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BECO - Direção de Camilo Cavalcante

A verdade e suas armadilhas Por Marco Fialho Camilo Cavalcante se notabilizou por seus curtas, até que em 2014 realizou seu primeiro longa: A história da eternidade, um filme ficcional que apesar de recente pode ser considerado um novo clássico de nosso cinema. "Beco" é o seu segundo longa e dessa vez  sua aposta é em um documentário sobre o Beco dos infernos, no popular bairro de Afogados, em Recife. Enquanto documentário, "Beco" transita por atalhos interessantes, entre depoimentos e mapeamento visual do ambiente retratado. A cada nova cena somos convidados a adentrar na atmosfera do local, seja pelas imagens reveladoras, seja pela sonoridade que nos envolve, com suas músicas sensuais que nos chegam pelos aparelhos de TV e as inúmeras jukebox espalhadas pelos inúmeros bares do beco. A cada cena, o homem simples e sua maneira própria de se expressar e estar no mundo são desnudados. A câmera mostra rostos em planos próximos, visivelmente talhados pela dificul...

UMA VIDA OCULTA - Direção de Terrence Malick

"É melhor sofrer injustiça do que cometê-la" Por Marco Fialho Desde "A árvore da vida" (2011), Terrence Malick devia um filme realmente consistente, à altura do seu talento como diretor. Cineasta que iniciou a carreira na década de 1970 com dois filmes primorosos, "Terra de ninguém" (1973) e "Cinzas do paraíso" (1978), ficou vinte anos inativo até ressurgir com o filosófico filme de guerra "Além da linha vermelha" (1998), que o colocou, com justiça, novamente em evidência. Agora com "Uma vida oculta" (2019), Malick volta ao tema da guerra e nos brinda com um filme melancólico, belo e represado de vida. É um filme de atmosfera, onde suas três horas de duração são propícias para a criação do clima pretendido pelo diretor.                E logo nas primeiras cenas reconhecemos "Uma vida oculta" como uma legítima obra de Malick. Seu estilo inconfundível está presente o tempo todo, mas aqui de maneira mais controla...

LIBERTÉ - Direção de Albert Serra

Os corpos pela liberdade    Por Marco Fialho "Liberté", novo filme do inusitado diretor catalão Albert Serra não é uma obra de fácil acesso. Ela desafia a paciência do espectador com planos lentos, longos e repetitivos. A temática da libertinagem também se constitui em outro elemento de difícil digestão. Cenas de escatologia, sexo bizarro e tantas outras esquisitices inundam a tela, ininterruptamente. As provocações de Serra à contemporaneidade são notórias. O filme se passa antes da revolução francesa, mas o título remete ao seu famoso lema "Liberdade, Igualdade e fraternidade". A liberdade aqui enfatizada é a dos corpos. Liberdade que só é vivida em plenitude na escuridão da noite.                   A trama se desenha com nobres franceses, adeptos da filosofia libertina, que depois de expulsos pelo reinado de Luis XVI, almejam  levar para Alemanha polêmicas e audaciosas práticas sexuais. O estranhamento na obra de Albe...

VOCÊ NÃO ESTAVA AQUI - Direção de Ken Loach

Ken Loach e a "urberização" da sociedade capitalista Por Marco Fialho "Você não estava aqui", novo filme do polêmico cineasta britânico Ken Loach, vem de encontro a coerente carreira desse diretor, que sempre optou por retratar majoritariamente dramas políticos ou sociais, alguns até flertando com o cômico como "A parte dos anjos" (2012) e "À procura de Eric" (2009). Mas se existe algo de constante em sua longa filmografia é a sua escolha em retratar histórias sob o ponto de vista da classe trabalhadora, que se afirmam como contínuas denúncias ao capitalismo como sistema político-econômico. Dentro desse princípio pode-se dizer que suas duas últimas obras são as mais radicais. Loach visivelmente põe hoje seu cinema como um libelo contra as agruras do sistema capitalista e empenha em mostrar como suas políticas estão a pauperizar e amesquinhar a vida dos trabalhadores que vivem nesse regime. O aviltamento e a humilhação tornaram-se os motores...

O GABINETE DO DR. CALIGARI (1919) - Direção de Robert Wiene

Caligari: o terror cinematográfico como prenúncio do terror social Por Marco Fialho * Escrito para o catálogo da Mostra "Sombras que assombram", em homenagem ao cinema expressionista alemão  Analisado em uma perspectiva histórica, o filme O gabinete do Dr. Caligari, dirigido por Robert Wiene, em 1919, é um dos mais significativos não só no campo do cinema como no da cultura. Hoje sem dúvida trata-se de uma referência estética para vários artistas das mais variadas linguagens. Antes de tudo, Caligari é fundador, considerado um marco do expressionismo no cinema, criador de um estilo calcado sobretudo no poder imagético, mas não só. Sua força também impregna tematicamente, abre uma janela sem igual para a aventura do fantástico no cinema. Enfim, depois de Caligari, o cinema nunca mais foi o mesmo. De um ponto de vista mais abrangente, Caligari representa o próprio cinema, seja pelo uso da hipnose, seja por assumir uma artificialidade por meio de cenári...

