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NINGUÉM PODE PROVAR NADA - A INACREDITÁVEL HISTÓRIA DE EZEQUIEL NEVES

Texto por Marco Fialho Em documentários como Ninguém Pode Provar Nada - A Inacreditável História de Ezequiel Neves  a melhor coisa a fazer é buscar ser coerente com o personagem retratado, e nesse ponto, o diretor Rodrigo Pinto acerta em cheio o alvo. Falar de Ezequiel Neves, conhecido pela sua verve, rebeldia incontrolável e uma anticaretice extrema, é por si um imenso desafio, que a direção dribla com bastante desenvoltura.  O documentário traz momentos diversos da trajetória dessa personalidade que foi ator, jornalista e produtor musical, além de ator da vida, como bem define Cazuza em certo momento do filme. Rodrigo Pinto narra Ninguém Pode Provar Nada... sem pressa, valorizando bem todas as principais fases de Ezequiel, sem procurar esconder as polêmicas e idiossincrasias do personagem e isso valoriza a abordagem. Rodrigo Pinto não abre mão de nada, usa filmes dos quais Ezequiel participou como ator, voz off, ficção, imagens de arquivo e até inteligência artificial em nar...
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AS CORRENTES (2025) Dir. Milagros Mumenthaler

Texto por Marco Fialho As Correntes , filme dirigido pela cineasta argentina Milagros Mumethaler, é uma pérola escondida em meio a um circuito que canibaliza talentos em troca de um faturamento marqueteiro. Algumas obras são propositadamente superdimensionadas e empurradas pelas nossas goelas pela força destrutiva do dinheiro, que no cinema está longe de erguer coisas belas para encher o mercado com um bando de xaropadas desclassificáveis.  Em As Correntes , a diretora Milagros nos brinda com uma obra refinada e inteligente ao instigar o espectador durante toda a projeção. Na tela vemos Lina, uma estilista de moda que está recebendo um prêmio pelo seu trabalho, mas logo as primeiras imagens somos convidados a acompanhar uma mulher em crise. Na primeira imagem de Lina, ela aparece refletida em um vidro, enquanto vemos vultos de pessoas passando e a paisagem de uma cidade da Suíça. Tudo ali não se vislumbra nítido, como se a falta de clareza já dissesse algo sobre o que assistir...

CINCO DA TARDE (2025) Dir. Eduardo Nunes

Texto por Marco Fialho Quem acompanha o diretor Eduardo Nunes desde o seu primeiro longa, o belíssimo Sudoeste (2011), sabe o quanto o seu cinema é singular. Em seu terceiro projeto, Cinco da Tarde podemos comprovar a originalidade narrativa emanada de sua obra. Um filme que impõe um ritmo e que nos lança numa imersão no tempo das personagens, o que nos faz querer acompanhá-lo do início ao fim. Na trama, Anabel (Bárbara Luz, de Ainda Estou Aqui ), uma jovem de 17 anos, perde a vó e precisa lidar com essa ausência, com a falta dela depois de tanto compartilhamento de vida e de cotidiano, já que a mãe mora longe, em Belo Horizonte. Ela é acolhida nesse momento difícil pela sua vizinha Meiko (a estreante Sharon Cho), mas o filme é mais sobre Anabel, de como ela vai lidar com a solidão e o desemparo afetivo que sente, especialmente porque o filme se desenrola durante a pandemia da Covid-19, época marcada pelo isolamento social. Bárbara Luz constrói uma personagem com rara sensibilidade e n...

CRIADAS (2025) Dir. Carol Rodrigues

Texto por Marco Fialho Criadas   é um filme sobre relações interpessoais e uma casa numa região hoje gentrificada na capital paulista. A direção de Carol Rodrigues explora essa casa como o simbólico de uma opressão racista e classista revelada a partir do encontro entre Mariana (Ana Flavia Cavalcanti) e Sandra (Mawusi Tulani), duas primas negras que vivenciaram a mesma casa, mas com experiências e posições completamente diferentes. Mariana como a filha da dona da casa e Sandra como a filha da empregada doméstica Ivone.  No transcurso de Criadas fica evidente o quanto a casa se coloca como um personagem crucial e carrega memórias e fantasmas sociais para além da família e de seus empregados, pois ela representa em sua própria divisão espacial uma forma de poder e opressão. Não casualmente, os fantasmas do passado brotam inconscientemente por meio de Mariana e Sandra, afinal não há como conceber o presente apagando os fatos vividos naquele ambiente.  Criadas é sobretudo uma...

DOLORES (2025) Dir. Marcelo Gomes e Maria Clara Escobar

Texto por Marco Fialho Dolores , dirigido por Marcelo Gomes ( Paloma , Retrato de um Certo Oriente , Cinema, Aspirinas e Urubus e Criaturas da Mente ) e Maria Clara Escobar ( Desterro e Os Dias Com Ele ) nasce de um argumento feito pelo cineasta Chico Teixeira para encerrar a trilogia dos afetos, que foi impossibilitada de ser concluída devida a sua morte prematura aos 61 anos de idade, em 2019. Portanto, esse não deixa de ser um filme homenagem ao amigo que não está fisicamente entre nós. Um dos presentes mais encantadores de Dolores é ver a volta da talentosa e subdimensionada Carla Ribas ( A Casa de Alice ) a um filme pensado originalmente para ser dirigido por Chico Teixeira. Indo mais fundo ainda, podemos dizer que o elenco é o maior atributo de Dolores . Três ótimas atrizes desenham mulheres de três gerações diferentes de nosso universo popular. Dolores é interpretado por Carla Ribas, já a sua filha Deborah é vivida com grande impacto dramático por Naruna Costa, que tem como...

