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SEIS DIAS NAQUELA PRIMAVERA (2025) Dir. Joachim Lafosse

Texto por Marco Fialho Tem filmes que acontecem dentro um tempo delimitado e esse fator determina muito de sua mise-en-scène . É o caso de Seis Dias Naquela Primavera , do diretor francês Joachim Lafosse, que no próprio título já informa a temporalidade que viveremos durante a narrativa do filme. O interessante é que podermos pensar como aqueles seis dias citados se transformarão em 90 minutos, o que se pode deduzir que a maioria desse tempo será de elipse (tempo não extraído na narrativa cinematográfica).  Pode parecer que essa nossa primeira observação seja óbvia, mas não é, ainda mais que a narrativa proposta por Lafosse é calcada em uma concepção realista, tanto da encenação quanto do tempo. Sana (interpretada pela competente atriz Eye Haïdara) é uma mulher separada do marido e que cria dois filhos Tom (Teudor Pinero Müller) e Raphael (Leonis Pinero Müller), mas que precisa assumir uma jornada tripla, entre dois empregos e cuidados com os filhos. Eis que chegou sua hora de tira...
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ERUPCJA (2025) Dir. Pete Ohs

Texto por Marco Fialho A palavra central de Erupcja é conexão, ou a falta dela, porque às vezes para ocorrer uma conexão é necessário contraditoriamente haver uma desconexão. O filme possui rompantes de ousadias narrativas, embora esses aspectos não passem de maneirismos sem maiores efeitos no que é narrado. A história nasce numa viagem do casal inglês Bethany (a cantora Charli XCX) e Rob (Will Maddden) a Varsóvia, com o acontecimento de surpresas que abalará essa relação amorosa.  Varsóvia é apresentada como uma cidade ideal para o amor, uma espécie de Paris do leste europeu e a cidade espiritualmente é representada por Nel (Lena Gora), uma florista lésbica que possui uma relação instável com Ula (Agata Trzebuchowska) uma quase namorada, com quem tem idas e voltas regulares, e que trava amizade com Claude (Jeremy O. Harris), um artista plástico festeiro e volteado de vários amigos. No meio de tudo isso tem uma erupção do vulcão Etna na Itália, um fenômeno natural que alterará os e...

EU NÃO TE OUÇO (2026) Dir. Caco Ciocler

Texto por Marco Fialho A eleição de 2022 ficou marcada pela derrota de Jair Bolsonaro ao tentar a sua reeleição para presidente. Depois do anúncio fatídico, o ainda presidente Bolsonaro começou a insuflar seus apoiadores de que o processo eleitoral foi manipulado politicamente para beneficiar a chapa do então candidato Lula, do PT. Atos insanos foram estimulados nas redes sociais e realizados publicamente em diversas regiões do país. Entretanto, alguns atos ficaram mais marcantes, como a de um grupo que rezou para um pneu e um outro sujeito que se agarrou desesperadamente na frente de um caminhão como se pudesse fazê-lo parar e sensibilizar a todos sobre o que ocorria no país, pelo menos na sua embaçada visão.  É baseado nesse último episódio, o do caminhão, que Caco Ciocler resolveu dirigir Eu Não Te Ouço , um filme que trata a dificuldade de um determinado grupo social de ouvir e ver a realidade a sua frente, o que gerou neles um entendimento muito próprio acerca da política do p...

MAMBEMBE (2025) Dir. Fabio Meira

Texto por Marco Fialho Mambembe se propõe a narrar o processo de pesquisa e feitura por 15 anos do diretor Fabio Meira para realização do que seria o seu primeiro longa-metragem. Não deixa de ser interessante a decisão do diretor de embarcar numa aventura francamente híbrida entre o universo ficcional e o documental. Da pesquisa nasce o filme, cujo roteiro ficcional aparece citado aqui e acolá, embora a montagem de Affonso Uchôa, Fabio Meira e Juliano Castro seja oscilante sobre os caminhos narrativos do filme. A ideia inicial lá em 2010 era viajar por cidades para descobrir personagens para compor uma obra ficcional, mas os personagens reais começaram a pedir passagem e foram sendo incorporados ao filme, que assume assim um lado mais documental, por mais que o ficcional invada em alguns momentos a trama e a perturbe.   O personagem Rui, um topógrafo viajante por natureza pelas características da profissão, desde o início seria interpretado por um ator profissional, o que se m...

ERA UMA VEZ MINHA MÃE (2025) Dir. Ken Scott

Texto por Marco Fialho Era Uma Vez Minha Mãe narra a história da relação conturbada de Roland (Jonathan Cohen) com sua mãe Esther (Leila Bekhti). Esse filme representa um tipo de cartilha, do que é chamada uma mãe judia, aquela que às vezes aparece nos filmes cômicos de Woody Allen e em tantos outros.  O filme explora os aspectos positivos e negativos dessa mãe que faz tudo pelo filho, ainda mais que Roland nasceu com uma deficiência, a de ter o pé torto. Desde o início Esther não aceita os diagnósticos e batalha contra a deficiência do filho com todas as suas forças, chegando até a deixar de lado os outros 5 filhos. O menino anda se deslizando pelo chão, já que o ato de andar, ou a sua simples tentativa, pioraria seu quadro.  O diretor Ken Scott realiza uma obra leve na abordagem, embora um pouco apressada com planos que passam lépidos e uma montagem que almeja manter uma comunicação constante com o espectador, embora jamais o tire de uma zona de conforto. Nesse ponto, Ken Sc...

