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OS SETE SAMURAIS - Direção Akira Kurosawa

OS SETE SAMURAIS - (1954) *Não há nada em minhaChoupana na primavera.Simplesmente há tudo.Sodô (1642-1716)Os Sete Samurais, apesar de sua longa duração (três horas e vinte e dois minutos) é o filme mais popular de Kurosawa. Logo na abertura do filme fica uma clara citação-homenagem feita aos faroestes americanos, com alguns planos gerais, com diversos homens andando a cavalo em meio às montanhas, como se estivessem em uma fuga ou perseguição, típicos de algum clássico cinema hollywoodiano, gênero cinematográfico tão amado por Kurosawa. Aliás, impossível não observar em Os Sete Samurais a influência formal tão gritante da estética clássica alinhavada pelos grandes mestres do cinema de faroeste. Mas, o maior problema encontrado no ocidente em relação ao filme foi mesmo a sua longa duração. Quando dizemos ocidental nos referíamos em especial aos distribuidores. Algumas versões ocidentais mutilaram de tal maneira o filme, para encurtá-lo e torná-lo mais comercial, que várias partes dele f…
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RASHOMON - Direção Akira Kurosawa

RASHOMON - 1950 *Um certo ladrãoTudo me levou, excetoLua na janelaRyôkan (1757 - 1831)Apesar de não ser um típico filme de samurai, foi Rashomon o primeiro film japonês a encantar o ocidente, curiosamente um jidaigeki. Porém, mais do que a trama, o que encantou o mundo foi sua premissa filosófica e altamente humanística de questionar de uma só vez a verdade e o papel do homem na história. Tal com Orson Welles já havia realizado em Cidadão Kane, Kurosawa investe ferozmente sobre a busca da verdade e a sua função na sociedade e na vida dos homens. Enquanto Welles trabalha na busca da verdade sobre um homem, Kurosawa debruça-se na verdade sobre um acontecimento, no caso, o assassinato de um samurai em uma floresta no século 12. O fato do filme se passar no século 12 não é casual. Kurosawa quer mostrar que os problemas humanos têm largo espectro, não são restritos ao passado ou ao presente, mas sim possuem uma permanência histórica. Lembremos a própria situação difícil do Japão nos primei…

ME CUIDEM-SE - PARTE 4 Direção Bebeto Abrantes e Cavi Borges

"O poeta não morre"
Por Marco Fialho

"Os que lavam as mãos,  o fazem com uma bacia de sangue"                                                     Bertolt Brecht
Já escrevi nesse blog sobre a parte 1 da série "Me cuidem-se", dedicada aos efeitos do isolamento social na vida de alguns personagens, argutamente escolhidos pelos diretores Bebeto Abrantes e Cavi Borges para relatarem seus sentimentos e vidas nesse doloroso momento. Acabo de assistir a 4ª parte dessa série e me confesso deveras estupefato. Senti um turbilhão de emoções, um misto de tristeza profunda e resignação com uma pontinha de esperança no humano (que nem tudo está perdido ainda). Como estrutura fílmica, me parece que esse episódio é o mais bem acabado da série, onde os personagens mais recorrentes começam a esboçar um maior domínio acerca tanto da narrativa quanto de suas participações e histórias, provavelmente por já estarem mais familiarizados e confortáveis com o ato da autofilmagem. 
Como e…

VAGA CARNE E SETE ANOS EM MAIO

Retratos performáticos acerca dos apagamentos históricos na terra brasilis
Crítica por Marco Fialho
"...O cante a palo seco é um cante desarmado: só a lâmina da voz sem a arma do braço;
que o cante a palo seco sem tempero ou ajuda tem de abrir o silêncio com sua chama nua..."
fragmento do poema "A palo seco" extraído do livro "Quaderna", de João Cabral de Melo Neto 
De qual lugar o cinema historicamente fala? Quais são as vozes que nos chegam e quais imagens elas ratificam ou questionam? São perguntas que muitas vezes não fazemos aos filmes, mas que são fundamentais não só melhor compreendê-los como também para situá-los eticamente no mundo. É o caso de "Vaga carne", dirigido por Grace Passô e Ricardo Alves Jr. e de "Sete anos em maio" de Affonso Uchôa, que estão sendo lançados on line, juntos, em um tour de force pela distribuidora Embaúba Filmes. Lançá-los em uma única sessão faz sentido por diversas razões: ambos são filmes independentes minei…

