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Mostrando postagens de novembro, 2024

SANTINO (2022) Dir. Cao Guimarães

Texto por Marco Fialho Com Santino , o diretor Cao Guimarães volta a seu território de conforto ao realizar um documentário sobre um homem do interior e sua idiossincrasias perante ao mundo. Mais uma vez, o que mais impressiona é a maneira como Cao filma seus personagens, como ele deixa transparecer uma explícita admiração a esse ser chamado Santino, um homem que luta com todas as forças para se integrar à natureza. Confesso que Cao é um dos meus cineastas preferidos, mesmo que Santino  não esteja entre os seus trabalhos mais potentes. Em vários momentos a câmera de Cao mostra a surpresa e a delicadeza do cineasta em capturar a natureza em sua forma mais bruta e bela. De alguma maneira, o filme é também sobre as veredas do norte de Minas, região que o diretor insistentemente tenta resgatar a própria noção de humanidade. Santino não é somente um homem exemplar, é também um homem comum, com defeitos e com dificuldade de lidar com o mundo e com a própria família.  Curioso como Sa...

AVENIDA BEIRA-MAR (2023) Dir. Maju de Paiva e Bernardo Florim

Texto por Marco Fialho Um dos aspectos que mais admirei em Avenida Beira-Mar , longa de estreia da dupla Maju de Paiva e Bernardo Florim, é como a personagem de Mika adentra tanto na vida de Rebeca quanto no próprio filme, tomando de assalto e se impondo com uma personalidade de quem sabe o que quer e o que é. A discussão sobre gênero só vem depois que já temos a certeza de que estamos diante de Mika, não de João Pedro.    É interessante observar a relação entre Rebeca e Mika pelo início. A primeira vez que Rebeca (Milena Pinheiro) vê Mika (Milena Gerassi) não ocorre na cena em que Mika invade a casa da futura amiga, mas antes, quando elas apenas se encararam atraídas pelos sons que sobressaem por trás de um muro que as divide. Rebeca está dependurada em um balanço da casa que acabou de mudar, e a outra, está desfilando de patins branco com contornos de cor rosa pelas ruas desertas de uma sossegada e letárgica Piratininga. O som aqui é determinante para também adentrarmos nas ...

RETRATO DE UM CERTO ORIENTE (2024) Dir. Marcelo Gomes

Texto por Marco Fialho Se o livro de Milton Hatoum esbanja pelas múltiplas vozes que imprime em seu livro Relato de um Certo Oriente , Marcelo Gomes em Retrato de um Certo Oriente , aposta apenas na centralidade de uma das histórias do livro, a de Emilie (Wafa'a Celine Halawi), desde o Líbano até fixar residência em Manaus. O filme marcado pelo singeleza, com interpretações que fogem da eloquência, onde o menos torna-se mais. Uma obra ditada pelos olhares e pelos pequenos indícios deixados por gestos sutis, porém firmes de seus personagens. Essa é uma história de desterro, em que dois irmãos, Emilie e Emir (Zakaria Kaakour), fogem do Líbano para não serem mortos pela guerra que domina o país. Retrato de um Certo Oriente encara o multiculturalismo no qual as guerras são grandes motores. Desenraizar é uma forma de defesa encontrada como um caminho de sobrevivência.  O que mais encanta em Retrato de um Certo Oriente é a capacidade de Marcelo Gomes criar imagens simples e potentes, com...

171 (2023) Dir. Rodrigo Siqueira

Texto por Marco Fialho Uma obra impressionante. Essa foi a primeira impressão que tive de 171 , filme de Rodrigo Siqueira ( Terra Deu, Terra Come  e  Orestes ). Mais do que investigar a narrativa golpista dos 171, o que o diretor faz é expandi-la para o cinema, o que faz de seu filme algo necessário, um objeto de metalinguagem e de dúvidas.  171  traz para o cerne de sua narrativa a discussão sobre discursividade e o teor de verdade e mentira existentes tanto na vida quanto no cinema. Contudo, não se deve esperar de 171 um viés convencional ou didático, ainda mais que a matéria-prima escolhida para tal feito são as vozes e os corpos de seis pessoas presas por estelionato. A maior inspiração de Rodrigo Siqueira para edificação do filme é simplesmente Seis Personagens à Procura de um Autor , um clássico da dramaturgia teatral de Luigi Pirandello e um marco fundamental para se pensar a natureza do ato da representação artística. A proposta de  171  consiste em...

