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A FABULOSA MÁQUINA DO TEMPO (2025) Dir. Elisa Capai

Texto por Marco Fialho e Carmela Fialho É impossível iniciar a análise de A Fabulosa Máquina do Tempo sem lembrar que a estrutura fabular já está marcada desde o título do filme. Elisa Capai realiza uma obra de transbordante leveza, embora esteja discutindo questões profundas. A diretora a todo instante está a equilibrar sua narrativa em um finíssimo fio tênue entre o documental e a ficção, embora esse desafio de gênero cinematográfico para o espectador seja deveras irrelevante.  Logo na primeira cena a fábula sobre a origem do mundo se impõe em meio a uma brincadeira infantil, enquanto ao fundo escutamos um baião, o que demonstra de cara que estamos em uma cidade do nordeste. Na verdade, o filme se passa em Guaribas, um pequeno município do Piauí, escolhido para ser projeto modelo do Bolsa Família. Como realizar um filme com 10 crianças que hoje estão quase na adolescência e fazer isso valorizando o ponto de vista delas? Creio que essa resposta está no filme de Capai, pois a diret...
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VIVO 76 (2026) Dir. Lírio Ferreira

Texto por Marco Fialho Lírio Ferreira se vale da figura felliniana de Alceu Valença para reconstruir o imenso mosaico que compõe as raízes musicais desse pernambucano nascido na pequena cidade agreste de São Bento de Una. O circo é nitidamente um elemento a acrescentar criatividade à concepção artística de Alceu e está presente em sua obra como algo estrutural em seu trabalho, inclusive em Vivo 76. Mas em Vivo 76 , o que vemos são dois Alceus: um primeiro, que aos 80 anos já possui uma reconhecida carreira enquanto revisita o passado quando ainda sequer supunha onde chegaria como cantor e compositor; o outro Alceu, é um jovem rebelde repleto de uma energia no palco que deixaria atônito até o irrequieto Mick Jagger. Logo no início do filme Lírio Ferreira nos convida a um enigmático passeio bucólico, ao adentrar em uma estreita estrada de chão margeada por uma densa vegetação que leva à casa onde Alceu Valença nasceu. Depois vemos Alceu entrando numa casa grande e antiga com um olhar per...

BOWIE: O ATO FINAL (2025) Dir. Jonathan Stiasny

Texto por Marco Fialho Apesar de tratar da carreira de um dos maiores ícones pops da música, Bowie: O Ato Final se dignifica por escolher um viés muito bem delimitado: o de trazer à luz alguns momentos difíceis de sua trajetória. O diretor Jonathan Stiasny mergulha nas fases mais obscuras, se esforçando por entender como David Bowie pensava a arte e extraindo desses momentos elementos que o definam como artista. Talvez seu foco nem seja tanto o da fases em si, mas sim o de captar o modus operandi  de Bowie como artista. Mesmo que o formato convencional expositivo dê o tom narrativo de  Bowie: O Ato Final , o recorte da direção alavanca esse documentário, por trazer fases menos conhecidas do astro. Se a narrativa é previsível e baseada sobretudo nos depoimentos frontais de músicos e de pessoas que gravitaram em torno de Bowie, a montagem desorganiza o tempo para poder tornar coerente o discurso cinematográfico. De 1983 o filme parte para 1989, depois retrocede para 1967, 1973, ...

PAI MÃE IRMÃ IRMÃO (2025) Dir. Jim Jarmusch

Texto por Marco Fialho O título Pai Mãe Irmã Irmão não deixa de ser um ardil que o diretor Jim Jarmusch interpõe no caminho do espectador. Logo que inicia o filme vem o letreiro Pai colocado para que estabeleça uma primeira parte. A seguir, uma nova parte começa e ela se chama Mãe, o que de cara deduzimos que seria um continuidade do outro. Entretanto, em algum momento constatamos que cada "parte" possui uma independência, embora efetivamente exista uma integração e ela ocorre pela temática e por critérios estilísticos, ou se preferirmos por nuances cinematográficas. Assim, Pai se desenha como um primeiro episódio; Mãe como um segundo episódio; e Irmã Irmão como um último episódio, cada qual com seus atores e personagens próprios.  Se cada episódio é independente um do outro, o ardil de Jarmusch, que expusemos acima, se evidencia pela temática familiar. O que unifica ou agrega os três episódios é alguma medida de esfacelamento de uma ideia de família burguesa intrínseca a tod...

BARBA ENSOPADA DE SANGUE (2024) Dir. Aly Muritiba

Texto por Marco Fialho  Em  Barba Ensopada de Sangue , o diretor e coroteirista Aly Muritiba, adapta junto com Jessica Candal o best-seller homônimo de Daniel Galera para narrar a história de Gabriel (Gabriel Leone) que busca encontrar-se com o seu passado. Ou seria o filme sobre a Praia de Armação (que no romance é Garopaba) e sua encapsulada, misteriosa e violenta vida pregressa e atual? A direção caminha na linha tênue dessa imprecisão para construir sua narrativa instável. Essa decisão seria fundamental para determinar se o filme pretende se aprofundar na psiquê do personagem ou nas vicissitudes do território abordado. Barba Ensopada de Sangue decide pelos dois caminhos, o que impede que suas potencialidades sejam afloradas, pois ambos trajetos narrativos dariam resultados instigantes. Até acredito que Muritiba sublinhe mais a crise existencial de Gabriel de que nas esquisitices da cultura praieira da Praia da Armação.   Aly Muritiba divide seu filme em três part...

