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ERA UMA VEZ MINHA MÃE (2025) Dir. Ken Scott

Texto por Marco Fialho Era Uma Vez Minha Mãe narra a história da relação conturbada de Roland (Jonathan Cohen) com sua mãe Esther (Leila Bekhti). Esse filme representa um tipo de cartilha, do que é chamada uma mãe judia, aquela que às vezes aparece nos filmes cômicos de Woody Allen e em tantos outros.  O filme explora os aspectos positivos e negativos dessa mãe que faz tudo pelo filho, ainda mais que Roland nasceu com uma deficiência, a de ter o pé torto. Desde o início Esther não aceita os diagnósticos e batalha contra a deficiência do filho com todas as suas forças, chegando até a deixar de lado os outros 5 filhos. O menino anda se deslizando pelo chão, já que o ato de andar, ou a sua simples tentativa, pioraria seu quadro.  O diretor Ken Scott realiza uma obra leve na abordagem, embora um pouco apressada com planos que passam lépidos e uma montagem que almeja manter uma comunicação constante com o espectador, embora jamais o tire de uma zona de conforto. Nesse ponto, Ken Sc...
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FANON (2024) Dir. Jean-Claude Barny

Texto por Marco Fialho e Carmela Fialho Embora o filme Fanon , dirigido por Jean-Claude Barny, seja narrado cronologicamente e apresentado dentro de uma linearidade e de uma narrativa clássica, a força da encenação serve como uma escora vigorosa para que a sua fluência e contundência permita que o personagem de Frantz Fanon seja arrebatador da primeira à última cena, isso tanto para o bem quanto para o mal.  Os méritos e os problemas de Jean-Claude Barny começam na escolha do elenco, Alexandre Bouyer está imponente com Fanon e Déborah François está incrivelmente forte como Josie Fanon, a esposa branca e esquerdista que apoiou Frantz até o fim. Ainda assim, cabe questionar a escolha tanto do ator quanto da atriz, por ambos possuírem corpos em um padrão estético mais para as exigências do século 21 do que do século 20. O Fanon cinematográfico é bem mais atlético do que o original (e isso é muito visível nas cenas em que seu corpo é mostrado nu) e o mesmo vale para a escolha de Débora...

NINO DE SEXTA A SEGUNDA (2025) Dir. Pauline Loquès

Texto por Marco Fialho A primeira imagem de Nino de Sexta a Segunda , diz muto sobre o que veremos no restante do filme. O protagonista Nino é visto apenas parcialmente na tela enquanto fala com uma atendente em um hospital, e com isso, a diretora estreante em longas Pauline Loquès salienta a personalidade de Nino e o desafio do próprio filme de desvelar esse personagem em franco processo de autoconhecimento ao descobrir que sofre de uma grave doença.  A interpretação de Théodore Pellerin como Nino é extraordinária e lhe valeu um prêmio de ator revelação no César, conhecido como o Oscar do cinema francês, além de angariar um prêmio semelhante no prestigioso Festival de Cannes de 2025. Outro prêmio recebido por Nino de Sexta a Segunda  foi o de Melhor Primeiro Filme de um(a) diretor(a), também no César.  Como Nino é um personagem em busca de si mesmo, a diretora mostra os três dias dele antes do início do tratamento e essa peregrinação é colaborada pelo fato do rapaz ter p...

ECLIPSE (2026) Dir. Djin Sganzerla

Texto por Carmela Fialho e Marco Fialho Eclipse parte de uma lenda indígena que trata de dois elementos separados pelas suas naturezas (sol e lua), e juntados pelas garras da onça, guardiã das estrelas, segundo a tradição indígena. Essa explicação serve de metáfora para que a diretora Djin Sganzerla adentre em um universo para lá de atual, o da cultura da violência do patriarcado contra a mulher.  Na trama, Cleo (Djin Sganzerla) é uma astrofísica que estuda os corpos celestes, isto é, vive o maior tempo cuidando de fenômenos espaciais enquanto não vê fatos que ocorrem na Terra e que afetam diretamente a sua vida. É o caso do casamento que mantem com o advogado Tony (Sergio Guizé), do qual espera um filho, que a trata como princesa, mas oculta segredos sinistros no tempo em que não está com ela.  Mas é justamente no encontro com a sua meia-irmã indígena Nalu (Lian Gaia), que a sua vida tem uma reviravolta. Eclipse é um filme com fortes tintas sociais e construído numa narrativa...

AQUI NÃO ENTRA LUZ (2026) Dir. Karol Maia

Texto por Marco Fialho Falar das domésticas no Brasil sempre é revirar e reavivar o tema da origem escravocrata de nossa complexa formação social. Isso porque essa atividade profissional se relaciona direta e profundamente com as estruturas coloniais que se sustentaram pelo trabalho escravo. Aqui Não Entra Luz , dirigido por Karol Maia, trata frontalmente dessa questão tão delicada que precisa ser debatida com maior constância no Brasil. A ideia de realizar o documentário partiu da experiência de Miriam, a mãe da diretora, que trabalhou a vida toda como doméstica e babá em casas luxuosas de famílias privilegiadas economicamente em São Paulo. Quem são essas mulheres? O que elas vivem e sonham? Quais as humilhações elas sofreram no decorrer de suas carreiras como domésticas? Para quem tem um mínimo de consciência de como o Brasil se estrutura socialmente, essas são perguntas nas quais intuímos as respostas. O filme exibe imagens de senzalas e de quartos de empregadas, ambos projetados se...

