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ERNEST COLE: ACHADOS E PERDIDOS (2024) Dir. Raoul Peck

Texto por Marco Fialho Raoul Peck vem se destacando por resgatar personagens significativos da história afro-americana, como o fez de maneira bastante incisiva em Eu Não Sou Seu Negro (2016), filme que partia das reflexões de James Baldwin sobre o ativismo antirracista dos grandes líderes como Martin Luther King, Malcolm X e Medgar Evers. Agora em Ernest Cole: Achados e Perdidos , o diretor centra a sua narrativa em torno do fotógrafo sul-africano Ernest Cole que se exilou na Inglaterra, Suécia, e sobretudo nos Estados Unidos, para fugir do regime violento do Apartheid na África do Sul, que assassinou, perseguiu e massacrou os negros do país. Raoul Peck divide a sua própria narração com Ernest Cole, interpretado empaticamente por meio de uma voz em  off pelo ator LaKeith Stanfield ( Corra! e Judas e o Messias Negro ). Essa narração não só é explicitada como ganha uma matiz mais acentuada lá pelo final do filme, quando já morto, Cole fala de sua morte e de como gostaria de ser visto...

SANEAMENTO BÁSICO, O FILME (2008) Dir. Jorge Furtado

Texto por Marco Fialho O relançamento de Saneamento Básico, o Filme não poderia vir numa melhor hora. Chega no ano em que que seus dois protagonistas, Fernanda Torres e Wagner Moura ganharam relevantes prêmios internacionais: Fernandinha o Globo de Ouro de melhor atriz, e Wagner Moura, a Palma de Melhor Ator em Cannes, essa recentíssima. Havia assistido ao filme lá na sua estreia em 2008 e rever agora só reafirmou a impressão de antes, de que o filme é a obra máxima do diretor e roteirista Jorge Furtado ( Ilha das Flores , O Homem Que Copiava ).   A maior mágica de Saneamento Básico, o Filme é a capacidade de mesclar numa trama francamente cômica, uma discussão central para os países tomados pela miséria, que é o eterno antagonismo entre a necessidade da cultura quando não se tem os serviços básicos de saúde. Como um país em déficit no saneamento básico pode investir alguma verba nas artes? Essa pergunta se torna um guia para o filme e o acompanha da primeira à última cen...

MÚSICAS QUE HABITAM EM MIM N° 11 - SAMURAI - DJAVAN

Texto por Marco Fialho  Ouça o disco junto com o texto: https://youtu.be/U2Ce-bMkGK8?si=wABtmHc9LZUJ-6od Quando Djavan chegou até a mim com sua voz única e aveludada, suas composições me encantaram de súbito, com seus desenhos melódicos e rítmicos sedutores. O seu veio principal ainda era o samba ( Cerrado , Flor de Lis e Fato Consumado ) e as melodias românticas ( Meu Bem-Querer , A Ilha e Faltando um Pedaço ). Todo esse repertório me arrebatou em um show que vi do então jovem compositor no Sesc Tijuca, lá no início dos anos 1980. Eu tinha meus 15 anos e morava quase ao lado do Sesc e me esforçava para não perder os shows que rolavam por lá.  Mas foi só dois anos depois, em 1982, que Djavan passou a ocupar um lugar realmente especial no meu coração musical. Eu morava então em um apartamento no Grajaú e enlouquecia os vizinhos ouvindo música altíssima de maneira para lá de empolgada. Zé Ramalho, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Thelonius Monk, Alceu Valença, Elis Regina, Gal Co...

TERREMOTO EM LISBOA (2024) Dir. Rita Nunes

Texto por Marco Fialho Terremoto em Lisboa não deixa de ser um filme curioso por acompanhar o trabalho tenso de um grupo de profissionais que acompanham os movimentos que ocorrem nas placas tectônicas no oceano próximo à Portugal, e que leva sempre apreensão que um terremoto avassalador possa ameaçar a integridade do território português, haja vista que no Século XVIII foi registrado um que destruiu boa parte do país.  Por isso, a diretora Rita Nunes constrói seu filme amparado especialmente no suspense, pois é dever desse grupo de especialistas informar ao governo as possibilidades e riscos desses fenômenos naturais, fazer com que eles sejam previstos e medidas de segurança possam ser tomadas para diminuir o número de vítimas fatais. O filme gira em torno de Marta (Sara Barros Leitão), uma sismóloga que está preocupada com uma avaria nos sensores de identificação das alterações subaquáticas.  Terremoto em Lisboa caminha desde o início como qualquer filme-catástrofe, com estud...

CONFINADO (2025) Dir. David Yarovesky

Texto por Marco Fialho Para quem gosta de clichês,  Confinado é mais do que um prato cheio, é um prato transbordante. E são tantos que se pode escolher quais o agradam mais, desde os sociais até os cinematográficos. E o diretor David Yarovesky ainda faz questão de mistura-los com fortes elementos de psicopatia, acrescendo a tudo isso um Anthony Hopkins incorporando um tipo que muito se assemelha ao seu famoso psicopata Hannibal Lecter, só que agora ele vive William, um milionário ávido em fazer vingança com as próprias mãos, ou seria mais adequado dizer com o próprio carro? Mas Anthony Hopkins aqui é um coadjuvante de luxo, inclusive é o que mais mantém a nossa atenção e interesse no filme, até quando só atua com sua voz off inconfundível. O protagonista mesmo dessa trama é Eddie (Billy Skarsgård), um jovem que se tem sérios problemas financeiros e anda devendo atenção e mais responsabilidade perante a educação da filha. Se refletirmos a obra em seu arco mais amplo, veremos que Ya...