NOSTALGIA - Direção Andrei Tarkovski (1983)

"Nostalgia" e a epístola ética de Tarkovski para a humanidade

Por Marco Fialho

"Só em presença de sua visão pessoal, quando ele se torna uma espécie de filósofo, é que o diretor emerge como artista - e o cinema como arte"

                             Andrei Tarkovski em "Esculpir o tempo" (p.68 da 2ª edição)

O cineasta russo Andrei Tarkovski é um artista que me é muito caro. Até ingressar no curso de cinema no ano 2000, mesmo sendo já um cinéfilo, pouco havia ouvido sobre ele, apenas ideias dispersas e nenhum filme visto. E foi "Nostalgia" a primeira obra descoberta, em uma aula de desenho de som ministrada pelo professor Mário Silva. Lembro que dos 40 alunos que começaram assistindo ao filme, só ficamos uns 4 ou 5 até o fim. Dali em diante, o meu fascínio foi tanto que comecei a procurar seus outros títulos, além de comprar seu livro "Esculpir o tempo", para tentar compreender melhor aquele universo que me parecia à época impenetrável…

MORTE EM VENEZA (1971) Direção de Luchino Visconti

O encontro de Visconti com Mahler

Por Marco Fialho

As suas mãos onde estão?
Onde está seu carinho?
Onde está você?

Se eu pudesse buscar
Se eu soubesse onde está
Seu amor, você.

Um dia há de chegar
Quando, eu não sei
Você vai procurar
Onde eu estiver
Sem amor, sem você

Letra da canção "Suas mãos", composta por Antonio Maria.

Luchino Visconti amava literatura. Vários de seus filmes foram adaptados de importantes romances. "Morte em Veneza", baseado no romance homônimo de Thomas Mann, foi um deles, e nele, nos deparamos com seu habitual estilo refinado de filmar, só que aqui mais misterioso que nunca e por demais interiorizado. Sua versão cinematográfica vai para além da mera reconstituição de época e da adaptação descritiva, pois esse é um filme para ser captado pelas bordas, para se apreender os inúmeros sentimentos que o atravessam. Assim como em uma sinfonia, existe algo que está para além das notas, um espírito a ser construído por cada ouvinte e ele pode ser di…

ME CUIDEM-SE (2020) Direção de Cavi Borges e Bebeto Abrantes

Poetizando o isolamento

Por Marco Fialho

Quem achou que o inquieto Cavi Borges ficaria em casa sossegado, aproveitando para usufruir de um merecido descanso, por conta do isolamento social recomendado pela OMS (Organização Mundial da Saúde) devido à pandemia do coronavírus, se enganou, e muito. Rapidamente, ele e Bebeto Abrantes se reuniram (cada um em sua casa) para a realização do filme "Me cuidem-se" que reflete o momento insólito e difícil que vivemos como sociedade durante a primeira semana do isolamento social.

Em quase trinta minutos de filme, Cavi e Bebeto retratam a situação de 3 cidades no Rio de Janeiro (São Gonçalo, Nova Iguaçu e Rio de Janeiro) sob o ponto de vista de 8 pessoas. Vemos as ruas, as rotinas, como cada um encara esse isolamento compulsório. Involuntariamente, o filme versa sobre as diferenças impostas ora pelas individualidades ora pela questão social de onde se mora. Por isso, "Me cuidem-se" parte de uma ideia que intercala o social e o …