O SOL POR TESTEMUNHA (1960) Dir. René Clément

Texto por Marco Fialho O Sol Por Testemunha  é um thriller tomado pelo requinte visual e uma narrativa envolvente, com a presença eletrizante do astro Alain Delon como o vigarista Tom Ripley, em um de seus grandes papéis no cinema, como um protagonista que conduz a atenção da câmera e do espectador a cada cena. Aliás, essa foi a obra que o consagrou como símbolo de beleza e sedução.  O filme de Clément é de certo modo simbólico, representa uma sociopatia e um tipo de ideal de riqueza, da conquista de um desejo de ser um homem que apenas consiga viver o lado bom da vida. O Sol Por Testemunha também trabalha uma oposição entre uma América próspera e uma Europa decadente, mas símbolo do refinamento com suas praias e roupas de luxo, suas grifes imponentes.  É curioso ver Alain Delon, um francês, incorporar um personagem americano, não deixa de ser um chiste, pois a história de Ripley brinca com um desejo dos Estados Unidos serem a nova Europa. Vale lembrar o quanto a Europa s...

O SEGUNDO ATO (2024) Dir. Quentin Dupieux

Texto por Marco Fialho  Talvez O Segundo Ato , filme dirigido por Quentin Dupieux, seja o primeiro a adentrar de fato, de forma direta, na discussão da Inteligência Artificial no que tange a direção de um filme. Durante toda a filmagem, Dupieux brinca com camadas da relação entre atores e o seu ofício, já que aqui os personagens são atores, que fazem por sua vez papéis de atores.  O elenco estelar, composto por Louis Garrel, Lea Seydoux, Vincent London, já se mostra em si algo curioso, por esses famosos atores fazerem papéis também de atores. Várias brincadeiras com o cinema são realizadas, como a que simula o convite de Paul Thomas Anderson a um dos personagens, o que desperta o ciúme de outros, o que joga com essa espera que os atores tem por trabalhar com diretores importantes. Mas como fica então o cinema dirigido por uma inteligência artificial? Dupieux, de certo, debocha um pouco de tudo isso.    O Segundo Ato é composto por alguns longos planos sequências de c...

O ÚLTIMO JUDEU (2024) Dir. Noé Debré

Texto por Marco Fialho  Não podemos nos levar pelas aparências. Apesar de O Último Judeu entoar uma comédia leve de costumes judaicos, ela revela algo muito mais cruel em sua outra volta do parafuso. O filme de Noé Debré como um bom veneno vai nos asfixiando cena a cena e quanto mais nos familiarizando com a vida em torno do jovem judeu Bellisha (um Michel Zindel muito bem situado no personagem).  Podemos relacionar O Último Judeu a uma situação bem mais ampla da história, embora ela seja inclusive citada em alguns momentos na trama. Falo aqui do sionismo e fúria de guerra que o atual Estado de Israel vem alicerçando sua política externa. Há, sem dúvida, um mal-estar presente no ar e basta você mencionar que é judeu para receber um olhar ou uma reação imediata de repulsa. E isto está inserido e precipitado radicalmente no filme, e Bellisha sofre com essa situação.  Bellisha mora com a mãe em um conjunto residencial todo subsidiado pelo Governo Francês e habitado por povos...

AS TRÊS AMIGAS (2024) Dir. Emmanuel Mouret

Texto por Marco Fialho Em  As Três Amigas , o diretor Emmanuel Mouret vem coroar o seu enorme talento para fazer roteiros bem amarrados, perspicazes e com requinte de uma diversão que perpassa tanto os personagens quanto o público que está assistindo ao seu filme, assim como já havia realizado em seu ótimo trabalho anterior, Crônica de Uma Relação Passageira , exibido no Festival Varilux de Cinema Francês de 2023.  Emmanuel Mouret ratifica o seu apreço pelas narrativas românticas de Woody Allen, indo fundo nas comédias de costumes contemporâneas, cujas influências impregnam o seu estilo ao mesmo tempo pessoal e cativante. Para isso, ele conta com intérpretes afiados, capazes de construir personagens interessantes, pulsantes, que parecem saídos de uma esquina qualquer, tamanha humanidade que eles exalam quando estão em cena.     O filme inicia com um narrador onipresente, que com total liberdade começa a apresentar Lyon, cidade onde a história transcorrerá, e os ...

