Texto por Marco Fialho
O Retrato de Norah, filme dirigido por Tawfik Alzaidi, comove por apresentar uma história poderosa contra uma sociedade opressora, injusta e autoritária, em especial contra a liberdade das mulheres que são obrigadas a usarem burca nos lugares públicos. Norah (Maria Bahrawi) é uma bela jovem que foi prometida a um dos moradores de uma minúscula comunidade encostada no deserto. O início é marcado por grandes panorâmicas que fazem lembrar as paisagens dos filmes de western.
Mas antes de tudo, esse isolamento territorial mais se assemelha a uma prisão, pelo menos para as mulheres e crianças que não possuem autodeterminação sobre os seus corpos. É nesse lugar remoto, que Nader (Yaqoub Alfarhan) chega como o novo professor. Logo de cara, as dificuldades ficam evidentes, quando os patriarcas do vilarejo o comunicam que não se deve usar livros na sala de aula, somente o alcorão. A inflexibilidade da intolerância religiosa é sentida a todo instante. Norah, por exemplo, não pode exibir seu rosto em público.
Mulheres, professores e crianças são reprimidos ao extremo, já que são praticamente impedidos de viver livremente. O diretor Tawfik Alzaidi representa essa ausência de liberdade com imagens fortíssimas, em que a ausência da luz é um atributo simbólico do que vivem tanto Norah quanto Nader. A vigilância sufoca as almas atormentadas pela tradição religiosa, que domina politicamente o local. Tawfik Alzaidi mostra como esse lugarejo ermo convive literalmente na escuridão, inclusive socialmente falando. As cenas noturnas são filmadas com luzes de lamparina, um mundo que habita nas sombras cultiva a ignorância.
Entretanto, mesmo com o clima de perseguição constante, podemos dizer que Norah é uma subversiva contumaz. Ela adquire revistas ilegalmente com Mazhar, dono da única venda do lugarejo e por mais que as revistas venham com algumas páginas retiradas. Quando Nader faz um ótimo desenho do irmão de Norah, ela fica obcecada para que Nader faça um desenho dela, o tal retrato que está enunciado na título do filme. Os desenhos, de uma maneira geral, são vistos como coisa do diabo, ainda mais quando esse seria o de uma mulher, que jamais deve mostrar o rosto socialmente.
Um dos pontos mais interessantes de O Retrato de Norah é quando Nader resolve dar uma aula de desenho e resolve explicar para as crianças um pouco sobre arte, fazendo alusão à criação artística como uma luz que permite ver melhor o mundo e usa o exemplo do nascer do dia. Esse fato será considerado uma afronta aos anciões que se revoltam e se juntam para expulsar Nader da função de professor. Como em qualquer regime autoritário, o ato de ensinar e aprender passa a ser visto como ameaça ao poder constituído.
O único senão que faço a O Retrato de Norah é na parte final, quando a direção opta por explicar a vida da família de Norah e como a menina perdeu os pais. Creio que essa parte nada acrescenta ao filme, muito pelo contrário, acelera o final, atropela a história central e entope a trama de informações que não seriam necessárias de serem ditas ou sabidas por nós porque ela só reforça o sentido de opressão que já sabíamos àquela altura. Embora esse final não se sustente muito, a força dos dois primeiros terços são tão impactantes e belos (inclusive literalmente), que não tira o brilho maior da obra, ainda mais que a cena final do quadro, que dá título ao filme redime o excesso de preciosismo da direção no terço final.

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