Pular para o conteúdo principal

RETRATO DE UM CERTO ORIENTE (2024) Dir. Marcelo Gomes


Texto por Marco Fialho

Se o livro de Milton Hatoum esbanja pelas múltiplas vozes que imprime em seu livro Relato de um Certo Oriente, Marcelo Gomes em Retrato de um Certo Oriente, aposta apenas na centralidade de uma das histórias do livro, a de Emilie (Wafa'a Celine Halawi), desde o Líbano até fixar residência em Manaus. O filme marcado pelo singeleza, com interpretações que fogem da eloquência, onde o menos torna-se mais. Uma obra ditada pelos olhares e pelos pequenos indícios deixados por gestos sutis, porém firmes de seus personagens.

Essa é uma história de desterro, em que dois irmãos, Emilie e Emir (Zakaria Kaakour), fogem do Líbano para não serem mortos pela guerra que domina o país. Retrato de um Certo Oriente encara o multiculturalismo no qual as guerras são grandes motores. Desenraizar é uma forma de defesa encontrada como um caminho de sobrevivência. 

O que mais encanta em Retrato de um Certo Oriente é a capacidade de Marcelo Gomes criar imagens simples e potentes, com um preto e branco inspirado, que retira emoções intrínsecas às cores em nome de uma sofisticação imagética mais homogênea. Enquadramentos ousados que exploram a profundidade de campo que criam uma proposta de tridimensionalidade da imagem, além de planos que combinam foco e desfoco, rostos no canto da tela. Nota-se ainda um requinte na movimentação da câmera, sempre muito bem pensada de modo a revelar nuances da trama.

A tensão da narrativa está posta em Emir, irmão de Emilie, que recusa com veemência o amor dela, uma católica, por Omar (Charbel Kamel), um muçulmano. É a partir dessa desarmonia, que os conflitos se estabelecem e mantem a instabilidade emocional entre os personagens. Discussões, brigas físicas e ofensas mantem um grau de excitação, que mesmo que Marcelo Gomes conduza tudo com o equilíbrio necessário, para que a história não passe do ponto. 

A mistura das culturas, que é um dos elementos mais marcantes do livro de Hatoum, está presente especialmente nas cenas de floresta, onde Emir precisa ser socorrido. Na floresta, os indígenas não só fazem uso de práticas medicinais ancestrais, como exibem suas danças e religiosidade para Emilie, Emir e Omar. A ambição do homem branco também se faz presente com seu arroubo para tirar os povos originários de suas terras. As cenas passadas na floresta são as mais bonitas de Retrato de um Certo Oriente, onde o tempo se expande e a sensualidade das cenas se acentuam. A cena em que Emilie e Omar estão chupando manga e se olhando é uma das mais sensuais interessantes do filme, cujo cenário são árvores centenárias e de tamanho desproporcional aos personagens. 

Retrato de um Certo Oriente é uma bela história de amor, em que os personagens Emilie e Omar precisam atropelar as diferenças culturais para celebrar a paixão entre eles. Somente a força da memória, evocada de fotos da própria viagem, feita por um fotógrafo que registrou o autoexílio dos irmãos e uma linda canção inédita de Caetano Veloso (Ciclâmen do Líbano), composta especialmente para o filme, poderiam coroar a beleza que Marcelo Gomes imprime em mais uma obra tomada por uma visão ampla da cultura. Uma fina estampa cinematográfica.

Comentários

  1. Quero muito assistir, mas o Estação Net Rio está exibindo em apenas uma sessão no começo da tarde (porque será?)
    E o Cinesystem Botafogo também exibe em apenas uma sessão às 15:30h. É preciso exibirem em mais sessões.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Deixe seu comentário. Quero saber o que você achou do meu texto. Obrigado!

Postagens mais visitadas deste blog

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

PECADORES (2025) Dir. Ryan Coogler

Texto por Marco Fialho e Carmela Fialho O cinema negro dos Estados Unidos vem se fortalecendo mercadologicamente como nunca. Diretores como Jordan Peele ( Corra! , Nós  e Não! Não Olhe! ), Barry Jenkins ( Moonlight e Se a Rua Beale Falasse ), Ava DuVernay ( 13ª Emenda  e Selma ) e Shaka King ( Judas e o Messias Negro ), Raoul Peck ( Eu não Sou Seu Negro ). Se falarmos mais retroativamente, encontraremos Spike Lee (com os clássicos  Faça a Coisa Certa , Malcoln X , e os atuais  Infiltrado na Klan e Destacamento Blood ), Melvin Van Peebles ( Sweet Sweetback's Baadasssss Song e Posse: A Vingança de Jesse Lee ) e a força do movimento Blaxploitation dos anos 1970, e o ineditismo de Oscar Micheaux nos anos 1920 e 1930.  O fato atual é que o cinema negro não é mais reservado a um nicho. Os diretores mais recentes mostram uma penetração cada vez mais efetiva no mercado. Pecadores , mais recente filme de Ryan Coogler ( Creed e Pantera Negra ) vem comprovar isso. ...

MOSTRA CINEBH 2023

CineBH vem aí mostrando novos diretores da América Latina Texto de Marco Fialho É a primeira vez que o CineFialho irá cobrir no modo presencial a Mostra CineBH, evento organizado pela Universo Produção. Também, por coincidência é a primeira vez que a mostra terá inserido um formato competitivo. Nessa matéria falaremos um pouco da programação da mostra, de como a curadoria coordenada pelo experiente Cleber Eduardo, montou a grade final extensa com 93 filmes a serem exibidos em 8 espaços de Belo Horizonte, em apenas 6 dias (26 de setembro a 1º de outubro). O que atraiu o CineFialho a encarar essa cobertura foi o ineditismo da grande maioria dos filmes e a oportunidade mais do rara, única mesmo, de conhecer uma produção independente realizada em países da América Latina como Chile, Colômbia, México, Peru, Paraguai, Cuba e Argentina, sem esquecer lógico do Brasil.  Lemos com atenção toda a programação ofertada e vamos para BH cientes da responsabilidade de que vamos assistir a obras di...