GLADIADOR 2 (2024) Dir. Ridley Scott

Texto por Marco Fialho Em  Gladiador 2 , o diretor Ridley Scott levanta um discurso para lá de defasado, já que o cerne de sua proposta é a de restauração de um Império Romano decadente, que se desvirtuou do caminho original e ideal ditado pelos grandes líderes do passado. O roteiro do filme se impõe como se fosse possível a portentosa e arrogante Hollywood, reescrever a história a sua revelia.  Mesmo que o Império Romano se situe no tempo séculos e mais séculos atrás de nós, é inevitável não ler Gladiador 2 como uma referência mais do que direta à política dos Estados Unidos ou pelo menos como uma maneira estadunidense de pensar o mundo. Não deixa de ser um certo vício doentio o de acharem que só existe a forma deles de se conceber o mundo e como isso limita as produções vindas desse país.    Mas enquanto cinema o que dizer de Gladiador 2 ? Pode-se dizer que esse é um produto altamente descartável, com algumas cenas que chegam às raias do constrangimento, como a da ...

DAAAAAALI ! Dir. Quentin Dupieux

Texto por Marco Fialho Daaaaaali! é uma intrigante fábula onírica e cômica de Quentin Dupieux. Não é um filme biográfico sobre Salvador Dali, mas sim sobre o universo e a personalidade do artista espanhol, mais especial sobre sua personalidade egocêntrica.  A mistura de fábula e comédia leva o filme para um registro bem longe do realismo. A narrativa vai se delineando de maneira onírica, nos obrigando sempre a rever nossos pontos de vista. Quentin Dupieux é bem feliz em suas escolhas narrativas e temos a impressão de que estamos assistindo a um conto literário visual.  Os 70 minutos do filme caem como uma luva em sua precisão rítmica. Nada parece fora de lugar, nem mesmo o constante desconcerto de um sonho que parece infinito. O jogo do infinito e da finitude são elementos intrínsecos à obra de Dali e eles estão presentes também no filme. Um exemplo ótimo desse jogo acontece logo no início, quando Dali chega no hotel para dar uma entrevista e ele caminha pelo corredor até cheg...

O BOM PROFESSOR (2024) Dir. Teddy Lussi-Modeste

Texto por Marco Fialho  Logo que comecei a ver O Bom Professor , filme dirigido por Teddy Lussi-Modeste, lembrei de A Caça (2012), de Thomas Vinterberg, justamente por ambas as tramas esbarrarem em denúncias injustas de assédio sexual de professores com alunas. A questão de A Caça era até mais sensível pelo fato do personagem de Mads Mikkelsen lidava com crianças em idade de creche, enquanto em O Bom Professor , o personagem Julien (François Civil) lida com crianças no final do ensino fundamental. Filmes realizados a partir de ambientes escolares, em especial em salas de aulas, invariavelmente, partem de situações de tensão, já que o que se reflete ali são as relações de poder entre professor e aluno. O Bom Professor até reverbera esse assunto, o desse poder que sempre cria momentos de discussão entre professor e aluno, embora essas conversas poderiam ser mais aprofundadas e revelar mais o caráter autoritário adotado no ato de ensinar das maiorias das escolas tradicionais.  E...

OURO VERDE (2024) Dir. Edouard Bergeon

Texto por Marco Fialho Ouro Verde  tem como mote a luta pela preservação ambiental de Martin (Félix Moati) um jovem francês, que vai à Indonésia para poder terminar sua pesquisa sobre o tema, quando se depara com Nila (Julie Chen), uma corajosa ativista que tenta defender a preservação da floresta em meio a um ataque ostensivo de uma milícia que representa os interesses escusos de uma indústria que impõe o desmatamento na exploração do óleo de palma.  Contado assim, o filme parece possuir um grau de ação política de grande intensidade, só que na realidade o filme se perde na história do estudante branco europeu preso injustamente em um país onde a elite política é retrógrada e injusta, com um sistema judicial para lá de atrasado e arcaico. Evidente que a prisão do rapaz por tráfico de drogas foi forjada e isso sabemos desde o início. E sabemos disso ainda porque já vimos acontecer em tantos outros filmes, desde o sucesso de O Expresso da Meia-Noite ,  lá  em 1978, qu...

