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Mostrando postagens de setembro, 2026

A BOLA PRETA (2026) Dir. Javier Calvo e Javier Ambrossi

Texto por Marco Fialho O que tanto falta nos filmes atualmente, e que estamos a reivindicar com insistência, é um pouco de ousadia nas suas construções narrativas. O problema dos filme não é propriamente eles serem narrativos e sim a falta de coragem para experimentar algo diferente. A Bola Preta , dirigido por Javier Calvo e Javier Ambrossi, dá uma aula de como ser arrojado e criativo, e não casualmente, a obra foi agraciada com o prêmio de direção no Festival de Cannes 2026.  A Bola Preta trabalha com três períodos históricos (1932, 1937 e 2017), que juntos compõem um mosaico narrativo perfeitamente encaixado. A montagem é o elemento cinematográfico definidor dessa obra corajosa, que ao final sintetiza a história, a cultura, a sexualidade, a resistência (até as mais silenciosas) e a dor de um país, que enfrentou um regime cruel, conservador e sanguinário. A dupla Javier costura com grande sensibilidade uma história de corpos que foram silenciados e resistiram à violência do Estad...

ANTÁRTIDA (2026) Dir. Bruno Safadi

Texto por Marco Fialho Tem filmes que tem tudo para dar certo, uma produção esmerada, ótimos atores, domínio técnico impecável, mas não funcionam quando o vemos na tela. Algo parece não acontecer, mesmo que os meios tenham sido aparentemente os ideais. É o que ocorre com Antártida , filme dirigido por Bruno Safadi e protagonizado por Andréa Beltrão, Marina Ruy Barbosa, Leandra Leal e Lázaro Ramos, e que conta com coadjuvantes de peso, como Gero Camilo, Mariana Sena, Antonio Calloni, João Vitor Silva e Henrique Barreira. A obra foi filmada em um estúdio virtual, para que o pública tenha a sensação de que o elenco de  Antártida estava no local mais frio do mundo, com temperaturas que podem chegar a 30º negativos. O problema de Antártida não está na veracidade das imagens, mas no roteiro que abusa de diálogos expositivos e se equivoca na maneira como expõe a discussão central, a do estupro e da violência de gênero contra a mulher, um dos mais habituais crimes da nossa sociedade. ...

ACAMPAMENTO MIASMA: ADOLESCÊNCIA, SEXO E MORTE (2026) Dir. Jane Schoenbrun

Texto por Marco Fialho Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte , dirigido por Jane Schoenbrun, não é só bom cinema de gênero, é bem mais do que isso, o filme esbanja criatividade e se mostra reverente ao slasher , sem esquecer de ser onírico, apaixonado e radical. A história que vemos é a de Kris (Hannah Einbinder), uma jovem diretora de cinema queer  escolhida para realizar mais um filme de uma famosa franquia e se deixa envolver por Billy Presley (Gillian Anderson), atriz que interpretou a primeira e icônica protagonista.  Logo nos créditos iniciais, Acampamento Miasma faz uma homenagem ao cinema slasher dos anos 1980, que começa na textura das imagens granuladas e numa caprichada direção de arte, com objetos como bonecos, jogos de fliperama com os motivos do filme e fotos em porta-retratos com personagens marcantes. É incrível como Acampamento Miasma  brinca com o mote do filme dentro do filme, de uma maneira para lá de criativa e instigante.  Um ...

