Pular para o conteúdo principal

LUMIÈRE, A AVENTURA CONTINUA! (2025) Dir. Thierry Frémaux


Texto por Marco Fialho

O maior encanto de Lumière, a Aventura Continua! é o fato do diretor Thierry Frémaux trabalhar com um material filmado em um tempo em que a atual noção de cinema sequer existia, ou melhor, não se sabia que o invento se transformaria no que conhecemos hoje como cinema, pois a maior ênfase inicial de Auguste e Louis Lumière era propagar a invenção do cinematógrafo, um equipamento capaz de reproduzir imagens em movimento e poder exibi-los em uma tela grande. Funcionários deles levavam o equipamento para ser experimentado e vendido em outros países, tendo esses compradores a obrigação de fazer um filme sobre a sua cidade. 

Por isso, uma das tarefas mais prementes deles era levar os cinematógrafos para lugares os mais variados do mundo, da Ásia à América, Da África ao restante da Europa. Thierry Frémaux foca seu filme nos aspectos mais estéticos, temáticos e estilísticos do que os históricos que cercaram a invenção desse equipamento, que a princípio tinha tudo para conquistar o mundo, mas que para os irmãos inventores não passava de um passatempo temporário no qual se perderia rapidamente o interesse, depois que a novidade se encerrasse. 

Mas na verdade, o que Frémaux trabalha é na análise e na composição dos planos dos irmãos Lumière, o quanto eles firmaram um modo de filmar o mundo por meio de uma visão realista, de retratar os costumes, a vida moderna, os fatos pitorescos, o cotidiano engraçado por meio de esquetes ensaiados. Sem dúvida, essa é uma análise que envolve riscos, já que à época seria impossível pensar o cinematógrafo ipsis litteris como equivalente da noção de cinema que seria dada a posteriori. Cabe enfatizar essa nossa reflexão sobre essa empreitada arriscada na direção de Lumière, a Aventura Continua!.     

Fora do mundo dos Lumière, Frémaux aborda somente Georges Méliès, mesmo assim de relance, para destacar e diferenciar o quanto seu estilo levaria o cinematógrafo para um viés mais lúdico, com suas trucagens e inclinação aos efeitos visuais (característica que foi desenvolvida pelo cinema hollywoodiano, expressionismo e até por Fellini mais tarde), enquanto os Lumière inspirarão outros usos como ficou evidente no neorrealismo italiano, no cinema russo (penso muito aqui em Vertov), em Jean-Luc Godard ou mesmo no cinema moderno como um todo. Frémaux francamente contrapõe um cinema mais voltado para o espetáculo com um cinema de preocupação mais realista, mais voltado para a discussão da sociedade e de seus costumes.          

A narração de Lumière, a Aventura Continua! fica a cargo do próprio diretor Thierry Frémaux, que tal com fez em Lumière, a Aventura Começa (2016), se esforça por não deixar passar um detalhe nas imagens produzidas pelos irmãos Lumière, o que por vezes retira uma maior potência do filme, por direcionar excessivamente o olhar, não dando margem para que o público construa a sua própria visão do que está assistindo. Ao todo, são mais de 120 pequenos filmetes filmados entre 1895 e 1906, que Frémaux selecionou para que o público possa admirar. São imagens que nos fazem viajar no tempo, pelas roupas, pelos bondes e tantos outros detalhes que encantam até os mais insensíveis dos homens. Uma escolha muito feliz foi o diretor inserir a belíssima música de Gabriel Fauré no filme, ele que é um contemporâneo dos irmãos Lumière. Sua música ajuda a temperar com um toque dúbio as imagens que vemos, ora com uma dose saudosista, ora com um tom severamente moderno.

Vale ressaltar ainda a qualidade do trabalho de restauro desses pequenos filmes, que parecem na maioria dos casos filmados em 2025, tal a limpeza das imagens. Outro aspecto interessante é o enorme esforço de Frémaux para relacionar esses filmes dos irmãos Lumière com vários outros, e assim ratificá-los aos olhos da história do cinema, os colocando não só como fundamentais em seu contexto histórico, mas igualmente marcantes por estabelecer uma maneira própria de se filmar o mundo, com sua observação acurada, que permitiu a colocação da câmera de modo a melhor registrar o máximo de informação em um mesmo quadro. 

Se às vezes Frémaux torna-se o maior adversário de Lumière, a Aventura Continua! com sua narração onipresente, sem dúvida precisamos ressaltar que a sua astúcia em saber jogar com essas imagens com outros filmes que vieram depois, e assim colaboram para o pensamento, acompanhados por uma convicção, de que eles são personagens determinantes para se pensar o cinema como narrativa. Creio que Frémaux nem precisava ir tão longe para estabelecer a relevância desses irmãos para o cinema, pois basta assistir a beleza das imagens que eles realizaram, para entendermos a paixão deles em querer fixar a poesia do movimento do mundo que eles viveram. E isso, com certeza, já seria o suficiente para imortalizá-los na história do cinema.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

PECADORES (2025) Dir. Ryan Coogler

Texto por Marco Fialho e Carmela Fialho O cinema negro dos Estados Unidos vem se fortalecendo mercadologicamente como nunca. Diretores como Jordan Peele ( Corra! , Nós  e Não! Não Olhe! ), Barry Jenkins ( Moonlight e Se a Rua Beale Falasse ), Ava DuVernay ( 13ª Emenda  e Selma ) e Shaka King ( Judas e o Messias Negro ), Raoul Peck ( Eu não Sou Seu Negro ). Se falarmos mais retroativamente, encontraremos Spike Lee (com os clássicos  Faça a Coisa Certa , Malcoln X , e os atuais  Infiltrado na Klan e Destacamento Blood ), Melvin Van Peebles ( Sweet Sweetback's Baadasssss Song e Posse: A Vingança de Jesse Lee ) e a força do movimento Blaxploitation dos anos 1970, e o ineditismo de Oscar Micheaux nos anos 1920 e 1930.  O fato atual é que o cinema negro não é mais reservado a um nicho. Os diretores mais recentes mostram uma penetração cada vez mais efetiva no mercado. Pecadores , mais recente filme de Ryan Coogler ( Creed e Pantera Negra ) vem comprovar isso. ...

MOSTRA CINEBH 2023

CineBH vem aí mostrando novos diretores da América Latina Texto de Marco Fialho É a primeira vez que o CineFialho irá cobrir no modo presencial a Mostra CineBH, evento organizado pela Universo Produção. Também, por coincidência é a primeira vez que a mostra terá inserido um formato competitivo. Nessa matéria falaremos um pouco da programação da mostra, de como a curadoria coordenada pelo experiente Cleber Eduardo, montou a grade final extensa com 93 filmes a serem exibidos em 8 espaços de Belo Horizonte, em apenas 6 dias (26 de setembro a 1º de outubro). O que atraiu o CineFialho a encarar essa cobertura foi o ineditismo da grande maioria dos filmes e a oportunidade mais do rara, única mesmo, de conhecer uma produção independente realizada em países da América Latina como Chile, Colômbia, México, Peru, Paraguai, Cuba e Argentina, sem esquecer lógico do Brasil.  Lemos com atenção toda a programação ofertada e vamos para BH cientes da responsabilidade de que vamos assistir a obras di...