Texto por Marco Fialho
Quem acompanha a trajetória cinematográfica do cineasta cearense Petrus Cariry, sabe o quanto seus filmes misturam o fantástico e a realidade com um alto grau de intensidade. É o que ocorre em A Praia do Fim do Mundo, seu novo filme. Petrus investe com ênfase em um cinema de atmosfera, que provoca o espectador a sair do terreno da lógica e mergulhar no sensitivo.
Para isso, o diretor nos convida a um mergulho na sua proposta sombria de fotografia (e observem que o próprio Petrus Cariry assina a direção de fotografia), tudo gira em torna de um conceito imagético, inclusive o som imersivo e hipnótico, e o que falar das interpretações, em especial a de Marcélia Cartaxo como Helena, catalisadora e responsável pelo toque soturno que perpassa a obra. Seu corpo e semblante dizem mais do que mil palavras, cada vez que é enquadrado em seu mistério. Ela carrega o horror de uma existência que por si condensa o presente aterrador de toda uma comunidade que se apaga lentamente pela fúria e avanço do mar sobre a superfície de um pequeno vilarejo.
A casa, que outrora foi uma pousada, agora se mostra frágil, com suas estruturas carcomidas pelo tempo e o avanço do mar. Não seria exagero afirmar que o tempo é o grande personagem de A Praia do Fim do Mundo. Petrus acerta ao não tentar trazer o passado glorioso, por deixar que o espectador construa a seu modo o quanto o tempo transcorreu por essa edificação. O preto e branco da fotografia de Petrus permite um mergulho nesse universo onde o presente inspira um tom melancólico e fúnebre. Petrus reserva ao sótão da casa de Helena um espaço de memória, com os equipamentos do marido desaparecido, que incluem uma capacete de mergulho e uma luneta para observação do céu. Ali céu e mar se encontram e emanam uma atmosfera mítica propícios a encontros imaginários e míticos.
É nítido o quanto os fantasmas rondam o ambiente da casa e do vilarejo. As duas personagens jovens parecem flutuar à parte em cenários decrépitos e abandonados. Suas juventudes são contrastes visíveis e chocantes, quase uma metáfora de uma vida que insiste em brotar em um território que cheira a morte e tristeza. O vulto de um homem vagueia pelas praias, em um catar objetos sem fim que se acumulam em mais uma casa em ruínas. Inclusive, ruína é o que melhor define esse universo onde o tempo não só parou quanto o foi igualmente soterrado por sucessivas ressacas do mar.
O mais sinistro de A Praia do Fim do Mundo é o quanto de poesia que Petrus Cariry extrai desse mundo destroçado. A completude da natureza se faz presente pela amplidão das noites belamente estreladas que se juntam a vastidão do mar. A natureza é filmada com esplendor e magnitude transformando os personagens em seus reféns, diminuídos por uma força que os atravessa. A personagem de Cartaxo vive enlutada como uma prisioneira desse destino atroz que engoliu a sua vida e felicidade. Alice (Fátima Macedo), sua filha, é uma personagem de seu tempo, uma ambientalista preocupada com a preservação e motivada a mudar e fazer o mesmo que a grande maioria das pessoas daquela localidade costeira fez, inclusive a família de sua melhor amiga (Larissa Góes).
Há um toque mitológico expressivo em A Praia do Fim do Mundo, aliás, traço esse bem peculiar das comunidades circundadas pelo mar. As comuns histórias de sumiços, caso do pai de Alice e marido de Helena, são corriqueiras (como Dorival Caymmi cantou tantas vezes em suas belas canções praieiras) do qual o paradeiro é para lá de misterioso, e das mulheres à deriva que ficam eternamente numa espera infinita e lá no fundo com um resquício de esperança. Por isso mesmo, o filme de Petrus é sobre essas mulheres, os homens, ou possuem uma presença fantasmagórica, como a do catador que mais parece uma entidade, ou apenas são citados, como o tal namorado de Alice, pai do filho que carrega na barriga e que não mora mais no lugarejo. É nesse ponto que a realidade e o fantástico se esbarram, que os personagens humanos se misturam mitologicamente com seres vindos do mar.
Mas A Praia do Fim do Mundo é aquele filme bom para se esparramar na poltrona do cinema e se deixar adentrar pelo som da água e do mar nos inebriando e envolvendo a cada momento. É uma bela viagem mitológica de um mundo em extinção. A poética de Petrus é irresistível e misteriosa, um convite melancólico e prazeroso em um mundo abandonado pelo homem e destruído pela natureza. A cena em que Alice e a amiga passeia à beira-mar e dizem que ali no passado era uma rua é de arrepiar. O filme é sobre essa fúria de uma natureza que se impõe, mas da insistência do humano de viver no limite do impossível pelas suas memórias.

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