APENAS ALGUNS DIAS (2024) Dir. Julie Navarro

Texto por Marco Fialho Apenas Alguns Dias traz para discussão inúmeras questões relacionadas com a grande quantidade de imigrantes refugiados que chegam sistematicamente em Paris, vindos de muitos países asiáticos e africanos que estão enfrentando guerras civis ou invasões estrangeiras.  A direção de Julie Navarro até se esforça em tentar esboçar diversas visões sobre o fato, contudo, a que prevalece e a que mais acompanhamos é a do personagem Arthur Berthier (Benjamin Biolay), um jornalista egresso da crítica musical, em especial do rock, que após uma punição por mau comportamento, volta a ficar disponível para fazer reportagens mais gerais e acaba sendo deslocado para fazer uma matéria sobre um incidente envolvendo os refugiados e a Associação Solidariedade Exilados.  A estrutura narrativa estabelecida pelo roteiro e afirmada pela direção leva  Apenas Alguns Dias para resultados quase sempre ingênuos em relação à temática, chegando até a romantizar várias das situa...

A FAVORITA DO REI (2024) Dir. Maïwenn

Texto de Carmela Fialho e Marco Fialho A Favorita do Rei é um drama histórico baseado na biografia de Jeanne du Barry, escrito, dirigido e protagonizado por Maïwenn, que conta com Johnny Depp como Luis XV. Ambientado na corte de Versalhes, Jeanne foi uma jovem cortesã que ascendeu a condição de amante do rei e após a morte da rainha, passou a morar na corte e desfrutar declaradamente da função de preferida do monarca Luis XV. Para tanto, foi arranjado um casamento de aparência com nobre Du Barry e através de sua influência junto ao rei, alcançou status de nobreza, apesar da sua origem humilde. Como todo filme de época, as questões palacianas assumem o centro da narrativa enfatizando os preconceitos sociais, principalmente no que se refere à questão de aceitação dessa mulher que não tinha origem nobre, embora desfrutasse de prestígio junto ao rei. Portanto, o filme se desenvolve nessa linha tênue entre apoios e rejeições que Jeanne recebeu durante o período que viveu na corte até a mor...

DIAMANTE BRUTO (2024) Dir. Agathe Riedinger

Texto por Marco Fialho Diamante Bruto é um filme de personagem, no caso, a jovem Liane, uma menina que almeja ser famosa a qualquer custo. O maior acerto da diretora Agathe Riedinger é na escolha da atriz Malou Khebizi como sua protagonista, ela encarna Liane com uma dedicação de impressionar, com a devida coragem que a personagem exige, embora isso não garanta o completo sucesso na sua empreitada.  Liane vem de uma família desestruturada, cuja mãe, a colocou numa instituição assistencial, um tipo de internato, e agora não demonstra muito carinho tanto por ela quanto pela filha mais nova. Essa mãe se dedicando mais a sair com homens que pouco fazem por ela, tanto que nem chegam a aparecer na tela. Diamante Bruto pode ser considerado um bom retrato da chamada geração Z, mesmo que se perca em cenas por demais expositivas e que pouco questionem criticamente o contexto social de onde essa personagem Liane emerge.  Em todos caso, Diamante Bruto tem como mote acompanhar essa persona...

A FANFARRA (2024) Dir. Emmanuel Courcol

Texto por Marco Fialho O que mais me chamou a atenção no drama A Fanfarra , foi a abordagem extremamente sensível e envolvente que o diretor Emmanuel Courcol imprime em sua narrativa. Lentamente, somos levados e embalados na proposta de redenção do personagem Thibaut (Benjamin Lavernhe), um maestro consagrado, que abruptamente se depara com uma grave doença, que mudará radicalmente o rumo de sua vida.  A virada na história ocorre quando Thibaut descobre que sofre de leucemia e precisa de um doador, que preferencialmente deve ser um irmão ou irmã. A revelação da doença leva a muitas outras revelações e a mais importante a de que foi adotado quando criança. Thibaut precisa ir atrás de seu irmão verdadeiro e nessa guinada da história começa um outro filme, com o inesperado encontro com Jimmy (Pierre Lottin), seu irmão de sangue. O diretor Emmanuel Courcol explora esse momento como um renascimento para o personagem Thibaut, que passa a ver o mundo sob outro viés, o de uma amizade que s...

