Pular para o conteúdo principal

NOSFERATU (2024) Dir. Robert Eggers


Texto por Marco Fialho

Tem diretores que se colocam diante de um desafio extremo, tal como Robert Eggers faz ao lançar uma refilmagem do clássico Nosferatu (1922), do genial Friedrich Wilhelm Murnau. Queria aproveitar e até promover um desafio aos diretores: façam refilmagem de filme fracassado, sem grande importância, porque refazer filmes de sucesso e bem-sucedidos é em certos aspectos bastante decepcionante. Não que o filme de Eggers seja ruim, apenas não tem a inspiração e o brilho da versão de Murnau. Nem cito O Nosferatu (1979) de Werner Werzog já que o diálogo que Eggers busca visivelmente é com a versão de 1922. 

O Nosferatu de Eggers esbarra em excessos desnecessários, são tantos planos filmados para serem intactos e belos que tudo soa com certo artificialismo, o enredo se encaminha para um segundo plano, tal é o esmero pelo visual, por uma fotografia que impressiona a ponto de nos tirar do filme. Em certo momento fiquei observando a imagem, sem me importar com o que estava assistindo. O horror em si não é o central de Nosferatu, mas sim o esteticismo que o filme evoca. E o som também funciona da mesma maneira, sua intensidade se impõe com tanta pungência e tal como a imagem, nos lança para fora do filme. Senti falta de algo orgânico e verdadeiro em Nosferatu de Eggers.

Algumas cenas são francamente inspiradas em Murnau, como as da sombra das mãos do Conde Orlok (Bill Skarsgard) e as portas góticas do castelo. Não há nenhuma cor viva nas imagens criadas por Eggers, já que o tom mais sóbrio e neutro predomina em todo o filme, até o vermelho em Nosferatu é esmaecido, quase cor de vinho. A direção de Eggers desloca a temática sobre a figura demoníaca para o adultério, descamba para uma discussão sobre a culpa de uma mulher que confessa desejo por outro homem. No todo, rigorosamente, Eggers transforma seu Nosferatu em um grande espetáculo audiovisual e isso não é necessariamente uma nota elogiosa.    

No contexto da obra de Robert Eggers, Nosferatu passa ao largo do frescor que A Bruxa (2015) emanava para o gênero terror. A mão do diretor em Nosferatu faz lembrar mais a O Homem do Norte (2022), pela tentativa de emular uma certa crueza da natureza humana, um quê de animalidade presente em nós, uma pesquisa sobre as consequências do instinto que nós humanos muitas vezes não conseguimos escapar. Se comparado a O Farol (2019), Nosferatu fica ainda mais distante, em especial pela proposta fotográfica e de roteiro que discute a relação entre dois homens em uma situação limite de isolamento e tensão. Em comum até agora entre as obras, pode-se destacar o tema histórico, já que Eggers sequer chegou em seus filmes ao século XX, e o cuidado extremo com a fotografia e com a cenografia, que em Nosferatu torna-se ainda mais intenso, chegando às raias do exagero esteticista.    

Outra característica que sobressai em Nosferatu de Eggers é a construção de um terror calcado na violência, que beira o aspecto gore. Orlock é uma figura asquerosa, sua repugnância é explícita, sua imagem é de um monstro, não há quase nenhum resquício de humanidade nele, o que o diferencia frontalmente ao Orlock de Murnau. Mas a crítica ao medievalismo não soa tão forte nessa versão, que prefere centrar a discussão em torno dos impulsos da traição, apesar de não haver um debate mais profundo sobre o tema. O autosacrifício da noiva (Lily-Rose Depp) é a grande novidade e contribuição que Eggers confere à história de Drácula, já que na versão de Murnau apenas o monstro é destruído pela luz solar. A visão de Eggers chega a ser uma visão deveras ultrapassada acerca do feminino, ao resgatar a ideia da mulher como fonte original do pecado na sociedade. A culpa da mulher grita nessa refilmagem de Eggers.

Nosferatu é uma versão até interessante, que funciona caso o espectador compre a ideia de usufruir das luxuosas imagens e no potente som que Eggers faz questão de sublinhar. Não deixa de ser um espetáculo agradável de ver, mas que depois vai perdendo a sua força quanto mais pensamos nele. Conforme já dissemos anteriormente, Robert Eggers atualiza a história de Murnau, visivelmente sua inspiração imediata e passa longe da versão contemplativa de Werzog, com uma visão mais animalesca, com Orlock emitindo sons que lembram os de um cão raivoso. Durante o filme me bateu aquela saudade de quando o cinema de Eggers se baseava mais no mistério, que ecoava como uma metáfora do mundo retratado.

Comentários

  1. Crítica cirúrgica novamente. Achei também que o esteticismo exacerbado e a gratuidade do terror gore entraram na frente do mistério e do horror psicológico. Mas gostei do filme. Embora como dissestes, o retrogosto é evanescente. Não ficará retido em minhas memórias como ficou A BRUXA.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Deixe seu comentário. Quero saber o que você achou do meu texto. Obrigado!

Postagens mais visitadas deste blog

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

PECADORES (2025) Dir. Ryan Coogler

Texto por Marco Fialho e Carmela Fialho O cinema negro dos Estados Unidos vem se fortalecendo mercadologicamente como nunca. Diretores como Jordan Peele ( Corra! , Nós  e Não! Não Olhe! ), Barry Jenkins ( Moonlight e Se a Rua Beale Falasse ), Ava DuVernay ( 13ª Emenda  e Selma ) e Shaka King ( Judas e o Messias Negro ), Raoul Peck ( Eu não Sou Seu Negro ). Se falarmos mais retroativamente, encontraremos Spike Lee (com os clássicos  Faça a Coisa Certa , Malcoln X , e os atuais  Infiltrado na Klan e Destacamento Blood ), Melvin Van Peebles ( Sweet Sweetback's Baadasssss Song e Posse: A Vingança de Jesse Lee ) e a força do movimento Blaxploitation dos anos 1970, e o ineditismo de Oscar Micheaux nos anos 1920 e 1930.  O fato atual é que o cinema negro não é mais reservado a um nicho. Os diretores mais recentes mostram uma penetração cada vez mais efetiva no mercado. Pecadores , mais recente filme de Ryan Coogler ( Creed e Pantera Negra ) vem comprovar isso. ...

MOSTRA CINEBH 2023

CineBH vem aí mostrando novos diretores da América Latina Texto de Marco Fialho É a primeira vez que o CineFialho irá cobrir no modo presencial a Mostra CineBH, evento organizado pela Universo Produção. Também, por coincidência é a primeira vez que a mostra terá inserido um formato competitivo. Nessa matéria falaremos um pouco da programação da mostra, de como a curadoria coordenada pelo experiente Cleber Eduardo, montou a grade final extensa com 93 filmes a serem exibidos em 8 espaços de Belo Horizonte, em apenas 6 dias (26 de setembro a 1º de outubro). O que atraiu o CineFialho a encarar essa cobertura foi o ineditismo da grande maioria dos filmes e a oportunidade mais do rara, única mesmo, de conhecer uma produção independente realizada em países da América Latina como Chile, Colômbia, México, Peru, Paraguai, Cuba e Argentina, sem esquecer lógico do Brasil.  Lemos com atenção toda a programação ofertada e vamos para BH cientes da responsabilidade de que vamos assistir a obras di...