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OS OLHOS DE GANA (2025) Dir. Ben Proudfoot

Texto por Marco Fialho O documentário Os Olhos de Gana é uma produção estadunidense que resgata a história de um cineasta de Gana, Chris Hesse, de 93 anos, que luta para que a memória política do seu país seja preservada e contada pelo seu povo. Em torno dele giram outras histórias que se cruzam a dele. A produção executiva é de Barack e Michelle Obama, que fazem uma desnecessária apresentação antes do filme iniciar. Como personagem, Chris Hesse é fantástico e o principal narrador de Os Olhos de Gana , ciente de seu papel como artista e que está no entardecer (esse é um termo utilizado por ele) de sua vida, esse ganense discorre sobre uma vida de desafios até tornar-se cinematógrafo de Kwame Nkrumah, primeiro presidente pós independência colonial do país. Hesse realizou vários filmes sobre o presidente, com a proposta de contar a história de Gana pela perspectiva popular.  O filme entrelaça Chris Hesse com mais dois personagens, uma jovem que decide fazer um filme sobre ele e o Sr....
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ATLAS DO DESAPARECIMENTO (2026) Dir. Manuel Correa

Texto por Marco Fialho Tem filmes que são necessários, embora difíceis de serem vistos.  Atlas do desaparecimento , dirigido por Manuel Correa, é um deles. Que pedrada esse documentário se revela ao tratar da dificuldade, e quase impossibilidade, dos parentes dos assassinados pela ditadura franquista (1936-75), terem acesso aos seus restos mortais.  Atlas do desaparecimento conta com o auxílio do algoritmo e de modernos programas de arquitetura para auxiliar no encontro e identificação dos corpos. Mas mesmo assim a tarefa é quase impossível, devido a diversas medidas tomadas pelo Estado franquista para inviabilizar a tarefa. O documentário se utiliza de imagens de arquivo misturadas com atuais e a força delas são impressionantes, de familiares da segunda geração que ainda sonham em ter os corpos à disposição para enterrá-los em seus jazigos.  Em 1940, o governo franquista criou o mausoléu Valle de los Caídos, com a finalidade de por os corpos de quem participou da Guerra ...

O ESTRANGEIRO (2025) Dir. François Ozon

Texto por Marco Fialho Conhecido pela sua narrativa sempre repleta de peripécias,  O Estrangeiro é sem dúvida o filme mais seco de François Ozon, talvez por ser baseado no livro do existencialista francês Albert Camus, que se sustenta por uma severa austeridade narrativa. É muito interessante como Ozon demonstra admiração pelo livro e respeita por demais a história e o tom quase sem emoção que Camus impõe à obra.  Mas Ozon subverte o livro pela montagem, embaralhando a ordem cronológica de Camus e impondo uma abordagem em terceira pessoa, diferente do livro que opta pela primeira pessoa. A escolha por uma fotografia em P&B também confere um sabor diferente ao filme, uma crueza que o uso do colorido talvez amenizasse, uma maneira encontrada por Ozon para salientar a dureza que as palavras conferem ao livro e que as imagens coloridas poderiam amenizar.  Mas é estranho ver François Ozon realizando uma versão mais clean para um filme seu, pois é sabido o quanto o diretor...

ELIZABETH BISHOP: DO BRASIL, COM AMOR (2025) Dir. Vivian Ostrovsky

Texto por Marco Fialho e Carmela Fialho Vivian Ostrovsky é conhecida por seus trabalhos como curta-metragista experimental, filmes como Copacabana Beach (1983), Idas e Vindas (1984), U. S. S. A.. (1985) e tantos outros produzidos entre os anos 1980 e os nossos dias. Portanto, Elizabeth Bishop: Do Brasil, Com Amor chega como uma surpresa por se tratar de um documentário de longa-metragem sobre a famosa poeta norte-americana e sua passagem longeva pelo Brasil, e mais especificamente pela Zona Sul do Rio de Janeiro e Petrópolis. Essa passagem pelo Brasil se alongou sobretudo pelo envolvimento de Elizabeth com a arquiteta brasileira Lota de Macedo Soares. A diretora prioriza as cartas pessoais, trocadas com amigas de seu país de origem, onde Bishop relata suas impressões sobre o Brasil, principalmente Rio de Janeiro, Ouro Preto e Petrópolis, esse último lugar onde viveu com Lota em meio a natureza e conseguiu retomar a sua produção literária.  A diretora Vivian Ostrovsky assume a funçã...

APOPCALIPSE SEGUNDO BABY (2026) Dir. Rafael Saar

Texto por Marco Fialho Se um documentário de personagem precisa antes de tudo elucidá-lo, revelar o seu âmago,  Apopcalipse Segundo Baby, dirigido por Rafael Saar, o faz com a devida precisão. Em quase duas horas, vemos Baby do Brasil em sua inteireza, como uma mulher que desde cedo fez escolhas controversas, assumindo cada uma delas com o seu brilho intrínseco. E esse é um documentário que sabe sugar a energia de sua protagonista, para levar o espectador junto nessa intensa viagem dos sentidos. Quem poderia achar que sua religiosidade de hoje a faria negar o passado hippie e contestador, logo se engana, pois a própria Baby em certo momento afirma que não rejeita nada que viveu no passado. Tanto que em 110 minutos de filme, apenas 15 são voltados para a fase mais recente. Rafael Saar realiza um documentário pulsante, corajoso e que mostra uma Baby complexa e irrequieta.  Rafael Saar utiliza em sua narrativa depoimentos quase sempre em off de Baby enquanto exibe imagens de arqu...

