examinar dois indultos ligados a assassinatos e uma lei que aprova a prática da eutanásia. O mais impressionante do filme é competência na construção da personalidade austera do presidente, que contrasta com uma câmera muito leve que flutua em volta de Mariano, como se quisesse revelar seus desejos, medos, frustrações e vontades, sublinhando aspectos humanistas presente no cargo de presidente e o quanto é difícil o ato de tomar decisões que vão impactar um contingente imenso de pessoas e institui...

A MENSAGEIRA (2025) Dir. Iván Fund

Texto por Marco Fialho Tem filmes que são tão leves que aparentemente não oferecem muita coisa para se discutir. É o caso de A Mensageira , dirigido pelo argentino Iván Fund e premiado com o Urso de Prata, Prêmio do Júri no Festival de Berlim. Tudo aqui em A Mensageira  não é o que parece ser. Se repararmos bem, a própria fotografia em P&B evoca algo de irreal, mesmo que a trama nos empurre para o realismo. Esses são artifícios interessantes implantados no cerne de uma narrativa que flui sem pressa perante os nossos olhos. A Mensageira chega embalado por um sui generis road movie , centrado em Anika, uma menina que vive em uma van com o casal de tutores Myriam (Mara Bestalli) e Roger (Marcelo Subiotto, de Puan ), e juntos formam uma família atípica, que vive de um suposto talento de Anika (Anika Bootz) de falar com animais mortos. Assim, as pessoas buscam a menina ansiosos por receberem mensagens de seus amados bichos de estimação. Um dos pontos fortes de A Mensageira é a ...

FELIZ ANIVERSÁRIO EM BELGRADO (2021) Dir. Milica Tomovic

Texto por Marco Fialho Como ser feliz em plena guerra que arruína o emocional das pessoas que residem em países em conflito? Essa é a pergunta que fica em  Feliz Aniversário em Belgrado , do diretor Milica Tomovic, ao abordar a Guerra da Bósnia (1992-1995), que terminou por dissolver a antiga Iugoslávia e abalar a vida de tantas pessoas que nasceram nesses territórios marcados pela hostilidade.  O filme se passa em um período de 24 horas, numa casa situada em um bairro afastado do Centro de Belgrado, mas que muito diz sobre a alma desse povo que sofre com a guerra. E o diretor Tomovic se utiliza da festa de 8 anos da menina Minja (Katarina Dimic) para revelar muitas curiosidades da vida dos adultos presentes na festa.  A mise-en-scène de Tomovic se mostra bem interessante pelo fato da câmera aproveitar os espaços íntimos da casa para desvelar relações, conflitos e indiscrições entre os presentes. Casais em crise, inclusive os pais da menina Minja, Marijana (Dubravka Kovj...

PARQUE LEZAMA (2026) Dir. Juan José Campanella

Texto por Marco Fialho O maior desafio de Parque Lezama , novo filme do consagrado diretor argentino Juan José Campanella, é driblar o seu formato original, o teatro. A peça I'm Not Rappaport , de autoria de Herb Gardner, serve de base textual para a adaptação, quase toda encenada em um banco de praça do Parque Lezama, em San Telmo, onde dois senhores de idade estabelecem uma relação ditada por suas solidões e expectativas de vida.  A base dramática de Parque Lezama é o poder de fabulação dos personagens, e que às vezes descamba para o humor, o que justifica Campanella escolher dois atores impecáveis para essa empreitada, Eduardo Blanco (Cardozo) faz um personagem mais velho do que sua idade atual, com Campanella tendo que o maquiar para que caiba no papel. Já Luis Brandoni (León), representa um militante comunista que a todo instante reinventa sua vida pela força da imaginação. Evidente que o mais crucial aqui é a sintonia entre esses dois atores extraordinários, que nitidamente s...

A NOIVA! (2026) Dir. Maggie Gyllenhaal

Texto* por Marco Fialho * A crítica contém spoilers.  Quem acompanha meus textos sabe o quanto eu sou crítico à espetacularização no cinema, em especial o quanto ela veste lindamente os filmes por fora sem se preocupar em mostrar qual essência se pode extrair da imagem retratada, o que resulta quase sempre em obras repletas de beleza, superficialidade e vazio. Normalmente, são os grandes estúdios hollywoodianos que se prestam a tal serviço, numa busca por uma boa bilheteria, alavancada por uma bela e eficaz campanha de marketing. O surpreendente é quando um diretor ou diretora consegue impor um projeto dentro da indústria hollywoodiana que contraria essas normas empresariais que facilitam o superficial. Creio que Maggie Gyllenhaal tenha esse mérito ao realizar A Noiva! , logo em seu segundo longa, uma obra das mais consistentes e belas do nosso cinema contemporâneo, e o melhor, que tenha feito essa proeza dentro da maior e mais influente indústria cinematográfica mundial. Mas já se...

MOTHER'S BABY (2025) Dir. Johanna Moder

Texto por Marco Fialho Mother's Baby é um filme estranho, por isso, o melhor que o crítico pode fazer é tentar elucidar ao máximo como essa estranheza se edificou pelas mãos da diretora Johanna Moder, quais os elementos que ela utiliza para reafirmar um incômodo que é cena a cena cada vez mais latente. Mas devemos também averiguar o quanto é eficaz a execução de suas pretensões narrativas, isto é, o resultado final que é alcançado. A primeira constatação que quero fazer é sobre o realismo que envolve a proposta narrativa de Johanna Moder. As interpretações, as locações, a fotografia e a montagem, todos esses elementos são extremamente realistas, ou visam reafirmar essa ideia. Assim, a narrativa evolui em torno de Julia (Marie Leuenberger) e do marido Georg (Hans Löw) na tentativa de fazer uma inseminação artificial para ter um filho por meio da clínica do Dr. Vilfort (Claes Bang). No parto, algo acontece e o bebê é retirado às pressas da sala do parto, sem que os pais consigam olha...

KOKUHO: O PREÇO DA PERFEIÇÃO (2025) Dir. Sang-il Lee

Texto por Marco Fialho Intensidade dramática define Kokuho: O Preço da Perfeição , filme do cineasta japonês Sang-il Lee. Inclusive, nota-se uma boa influência narrativa do bom cinema clássico hollywoodiano ao retratar a vida artística de Kikuo (Ryo Yoshizawa), um rapaz de 14 anos pretendente ao posto de ator do tradicional teatro Kabuki. Essa é uma produção esmerada, talvez longa em demasia, que sabe construir a jornada desse intrigante personagem.  Apesar de retratar uma manifestação tradicional no Japão, desde o século XVII, o filme se passa em meados do século XX, depois da derrota na Segunda Guerra. Kohuo era um filho de um chefe Yakuza, que confia sua educação artística a um consagrado ator Kabuki. O papel mais cobiçado dentro do Kabuki é o Onnagata , papel feminino interpretado por um ator homem, já que lá no século XVII, o xogunato, que governava o Japão, não permitiu a participação das mulheres no teatro.  Visualmente, Kokuho: O Preço da Perfeição é impecável, com a c...