Pular para o conteúdo principal

SANTINO (2022) Dir. Cao Guimarães


Texto por Marco Fialho

Com Santino, o diretor Cao Guimarães volta a seu território de conforto ao realizar um documentário sobre um homem do interior e sua idiossincrasias perante ao mundo. Mais uma vez, o que mais impressiona é a maneira como Cao filma seus personagens, como ele deixa transparecer uma explícita admiração a esse ser chamado Santino, um homem que luta com todas as forças para se integrar à natureza. Confesso que Cao é um dos meus cineastas preferidos, mesmo que Santino não esteja entre os seus trabalhos mais potentes.

Em vários momentos a câmera de Cao mostra a surpresa e a delicadeza do cineasta em capturar a natureza em sua forma mais bruta e bela. De alguma maneira, o filme é também sobre as veredas do norte de Minas, região que o diretor insistentemente tenta resgatar a própria noção de humanidade. Santino não é somente um homem exemplar, é também um homem comum, com defeitos e com dificuldade de lidar com o mundo e com a própria família. 

Curioso como Santino é igualmente sobre a perplexidade de Cao sobre o personagem, e isso fica evidente pelas perguntas que o diretor faz a ele e a sua esposa. Santino conhece as plantas e ervas com detalhes, o que fascina a todos, inclusive a um grupo de adolescentes que vai ouvi-lo falar sobre a mãe natureza, mas ao mesmo tempo há uma desconfiança da esposa sobre o seu conhecimento. 

Santino é uma espécie de homem que fascinaria o poeta pantaneiro Manoel de Barros, com suas invenções e prosas sobrenaturais sobre a natureza, seres míticos e outras "inutilidades" que dizem muito sobre o mundo naquelas veredas mineiras. Santino acredita que pode colaborar para despertar as pessoas para uma conscientização da força da mãe natureza e uma maior qualidade de vida no planeta. Mora nas veredas por opção, não quer viver numa cidade grande. 

Na verdade, tudo nesse universo das veredas nos seduz, mas isso acontece porque Cao cria uma atmosfera para que tudo isso aconteça. A beleza poética da vida se encontra com um cineasta disposto a revelações e a descobrir mundos que o mundo não conhece, ou finge não conhecer.   

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

PECADORES (2025) Dir. Ryan Coogler

Texto por Marco Fialho e Carmela Fialho O cinema negro dos Estados Unidos vem se fortalecendo mercadologicamente como nunca. Diretores como Jordan Peele ( Corra! , Nós  e Não! Não Olhe! ), Barry Jenkins ( Moonlight e Se a Rua Beale Falasse ), Ava DuVernay ( 13ª Emenda  e Selma ) e Shaka King ( Judas e o Messias Negro ), Raoul Peck ( Eu não Sou Seu Negro ). Se falarmos mais retroativamente, encontraremos Spike Lee (com os clássicos  Faça a Coisa Certa , Malcoln X , e os atuais  Infiltrado na Klan e Destacamento Blood ), Melvin Van Peebles ( Sweet Sweetback's Baadasssss Song e Posse: A Vingança de Jesse Lee ) e a força do movimento Blaxploitation dos anos 1970, e o ineditismo de Oscar Micheaux nos anos 1920 e 1930.  O fato atual é que o cinema negro não é mais reservado a um nicho. Os diretores mais recentes mostram uma penetração cada vez mais efetiva no mercado. Pecadores , mais recente filme de Ryan Coogler ( Creed e Pantera Negra ) vem comprovar isso. ...

MOSTRA CINEBH 2023

CineBH vem aí mostrando novos diretores da América Latina Texto de Marco Fialho É a primeira vez que o CineFialho irá cobrir no modo presencial a Mostra CineBH, evento organizado pela Universo Produção. Também, por coincidência é a primeira vez que a mostra terá inserido um formato competitivo. Nessa matéria falaremos um pouco da programação da mostra, de como a curadoria coordenada pelo experiente Cleber Eduardo, montou a grade final extensa com 93 filmes a serem exibidos em 8 espaços de Belo Horizonte, em apenas 6 dias (26 de setembro a 1º de outubro). O que atraiu o CineFialho a encarar essa cobertura foi o ineditismo da grande maioria dos filmes e a oportunidade mais do rara, única mesmo, de conhecer uma produção independente realizada em países da América Latina como Chile, Colômbia, México, Peru, Paraguai, Cuba e Argentina, sem esquecer lógico do Brasil.  Lemos com atenção toda a programação ofertada e vamos para BH cientes da responsabilidade de que vamos assistir a obras di...