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O GRANDE GOLPE DO LESTE (2024) Dir. Natja Brunckhorst


Texto por Marco Fialho

O Grande Golpe do Leste, filme alemão dirigido por Natja Brunckhorst, me lembrou muito a divertida comédia A Parte dos Anjos (2012), do veterano Ken Loach, em especial o espírito rebelde que toma partido da união da classe trabalhadora frente o caos de viver em regimes opressores, independente da ideologia de quem está no poder. 

Em O Grande Golpe do Leste, a diretora constrói uma trama fictícia baseada em uma história real, acontecida com um grupo de trabalhadores de um pequeno bairro metalúrgico fabril logo depois da derrubada do Muro de Berlim em 1989. Tudo inicia com a descoberta por esse grupo de um bunker do extinto governo da Alemanha Oriental, onde se guardava as notas de dinheiro recolhidas para a implantação do marco como nova moeda oficial que passa a valer também na parte oriental do país.

Natja Brunckhorst realiza tudo com imensa leveza e faz as quase duas horas do filme deslizarem a nossa frente. O melhor de O Grande Golpe do Leste reside no fato da diretora se colocar do ponto de vista dos trabalhadores, que precisam driblar a todo instante tanto a parte do governo ocidental quanto do oriental. Interessante como o discurso coletivo do Governo da ex-Alemanha Oriental serviu como base para orientar a conduta do grupo, mesmo quando eles descobrem que as suas mãos de obra baratas foram utilizadas para vender produtos industrializados para a Suécia, ganho que só beneficiou quem estava no poder.

Natja Brunckhorst habilmente conduz com maestria tanto os conflitos internos do grupo de trabalhadores (com reuniões hilárias inspiradas nos comitês do antigo regime) quanto os externos com os aliciadores vindos da Alemanha Ocidental e as relações com os governos que estão se unificando. Ainda tem de quebra os conflitos amorosos em torno de Maren (a sempre ótima Sandra Hüller), que forma um triângulo amoroso entre as paixões do passado e do presente. Mas é preciso ainda destacar todo o elenco que está sublime, em especial a menina Dini (que atriz é essa pequena gigante Lotte Shirin Kelling, a menina do -salvador- urso gigante).

Se comédia depende de timing, a diretora permite com sua mise-en-scène e com um roteiro bem elaborado, que os atores consigam o tom correto nas cenas. Esse detalhe cria a possibilidade para que os atores brilhem em suas aparições, independente de serem protagonistas ou coadjuvantes, e isso ocorre devido a como a diretora estabelece permanentemente um conflito entre uma visão individual (egoísta) e coletiva (participativa) em relação àquela organização social.

A grande sacada do filme de Natja Brunckhorst foi elaborar uma fábula cômica, se aproveitando de uma moeda prestes a se tornar obsoleta, para que os personagens entrassem na Era do marco com algumas vantagens. Se os líderes políticos estavam se dando bem com a unificação, qual seria o mal deles trabalhadores, pensar em paralelo em uma estratégia de sobrevivência frente a uma realidade que fatalmente os engoliria dada à inferioridade do avanço tecnológico da Alemanha Ocidental? Era preciso agir rápido e o mais interessante foi a solução coletiva buscada para enfrentar a nova situação política, se valendo dos discursos socialistas de domesticação dos corpos do antigo governo da Alemanha Oriental.

O Grande Golpe do Leste se desenha como uma comédia dramática que mostra o contorcionismo que o povo precisa fazer para driblar os equívocos dos espertalhões que se incruam no poder para tirar vantagens pessoais em nome do coletivo. O filme tem esse poder de rir da tragédia popular e da exploração dos corpos dos trabalhadores pelos poderes estabelecidos, independente da ideologia que professam, além de narrar com um enorme senso de justiça uma "volta" dada por esse grupo nos poderes instituídos no passado e no presente, uma bela forma de se entrar na implacável selva capitalista que se avizinha para esses trabalhadores. 

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