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PARTHENOPE: OS AMORES DE NÁPOLES (2024) Dir. Paolo Sorrentino


Texto por Marco Fialho

O diretor italiano Paolo Sorrentino parte de Parthenope, uma personagem oriunda da mitologia grega, para expandi-la a nossos dias e discutir um tema que é caro a sua trajetória como cineasta, o da beleza, como já tinha feito em A Grande Beleza (2013) e Juventude (2015). 

Se na mitologia, Parthenope é uma sereia vinda do mar para fundar uma cidade com seu nome (que depois viria ser renomeada como Nápoles), em Parthenope: Os Amores de Nápoles, Sorrentino a faz nascer na água do mar, logo nas primeiras cenas, para em sua trajetória impressionar a todos com a sua beleza inquestionável e incontornável. O primeiro grande acerto de Sorrentino está na escolha de Celeste Dalla Porta como protagonista e olha que o risco era imenso, já que ela não tinha sequer feito cinema em sua carreira. 

É incrível como Celeste Dalla Porta se deixa moldar pela direção convicta de Sorrentino para construir uma personagem mutável, repleta de camadas e melancolia. Paolo Sorrentino faz novamente uma viagem a uma Nápoles de sua infância e juventude, tendo sempre como referência espiritual o aspecto onírico felliniano, onde o visionário ganha corpo numa trama onde absurdo e a extravagância são largamente permitidos. 

Sorrentino acompanha a trajetória de Parthenope, uma jovem oriunda de uma família abastada, de rara beleza que inebria a todos, a começar pelo seu irmão Raimondo (Daniel Rienzo) que está sempre entorpecido por ela, até que a tragédia vem para marcar essa família com uma força irresistível e maligna. Parthenope incorpora a melancolia nos olhos, o que torna sua beleza algo também misteriosa e de maior brilho. É praticamente impossível passar em branco diante de sua beleza e Sorrentino faz um périplo em torno dela, seus deslocamentos pela Nápoles é profundo, ela vai perpassando em vários ambientes representativos que mostram a alma de uma cidade em franca decadência. 

Parthenope: Os Amores de Nápoles se mostra nos encontros que perfila. Tem a diva do teatro, Flora Malva, que esconde o rosto depois de uma intervenção cirúrgica mal sucedida e tem ainda outra diva, Greta Cool, que fez carreira no Norte da Itália. Sorrentino explora as contradições de uma Itália dividida em um Norte rico e um Sul pobre. O discurso da atriz ataca frontalmente as feridas que permeiam as entranhas históricas de uma Itália desigual e ressentida, mas guarda um traço de quem construiu a carreira como musa onde a beleza e personalidade forte apenas satisfazia o desejo erótico dos homens, mas que com o tempo perde o encanto da juventude. Sorrentino vai assim adentrando no subterrâneo dessa Itália decadente, tocando nas feridas abertas, na riqueza e imoralidade da máfia, da igreja católica e da mídia. Cena a cena, o submundo da sociedade ressurge das profundezas. Das profundezas não vem só sereias, mas vem detritos que Sorrentino faz questão de mostrar, mesmo que envolto por um véu ficcional que o diretor habilmente constrói. 

Vale lembrar que o diretor Paolo Sorrentino faz parte de uma geração de cineastas chamada informalmente de Risorgimento italiano, que inspirada na tradição do grande cinema italiano dos anos 1940 aos 1970, vem resgatando a sua imagem manchada pela invasão da estética televisiva a partir dos anos 1980 em diante. Junto com Matteo Garrone, Emanuele Crialese, Alice Rohrwacher, Paola Cortellese e outros e outras, vem batalhando filme a filme para revigorar o cinema que já foi o mais fértil e genial do planeta. A releitura desse cinema vai além do cinema, visa penetrar na história para repensa-la sob olhares diversos. 

Voltando para Parthenope, quero ressaltar a trajetória feita pela protagonista no decorrer do filme. De como ela começa como uma mera sedutora, mas o quanto ela se transforma com o tempo, depois da tragédia com o irmão. Em síntese, o filme dialoga com a própria metamorfose do papel da mulher na sociedade contemporânea do pós-guerra até os nossos dias. Há uma outra forma de sedução que se desenha pelo intelecto e Sorrentino sabe como mergulhar nesse poço para fazer da beleza algo mais profundo e interessante. Ser sensual e inteligente requer outros recursos para além do físico e Parthenope investe com louvor nesses atributos. No olhar de Parthenope contém a sua virada de chave, que da sedução maliciosa passa para o tom misterioso que encanta por outra via, pois todos querem atingir o que está para além do encantador invólucro que a natureza lhe deu. A cena do cardeal ilustra bem essa ideia que Sorrentino quer passar. 

Parthenope encanta pelo controle que Sorrentino faz da mise-en-scène. Protagonista e paisagem são decantados com todo o cuidado, com alternância cuidadosa entre closes e planos gerais, pois o diretor almeja que ambos sejam protagonistas em um diálogo poderoso entre personagem e território. Sorrentino abusa de ângulos inusitados que revelam estranhamentos ditados por uma narrativa por vezes insólita. Interpretações pontuais são relevantes para o filme, como a de Gary Oldman como um escritor que inspira intelectualmente Parthenope, única paixão realmente confessada por ela e não correspondida, por ele se declarar homossexual. A relação dela com o professor de antropologia é igualmente envolta pela sedução intelectual e admiração mútua. A paixão de Sandrino (Dario Aita) é protótipo daquelas mais convencionais, de simples atração física, e por isso, é devorada pelo tempo e por essa nova mulher. 

Há uma imagem que não pode passar desapercebida no filme: a de uma carruagem que fica dentro da ostentosa casa da família de Parthenope. Ela simboliza o passado aristocrático e anacrônico que soa como um elemento defasado para o que se precisa ser transformado. Os valores que a acompanham não servem mais, assim como os padrões de comportamento que cada indivíduo deve ter na sociedade. Acredito que Sorrentino queira dizer que essa nova Itália do Século XXI passe pela reconstrução da ideia de mulher, agora inserida socialmente não mais como uma tradicional matriarca, mas como capaz de pensar intelectualmente um outro país, com seu espírito independente e livre das amarras masculinas, inclusive não mais servi-lo como mero apetrecho sexual. 

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