Texto por Marco Fialho O Olhar Misterioso do Flamingo é um filme sobre corpos e afetos que sobrevivem à aridez de um mundo brutal. O diretor Diego Céspedes realiza uma obra onde o lúdico vence o preconceito e a violência transfóbica. Em plena região do deserto de Atacama, no norte do Chile, corpos trans resistem a uma aridez que ultrapassa a do território geológico, ora com graça ora com violência. Sobretudo, esses são corpos de enfrentamento, jamais passivos. As dicotomias mostradas na obra são desafiadoras para quem vive numa época estigmatizada pela chamada peste (ou se preferir, AIDS). Estamos na década de 1980 e no meio desses corpos misteriosos, tem Lidia (Tamara Cortes), uma menina de 12 anos criada por Flamingo (Matías Catalán), uma das mulheres trans que vive na casa comandada pela transmatriarca Jiboia (Paula Dinamarca). Chama a atenção a meticulosa direção de elenco de O Olhar Misterioso do Flamingo , fora a mise-en-scène que coloca o espectador bem próximo dos pe...
Texto por Marco Fialho Paolo Sorrentino ( A Grande Beleza ) é um cineasta vibrante. Suas narrativas mergulham na alma dos seus protagonistas e A Graça vem reafirmar essa marca indelével desse diretor que é um dos maiores de sua geração, além de selar uma parceria de longa data com o genial Toni Servillo, agraciado no Festival de Veneza com o prêmio de melhor ator por este trabalho. A Graça narra os últimos dias de mandato de Mariano de Santis, um presidente da república que precisa examinar dois indultos ligados a assassinatos e uma lei que aprova a prática da eutanásia. O mais impressionante do filme é competência na construção da personalidade austera do presidente, que contrasta com uma câmera muito leve que flutua em volta de Mariano, como se quisesse revelar seus desejos, medos, frustrações e vontades, sublinhando aspectos humanistas presente no cargo de presidente e o quanto é difícil o ato de tomar decisões que vão impactar um contingente imenso de pessoas e institui...