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TREM DO SOUL (2021) Direção de Clementino Junior

A vitalidade do soul brasileiro Texto de Marco Fialho Depois de perder a exibição de "Trem do Soul" em alguns festivais de cinema, enfim consegui assisti-lo no Mirada Cine Fest, mesmo que com um pouco atraso. O filme cumpre uma das vertentes fundamentais do gênero documental, que é a de resgatar aspectos sociais e históricos que marcaram uma certa época. Sabemos que o tempo e os modismos são implacáveis com determinados acontecimentos do passado. Por isso "Trem do Soul" se faz presente e onipresente ao trazer à baila um tema caro à vida carioca, e mais que tudo, da vida suburbana. Esse é um dos acertos do filme: localizá-lo em seu território mais rico e fértil, o da periferia e da Baixada Fluminense. Logo na primeira cena ouvimos o som do trem, para logo a seguir assistir imagens tipicamente suburbanas, das esquinas e de pessoas transitando na estação de Rocha Miranda. São 50 anos de história do soul brasileiro registrados em quase 1 hora e meia de filme.     Mas f
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STALKER (1979) Direção de Andrei Tarkovski

Sinopse: Em um futuro indefinido, um guia (stalker) conduz dois homens conhecidos como Escritor e Professor a uma área proibida, lacrada pelo governo, a "zona". Dentro dela há uma usina desativada onde existe um aposento que possui a propriedade de realizar os desejos de quem pode entrar nele. Texto de Marco Fialho "A arte não deve apenas refletir, mas também transcender; seu papel é fazer com que a visão espiritual influencie a realidade..."                    Andrei Tarkovski, em 'Esculpir o tempo" "...a fraqueza é grande,  enquanto a força é nada..."                                        pensamento de Stalker "... é melhor uma felicidade amarga, do que uma vida apagada e triste."                                    fala da esposa de Stalker Dentro da filmografia de Tarkovski, "Stalker" (1979) pode ser vista como um ápice tanto em relação às ideias de cinema quanto as de filosofia. E curiosamente é o último filme dele realiz

SANCTORUM (2019) Direção de Joshua Gil

Sinopse: Em uma pequena e isolada cidade, cercada por montanhas cobertas de árvores, vive um menino e sua mãe. A vida tradicional foi extirpada desde que a cidade foi pega no fogo cruzado da guerra entre militares e os cartéis. Com poucas oportunidades de trabalho e sem dinheiro suficiente para se mudar para outro lugar, a mãe arruma um emprego cultivando maconha para os cartéis. Um dia, ela não volta do trabalho. Tomada pela tristeza, a avó diz ao menino que vá para a floresta e reze ao sol, ao vento e à água para que eles façam sua mãe retornar ilesa. À espera de um milagre Texto de Marco Fialho "Sanctorum", uma inusitada coprodução entre México/República Dominicana/Catar, é um filme angustiante. Não há um instante sequer em que o clima tenso não se imponha sobre os espectadores, e visivelmente, essa foi uma intenção deliberada do diretor mexicano Joshua Gil, que nos convida a nos colocar do ponto de vista dos camponeses de uma pequena cidade rural nas montanhas do México,

EM BUSCA DE CARLOS ZÉFIRO OU POR TANTO LEITE DERRAMADO (2020) Direção de Silvio Tendler

Pornográficas são as guerras... ou... (o sexo sem parênteses) Texto de Marco Fialho "Em busca de Carlos Zéfiro", novo documentário de Silvio Tendler, conforme o próprio título já anuncia, tem um envolvimento pessoal surpreendente. Não é só um filme que busca algo no passado, mas que sobretudo busca também algo no passado do próprio diretor (evidente, o diretor foi leitor de Zéfiro!). Esse talvez seja um diferencial desse para outros documentários de Tendler, uma visita ao passado oculto não só dele, como de vários brasileiros, que na surdina usufruíram (literalmente) dos desenhos e histórias sacanas (os famosos catecismos de Zéfiro), escritas igualmente sob o manto do proibido (as tais das indesejáveis bolas pretas), já que Zéfiro escreveu e desenhou sempre escondido desde a infância, assim como foi comercializado da mesma maneira, na clandestinidade.  Antes do documentário começar assistimos a um depoimento do diretor em relação à proibição do filme aqui no Brasil, onde Tend

O ESPELHO (1975) Direção de Andrei Tarkovski

Sinopse: Um homem tenta compreender a sua vida, mas esbarra em nebulosas memórias.  O espelho e suas cicatrizes Texto de Marco Fialho "O Espelho", quarto longa-metragem de Andrei Tarkovski, pode ser visto como um filme fundamental na conturbada relação do diretor russo com o regime stalinista, o ápice de uma crise que se estendeu por toda a carreira. Não à toa, essa é a obra em que o aspecto histórico está mais incorporado à narrativa (ou o pouco que se pode perceber dela). Sim, "O espelho" pode ser considerado o seu exercício mais árido como diretor, aquele onde sonho, memória, história e subjetividade são emaranhados de tal maneira que se confundem o tempo todo. Adentrar em uma obra de Tarkovski é mergulhar nos mistérios mais abissais do ser humano.  O desejo de Tarkovski em "O espelho" é o de criar uma temporalidade e uma espacialidade próprias. Cada quadro, plano e sequência parecem fazer parte de um único painel pictórico, como se o filme formasse ao

NEY À FLOR DA PELE (2020) Direção Felipe Nepomuceno

"Eu nasci e vou morrer transgressor" Ney Matogrosso Texto de Marco Fialho "Ney à flor da pele", documentário dirigido por Felipe Nepomuceno, almeja alcançar a alma do cantor Ney Matogrosso por meio da junção de clipes musicais mesclados por alguns depoimentos de arquivo furtivos, ao longo de sua pouco mais de uma hora de duração. No todo, o filme se mostra irregular, já que o diretor apenas propõe uma montagem que costura as imagens de arquivo, tanto as musicais quanto os depoimentos com os quais trabalha. Não foi coletado nenhum depoimento do cantor especialmente para o filme. O filme não se propõe em explicar momentos ou fases da carreira de Ney e isso fica claro quando o diretor Felipe Nepomuceno não tenta explicar a saída do cantor da famosa banda "Secos & Molhados", apenas somos informados por uma gravação do Cid Moreira em um programa jornalístico. Uma decisão ousada do diretor é a de mostrar as músicas inteiras, ao invés dos habituais trechos qu

SOLARIS (1972) Direção de Andrei Tarkovski

Sinopse: O cosmonauta e psicólogo Kris Kelvin (Donatas Banionis) é enviado à estação espacial Solaris, para investigar o que levou a tripulação à loucura. Ao chegar ao local, ele começará uma viagem inesperada aos recessos da sua própria consciência. O homem e seus espelhos Texto de Marco Fialho Com "Solaris", Tarkovski dá uma guinada na carreira ao se enveredar pela primeira vez no universo filosófico da metafísica e de maneira irreversível. O filme é baseado no livro homônimo, publicado em 1961, do famoso escritor polonês de ficção-científica Stanislaw Lem, embora guarde diferenças inconciliáveis com a obra de Tarkovski, em especial no enfoque mais voltado para o Planeta Terra e seus habitantes, o que torna a questão alienígena no Planeta Solaris quase imperceptível na trama do filme. O que Tarkovski faz é subverter a obra literária, criando uma obra cinematográfica a partir dela, dentro da crença do diretor de que o cinema deveria buscar uma autonomia de linguagem em relaç