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A VIDA DE MARIA MANUELA (2025) Dir. João Marques

Texto por Marco Fialho  A Vida de Maria Manuela , dirigido por João Marques é um documentário sobre a jornada de 4 anos do amadurecimento de uma adolescente à idade adulta. Maria Manuela é uma artista que se relaciona com as cores e as formas de uma maneira muito própria. O filme da vida dela é filmado por um amigo, que a acompanha nessa jornada.  Há muitos registros da personalidade ainda muito infantil da personagem, dos excessos típicos dessa fase da vida e da forte interferência do celular como instrumento de divulgação não só do trabalho como da sua vida. A narrativa se impregna dessa vertigem que é a vida dessa jovem, o que faz com que a primeira parte seja quase intolerável.  Felizmente, a narrativa vai se transformando no decorrer do filme e se modificando tal como a própria personagem, que aos poucos vai deixando o celular de lado e se tornando mais introvertida. Suas sucessivas viagens são registradas, assim como as pinturas das paredes que ela leva a cabo em ca...
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ECOS DO TEATRO EXPERIMENTAL DO NEGRO (2025) Dir. Daniel Santiago

Texto por Marco Fialho Há em Ecos do Teatro Experimental do Negro , documentário dirigido por Daniel Santiago,   uma ousadia em abordar o crucial TEN (Teatro Experimental do Negro, alavancado por Abdias Nascimento) e os seus ecos no teatro e cultura brasileira de hoje. Essa ambição traz algo de vigoroso para este documentário, apesar de ser também um ponto de vulnerabilidade narrativa, especialmente por optar por muitas múltiplas vozes que acabam interferindo no resultado final.   Para falar com mais propriedade do TEN o diretor precisou discutir qual era o papel do negro no teatro contemporâneo brasileiro, explorar a realidade do racismo, cuja face mais visível foi a prática absurda do black face (quando um ator branco pintava o rosto de preto para interpretar um personagem negro) e como os teatrólogos construíram os personagens negros. Atores e nomes do teatro negros que participaram desse processo são ouvidos para que se pense o momento de eclosão do TEN e suas conseq...

A DIVINA SARAH BERNHARDT (2024) Dir. Guillaume Nicloux

Texto por Marco Fialho A cada novo trabalho a atriz francesa Sandrine Kiberlain prova o quanto o seu talento amadurece vertiginosamente. Em A Divina Sarah Bernhardt , dirigido por Guillaume Nicloux,   mais uma vez ela confirma o quanto capaz ela é de atrair para si as atenções do espectador. Essa é uma cinebiografia que valoriza mais a personalidade do que o talento artístico da mais célebre e cultuada atriz francesa da história. A atriz é tratada como um modelo de protocelebridade, por saber mobilizar e jogar com a opinião pública numa época em que a internet ainda nem ameaçava passar por perto de nós.  O filme de Guillaume Nicloux investe no vulcão em erupção que foi Bernhardt, dando a devida oportunidade para que Kiberlain possa brilhar. O lado extravagante e imponente da atriz é o que mais aparece no filme, numa produção bem caprichada embora não muito luxuosa, temperada com os comportamentos audaciosos e vanguardistas da atriz em sua vida pessoal, repleta de inúmeros amig...

AS MENINAS EXEMPLARES (2025) Dir. João Botelho

Texto por Marco Fialho Se o público brasileiro pouco sabe sobre o cinema português, imagina sobre o filme de comédia feito por aquelas bandas. As Meninas Exemplares  dirigido por João Botelho talvez seja uma boa oportunidade para uma aproximação.  Esse é deveras um filme de época nada convencional, que se utiliza do falso como um instrumento para se discutir relações familiares e interpessoais no mundo contemporâneo. Por isso mesmo,  As Meninas Exemplares pode ser visto como um formato de contrafábula, onde se ri ou se ironiza acerca de um universo ficcional, com toques teatrais que reforçam o artificialismo da proposta narrativa. Na trama, Sofia (Rita Durão), Madalena (Catarina Wellenstein) e Camila (Crista Afaiate) são três meninas que se unem durante as férias para viverem momentos de violência, repressão familiar e também de delícias que só a vida pode proporcionar. Mas essas personagens nos chegam com doses de assombro ao constatarmos que atrizes adultas estão a inte...

A NOITE DE ALAÍDE (2026) Dir. Liliane Mutti

Texto por Marco Fialho Apesar da palavra racismo não ser pronunciada uma só vez em A Noite de Alaíde , documentário com toques ficcionais da diretora Liliane Mutti, ela ecoa a todo o instante no filme. Talvez essa fosse a intenção da produção, evidenciar sem precisar gritar o óbvio, de que a cantora Alaíde Costa foi preterida pela Bossa Nova pela cor da pele, inclusive no grupo que foi tocar no famoso show do Carnegie Hall, em 1962. Isso não quer dizer que o filme fuja do tema, ele apenas evita citar nomes e deixa à vista os fatos ocorridos.    A Noite de Alaíde ainda ronda nomes igualmente negros da nossa música que estiveram fortemente presente na carreira de Alaíde Costa, caso de Johnny Alf, Moacyr Santos, Baden Powell, sem contar com as gravações que fez com Milton Nascimento. O mais brilhante no filme é a construção que ele faz da diversa carreira de Alaíde Costa, de sua versatilidade como intérprete durante os discos gravados no decorrer dos anos. Ainda há entrevistas va...