COBERTURA DO 31º FESTIVAL INTERNACIONAL DE DOCUMENTÁRIOS "É TUDO VERDADE 2026"

Aqui você encontra todas as críticas produzidas pelo CineFialho para o Festival Internacional É TUDO VERDADE, edição 2026, com textos de Marco Fialho e Carmela Fialho. Os textos vão sendo incluídos por aqui diariamente, na medida que os filmes são vistos e analisados. Boa leitura. ATLAS DO DESAPARECIMENTO Dir. Manuel Correa Link da crítica:  ATLAS DO DESAPARECIMENTO (2026) Dir. Manuel Correa ELIZABETH BISHOP: DO BRASIL, COM AMOR  Dir. Vivian Ostrovsky Link da crítica:  ELIZABETH BISHOP: DO BRASIL, COM AMOR (2025) Dir. Vivian Ostrovsky APOPCALIPSE SEGUNDO BABY Dir. Rafael Saar Link da crítica:  APOPCALIPSE SEGUNDO BABY (2026) Dir. Rafael Saar A FABULOSA MÁQUINA DO TEMPO   Dir. Elisa Capai Link da crítica:  A FABULOSA MÁQUINA DO TEMPO (2025) Dir. Elisa Capai RETIRO - A CASA DOS ARTISTAS   Dir. Pedro Bronz e Roberto Berliner Link da crítica:  RETIRO - A CASA DOS ARTISTAS (2026) Dir. Pedro Bronz e Roberto Berliner VIVO 76   Dir. Lírio Ferreira li...

RETIRO - A CASA DOS ARTISTAS (2026) Dir. Pedro Bronz e Roberto Berliner

Texto por Marco Fialho A princípio, a profusão de personagens de Retiro - A Casa dos Artistas , dirigido por Pedro Bronz e Roberto Berliner, parece excessiva, por não permitir um aprofundamento acerca deles. Mas logo somos demovidos dessa ideia quando nos damos conta que essa pluralidade almeja a construção de algo maior, a teia de relações que forjam a alma do Retiro dos Artistas. O central então é a ideia de coletivo que esse espaço quase etéreo proporciona por abrigar artistas das mais variadas manifestações, que convivem em um lugar onde pares artísticos podem se encontrar e conviver.   Pode-se dizer que o acolhimento é a argamassa que sustenta esse documentário, filmado com muito cuidado pelos diretores, atentos ao registro das individualidades dentro de um condomínio de casas que respeita seus moradores dentro de uma estrutura material que permite uma velhice com dignidade entremeada de arte e amizade. São todos personagens especiais, tocados pela arte que cultivaram dur...

A FABULOSA MÁQUINA DO TEMPO (2025) Dir. Elisa Capai

Texto por Marco Fialho e Carmela Fialho É impossível iniciar a análise de A Fabulosa Máquina do Tempo sem lembrar que a estrutura fabular já está marcada desde o título do filme. Elisa Capai realiza uma obra de transbordante leveza, embora esteja discutindo questões profundas. A diretora a todo instante está a equilibrar sua narrativa em um finíssimo fio tênue entre o documental e a ficção, embora esse desafio de gênero cinematográfico para o espectador seja deveras irrelevante.  Logo na primeira cena a fábula sobre a origem do mundo se impõe em meio a uma brincadeira infantil, enquanto ao fundo escutamos um baião, o que demonstra de cara que estamos em uma cidade do nordeste. Na verdade, o filme se passa em Guaribas, um pequeno município do Piauí, escolhido para ser projeto modelo do Bolsa Família. Como realizar um filme com 10 crianças que hoje estão quase na adolescência e fazer isso valorizando o ponto de vista delas? Creio que essa resposta está no filme de Capai, pois a diret...

VIVO 76 (2026) Dir. Lírio Ferreira

Texto por Marco Fialho Lírio Ferreira se vale da figura felliniana de Alceu Valença para reconstruir o imenso mosaico que compõe as raízes musicais desse pernambucano nascido na pequena cidade agreste de São Bento de Una. O circo é nitidamente um elemento a acrescentar criatividade à concepção artística de Alceu e está presente em sua obra como algo estrutural em seu trabalho, inclusive em Vivo 76. Mas em Vivo 76 , o que vemos são dois Alceus: um primeiro, que aos 80 anos já possui uma reconhecida carreira enquanto revisita o passado quando ainda sequer supunha onde chegaria como cantor e compositor; o outro Alceu, é um jovem rebelde repleto de uma energia no palco que deixaria atônito até o irrequieto Mick Jagger. Logo no início do filme Lírio Ferreira nos convida a um enigmático passeio bucólico, ao adentrar em uma estreita estrada de chão margeada por uma densa vegetação que leva à casa onde Alceu Valença nasceu. Depois vemos Alceu entrando numa casa grande e antiga com um olhar per...

BOWIE: O ATO FINAL (2025) Dir. Jonathan Stiasny

Texto por Marco Fialho Apesar de tratar da carreira de um dos maiores ícones pops da música, Bowie: O Ato Final se dignifica por escolher um viés muito bem delimitado: o de trazer à luz alguns momentos difíceis de sua trajetória. O diretor Jonathan Stiasny mergulha nas fases mais obscuras, se esforçando por entender como David Bowie pensava a arte e extraindo desses momentos elementos que o definam como artista. Talvez seu foco nem seja tanto o da fases em si, mas sim o de captar o modus operandi  de Bowie como artista. Mesmo que o formato convencional expositivo dê o tom narrativo de  Bowie: O Ato Final , o recorte da direção alavanca esse documentário, por trazer fases menos conhecidas do astro. Se a narrativa é previsível e baseada sobretudo nos depoimentos frontais de músicos e de pessoas que gravitaram em torno de Bowie, a montagem desorganiza o tempo para poder tornar coerente o discurso cinematográfico. De 1983 o filme parte para 1989, depois retrocede para 1967, 1973, ...