Texto por Marco Fialho
Havia uma dúvida se depois da pandemia surgiriam ou não muitos filmes que falassem desse tempo. Alguns apostavam que haveria uma enxurrada deles, porém, para a perplexidade da maioria, isso não ocorreu. A pandemia ficou para trás e tudo indica que essa fase foi tão traumática que os diretores e roteiristas fugiram dela como o diabo foge da cruz. Mas eis que Olivier Assayas resgata o tema, que estranhamente hoje soa como distante no tempo, e o coloca em evidência novamente.
Mas o que esperar de Olivier Assayas, capaz de obras estilisticamente díspares, como o imprevisível Personal Shopper (2016); a avassaladora minissérie Carlos, o Chacal (2010); o intenso Depois de Maio (2012); o perturbador Acima das Nuvens (2014) e o cult Clean (2004)? Assayas é antes de tudo um diretor de coragem, disposto a encarar projetos que levam a sua filmografia para os caminhos mais inusitados e inesperados. Tempo Suspenso é mais um trabalho incomum por trazer à memória um tempo que hoje queremos esquecer, pelo menos essa é a impressão que eu tenho. Nas conversas que temos em nosso cotidiano, o mundo da pandemia passa ao largo, como se fora um pesadelo do qual despertamos e que queremos negar. Por esse motivo, essa é uma obra que pode despertar pouco interesse do público, que quer apagar em definitivo esse horroroso momento de suas memórias.
Em Tempo Suspenso, Assayas mais uma vez renova o seu interesse em trabalhar com atores expressivos, ao ter em cena Vincent Macaigne, o que talvez seja o grande ator francês do momento. Vale lembrar que o diretor já contou no passado com Juliette Binoche, Kristen Stewart, Alicia Vikander, Lola Créton, Lars Eidinger, entre outros para abrilhantar obras anteriores. E Tempo Suspenso se ampara muito em Macaigne, pois é a sua presença, sempre radiante, que serve como fio condutor para a narrativa.
Como em boa parte do cinema francês, nota-se aquele traço literário no roteiro de Tempo Suspenso. Mesmo no preâmbulo a voz em off, que sugere ser a própria voz de Assayas, sustenta essa influência. Mas Assayas se utiliza das sessões de terapia do personagem Paul (Macaigne), para situar lances do passado na trama. Paul (uma espécie de alterego de Assayas) passa a pandemia confinado na casa bucólica de sua infância fora de Paris, em companhia do irmão Etienne (Micha Lescot), ambos separados e com novas namoradas. Por isso, o tempo não deixa de ser um dos personagens do filme, tendo à época da pandemia como uma intervenção que impôs a todos o isolamento social. E o isolamento está sempre presente, com a proliferação do mundo virtual correndo em paralelo, com os computadores e celulares assumindo um protagonismo para facilitar um diálogo possível entre as pessoas, inclusive os familiares.
Assayas escreveu Tempo Suspenso como uma experiência autobiográfica e isto está visivelmente impresso em cada cena. O filme traz um traço de intimidade evidente, de como cada um viveu a neurose da morte iminente, podendo aterrissar a cada segundo, a cada toque suspeito ou conversa com o outro. A câmera participa dessa intimidade e está sempre leve explorando os espaços e criando cumplicidade. Mas contraditoriamente, Assayas explora o isolamento social com o mergulho nas lembranças do passado, como uma forma de aprisionamento psicológico que os personagens trazem. A pandemia nos segregou a um território, no caso aqui, o espaço perto da natureza, o que faz a diferença e ameniza os impactos do isolamento vividos em minúsculos apartamentos.
Tempo Suspenso expõe as diferenças do passado entre os dois irmãos. Paul é do cinema, Etienne da música. O primeiro é exasperado e repleto de manias, o segundo mais equilibrado e ponderado. O tempo do presente é também o de se tirar as diferenças do passado, e o de repensar quem sabe o futuro. O filme sublinha muito o clima de incertezas e as reflexões sobre o porvir. Assayas sabe lidar com as novas e velhas relações, tirar delas o essencial para que o futuro possa emergir dessas interações construídas no presente.
Disso tudo, Assayas tira um pouco de sarro, se utiliza da ideia de fazer uma comédia de costumes dos nossos dias e Vincent Macaigne é perfeito para isso. São conhecidas as suas performances como ator em filmes que exploram as relações amorosas e familiares como um mote para se pensar o amor entre os humanos. Ele sabe buscar o equilíbrio entre o drama e a comicidade nas cenas, ainda mais acentuados com o seu semblante comum.
De certo, Tempo Suspenso se instaura como um peça com aspirações mais íntimas do que espetaculares na carreira de Olivier Assayas. Há uma certa quebra de expectativas por não depararmos frente a um drama mais contundente como de costume, como Personal Shopper, quando o diretor conquistou um prêmio de direção no Festival de Cannes. Mas o cinema é feito de grandes e pequenos momentos, assim como a vida. E Tempo Suspenso se inscreve no intimismo de Assayas e na necessidade de olhar para si antes de se dar o próximo passo.
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