Texto por Marco Fialho Assistir a um filme de Almodóvar é sempre especial, o momento de sentir como ele vê a vida e o cinema como algo profundamente íntimos. Natal Amargo é assim, mais uma ode do mestre espanhol ao pensar e à construção de uma obra em seus mais recônditos encontros do artista com a sua criação. Mesmo que essa não seja a mais plena obra de Almodóvar, há um prazer em ver mais uma vez na tela a sua marca inconfundível, a do melodrama classudo costurando toda a trama. Em Natal Amargo encontramos mais uma vez Almodóvar se voltando para a autoficção, para usar o termo que ele mesmo gosta de empregar, como já o havia feito em Dor e Glória (2019). Se antes o seu alterego foi Antonio Banderas, agora é Leonardo Sbaraglia que assume o posto com o personagem Raúl, um cineasta que busca em um passado próximo, o ano de 2004, uma história repleta de dor e culpa, características de um bom melodrama como Almodóvar tanto aprecia. Mas há algo de estranho em Natal Amargo , que é o fato d...
Texto por Marco Fialho "Quando a lenda torna-se fato, publique-se a lenda". Essa conhecida sentença do cineasta John Ford, inserida na sua obra-prima O Homem Que Matou o Facínora (1962) cabe como uma luva para Michael , novo filme de Antoine Fuqua, que ressalta a imagem mitológica do maior astro da indústria fonográfica dos Estados Unidos. Evidente ser essa uma tarefa inglória, ter que lidar com um dos artistas mais arrebatadores em termos de talento da história e também um dos mais polêmicos, em que os fatos sempre nos chegaram enevoados e envoltos de mistérios aparentemente insolúveis. Entretanto, Michael confirma alguns fatos já bastante repisados pela mídia em geral, como o da vilania do pai Joseph, um Colman Domingo que sabe ratificar expressivamente essa vilania, e uma obsessão de Michael Jackson pela aparência, agravada por acidentes e doenças. Não há fatos novos acrescidos pelo filme, apenas o que já foi amplamente noticiado pela imprensa. Desde muito jovem Michael ...