INAUDITO - Direção de Gregorio Gananian

Documentando o invisível "A loucura pode ser um estado de transcendência que a pessoa atinge"                                                 Lanny Gordin Por Marco Fialho Como documentar o inaudito? Como retratar um tema onde reina sempre algo de impalpável e indecifrável, o som do invisível?  Esse é o desafio do diretor Gregorio Gananian ao mergulhar no atual fluxo de criação do insólito guitarrista Lanny Gordin (já nomeado uma espécie de Hendrix brasileiro), que entre os anos de 1969/1972 viveu um curto período de reconhecimento artístico, quando tocou em discos célebres de Caetano, Gal, Gil e Macalé, com o som destorcido de sua indelével guitarra. Se por um lado o protagonista possui um grande lastro de beleza, e por outro, aponta para algo de inalcançável e não se configura como um ser convencional, o melhor a fazer é permitir que o estranhamento sej...

VIVER LÁ - Direção de Javiera Véliz Fajardo

A redescoberta do prazer pela observação (Ou um mergulho em um mundo que se esvai) Por Marco Fialho "Viver lá" é a estreia muito bem-vinda da chilena Javiera Véliz Fajardo na direção de longas. Praticamente sem diálogos, o filme não tem uma proposta de estabelecer uma narrativa tal como se espera de uma obra convencional. A opção pelo observacional predomina e se justifica inteiramente. Mais do que nos impor uma história, a jovem cineasta nos convida a acompanhar poeticamente a rotina de um homem idoso que vive em pleno deserto do Atacama. As imagens são todas em planos gerais, em nenhum momento conseguimos enxergar o rosto do protagonista, apenas o assistimos em pleno exercício de sua rotina, sempre à distância. Com esse distanciamento na imagem pelos planos gerais, Javiera incorpora o homem à paisagem, onde ele se configura apenas como mais um dos elementos dela. A grosso modo, podemos dizer que "Viver lá" é um filme para iniciados, para quem procura no cin...

FAKIR - Direção de Helena Ignez

Helena Ignez e o desnudar do anedótico Por Marco Fialho Devo confessar que desde que soube que a sempre surpreendente Helena Ignez havia realizado um filme cujo o ponto de partida eram os fakires fiquei com uma sensação de estranhamento sem igual. Ainda na minha infância, lembro de ouvir falar deles, mas sempre sem entender mesmo quem eles eram, em especial porque as explicações que vinham recrudesciam ainda mais minhas dúvidas sobre esses seres. Já na minha vida adulta o fenômeno rarefeito dos fakires pode ter colaborado para o meu esquecimento desses misteriosos seres. Não se tem como negar que em torno da figura de um fakir sempre haverá algo de pitoresco, e a pergunta óbvia do que leva um ser humano a ganhar a vida com provas tão duras, como a de ficar dias sem se alimentar num esquife cuja base são pregos e de quebra cercado por cobras. Quando soube desse filme, sempre imaginei isso: como fugir do pitoresco, do aspecto curioso e ir além, falar de algo a mais dentro desse ...

A VOZ DA LUA - Direção Federico Fellini

UMA ODE À FANTASIA Por Marco Fialho “A voz da lua” marca o encontro entre o grande diretor italiano Fellini com um dos maiores humoristas da Itália, Roberto Benigni. Só este fato em si já seria um atrativo à parte. Mas claro que o filme é muito mais do que isso. O maior desafio de Fellini nessa obra é o de tirar Benigni de seu registro habitual, o do clown , para pô-lo em uma proposta mais sóbria, entretanto sem perder a dimensão lúdica e circense que Benigni tão bem incorpora a seu personagem, o lunático Salvini. E a sua atuação é surpreendente, carismática, contida e expressiva. Ele é o condutor nesse barco à deriva que Fellini joga errante ao desconhecido mar, ao sabor de suas vagas imprevisíveis.                                        Talvez seja “A voz da lua” o filme onde ...

JULIETA DOS ESPÍRITOS (1965) - Direção Federico Fellini

A RONDA DA SOMBRA CONSERVADORA Por Marco Fialho Comecemos pela cor, pois “Julieta dos espíritos” é o primeiro longa-metragem colorido de Fellini. Antes, apenas o episódio filmado em cores para o filme coletivo “Bocaccio 70”. O uso do elemento cor aqui não deve em nada ser desconsiderado, em especial devido à importância que adquire para a atmosfera lúdica na qual Fellini almeja alcançar e a impressão que temos realmente é de que cada cor ali presente foi precisamente pensada. Não são cores estritamente realistas, mas sim unidades de cores dispostas para expressar sobretudo o espírito da personagem Julieta. Fellini preferia fazer filmes em P&B, embora admitisse ser um desafio filmar em cores. Por isso, para ele, o manipular delas era algo fundamental. Fellini foi um diretor que artisticamente almejava obsessivamente retrabalhar a realidade. As cores simplesmente espelhadas da vida se mostravam pobres e instalavam um realismo frágil que extraia as subjetividades dos ...