FANON (2024) Dir. Jean-Claude Barny

Texto por Marco Fialho e Carmela Fialho Embora o filme Fanon , dirigido por Jean-Claude Barny, seja narrado cronologicamente e apresentado dentro de uma linearidade e de uma narrativa clássica, a força da encenação serve como uma escora vigorosa para que a sua fluência e contundência permita que o personagem de Frantz Fanon seja arrebatador da primeira à última cena, isso tanto para o bem quanto para o mal.  Os méritos e os problemas de Jean-Claude Barny começam na escolha do elenco, Alexandre Bouyer está imponente com Fanon e Déborah François está incrivelmente forte como Josie Fanon, a esposa branca e esquerdista que apoiou Frantz até o fim. Ainda assim, cabe questionar a escolha tanto do ator quanto da atriz, por ambos possuírem corpos em um padrão estético mais para as exigências do século 21 do que do século 20. O Fanon cinematográfico é bem mais atlético do que o original (e isso é muito visível nas cenas em que seu corpo é mostrado nu) e o mesmo vale para a escolha de Débora...

NINO DE SEXTA A SEGUNDA (2025) Dir. Pauline Loquès

Texto por Marco Fialho A primeira imagem de Nino de Sexta a Segunda , diz muto sobre o que veremos no restante do filme. O protagonista Nino é visto apenas parcialmente na tela enquanto fala com uma atendente em um hospital, e com isso, a diretora estreante em longas Pauline Loquès salienta a personalidade de Nino e o desafio do próprio filme de desvelar esse personagem em franco processo de autoconhecimento ao descobrir que sofre de uma grave doença.  A interpretação de Théodore Pellerin como Nino é extraordinária e lhe valeu um prêmio de ator revelação no César, conhecido como o Oscar do cinema francês, além de angariar um prêmio semelhante no prestigioso Festival de Cannes de 2025. Outro prêmio recebido por Nino de Sexta a Segunda  foi o de Melhor Primeiro Filme de um(a) diretor(a), também no César.  Como Nino é um personagem em busca de si mesmo, a diretora mostra os três dias dele antes do início do tratamento e essa peregrinação é colaborada pelo fato do rapaz ter p...

ECLIPSE (2026) Dir. Djin Sganzerla

Texto por Carmela Fialho e Marco Fialho Eclipse parte de uma lenda indígena que trata de dois elementos separados pelas suas naturezas (sol e lua), e juntados pelas garras da onça, guardiã das estrelas, segundo a tradição indígena. Essa explicação serve de metáfora para que a diretora Djin Sganzerla adentre em um universo para lá de atual, o da cultura da violência do patriarcado contra a mulher.  Na trama, Cleo (Djin Sganzerla) é uma astrofísica que estuda os corpos celestes, isto é, vive o maior tempo cuidando de fenômenos espaciais enquanto não vê fatos que ocorrem na Terra e que afetam diretamente a sua vida. É o caso do casamento que mantem com o advogado Tony (Sergio Guizé), do qual espera um filho, que a trata como princesa, mas oculta segredos sinistros no tempo em que não está com ela.  Mas é justamente no encontro com a sua meia-irmã indígena Nalu (Lian Gaia), que a sua vida tem uma reviravolta. Eclipse é um filme com fortes tintas sociais e construído numa narrativa...

AQUI NÃO ENTRA LUZ (2026) Dir. Karol Maia

Texto por Marco Fialho Falar das domésticas no Brasil sempre é revirar e reavivar o tema da origem escravocrata de nossa complexa formação social. Isso porque essa atividade profissional se relaciona direta e profundamente com as estruturas coloniais que se sustentaram pelo trabalho escravo. Aqui Não Entra Luz , dirigido por Karol Maia, trata frontalmente dessa questão tão delicada que precisa ser debatida com maior constância no Brasil. A ideia de realizar o documentário partiu da experiência de Miriam, a mãe da diretora, que trabalhou a vida toda como doméstica e babá em casas luxuosas de famílias privilegiadas economicamente em São Paulo. Quem são essas mulheres? O que elas vivem e sonham? Quais as humilhações elas sofreram no decorrer de suas carreiras como domésticas? Para quem tem um mínimo de consciência de como o Brasil se estrutura socialmente, essas são perguntas nas quais intuímos as respostas. O filme exibe imagens de senzalas e de quartos de empregadas, ambos projetados se...

O DESPERTAR DE LILITH (2016) Dir. Monica Demes

Texto por Marco Fialho O Despertar de Lilith parte de uma adaptação contemporânea da mitologia de Lilith, uma enigmática personagem que foi mulher de Adão antes de Eva, mas não se submeteu a ideia de inferioridade, e se manda do paraíso para se tornar uma figura demoníaca. Recentemente, foi ressignificada como símbolo de liberdade e resistência feminista contra o patriarcado. O filme narra a história de Lucy (Sophia Woodward), uma jovem que vive oprimida em uma rotina insuportável, entre a vida com o autoritário e indiferente marido Jonathan (Sam Garles); o trabalho na loja de conveniência de um posto de gasolina, cujo pai é o chefe e trabalha numa oficina mecânica nos fundos da loja; e ainda precisa aturar o assédio sexual do mecânico Arthur (Matthew Lloyd Wilcox), que tenta estuprá-la.  A narrativa da diretora Monica Demes se constrói sem pressa, em um límpido e marcante P&B. O clima opressor é ditado por cenas com poucos diálogos e um clima sonoro que salienta o tom misterio...