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A HISTÓRIA DO SOM (2025) Dir. Oliver Hermanus

Texto por Marco Fialho A História do Som , dirigido por Oliver Hermanus e baseado em um conto de Ben Shattuck (também responsável pela adaptação para o cinema) é um filme sobre encontros. O de Paul Mescal com Josh O'Connor (e que dupla eles formam aqui), o da música com a vida, de David (O'Connor) com Lionel (Mescal) e da música com eles. A direção opta por narrar a história pela perspectiva de Lionel, um personagem que se encanta com David e viaja com ele rumo ao registro do folk norte-americano, que transita tanto pelo amor quanto pelos descaminhos da solidão. Vejo Lionel como um personagem complexo, em busca de conexões profundas, cuja pesquisa musical do folk o leva a descobertas musicais escondidas em lugarejos rurais e que se apaixona por David, um músico que como ele adora o folk e almeja registrá-lo em modernos aparelhos de captação de voz. Essa conexão é o que guiará A História do Som desde o início até o fim.  A História do Som  é um filme sobre a graça de viver, e l...
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O CASO DOS ESTRANGEIROS (2025) Dir. Brandt Andersen

Texto por Marco Fialho Abordar em uma obra artística um tema ou acontecimento atual, mas cuja informações sobre ele são filtradas somente pelos grandes conglomerados de comunicação é complicado. É o caso de O Caso dos Estrangeiros , filme dirigido por Brandt Andersen, que trata da questão da Guerra na Síria, iniciada em 2011, objetivo era derrubar o regime político de Bashar Al-Assad.  O Caso dos Estrangeiros enfoca em sua trama visões de personagens que se entrelaçam numa fuga desesperada da Síria. Assim, temos uma médica, um poeta, um soldado, um traficante de pessoas e um capitão grego que trabalha resgatando justamente refugiados vindos da Síria. O diretor Brandt Andersen vai narrando como cada um desses personagens chegou no limite de suas forças nesse difícil processo de uma guerra civil.  A escolha por fragmentar a história não permite que se aprofunde muito as histórias e por isso ficamos com uma sensação de que sempre falta alguma informação a mais para uma análise ma...

MANUAL PRÁTICO DA VINGANÇA LUCRATIVA (2025) Dir. John Patton Ford

Texto por Marco Fialho Por mais que Glen Powell transfira seu carisma para o personagem Becket Redfellow, um homem que convive com a frustração de nascer numa família em que a riqueza se avizinhava, mas que não podia usufruir dela, apenas depois da morte de alguns herdeiros mais próximos ao patriarca Whitelaw Redfellow (Ed Harris).  Manual Prático da Vingança Lucrativa , dirigido pelo diretor John Patton Ford (um burocrata que decupa seu filme da maneira mais óbvia possível), parte de uma proposta de refilmagem do filme inglês  As Oito Vítimas , de 1949, estrelado por Alec Guinness. A versão atual até tem seus momentos de humor, embora não consiga em nenhum momento realmente convencer por completo. O roteiro aqui é tão redondinho que atrapalha o resultado, especialmente pelo excesso de previsibilidade. Fora que Margaret Qualley não consegue estabelecer um bom diálogo cênico com Glen Powell, como se os dois estivessem sem sintonia em suas composições.  Esse é um filme que ...

O MORRO DOS VENTOS UIVANTES (2026) Dir. Emerald Fennell

Texto por Marco Fialho Na nova versão de  O Morro dos Ventos Uivantes , dirigido pela diretora Emerald Fennell, sobra beleza plástica e artificialismo. Talvez isso justifique a decisão de refilmar um dos livros mais adaptados para o cinema, de autoria da escritora inglesa do século XIX, Emily Brontë. Emerald Fennell vem enfrentando muitas críticas pela escolha de Jacob Elordi como Heathcliff, já que na versão literária o personagem é um homem não branco, atitude considerada de embranquecimento (conhecida também pela denominação em inglês, whitewashing ), mas no decorrer do texto ficará claro o porquê dessa escolha inapropriada para a história e adequada ao fim maior dessa mega produção. Entretanto, vale destacar que além desse fato já incômodo por si, a atuação de Elordi é canhestra, como se o ator estivesse ainda imbuído do seu personagem de Frankenstein  não há uma pitada sequer de sutileza na sua interpretação. Nessa adaptação nota-se que o roteiro é um dos pontos fracos, j...

ZAFARI (2025) Dir. Mariana Rondón

Texto por Marco Fialho Desde as imagens iniciais,  Zafari sugere algo distópico: um condomínio de luxo que estranhamente tem ao lado um zoológico. É nesse ambiente que a diretora Mariana Rondón (do ótimo Pelo Malo ) fixa sua câmera para narrar uma história tipicamente da América do Sul, onde miséria, ecos de riqueza e ambiente selvagem se misturam para uma anunciada desintegração.  No centro de Zafari está Ana (Daniela Ramirez), que vive com o arrogante e imóvel marido Edgar (Francisco Denis) e o distante filho adolescente Bruno (Varek La Rosa). Zafari é um hipopótamo, que chega para ser a grande atração do zoológico e que será cuidado pelo casal Natalia (Samantha Castillo) e Ali (Alí Rondón), moradores do prédio vizinho onde mora Ana, um imóvel bem mais simples do que o dela.        A diretora Mariana Rondón, que também assina como uma das roteiristas de Zafari , junto com Marité Ugas, não precisa em qual país se passa o filme, mas sabe-se que um...