SELVAGENS (2024) Dir. Claude Barras

Texto por Marco Fialho O filme  Selvagens é uma animação em stop motion, que se utiliza de maquetes para construção dos cenários e massinha para a feitura dos personagens. O nível de acabamento impressiona pela beleza plástica e profusão de cores que o diretor Claude Barras, o mesmo que realizou em 2016, o belíssimo Minha Vida de Abobrinha ,   compõe para a sua nova obra.  Se compararmos Selvagens com a sua obra anterior, podemos notar uma grande evolução na parte técnica da obra, entretanto, quanto ao roteiro, Minha Vida de Abobrinha é mais consistente e ousada na sua proposta, por explorar uma complexidade maior no desenvolvimento da história. Já em Selvagens , o diretor adentra na temática ambiental, o que não deixa muitas brechas existenciais, por se obrigar a realizar uma obra onde estabelece uma ideia de vilania mais direta que simplifica mais a história. Assim, os personagens bons são bons e os maus são maus, perdendo o seu arco mais complexo.  Barras conta a ...

A HISTÓRIA DE SOULEYMANE (2024) Dir. Boris Lojkine

Texto por Marco Fialho O grande mérito do diretor Boris Lojkine ao realizar  A História de Souleymane pode ser atribuído à capacidade de juntar o cotidiano acelerado do protagonista, um refugiado vindo da Guiné, a uma câmera igualmente dinâmica, disposta a seguir o destino trágico de um personagem e sua luta pela sobrevivência em um país estrangeiro.  A câmera do diretor Boris Lojkine registra com realismo a vida difícil que leva Souleymane (o ótimo Abou Sangare), um jovem que tenta se fixar em solo francês como exilado político, fomentado por um militante de um partido de oposição ao governo da Guiné, que lhe cobra para dar essa "assistência". Souleymane precisa decorar um discurso para replicar numa entrevista que fará no setor de imigração, que decidirá sobre o seu futuro. Todas as cenas do filme partem da rotina suada de Souleymane, com a câmera quase que a mercê de suas ações. Como refugiado, ele não pode trabalhar com o seu nome, mas aluga a identidade de um camaronês, ...

MEGA CENA (2024) Dir. Maxime Govare

Texto por Marco Fialho Mega Cena , dirigido por Maxime Govare, é uma comédia que brinca com algumas situações-limites que levam os personagens do trágico ao paraíso e depois novamente ao trágico. Esse estado cíclico é o que permeia as várias histórias envolvendo bilhetes premiados de loteria.  O filme investe na ideia do dinheiro que vem fácil vai fácil, na mesma medida. Apesar do absurdo de algumas histórias, tudo aqui faz muito sentido, porque vivemos numa sociedade onde o dinheiro ocupa o centro do universo cotidiano. A grande maioria das pessoas depende de empréstimos ou vive se apertando para chegar no final do mês. Essa realidade é que torna Mega Cena atrativo como obra, por levantar situações onde os personagens se deparam com a concretização de seus sonhos. Mas é bom alertar que o filme não adota um humor pastelão, mas sim ácido. O diretor Maxime Govare ri de situações que mostram o que as pessoas podem fazer por dinheiro. Por isso, Mega Cena  leva ao extremo situações...

1874, O NASCIMENTO DO IMPRESSIONISMO (2024) Dir. Hugues Nancy e Julien Johan

Texto por Marco Fialho Um filme sobre o movimento impressionista francês na pintura é sempre um acontecimento que atrai a atenção dos amantes das artes em geral. O híbrido de documentário e ficção 1874, o Nascimento do Impressionismo , dirigido pela dupla Hugues Nancy e Julien Johan, traz uma boa dose daqueles filmes feitos para canais especializados em arte, em especial uma voz em off como principal veio narrativo.  O filme inclusive se utiliza dessa monocórdica voz em off em seus 94 minutos de duração, o que deveras causa um cansaço no espectador. O curioso na construção de 1874, o Nascimento do Impressionismo é a mistura desse viés mais convencional com um mais ficcional, que não chega a se caracterizar como personagens dentro de uma história, mas que são utilizados como uma representação visual do ato de pintar dos artistas. Apenas em pouquíssimos ensejos, vemos os pintores esboçando uma representação textual, o que deixa essa ideia muito no meio do caminho, já que logo ...