O BOLO DO PRESIDENTE (2025) Dir. Hasan Hadi

Texto por Marco Fialho Em agosto de 1990, a ONU impôs sanções econômicas ao Iraque de Saddam Hussein, que impedia o país de importar ou exportar produtos de/para outros países. Essa medidas visavam que o Iraque desocupasse o Kuwait. O Bolo do Presidente , vencedor do Caméra D'Or no Festival de Cannes, transcorre nesse período, a dois dias de Saddam Hussein completar 53 anos de idade, momento em que a população sofria com a escassez de água, comida e remédios, o que colapsou o sistema de saúde e a infraestrutura do Iraque. A protagonista do filme é Lamia (Baneen Ahmed Nayyef), uma menina de 9 anos que é sorteada pelo professor da escola para levar um bolo para o dia do aniversário de Saddam.  O filme me remeteu às obras iranianas dos anos 1980 e 1990, em que as crianças eram as protagonistas das histórias que abordavam a vida opressiva no Irã dos Aiatolás. Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987),  O   Balão Branco  (1995), A Cor do Paraíso (1999), Filhos do Paraíso (19...

FORA DE CONTROLE (2025) Dir. Anne Le Ny

Texto por Marco Fialho Tem sido cada vez mais recorrente os filmes dramáticos que exploram o suspense em suas narrativas. É o caso de Fora de Controle , dirigido pela francesa Anne Le Ny, que embora muito bem dirigido, não foge de uma abordagem convencional, já que o enredo e o tratamento lembra muito alguns filmes hollywoodianos que enfocam o adultério. Um elemento interessante de Fora de Controle  é a maneira sóbria com que a diretora trata o drama, sem adicionar toques melodramáticos apelativos para acentuar algo que está dado. Assim, a trama que envolve a crise da família de Marie (Élodie Bouchez), o marido Julien (Omar Sy) e suas duas filhas, mas que precisa lidar com a chegada de dois agentes perturbadores: Anaëlle (Vanessa Paradis), a ex-namorada de Julien e Thomas Radiguet (José Garcia), o chefão de Marie, que se encanta por ela.  O dinamismo da câmera, que se movimenta com agilidade pelos cenários para conduzir o olhar do espectador para dentro dos acontecimentos que ...

NATAL AMARGO (2026) Dir. Pedro Almodóvar

Texto por Marco Fialho Assistir a um filme de Almodóvar é sempre especial, o momento de sentir como ele vê a vida e o cinema como algo profundamente íntimos. Natal Amargo é assim, mais uma ode do mestre espanhol ao pensar e à construção de uma obra em seus mais recônditos encontros do artista com a sua criação. Mesmo que essa não seja a mais plena obra de Almodóvar, há um prazer em ver mais uma vez na tela a sua marca inconfundível, a do melodrama classudo costurando toda a trama. Em Natal Amargo encontramos mais uma vez Almodóvar se voltando para a autoficção, para usar o termo que ele mesmo gosta de empregar, como já o havia feito em Dor e Glória (2019). Se antes o seu alterego foi Antonio Banderas, agora é Leonardo Sbaraglia que assume o posto com o personagem Raúl, um cineasta que busca em um passado próximo, o ano de 2004, uma história repleta de dor e culpa, características de um bom melodrama como Almodóvar tanto aprecia. Mas há algo de estranho em Natal Amargo , que é o fato d...

MICHAEL (2026) Dir. Antoine Fuqua

Texto por Marco Fialho "Quando a lenda torna-se fato, publique-se a lenda". Essa conhecida sentença do cineasta John Ford, inserida na sua obra-prima O Homem Que Matou o Facínora (1962) cabe como uma luva para Michael , novo filme de Antoine Fuqua, que ressalta a imagem mitológica do maior astro da indústria fonográfica dos Estados Unidos. Evidente ser essa uma tarefa inglória, ter que lidar com um dos artistas mais arrebatadores em termos de talento da história e também um dos mais polêmicos, em que os fatos sempre nos chegaram enevoados e envoltos de mistérios aparentemente insolúveis.  Entretanto,  Michael confirma alguns fatos já bastante repisados pela mídia em geral, como o da vilania do pai Joseph, um Colman Domingo que sabe ratificar expressivamente essa vilania, e uma obsessão de Michael Jackson pela aparência, agravada por acidentes e doenças. Não há fatos novos acrescidos pelo filme, apenas o que já foi amplamente noticiado pela imprensa. Desde muito jovem Michael ...

SEIS DIAS NAQUELA PRIMAVERA (2025) Dir. Joachim Lafosse

Texto por Marco Fialho Tem filmes que acontecem dentro um tempo delimitado e esse fator determina muito de sua mise-en-scène . É o caso de Seis Dias Naquela Primavera , do diretor francês Joachim Lafosse, que no próprio título já informa a temporalidade que viveremos durante a narrativa do filme. O interessante é que podemos pensar como aqueles seis dias citados se transformarão em 90 minutos, o que se pode deduzir que a maioria desse tempo será de elipse (tempo omitido da narrativa cinematográfica).  Pode parecer que essa nossa primeira observação seja óbvia, mas não é, ainda mais que a narrativa proposta por Lafosse é calcada em uma concepção realista, tanto da encenação quanto do tempo. Sana (interpretada pela competente atriz Eye Haïdara) é uma mulher separada do marido e que cria dois filhos Tom (Teudor Pinero Müller) e Raphael (Leonis Pinero Müller), mas que precisa assumir uma jornada tripla, entre dois empregos e cuidados com os filhos. Eis que chegou sua hora de tirar uma ...