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PAPAGAIOS (2025) Dir. Douglas Soares

Texto por Marco Fialho Papagaios é um filme talhado para o talento do ator Gero Camilo. Cada aparição sua é uma dádiva, é impossível não admirar cada segundo em que ele está em cena como Tunico. Mas Papagaios felizmente não é só isso, a direção de Douglas Soares também merece destaque por apresentar uma mise-en-scène bem construída, econômica, elegante e instigante, que não mostra tudo, que se esquiva no momento certo, dando espaço para a dubiedade da trama. Papagaios centra sua narrativa em um universo típico da contemporaneidade, o das subcelebridades, essas pessoas que mesmo não tendo um talento em especial, buscam a fama a qualquer preço, graças ao papel que desempenham os meios de comunicação. Tunico poderia ser um personagem dos atuais reality shows , mas não, ele é o que chamamos de papagaio de pirata, aquelas pessoas que se põe atrás de uma reportagem para aparecer, mesmo que seja em segundo plano.  Tunico não é o único a exercer esse papel, volta e meia um pequeno grupo de...
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BELADONA (2026) Dir. Alanté Kavaïté

Texto por Marco Fialho Beladona , dirigido pela diretora Alanté Kavaïté (filha de lituanos) ,   é um filme que investe numa ideia distópica em um futuro próximo. A história é cercada por mistérios e se passa em uma ilha onde moram alguns idosos cuidados pela jovem Gaëlle (Nadia Tereszkiewicz), que resistem a uma política do governo que os capturam para os obrigarem a viver presos, afastados da sociedade.  No filme, a ilha é abalada pela chegada de dois jovens irmãos, Aline (Daphné Patakia) e David (Dali Benssalah), que contrariam o sistema rígido mantido por Gaëlle. Os irmãos seduzem os idosos com suas visões ousadas sobre a vida e irritam Gaëlle.  Beladona pode ser lido como uma metáfora sobre como podemos modificar nossa forma de viver, visando a alargar a nossa vivência feliz nesse mundo. Mas a diretora Alanté Kavaïté toma um caminho que pouco desnuda os verdadeiros interesses dos dois irmãos e dos próprios idosos, fazendo emergir do filme um interesse pela dúvida...

E SEUS FILHOS DEPOIS DELES (2026) Dir. Ludovic & Zoran Boukherma

Texto por Marco Fialho O melhor da juventude é que ainda não temos uma plena consciência de nossos atos, mas descobrimos depois o quanto ela deixa marcas profundas em cada um de nós. É por volta desse tema que  E Seus Filhos Depois Deles , dirigido pelos irmãos Ludovic & Zoran Boukherma, passeia com certo frescor. O filme é baseado no Best Seller homônimo de Nicolas Mathieu, lançado em 2018.     E Seus Filhos Depois Deles é uma típica obra que pode ser vista como um romance de formação, onde acompanhamos a trajetória de vida de Anthony (Paul Kircher) e o seu processo de amadurecimento, os amores e o início da fase adulta numa cidade do interior. Um dos pontos enfocados é o da relação com os pais, com o primo (Louis Memme) e com a rua.  Dramaturgicamente, o filme surpreende pela densidade conseguida ao longo de seus 140 minutos de duração. E Seus Filhos Depois Deles é um mergulho na psiquê de Anthony, de como vivenciou o amadurecimento com os pais, as me...

OITO DÉCADAS DE AMOR (2026) Dir. Julio Medem

Texto por Marco Fialho O cineasta espanhol Julio Medem se consagrou com o filme Os Amantes do Círculo Polar (1998) , que narra uma história de encontros e desencontros improváveis, amores e formação familiar inusitada, sempre mediados por uma ideia de circularidade. Na verdade, essa é uma tônica de obras como Caótica Ana (2007), Lucia e o Sexo (2001), Um Quarto em Roma (2010) e Ma ma (2015), mas o curioso é que em  Oito Décadas de Amor o diretor insere um elemento novo e instigante na sua filmografia: a política. Julio Medem enfoca várias décadas, de 1931 até 2021, o que abarca os 90 anos dos dois protagonistas: Octavio (Javier Rey) e Adela (Ana Rujas), ele educado por uma família fascista e ela por um pai republicano. Eles nascem no mesmo dia e o diretor irá fazê-los morrer no dia em que completaram 90 anos.  Mais do que tratar a história desses personagens, Julio Medem elabora algo maior ao expor por meio deles as fragilidades históricas da Espanha, da Guerra Civil Espa...

CASO 137 (2026) Dir. Dominik Moll

Texto por Marco Fialho O que chama mais atenção em Caso 137,  produção francesa dirigida por Dominik Moll ( A Noite do Dia 12 ), é a similitude da situação policial retratada no filme acontecer cotidianamente no Brasil, afinal, um policial usar de força desproporcional em uma abordagem a um cidadão aqui é algo infelizmente mais do que comum, e é o que nos aproxima tragicamente deste filme. Em Caso 137 , a inspetora Stephanie (uma Léa Drucker impecável e vibrante), junto com a sua equipe, abre uma investigação contra um grupo de policiais que são denunciados por terem atirado com uma bala de borracha na cabeça de um jovem durante os intensos protestos políticos dos chamados "coletes amarelos", um movimento que teve uma grande repercussão em Paris, no ano de 2018, contra Macron e a sua política econômica. O filme se assume como uma ficção baseada em um fato verídico, o que dá um caráter mais contundente à narrativa. O diretor aproveita a tensão intrínseca à essa história para r...

