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PEDAÇO DE MIM (2024) Dir. Anne-Sophie Bailly


Texto por Marco Fialho

Filmes com personagens PCD (pessoas com deficiência) ou DEF, como eles preferem ser chamados, começam a ser mais produzidos e isso é muito importante para que se possa conhecer narrativas cujo ponto de vista seja impregnado pelas suas vivências e visões de mundo. O plural aqui cabe bem, porque não existe uma única visão a ser construída, mas sim uma multiplicidade delas. Pedaço de Mim, dirigido por Anne-Sophie Bailly, por exemplo, aborda a relação entre uma mãe (Mona muito bem interpretada por Laura Calamy) e seu filho DEF (Joël, interpretação fenomenal de Charles Peccia-Galletto), ele, no caso, com Transtorno Global de Desenvolvimento. 

O título original em francês é Meu Inseparável, que talvez diga melhor do que se trata o filme, pois em Pedaço de Mim, a mãe possui o maior protagonismo. Esse detalhe foi o que mais me incomodou no filme. Mesmo que Pedaço de Mim não aborde o tema com condescendência, o ponto de vista mais centrado em Joël e sua namorada também DEF, Océane (Julie Froger), poderia trazer uma visão mais diferenciada para a história. Claro que ser mãe de um DEF requer cuidados mais amplos, já que o desenvolvimento ocorre dentro de algumas limitações e ter a visão dela é algo igualmente importante. 

Inevitavelmente, ficava tentando ver as cenas pelo ponto de vista de Joël e Océane (apesar dessa não ter muito espaço de fala no filme). O que posso dizer, é que Joël se configura como um baita personagem. Cada aparição sua ilumina a tela, uma presença marcada por uma personalidade única e de quem quer algo a mais na vida. A descoberta da gravidez de Océane traz questionamentos sociais fundamentais, como se houve consentimento no ato sexual, se um DEF tem direito a uma vida autônoma, entre outras. 

Recentemente, assisti a Assexybilidade (2024), de Daniel Gonçalves, um documentário que discute a sexualidade dos DEF e que desconstrói a noção do público em geral sobre o tema. E curiosamente, Pedaço de Mim chega como mais uma obra para debater a sexualidade dos DEF, embora  aponte também para outras direções. Anne-Sophie Bailly investe no tema com sensibilidade, apesar de focar mais nas experiência de Mona como mãe de um DEF e o quanto ela abriu mão de diversão e de buscar novos parceiros sexuais por conta de ter que cuidar de Joël. Mas acredito que essa dedicação que ocorre com Mona é possível de acontecer com qualquer outra mãe, mesmo quando o filho não é uma pessoa com deficiência. 

Inclusive as reiteradas cenas de sexo entre Mona e o namorado belga poderiam até ser suprimidas, partindo-se da ideia de que a vida sexual de Mona foi uma opção dela, ou melhor, não foi construída em todos esses anos pelas prioridades que ela própria elencou, e não somente por cuidar de um menino DEF. Essa é uma questão polêmica, mas que precisa ser colocada, pois faria mais sentido conhecer o ponto de vista dos dois DEF em questão, não a vida de seus pais. Essas observações podem até passar desapercebidas pelo fato de Laura Calamy estar muito bem no papel de Mona e abrandar uma visão mais crítica da situação.     

Pedaço de Mim mostra ainda o desprezo do pai de Joël pelo menino, um caso típico de rejeição, do marido buscar uma outra vida assim que descobre a deficiência no filho. Mas as melhores cenas ocorrem na parte final, quando Joël luta para ser visto como ser autônomo, capaz de realizar diversas tarefas cotidianas, como pegar um transporte, comer sozinho, trabalhar, estudar e namorar. Numa cena em que a mãe corta a carne que está no prato de Joël essa questão da autonomia vem à tona e ele se impõe como indivíduo. Essa é para mim a cena mais crucial do filme, a que melhor permite ver como Joël via a si mesmo e o mundo a sua volta. E ele não decepciona e me ganha duplamente, um como personagem, e outro, como pessoa. 

Mas ao final, depois de alguns conflitos no seio dessa família, eis que há uma reconciliação e ela chega por meio de olhares generosos e carinhosos trocados entre a mãe e o filho. O título brasileiro, quis trabalhar com a dubiedade da questão entre mãe e filho. Joël se torna pai e por conseguinte se distancia da condição de filho, afinal, o que ele quer agora é exercitar a sua paternidade. Os horizontes de cada personagem mudam e isso é um sinal de crescimento para ambos os lados.   

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