SALVAÇÃO (2026) Dir. Emin Alper

Texto por Marco Fialho Ao ver Salvação pensei de imediato o quanto o cinema turco deveria chegar mais ao nosso circuito, na maioria das vezes levado por uma sucessão de desperdícios comerciais. Lembrei também na marca consistente e impactante da obra monumental de Nuri Bilge Ceylan no próprio cinema turco, em especial o drama consistente e duro que o cinema turco sabe explorar como poucos.  Salvação , premiado com o Urso de Prata no Festival de Berlim,   tem uma intensidade dramática que há muito o cinema hollywoodiano perdeu, e cito esse cinema especificamente por ser o que infelizmente mais nos chega por aqui. O filme narra a história de como se constrói líderes destrutivos, qual a atmosfera e circunstâncias que os forjam e os mantém. É interessante como o diretor Emin Alper soma à narrativa dramática o thriller e elementos fantasmagóricos que fortalecem à trama e o envolvimento do espectador.  Há uma tensão permanente em torno do personagem de Mesut (Caner Cindoruk), u...

TOQUINHO - ENCONTROS E UM VIOLÃO (2025) Dir. Erica Bernardini

Texto por Marco Fialho O documentário Toquinho - Encontros e um Violão , dirigido por Erica Bernardini, opta por uma abordagem mais afetiva do que biográfica do famoso compositor paulista. Os momentos tanto da infância quanto da carreira profissional em si são narrados pelo próprio Toquinho ou por familiares e amigos. Esse é um traço fundamental do filme, proporcionar um mergulho no talento do artista como compositor e instrumentista.  Erica Bernardini constrói sobre Toquinho uma visão muito próxima, calcada pelos depoimentos do irmão João e de artistas próximos a ele, como Carlinhos Vergueiro, Pedro Bial, Ornella Vanoni, Andreas Kisser, Jane Duboc, Eduardo Gudin, Roberto Rivellino, Amilson Godoy, entre outros. Há uma primazia dos depoimentos filmados na atualidade, enquanto o material de arquivo é usado pontualmente em algumas situações, especialmente na fase áurea do artista, quando firmou parceria com Vinícius de Moraes, um dos maiores poetas brasileiros e famoso por letrar músi...

NÓS ACREDITAMOS EM VOCÊS (2025) Dir. Charlotte Devillers e Arnaud Dufeys

Texto por Marco Fialho Carl Theodor Dreyer, cineasta dinamarquês e um dos pioneiros da linguagem cinematográfica, mostrou em A Paixão de Joana D'Arc (1928) o quanto um plano, no caso o close-up, pode ser determinante para que o espectador perceba o filme de uma maneira específica. O close-up na obra dinamarquesa em questão salienta a dramaticidade das cenas e nos faz sentir na própria pele a ardência do fogo e as angústias daquela mulher.  O resgate da obra de Dreyer me foi despertado durante a projeção de Nós Acreditamos em Vocês , drama francês dirigido a quatro mãos por Charlotte Devillers e Arnauld Dufeys e premiado com uma menção especial de melhor primeiro filme, no Festival de Berlim 2025. Essa premiação se mostra coerente especialmente pela forma como o filme acolhe o plano próximo. O seu uso calculado permite uma dupla função: a de concentrar e a de juntar a emoção do espectador com a da personagem Alice, numa interpretação difícil de Myriem Akheddiou, cujo desafio é criar...

ANATOMIA DO CAOS (2026) Dir. Dandara Ferreira

Texto por Marco Fialho Uma das facetas mais relevantes do filme documentário é a da denúncia, o poder que uma obra tem de mexer com a memória coletiva, para que se possa manter acesa a lembrança de um acontecimento. A pandemia do Coronavírus foi um marco para que nos fez enxergar como um país unido em torno de um problema comum, a de um vírus mortal que se alastra rapidamente pela propagação da saliva humana, o que trazia uma necessidade de isolamento social.  Anatomia do Caos , documentário dirigido por Dandara Ferreira ( Meu Nome é Gal ), prima pela concisão e precisão ao abordar as investigações da CPI do Coronavírus, que ocorreu no Senado Federal durante o governo genocida de Bolsonaro. Vale ressaltar o quanto ainda é doloroso voltar a esse tema que causou tanto sofrimento para o nosso país. Oficialmente foram mais de 700 mil mortes e um legado de maldade explícita de um governo que brecou todas as possibilidades de contornar o caos sanitário resultante de uma pandemia. Assim, ...

UMA INFÂNCIA ALEMÃ (2025) Dir. Fatih Akin

Texto por Marco Fialho São muito os filmes que retratam a infância durante a 2ª Guerra Mundial, podemos citar aqui Adeus, Meninos (1987), de Louis Malle; Esperança e Glória (1987), de John Boorman; Império do Sol  (1987), de Steven Spielberg;  Filhos da Guerra (1990), de Agnieszka Holland;  Vá e Veja (1985), de Elem Klimov, apenas para citar alguns, e todos entre 1985 e 1990. Todos esses abordam a posição de crianças separadas de suas famílias em plena guerra e sempre do lado da resistência.   Por isso, Uma Infância Alemã tem um diferencial em relação a essas obras por centrar a discussão em torno de uma criança do lado alemão, de Nanning (Jasper Billerbeck), uma criança cuja família defende e acredita na ideologia nazista. Ele e a família, são de Hamburgo, mas vivem na Ilha de Amrum e o filme mostra as vivências desse menino em meio ao inferno da guerra em 1945, nos últimos instantes da supremacia nazista. É interessante pensar o quanto o ambiente da guer...