RETROSPECTIVA VIVIAN OSTROVSKY

Texto por Carmela Fialho Retrospectiva Vivian Ostrovsky "Para mim, cinema experimental significa ter liberdade total - liberdade de duração, de tema, de forma.(...) fazer o que você quer sem se submeter às regras comerciais. São outros valores, não é tanto sobre ser longe da indústria, mas sobre liberdade de criação. De resto, é frustrante ver que hoje o cinema está cada vez mais padronizado, com poucas surpresas".  Vivian Ostrovsky em entrevista inédita a Fernanda Pessoa, extraído do Catálogo do 31º Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade 2026. Na retrospectiva Vivian Ostrovsky, assistimos ao programa 2, denominado corpos em trânsito, com os filmes Movie ( V.O.)  (1982); Idas e Vindas   (1984); Copacabana Beach  (1983); Domínio Público  (1996); e U.S.S.A (1985). O que unifica os cinco curtas são as filmagens de corpos humanos em diferentes atividades do cotidiano em várias regiões do planeta, como Estados Unidos, França, Brasil e a antiga União ...

FERNANDO CONI CAMPOS: CADA UM VIVE COMO SONHA (2025) Dir. Luis Abramo e Pedro Rossi

Texto por Marco Fialho O documentário Fernando Coni Campos: Cada um Vive Como Sonha (sub-titulo extraído de um pensamento do Padre Antônio Vieira), dirigido por Luis Abramo (filho de Fernando Coni Campos) e Pedro Rossi, é uma espécie de obra que se afirma por um intrínseco rescaldo de intimidade, que resvala por todas as bordas de uma película que está presente em cada frame desse belo filme. A montagem de Juliana Guanais persegue as ideias e os sentimentos do cineasta que vão se espalhando quase sem pretensão pela tela, amarrando imagens e sons quase que por uma intuição afetuosa. A voz de Fernando Coni Campos nos chega de vários cantos, seja por um gravador ou por meio de entrevistas de época. Sua fala soa sempre majestosa, de quem sabe o que quer porque segue o coração. O cinema, que o próprio Fernando nomeou como a arte noturna, que precisa do escuro para poder se comunicar. A noite é o espaço dos sonhos que aliás era a matéria prima do seu cinema, não casualmente, o corte de olho ...

OS OLHOS DE GANA (2025) Dir. Ben Proudfoot

Texto por Marco Fialho O documentário Os Olhos de Gana é uma produção estadunidense, dirigida por um canadense, que resgata a história de um cineasta de Gana, Chris Hesse, de 93 anos, que luta para que a memória política do seu país seja preservada e contada pelo seu povo. Em torno dele giram outras histórias que se cruzam a dele. A produção executiva é de Barack e Michelle Obama, que fazem uma desnecessária apresentação antes do filme iniciar. Como personagem, Chris Hesse é fantástico e o principal narrador de Os Olhos de Gana , ciente de seu papel como artista e que está no entardecer (esse é um termo utilizado por ele) de sua vida, esse ganense discorre sobre uma vida de desafios até tornar-se cinematógrafo de Kwame Nkrumah, primeiro presidente pós independência colonial do país. Hesse realizou vários filmes sobre o presidente, com a proposta de contar a história de Gana pela perspectiva popular.  O filme entrelaça Chris Hesse com mais dois personagens, um deles é Anita, uma jov...

PROUST PALIMPSESTO: PASTICHES E MISTURAS (2026) Dir. Carlos Adriano

Texto por Marco Fialho Creio que a melhor maneira de iniciar uma análise sobre Proust Palimpsesto: Pastiches e Misturas  seja pelo título, pois muitos na certa nunca ouviram ou leram algo acerca da palavra palimpsesto. Ela pode ter vários significados, dependendo do contexto em que é utilizada, portanto, o relevante é entender como ela foi inserida no filme. Dois sentidos dela cabem aqui, um primeiro que a explica pela sobreposição, já que a própria concepção do filme de Carlos Adriano é a sobreposição de imagens com textos em tela e sons. Mas há ainda um sentido figurado da palavra palimpsesto que o diretor também se apropria, em que uma obra incorpora ou guarda traços de outra. De qualquer maneira estamos a refletir aqui sobre sobreposição, que é o elemento mais utilizado neste documentário ensaístico. O subtítulo Pastiches e Misturas, foi extraído de uma das obras de Marcel Proust publicado aqui no Brasil com o título  Pastichos e Miscelânea .   Proust Palimpsesto...

ATLAS DO DESAPARECIMENTO (2026) Dir. Manuel Correa

Texto por Marco Fialho Tem filmes que são necessários, embora difíceis de serem vistos.  Atlas do desaparecimento , dirigido por Manuel Correa, é um deles. Que pedrada esse documentário se revela ao tratar da dificuldade, e quase impossibilidade, dos parentes dos assassinados pela ditadura franquista (1936-75), terem acesso aos seus restos mortais.  Atlas do desaparecimento conta com o auxílio do algoritmo e de modernos programas de arquitetura para auxiliar no encontro e identificação dos corpos. Mas mesmo assim a tarefa é quase impossível, devido a diversas medidas tomadas pelo Estado franquista para inviabilizar a tarefa. O documentário se utiliza de imagens de arquivo misturadas com atuais e a força delas são impressionantes, de familiares da segunda geração que ainda sonham em ter os corpos à disposição para enterrá-los em seus jazigos.  Em 1940, o governo franquista criou o mausoléu Valle de los Caídos, com a finalidade de por os corpos de quem participou da Guerra ...