Pular para o conteúdo principal

AVENIDA BEIRA-MAR (2023) Dir. Maju de Paiva e Bernardo Florim


Texto por Marco Fialho

Um dos aspectos que mais admirei em Avenida Beira-Mar, longa de estreia da dupla Maju de Paiva e Bernardo Florim, é como a personagem de Mika adentra tanto na vida de Rebeca quanto no próprio filme, tomando de assalto e se impondo com uma personalidade de quem sabe o que quer e o que é. A discussão sobre gênero só vem depois que já temos a certeza de que estamos diante de Mika, não de João Pedro.   

É interessante observar a relação entre Rebeca e Mika pelo início. A primeira vez que Rebeca (Milena Pinheiro) vê Mika (Milena Gerassi) não ocorre na cena em que Mika invade a casa da futura amiga, mas antes, quando elas apenas se encararam atraídas pelos sons que sobressaem por trás de um muro que as divide. Rebeca está dependurada em um balanço da casa que acabou de mudar, e a outra, está desfilando de patins branco com contornos de cor rosa pelas ruas desertas de uma sossegada e letárgica Piratininga. O som aqui é determinante para também adentrarmos nas personalidades em questão. O som do balanço atrai nossa atenção para Rebeca, que sacoleja pra frente e pra trás sem sair do lugar, enquanto o som dos patins nos leva para Mika e seus dinâmicos patins que a embalam pelas ruas do bairro e da praia. Assim ambas as protagonistas nos são apresentadas.    

Pois é, até onde nada parece acontecer, a vida pode ser arrebatada pelo conflito e pelas lutas políticas que uma sociedade encampa como um todo. A política não escolhe CEP e Avenida Beira-Mar vem dialogar com isso, com um microcosmo que pode sim, falar de questões prementes e vitais para cada um de nós. Embora o aspecto político seja importante, não há espaço para o panfletário e sim para como cada família lida com as questões intrínsecas ao nosso tempo. A narrativa seca, sem grandes arroubos e peripécias técnicas, colocam o filme em um registro humanamente tangível, perto de nossas vidas, como um lugar de reflexão para algo que pode estar sendo vivido perto de nós.

Muitos podem observar que Avenida Beira-Mar assume não só o ponto de vista de crianças entrando na pré-adolescência, mas que também trata de suas dúvidas e certezas com o seu linguajar e maneira de pensar o mundo. Isso agrega ao filme um sentimento de verdade e comoção (embora esse sentimento seja contido ao extremo). Rebeca e Mika são protagonistas não só do filme como de suas vidas, mesmo que tenham que mentir para as suas mães (Andrea Beltrão e Isabel Teixeira interpretam as respectivas mães). A ação dos corpos fala mais do que palavras, mesmo que elas precisem também reafirmar suas identidades muitas vezes pelo grito). 

Avenida Beira-Mar sabe explorar as nuances de cada uma das duas meninas. Rebeca vê o mundo através de seu muro introspectivo, já Mika é a personagem da experimentação, da rua, de enfrentar o mundo de frente, mesmo que as sequelas desse enfrentamento fiquem marcadas no seu corpo. Maju e Bernardo partem dessa dicotomia para estabelecer diferenças, embora a coragem seja um elemento que une as duas personagens.     

O filme se constrói muito pela ideia de dualidade, não só pela transgeneridade de Mika, que a família insiste em chamar de João Pedro, mas também pela diferença geracional entre pais e filhos. A direção prima pela sensibilidade ao direcionar a história para os afetos e a convivência das diferenças. Os pontos de intolerância que o filme traz lançam discussões cruciais para o mundo de hoje.  O filme cresce muito também nas relações geracionais do elenco, que mistura atrizes novas como as duas Milenas com atores e atrizes tarimbados como Andrea Beltrão, Isabel Teixeira, Analu Prestes e Emiliano Queiroz (que faz uma ponta encantadora e surpreendente). 

Cada vez mais, se faz crucial possuirmos um cinema em que diversas gerações possam se expressar e mostrar a sua maneira própria de ver o mundo. É fundamental vermos diretores consagrados e os mais veteranos produzindo, assim como diretores estreantes fazendo filmes. É nessa mistura que um cinema se constrói. Avenida Beira-Mar possui diretores muito jovens, que trazem temas e abordagens que são inerentes a sua geração. A qualidade dessa estreia na direção em longas dessa dupla, só faz querermos acompanhar a trajetória desses artistas (juntos ou separados) que estão a levar nossos olhares para outros lugares. O cinema precisa dessa renovação, incessantemente.             

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

PECADORES (2025) Dir. Ryan Coogler

Texto por Marco Fialho e Carmela Fialho O cinema negro dos Estados Unidos vem se fortalecendo mercadologicamente como nunca. Diretores como Jordan Peele ( Corra! , Nós  e Não! Não Olhe! ), Barry Jenkins ( Moonlight e Se a Rua Beale Falasse ), Ava DuVernay ( 13ª Emenda  e Selma ) e Shaka King ( Judas e o Messias Negro ), Raoul Peck ( Eu não Sou Seu Negro ). Se falarmos mais retroativamente, encontraremos Spike Lee (com os clássicos  Faça a Coisa Certa , Malcoln X , e os atuais  Infiltrado na Klan e Destacamento Blood ), Melvin Van Peebles ( Sweet Sweetback's Baadasssss Song e Posse: A Vingança de Jesse Lee ) e a força do movimento Blaxploitation dos anos 1970, e o ineditismo de Oscar Micheaux nos anos 1920 e 1930.  O fato atual é que o cinema negro não é mais reservado a um nicho. Os diretores mais recentes mostram uma penetração cada vez mais efetiva no mercado. Pecadores , mais recente filme de Ryan Coogler ( Creed e Pantera Negra ) vem comprovar isso. ...

MOSTRA CINEBH 2023

CineBH vem aí mostrando novos diretores da América Latina Texto de Marco Fialho É a primeira vez que o CineFialho irá cobrir no modo presencial a Mostra CineBH, evento organizado pela Universo Produção. Também, por coincidência é a primeira vez que a mostra terá inserido um formato competitivo. Nessa matéria falaremos um pouco da programação da mostra, de como a curadoria coordenada pelo experiente Cleber Eduardo, montou a grade final extensa com 93 filmes a serem exibidos em 8 espaços de Belo Horizonte, em apenas 6 dias (26 de setembro a 1º de outubro). O que atraiu o CineFialho a encarar essa cobertura foi o ineditismo da grande maioria dos filmes e a oportunidade mais do rara, única mesmo, de conhecer uma produção independente realizada em países da América Latina como Chile, Colômbia, México, Peru, Paraguai, Cuba e Argentina, sem esquecer lógico do Brasil.  Lemos com atenção toda a programação ofertada e vamos para BH cientes da responsabilidade de que vamos assistir a obras di...