TRÊS VEZES ADEUS (2025) Dir. Isabel Coixet

Texto por Marco Fialho Um dos motes mais recorrentes do cinema europeu dos últimos tempos é a exploração de casos de doenças terminais ou de deficiências a serem superadas. Se fossemos citar, a lista seria imensa. Três Vezes Adeus , produção ítalo-espanhola da diretora espanhola Isabel Coixet -  A Vida Secreta das Palavras (2005)   e Minha Vida Sem Mim (2003) - vem engrossar a fileira de filmes com esse viés, o que não é nenhuma novidade, basta observar as sinopses dos seus dois filmes acima. Normalmente, essas são obras inspiradas por famosos romances, os chamados best sellers , obras que venderam milhões de exemplares e contemplam o gosto de um certo público afeito a receber histórias duras contadas de maneira amena.   Aqui, logo após uma separação amorosa, Marta (Alba Rohrwacher), uma professora de educação física do ensino médio, depara-se com um anúncio terrível e irreversível: sua vida está condenada por um diagnóstico de uma doença terminal. Se a sua vid...

MORTE E VIDA MADALENA (2025) Dir. Guto Parente

Texto por Marco Fialho Depois de alguns prêmios acumulados no currículo (em especial, no 58 º Festival de Brasília), Morte e Vida Madalena , dirigido por Guto Parente,   estreia no circuito brasileiro. O filme inicia com Madalena (Noá Bonoba), vivendo o luto do pai (Carlos Francisco), um cineasta que está com um projeto pronto para filmar quando a morte o abraça inesperadamente.  Morte e Vida Madalena começa então com uma crise instalada. Como concluir o filme sem a presença do diretor? Para complicar tudo, Madalena está grávida de 8 meses e como produtora do projeto cinematográfico do pai precisa arrumar alguém que aceite a tarefa de dirigir o roteiro escrito por ele, uma ficção científica meio antiquada e que beira o trash .  Para início de conversa, não considero Morte e Vida Madalena das obras mais inspiradas de Guto Parente. Outros trabalhos dele me seduzem mais, em especial o extraordinário  Inferninho (2018) em codireção com Pedro Diógenes; o surpre...

GONZAGUINHA, DA MAIOR LIBERDADE (2026) Dir. Susanna Lira

Texto por Marco Fialho Tradicionalmente, o filme documentário trabalha com uma perspectiva de memória, e com isso, se abre uma janela potente tanto para se repensar o passado quanto para registrar algo no presente que se tornará memória daqui a alguns dias, meses ou anos. Gonzaguinha, da Maior Liberdade , dirigido pela cineasta Susanna Lira,   mergulha na pessoa e nas ideias de rebeldia e luta do compositor Luiz Gonzaga Jr., filho do rei do baião e um dos artistas que povoou a imaginação e desejos de milhares de pessoas nos anos 1970 e 1980, com canções que traduziam ideias de uma geração que lutou contra a ditadura militar no Brasil (1964-85).  O grande acerto de Lira é o de não tentar inventariar a história do compositor ou de suas fases artísticas. O que a diretora almeja é captar a essência de Gonzaguinha por meio de suas ideias e como as composições expressaram a sua visão de mundo. Outro mérito é o de não apelar para depoimentos de terceiros para se criar uma valorização...

NÃO EXISTE ALMOÇO GRÁTIS (2025) Dir. Marcos Nepomuceno e Pedro Charbel

Texto por Marco Fialho A primeira sequência de Não Existe Almoço Grátis cria uma ilusão de que veremos um filme poético sobre o MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto). Nela vemos uma senhora apegada em um punhado de terra, o que instaura uma dúvida no espectador acerca do porque ela estaria fazendo aquele ato. Mas o que vem depois não ultrapassa o descritivo, passamos a acompanhar a rotina de Bizza, Jurailde e Socorro, três mulheres negras da favela Sol Nascente, no Distrito Federal, que juntas fundaram um movimento de cozinha solidária.  Não Existe Almoço Grátis se passa depois da vitória de Lula em 2022 até a sua 3ª posse como presidente da república em janeiro de 2023. O dispositivo é simples, a câmera acompanha a experiência das três personagens e registra a visão delas sobre o processo de realizar a cozinha solidária, um trabalho que distribui refeições para quem tem fome ou vive em situação de vulnerabilidade. O projeto se iniciou em campanhas com doações voluntária...