RUAS DA GLÓRIA (2026) Dir. Felipe Sholl

Texto por Marco Fialho Ruas da Glória assinala o segundo trabalho de Felipe Sholl como diretor de cinema. Entretanto, em paralelo a esse trabalho como diretor incipiente, Felipe se destaca também como colaborador em roteiros de filmes como Hoje (2011), com Jean-Claude Bernardet e Rubens Rewald;  Campo Grande (2015), com Sandra Kogut; M8 - Quando a Morte Socorre a Vida (2018), com Jeferson De; Casa de Antiguidades (2020) com João Paulo Miranda Maria; o premiadíssimo Manas (2024) com Marcelo Grabowsky; e ( Des)controle (2025), com Iafa Britz. Toda essa cancha o fez amadurecer até chegar ao roteiro de Ruas da Glória . Entretanto, um roteiro azeitado não é garantia em si de total êxito, mesmo que ajude consideravelmente o trabalho da direção. E Felipe Sholl demonstra competência na estruturação de sua mise-en-scène , com interpretações consistentes e maduras do elenco, uma câmera inquieta (muitas vezes na mão) que permite ao espectador mergulhar na intimidade e angústias do protagonist...

VERDADE E TRAIÇÃO (2025) Dir. Matt Whitaker

Texto por Marco Fialho Dá sempre um frio na barriga quando temos pela frente um filme sobre o nazismo que transcorre durante a segunda guerra mundial, ainda mais depois das incontáveis histórias já contadas sobre o tema no cinema. Então, o desafio primeiro é saber qual história veremos e se ela acrescentará algo ao que já sabemos. Nesse ponto, Verdade e Traição traz para o espectador uma história verídica desconhecida, a de um grupo de 4 amigos alemães que entram em conflito com o regime nazista.  O filme parte de uma história verídica, tendo Helmuth Hübener (Ewan Horrocks) como um adolescente muito inteligente, capaz de escrever com facilidade sobre temas históricos e políticos. A época em que a trama se desenvolve é o auge do regime nazista, quando a perseguição aos judeus chega a um nível intolerável. O que desperta a ira de Helmulth é a prisão arbitrária do seu amigo Salomon (Nye Occomore) e que leva o rapaz a denunciar em panfletos os abusos, o autoritarismo e a violência dos ...

NUREMBERG (2026) Dir. James Vanderbilt

Texto por Carmela Fialho  O filme Nuremberg , dirigido por James Vanderbilt, é um drama baseado no livro "O Nazista e o Psiquiatra" de Jack El-Hai. Inclusive o título que melhor se adequaria ao filme seria o do livro, pois a trama principal é a relação entre o psiquiatra americano Douglas Kelley (Rami Malek) avaliando o chefe do alto comando nazista, o Marechal Hermann Göring (Russell Crowe). Os outros líderes nazistas e o próprio julgamento de Nuremberg servem de pano de fundo para esse dramalhão que procura humanizar esse cruel líder e sua linda esposa e filha. A fotografia utilizada no filme prioriza o colorido para as cenas do drama e o preto e branco para as cenas do julgamento e as imagens de arquivo dos campos de concentração nazista apresentadas no julgamento. O Marechal do Reich Hermann Wilhelm Göring, comandante em chefe da Luftwaffe (força aérea alemã) e principal figura nazista durante o julgamento de Nuremberg, teve na interpretação de Russel Crowe um dos raros ...

CHEIRO DE DIESEL (2026) Dir. Gizele Martins e Natasha Neri

Texto por Marco Fialho Tem filmes que deveriam ser obrigatórios e exibidos gratuitamente para todos os cidadãos do Rio de Janeiro como utilidade pública, claro com os devidos direitos de exibição pagos à distribuidora. É o caso de Cheiro de Diesel , das diretoras Natasha Neri (do ótimo Auto de Resistência ) e Gizele Martins. Os moradores do asfalto deveriam assisti-lo para conhecer o ponto de vista de quem vive nas favelas, e que mormente, são noticiados de maneira deturpada, e conivente para os donos do poder, pelos grandes órgãos de imprensa. Já os moradores da favela deveriam ver para melhor se conscientizarem acerca da importância da organização política e luta pelos seus direitos essenciais à vida e fortalecerem a ideia de coletivo, que já é algo intrínseco para quem habita nesse território. Cheiro de Diesel trata das consequências da lei conhecida por GLO (Garantia da Lei e da Ordem), que permite que o exército brasileiro ocupe territórios (aqui, leia-se favelas) para dar maior s...

VELHOS BANDIDOS (2025) Dir. Cláudio Torres

Texto por Carmela Fialho O filme Velhos Bandidos do diretor Cláudio Torres pretende ser uma comédia recheada de aventuras usando truques de montagem que buscam trazer à trama agilidade e uma linguagem de filme de assalto.  Mesmo contando com grandes atores como Fernanda Montenegro, Ary Fontoura e Lázaro Ramos, o filme não consegue produzir no espectador grandes envolvimentos, pois a história já é bastante batida nos filmes de Hollywood, onde os bandidos enganam seus comparsas para ficar com o roubo. As estratégias de enganação dos velhos bandidos são bastante manjadas e durante a história já deduzimos o próximo passo, e assim, poucas são as surpresas. A trilha sonora utilizada também não traz grandes novidades, empregando músicas conhecidas do grande público, que buscam uma comunicação instantânea como o clássico do cancioneiro popular mundial  What a Wonderful World , imortalizado por Louis Armstrong e aqui interpretado pela carismática e talentosa Marisa Monte.  O maio...