Pular para o conteúdo principal

Postagens

DIAS - Direção Tsai Ming-Liang

A melancolia dos corpos solitáriosPor Marco FialhoAntes de assistir "Dias" é preciso saber que este é um filme típico do universo de Tsai Ming-Liang. Neste novo trabalho ele continua a fazer passeios narrativos em consonância com a sua obra recente: planos longuíssimos, câmera fixa, poucos diálogos (aqui praticamente nenhum) que por si próprios já criam um zona de tensionamento com os espectadores, ainda mais com aqueles cada vez mais inseridos nas narrativas usuais do cinema contemporâneo, onde a ideia de ação está colocada como sinônimo de movimento dos corpos. Um cinema sem grandes aparatos e truques técnicos, que busca inspiração tão somente no humano. Em "Dias" a história se apresenta pacientemente desde a primeira sequência, que só não achamos que a imagem está congelada devido ao posicionamento da câmera a enquadrar o personagem por de trás de um vidro a refletir folhas agitadas pelo vento. Assim é o cinema de Ming-Liang, uma obra a ser descoberta cena a cen…
Postagens recentes

A CORDILHEIRA DOS SONHOS - Direção Patricio Guzmán

A Cordilheira utópica de Patricio GuzmánPor Marco FialhoPenso que "A Cordilheira dos sonhos", novo documentário de Patricio Guzmán, seja fundamentalmente sobre memórias. Ou dizendo melhor ainda, sobre o confronto da memória de um sujeito com a memória social de um país. Mas também poderia ser sobre uma consciência nada indulgente, castigada pela força de uma história sofrida profundamente na pele. Mas ainda podemos dizer que é sobre uma poesia que emerge dessa relação entre o indivíduo e a história de um país. Patricio Guzmán é sempre isso, um despertar de tantas emoções, um turbilhão a mexer com as estruturas de quem o assiste. Um cineasta raro.    Guzmán saiu do Chile com a ditadura de Pinochet, mas ainda é um exilado inconformado. Volta ao Chile apenas para filmar. Apenas? Essa seria uma palavra talvez indesejada porque voltar para ele é se defrontar com seus demônios, com um Chile cada vez mais distante daquele que lhe foi roubado em 11 de setembro de 1973. Um filme de G…

A ARTE DE MIKIO NARUSE

BOX: A ARTE DE MIKIO NARUSEPOR MARCO FIALHO  A poesia do feminino e o cotidiano condenadoMuito se fala da tríade do cinema japonês: Mizoguchi, Kurosawa e Ozu. Mas em 2013, a Folha de São Paulo junto com a Versátil Home Vídeo lançaram o filme "O som da montanha", de Mikio Naruse, na coleção "Grandes livros no cinema" e assim pairou-se uma dúvida no ar: será que não se trata de uma tríade, mas sim de um quadrado mágico do cinema japonês? Devemos lembrar que até 1951, com "Rashomon", do mestre Kurosawa, o Ocidente nem desconfiava que existia cinema feito no Japão. Portanto, por mais que hoje saibamos de sua existência e história, ainda persiste um desconhecimento em relação aos filmes. Proporcionalmente a sua produção, poucos foram exibidos no Brasil e muitos diretores expressivos praticamente não foram exibidos publicamente por aqui, caso de Heinosuke Gosho e Keisuke Kinoshita. E foi novamente a Versátil que nos possibilitou conhecer melhor Naruse e nos mos…

YOU TUBERS - Direção de Bebeto Abrantes e Sandra Werneck

Entre Deuses e Sísifo Crítica por Marco Fialho O fenômeno dos youtubers, ou influenciadores digitais como alguns gostam de chamar, precisa ser entendido com urgência, dado o papel que exercem hoje na sociedade. O documentário “You Tubers” dirigido pela dupla Bebeto Abrantes e Sandra Werneck dá passos importantes para o início de uma conversa sobre o tema. E já no título do filme eles chamam atenção para um dado fundamental, ao colocar esse neologismo youtuber em outra perspectiva, como um nome composto que reúne duas palavras que trazem dois aspectos cruciais: o do indivíduo (you) e a da comunicação (tuber). Sim, há nesse neologismo política, e mais ainda ideologia, e é sobre isso que quero falar neste texto.O filme parte de quatro youtubers brasileiros, e precisamos vê-los em conjunto, porque assim pensados falam muito acerca da visão que os diretores querem construir com o documentário. Mas quero evidenciar que falarei também de elementos que estão na borda da construção fílmica, de d…

... E O OCIDENTE REDESCOBRE O JAPÃO PELAS LENTES DE KUROSAWA (ARTIGO)

... E O OCIDENTE REDESCOBRE O JAPÃO PELAS LENTES DE KUROSAWA *POR MARCO FIALHO
“A minha ideologia é o nascer de cada dia,E minha religião é a luz na escuridão”                                                                          Gilberto Gil
A HISTÓRIA DO JAPÃO E O CINEMAOs dias morososAcumulam-se, evocandoUm velho passado.                                                   Buson (1716 - 1783)Tal como a enigmática poética dos haikai, tanto a cultura quanto o cinema japonês eram uma incógnita até 1951. Muito da desconhecida história japonesa, sua organização social e cultural nos foi nutrida e descortinada pelo cinema. Nos anos 50, a mídia não tinha esse caráter tão globalizante como o de hoje, que apenas em um click possibilita se conhecer algo espacialmente muito distante de nós. Foi com Kurosawa que a época feudal japonesa emergiu no imaginário mundial. De repente, os samurais, as gueixas e os xoguns despertaram a curiosidade do homem comum ocidental e foram Kurosawa, Mifune e Shim…