LIVING THE LAND (2025) Dir. Huo Meng

Texto por Marco Fialho Living The Land , vencedor do Urso de Prata de Direção no Festival de Berlim, narra uma história de um tempo agrário que se encerra numa determinada geração, que o diretor Huo Meng sublinha como sendo o começo dos anos 1990. O filme aborda os últimos momentos de uma comunidade chinesa do interior em desintegração.  A maior consequência dessa decadência agrária comunitária é o quanto as tradições, algumas milenares, serão impactadas, sem qualquer tipo de aviso ou transição, apenas haverá a chegada de novas tecnologias que vão acelerar o processo produtivo da China em poucos anos. A tradição dá lugar à modernidade e fatalmente a novos valores. Living The Land faz por vezes uma reconstituição que beira o documental, com a câmera atenta a registrar quadros do tipo tableau vivant . Essa preocupação em fazer esse registro, enrijece a narrativa, que na maioria das vezes cria mais poses que artificializam a mise en scène , não permitindo que a vida cotidiana sej...

ME AME COM TERNURA (2025) Dir. Anna Cazenave Cambet

Texto por Marco Fialho Me Ame Com Ternura , filme dirigido por Anna Cazenave Cambet, narra com muita sensibilidade temas delicados como a da separação de um casal heterossexual e relações amorosas entre mulheres, tendo uma criança no meio de toda a trama e com um ex-marido obcecado numa punição da ex-esposa. A obra é baseada na autobiografia de Constance Debré.       Anna Cazanave Cambet é muito feliz em costurar a mise en scène de Me Ame Com Ternura , especialmente por explorar o imenso talento cênico da atriz Vicky Krieps (Trama Fantasma), em mais uma interpretação comovente como Clémence, uma mãe que luta para ter o direito à guarda compartilhada de Paul (Viggo Ferreira-Redier), seu filho com o ex-marido Laurent (Antoine Reinartz).  A câmera não desgruda de Clémence e todos os outros personagens só aparecem em Me Ame Com Ternura para contracenarem com ela. Nunca sabemos o que ocorre entre pai e filho, apenas entre mãe e filho, e entre ex-marido e ex-esposa o...

A VIZINHA PERFEITA (2025) Dir. Geeta Gandbhir

Texto por Marco Fialho A Vizinha Perfeita chama atenção pelos dispositivos utilizados pela diretora Geeta Gandbhir para analisar a história de um assassinato ocorrido dentro de um conflito no Condado de Marion, na Flórida, entre uma família negra e uma senhora branca. O dispositivo que mais atrai nesse documentário indicado ao Oscar é o do uso da câmera corporal de policiais em serviço, na maior parte do tempo, o que implica pensarmos sobre essas imagens e as poucas imagens gravadas fora desse contexto.  O uso das câmeras corporais efetiva em um primeiro instante, que boa parte do filme partiu de imagens e sons extraídos quando o conflito já está de alguma forma conflagrado. Se o filme inicia com imagens da polícia chegando após um crime ocorrer, o de Susan Lorincz (a mulher branca) atirar em Ajike Owens (a mulher negra), o que vemos depois são imagens resgatadas de muito antes, que registram uma etapa mais inicial do conflito, com Susan implicando com as crianças vizinhas que brin...

BOM TRABALHO (1999) Dir. Claire Denis

Texto por Marco Fialho Bom Trabalho é uma baita obra da diretora Claire Denis, com a colaboração luxuosa da fotografia, e em especial da câmera de Agnés Godard. Cada imagem tem um requinte diferenciado, uma expressividade que deixa os diálogos sistematicamente em segundo plano.  O filme me remeteu a filmes como "Querelle", de W. Fassbinder, pelo culto aos corpos masculinos que reiteradamente faz, e me fez pensar ainda em "Apocalipse Now", de Francis Ford Coppola, pela crítica ao militarismo e seus rituais. A câmera tem uma fixação pelos corpos dos soldados na mesma medida em que o oficial Galoup (Denis Lavant) fica ensimesmado por um soldado de sua legião.  Bom Trabalho reproduz os pensamentos e as memórias de Galoup sobre sua experiência incomum e dilacerante em um país da costa africana. O cinema de Claire Denis se expressa como profundamente sensitivo, extremamente tátil, que intenciona a sensação do toque, que induz a ele e nesse sentido é provocador por ensej...

MILONGA (2023) Dir. Laura González

Texto por Marco Fialho Milonga marca a estreia de Laura González como diretora de longas. Pode-se dizer que esse é um belo filme inaugural por saber se apropriar de um ponto de vista, o da personagem Rosa, interpretada pela chilena Paulina García, uma das mais prestigiadas atrizes do mundo, para levar os espectadores a mergulhar na vida dessa solitária senhora, uma recém viúva, cujo filho está preso numa penitenciária. Como é bom ver um filme em que um personagem é o centro do desenvolvimento do enredo. No decorrer da trama vamos conhecendo detalhes e sutilezas acerca de Rosa, vamos nos surpreendendo e encantando com ela. Paulina García sabe como investir nos gestos e olhares, jogando com a nossa atenção e nos despertando para as suas ações e silêncios.  Se tem algo que se destaca na vida da personagem é a sua casa, vistosa e opressiva, que muito diz sobre um passado confortável que teve ao lado do marido, mas que a aprisionou sobremaneira. Mas ao mesmo tempo, Rosa deixa entrever q...