O DESPERTAR DE LILITH (2016) Dir. Monica Demes

Texto por Marco Fialho O Despertar de Lilith parte de uma adaptação contemporânea da mitologia de Lilith, uma enigmática personagem que foi mulher de Adão antes de Eva, mas não se submeteu a ideia de inferioridade, e se manda do paraíso para se tornar uma figura demoníaca. Recentemente, foi ressignificada como símbolo de liberdade e resistência feminista contra o patriarcado. O filme narra a história de Lucy (Sophia Woodward), uma jovem que vive oprimida em uma rotina insuportável, entre a vida com o autoritário e indiferente marido Jonathan (Sam Garles); o trabalho na loja de conveniência de um posto de gasolina, cujo pai é o chefe e trabalha numa oficina mecânica nos fundos da loja; e ainda precisa aturar o assédio sexual do mecânico Arthur (Matthew Lloyd Wilcox), que tenta estuprá-la.  A narrativa da diretora Monica Demes se constrói sem pressa, em um límpido e marcante P&B. O clima opressor é ditado por cenas com poucos diálogos e um clima sonoro que salienta o tom misterio...

A FÚRIA (2024) Dir. Ruy Guerra e Luciana Mazzotti

Texto por Marco Fialho Como é notável ver um diretor consagrado, como Ruy Guerra, com 93 anos dirigir um filme tão jovem em frescor e pulsação como é  A Fúria , mesmo que a direção seja dividida com Luciana Mazzotti. Que vigor, emana de cada quadro filmado por essa obra absolutamente genial. Impressionante como tudo que ecoa na tela é tão demolidoramente brasileiro. Ali está a nossa história e também a de Ruy Guerra, lembrando que aqui ele fecha a trilogia iniciada em Os Fuzis (1964), um dos maiores filmes do cinema brasileiro e continuada em  A Queda (1976), que dividiu a direção com Nelson Xavier. O roteiro maravilhoso é de Pedro Freire e Leandro Saraiva, tendo sido finalizado pela própria direção.  Os dois filmes ( Os Fuzis e A Queda ) invadem A Fúria , tal como um documentário, eles interagem com a  narrativa de A Fúria e com os corpos de alguns personagens, como Mario (antes Nelson Xavier e agora Ricardo Blat). Mas o que seria de A Fúria sem a excepcional conc...

A SOMBRA DO MEU PAI (2025) Dir. Akinola Davies Jr.

Texto por Marco Fialho Qual a relação da política em nossas vidas? Raramente nos perguntamos isso, embora esse peso seja mais efetivo do imaginamos em nosso cotidiano. A Sombra do Meu Pai , produção inglesa dirigida pelo diretor nigeriano Akinola Davies Jr., aprofunda essa interação de uma maneira sensível, tendo duas crianças como importantes alicerces narrativos, o que confere ludicidade e maior carga emotiva ao filme.  Essas crianças são dois irmãos nigerianos, Olaremi (Chibuike Marvellous Egbo), de 11 anos e Akinola (Godwin Egbo) de 8 anos, que vivem com seus pais numa região afastada do Centro e raramente veem o pai Folarin (Sopé Dirísù), um homem de pouco estudo, que precisa ir buscar o sustento da família na agitada Capital Lagos. A política está a todo instante como um pano de fundo na trama, seja por manchetes de jornais impressos, nos noticiários da TV ou nas ruas de Lagos, com discussões sobre a eleição e com grupos militares carrancudos desfilando com seus carros do exé...

ZICO, O SAMURAI DE QUINTINO (2026) Dir. João Wainer

Texto por Marco Fialho Preciso começar esse texto com um relato pessoal. Quando o Zico começou a jogar no profissional do Flamengo, em 1974, eu tinha 9 anos, idade que comecei a jogar bola na escola e na rua. Eu morava ao lado do Maracanã e assistia a quase todos os jogos do Flamengo. Por isso, quem me conhece sabe das minhas duas maiores paixões, o futebol e o cinema. Ainda hoje, com 60 anos de idade, jogo futebol todo o domingo e faço isso como uma homenagem a Zico, para mim o maior jogador depois de Pelé.  Escrevo essas palavras preliminares para situar a todos sobre o meu comprometimento emocional perante o tema. Acredito que a minha experiência de 40 anos no cinema permita que eu consiga refletir acerca do documentário Zico, O Samurai de Quintino , dirigido por João Wainer.  Lá pelo meio da projeção do filme comecei a me indagar de qual era o mote principal da proposta de João Wainer e confesso que fiquei confuso, pois não consegui identificar a intenção da direção. Evide...

ESPECIAL GIALLO COM OS FILMES SEIS MULHERES PARA O ASSASSINO (1964), TENEBRE (1982), UMA LAGARTIXA NUM CORPO DE MULHER (1971) E NO QUARTO ESCURO DE SATÃ (1972)

Texto por Marco Fialho   Giallo , um terror à italiana Esse texto foi realizado para uma mostra temática em homenagem ao Terror Giallo, nas Unidades do Sesc em todo o Brasil, em 2018 e 2019. A sedução exercida pela imagem é algo que muitos pensadores vem tentando compreender melhor. Mas quando essa sedução é permeada pela violência, a questão se torna um pouco mais complexa e nos faz indagar sobre o papel da imagem em nosso mundo contemporâneo. O terror é a vertente que mais se defronta com essa questão, e é no giallo , faceta italiana desse subgênero do terror, que talvez deixe mais evidente a relação entre violência, imagem estilizada e bela.  É sempre importante relativizar o que representa socialmente uma imagem. Ela não pode ser analisada simplesmente como uma verdade pronta e acabada. Uma imagem sem contexto descamba inevitavelmente para o blefe. Por isso, contextualizar, analisar, criticar e relativizar são atos necessários para a compreensão mais complexa ace...