Texto por Marco Fialho
Brincando Com Fogo é aquele filme que vai comendo seu tema pelas beiradas e como faz isso de maneira competente, como se roesse lentamente uma corda até ficar pronta para se partir. O filme de Delphine e Muriel Coulin, duas irmãs que esboçam uma grande afinidade na direção desse longa em que a temática social da intolerância imigratória está no cerne das suas discussões.
A presença sóbria de Vincent Lindon, como o viúvo Pierre, reforça a seriedade do projeto dessas irmãs, que sem dó, metem o dedo na ferida da intolerância de grupos xenófobos e racistas, engendrados perigosamente na sociedade francesa. O filme se passa na Lorena, região que foi dominada pelos alemães, que deixaram uma influência nazista na região. Na atualidade são os jovens o principal alvo desses grupos que os cooptam para os seus projetos impregnados por violência e ódio às diferenças.
Brincando Com Fogo se destaca pelo que também não mostra, como os próprios atos de violência em si, para mostrar apenas as consequências. A nossa ótica não é a do jovem fascista, mas a do pai, que questiona as ideias nacionalistas toscas e primárias defendidas pelo filho mais velho, em discussões acaloradas. A simplicidade da narrativa não retira o seu impacto, os planos contidos apenas servem para agravar os atos graves que o filme aos poucos nos mostra.
As diretoras Coulin não se perdem em meio aos grupos fascistas, apenas mostram os conflitos que ocorrem na casa do pai. A angústia de Pierre é o maior fio condutor da narrativa, como se o pai pudesse captar o pior que ainda podia emergir dos atos violentos de Felix (Benjamin Voisin), um rapaz de 22 anos sem rumo na vida, que despreza os estudos, a justiça e todas as vias institucionais pacíficas para se resolver as diferenças de pensamento. O outro filho, Louis (Stefan Crepon), é o avesso de Felix, vai estudar ciência política na prestigiada Sorbonne, em Paris.
As diretoras Delphine e Muriel são muito habilidosas em construir a narrativa de Brincando Com Fogo, e lentamente vai encalacrando o personagem de Felix, como se ele se enroscasse na própria corda que esticou. Primeiro vem as ideias e o conflito com o pai. Depois o resultado de uma briga em que Felix aparece todo arrebentado. Para finalizar, ele surge em casa com a mão esfolada e logo somos transportados para um tribunal, onde Felix está sendo julgado por assassinato.
Essas elipses orquestradas pelas diretoras são fantásticas por irem direto ao assunto e nos poupando das cenas explícitas de violência, mas não de suas consequências mais evidentes: os corpos machucados e depois a prisão de Felix. O discurso de Pierre no tribunal é crucial, ele sabe dos erros do filho (todos avisados com antecedência por ele) e pontua como o pensamento da extrema direita só visa o extermínio de quem pensa diferente dela, por só restar o ódio e a violência como caminhos.
O discurso de Pierre no tribunal é o grande momento de Brincando com Fogo, hora em que as palavras apesar de duras, não são mais do que o olhar e o tom da voz de Vincent Lindon. O seu olhar nessa cena desestrutura todo o discurso de ódio e pede por socorro, porque algo precisa ser feito nacionalmente para evitar que a extrema direita, com seu discurso destrutivo, continue a impingir a violência como conduta política e social. Esse é um filme que denuncia com tristeza nos olhos a intolerância que leva à vida vazia e sem propósito. O tal do nós que destrói o eles, justamente o que devemos, por princípio, socialmente evitar. O abraço que não perdoa, mas que reafirma a incomunicabilidade.

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