Pular para o conteúdo principal

O RETRATO DE NORAH (2023) Dir. Tawfik Alzaidi


Texto por Marco Fialho

O Retrato de Norah, filme dirigido por Tawfik Alzaidi, comove por apresentar uma história poderosa contra uma sociedade opressora, injusta e autoritária, em especial contra a liberdade das mulheres que são obrigadas a usarem burca nos lugares públicos. Norah (Maria Bahrawi) é uma bela jovem que foi prometida a um dos moradores de uma minúscula comunidade encostada no deserto. O início é marcado por grandes panorâmicas que fazem lembrar as paisagens dos filmes de western

Mas antes de tudo, esse isolamento territorial mais se assemelha a uma prisão, pelo menos para as mulheres e crianças que não possuem autodeterminação sobre os seus corpos. É nesse lugar remoto, que Nader (Yaqoub Alfarhan) chega como o novo professor. Logo de cara, as dificuldades ficam evidentes, quando os patriarcas do vilarejo o comunicam que não se deve usar livros na sala de aula, somente o alcorão. A inflexibilidade da intolerância religiosa é sentida a todo instante. Norah, por exemplo, não pode exibir seu rosto em público. 

Mulheres, professores e crianças são reprimidos ao extremo, já que são praticamente impedidos de viver livremente. O diretor Tawfik Alzaidi representa essa ausência de liberdade com imagens fortíssimas, em que a ausência da luz é um atributo simbólico do que vivem tanto Norah quanto Nader. A vigilância sufoca as almas atormentadas pela tradição religiosa, que domina politicamente o local. Tawfik Alzaidi mostra como esse lugarejo ermo convive literalmente na escuridão, inclusive socialmente falando. As cenas noturnas são filmadas com luzes de lamparina, um mundo que habita nas sombras cultiva a ignorância.

Entretanto, mesmo com o clima de perseguição constante, podemos dizer que Norah é uma subversiva contumaz. Ela adquire revistas ilegalmente com Mazhar, dono da única venda do lugarejo e por mais que as revistas venham com algumas páginas retiradas. Quando Nader faz um ótimo desenho do irmão de Norah, ela fica obcecada para que Nader faça um desenho dela, o tal retrato que está enunciado na título do filme. Os desenhos, de uma maneira geral, são vistos como coisa do diabo, ainda mais quando esse seria o de uma mulher, que jamais deve mostrar o rosto socialmente. 

Um dos pontos mais interessantes de O Retrato de Norah é quando Nader resolve dar uma aula de desenho e resolve explicar para as crianças um pouco sobre arte, fazendo alusão à criação artística como uma luz que permite ver melhor o mundo e usa o exemplo do nascer do dia. Esse fato será considerado uma afronta aos anciões que se revoltam e se juntam para expulsar Nader da função de professor. Como em qualquer regime autoritário, o ato de ensinar e aprender passa a ser visto como ameaça ao poder constituído.

O único senão que faço a O Retrato de Norah é na parte final, quando a direção opta por explicar a vida da família de Norah e como a menina perdeu os pais. Creio que essa parte nada acrescenta ao filme, muito pelo contrário, acelera o final, atropela a história central e entope a trama de informações que não seriam necessárias de serem ditas ou sabidas por nós porque ela só reforça o sentido de opressão que já sabíamos àquela altura. Embora esse final não se sustente muito, a força dos dois primeiros terços são tão impactantes e belos (inclusive literalmente), que não tira o brilho maior da obra, ainda mais que a cena final do quadro, que dá título ao filme redime o excesso de preciosismo da direção no terço final.     

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

CLOSE-UP (1990) Dir. Abbas Kiarostami

Texto por Marco Fialho "A arte é um sentimento que se experimenta, que o artista desenvolve nele para compartilhar com os outros". Frase que o personagem Sabzian atribui a Leon Tolstói Estudar o cinema de Abbas Kiarostami é mergulhar no imaginário do cinema. Um dos ícones do cinema iraniano dos anos 1980 e 1990, o diretor realizou obras cruciais para o pensamento cinematográfico contemporâneo. Obras como Gosto de Cereja (1997), Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987), Através das Oliveiras (1994), A Vida e Nada Mais (1992), e outras já produzidas nos século XX1, como Dez (2002), Cópia Fiel (2010) e Um Alguém Apaixonado (2012), todas fundamentais e merecedoras de serem estudadas, não só individualmente, mas também em conjunto para melhor se compreender o pensamento original desse cineasta iraniano, que junto com tantos outros seus contemporâneos, como Mohsen Makhmalbaf, Jafar Panahi e Majid Majidi, formaram a base do que hoje chamamos de cinema iraniano. Mas nesse texto vou come...

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

RETROSPECTIVA VIVIAN OSTROVSKY

Texto por Carmela Fialho Retrospectiva Vivian Ostrovsky "Para mim, cinema experimental significa ter liberdade total - liberdade de duração, de tema, de forma.(...) fazer o que você quer sem se submeter às regras comerciais. São outros valores, não é tanto sobre ser longe da indústria, mas sobre liberdade de criação. De resto, é frustrante ver que hoje o cinema está cada vez mais padronizado, com poucas surpresas".  Vivian Ostrovsky em entrevista inédita a Fernanda Pessoa, extraído do Catálogo do 31º Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade 2026. Na retrospectiva Vivian Ostrovsky, assistimos ao programa 2, denominado corpos em trânsito, com os filmes Movie ( V.O.)  (1982); Idas e Vindas   (1984); Copacabana Beach  (1983); Domínio Público  (1996); e U.S.S.A (1985). O que unifica os cinco curtas são as filmagens de corpos humanos em diferentes atividades do cotidiano em várias regiões do planeta, como Estados Unidos, França, Brasil e a antiga União ...