ENTRE DOIS MUNDOS (2025) Dir. Emmanuel Carrère

Texto por Marco Fialho Marianne Winckler (interpretada pela sempre extraordinária Juliette Binoche) é uma escritora de sucesso em Paris, que decide escrever um livro sobre faxineiras e vai anonimamente para Caen, uma cidade litorânea da França, se iniciar nessa profissão para poder conhecer o cotidiano do trabalho e das trabalhadoras do ramo. Considero importante começar a falar de Entre Dois Mundos pela sinopse pois ela traz em si o dilema ético que o filme encampa. Evidente que a primeira indagação que fazemos é sobre a complicação de Marianne de viver uma vida que não é a sua enquanto outros estão ali porque não possuem outras alternativas e como o filme lida com essa situação. Dessa forma, a questão ética passa a ser também do filme que igualmente precisa lidar com a mesma situação de sua protagonista. Entre Dois Mundos expõe bastante a situação do estudo de Marianne, mas resolve não indagar muito sobre ela, apenas vai levando de acordo com a vivência da personagem, que passa por u...

O ESQUEMA FENÍCIO (2025) Dir. Wes Anderson

Texto por Marco Fialho Algumas coisas no mundo do cinema parecem não mudar. Uma delas são os filmes do norte-americano Wes Anderson ( O Grande Hotel Budapeste e o recente Asteroid City ). A rigor, sequer precisaria por o seu nome nos créditos, pois desde as primeiras imagens já somos capazes de identificar seus traços mais marcantes: a câmera que se move lateralmente, a encenação rígida, detalhista e cuidadosa na direção de arte e uma concepção orquestral dos elementos cinematográficos, com interpretações minimalistas e sóbrias, apesar do elenco ser composto por uma série de atores e atrizes famosos mundialmente.  O Esquema Fenício não foge à regra do cinema esquemático, antes irônico do que propriamente cômico de Anderson. O mais intrigante de sua mise-en-scène está justamente numa suposta comicidade que depende não da capacidade dos atores e atrizes de nos fazer rir, mas de um humor vindo da própria encenação, um tipo de humor que se esforça intencionalmente em ser cinematográfic...

EM RUMO A UMA TERRA DESCONHECIDA (2024) Dir. Mahdi Fleifel

Texto por Carmela Fialho O drama Em Rumo a Uma Terra Desconhecida , do diretor palestino Mahdi Fleifel, narra a trágica história de dois primos palestinos refugiados, Chatila (Mahmoud Bakri) e Reda (Aram Sabbah) em Atenas, cujo objetivo era conseguir passaportes falsos para ingressar na Alemanha e tornarem-se proprietários de um café. A narrativa desenvolve-se basicamente em três espaços: o parque, um prédio abandonado e o apartamento de uma grega que se torna amante de Chatila. A fotografia e a direção de arte optaram por uma abordagem realista para dar escopo a uma história do cotidiano dos marginalizados nas grandes cidades. Os primos palestinos durante a trama envolvem-se cada vez mais em atividades ilícitas como roubos, tráfico humano e sequestro. O foco central do filme são as questões de sobrevivência dos dois primos, onde Reda tem problema com vício em drogas e se prostitui para pagar um traficante que também é palestino e poeta.  A atuação dos atores principais e dos coadj...

A LENDA DE OCHI (2024) Dir. Isaiah Saxon

Texto por Marco Fialho Pode-se dizer que  A Lenda de Ochi nos faz relembrar os bons filmes de fantasia da Hollywood dos anos 1980. São obras como Labirinto (1986), Os Goonies (1985), O Feitiço de Áquila (1985) e A Lenda (1985), que tinham como proposta criar um universo lúdico, que embora próximo ao nosso de alguma forma o reinventava com seres imaginados e uma perspectiva de que o mundo poderia ser algo diferente e esperançoso.  Em A Lenda de Ochi , temos um mundo com aparência contemporânea, mas repleto de uma natureza rústica, com animais selvagens como lobos, ursos e os tais lendários Ochi (que mais parecem um tipo de primata) . Essa é uma lenda inspirada nas paisagens dos Cárpatos, região búlgara e que muito lembra aquelas histórias medievais com feras indomáveis e perigosas. O diretor Isaiah Saxon investe muito nessa atmosfera medieval, inclusive ao vestir Maxin (Wilem Dafoe), o pai da protagonista Yuri (Helena Zengel) com armaduras dos guerreiros medievais.  S...

ANIMALE (2024) Dir. Emma Benestan

Texto por Marco Fialho O cinema pode graficamente expressar metáforas sobre o mundo em que vivemos, ainda mais quando este mundo é tomado historicamente pela injustiça ou por uma violência contumaz. Animale , dirigido por Emma Benestan, é um excelente exemplo de uma obra que se utiliza de uma imagem para denunciar práticas de estupro que teimam em se proliferar pelo mundo afora. Curiosamente, o lançamento de Animale acontece na mesma data de Manas , o filme brasileiro que também narra uma história de estupro feminino. E como Animale é certeiro em narrar a história de Nejma (Oulaya Amamra), uma jovem que sonha em ser toureira em uma profissão dominada pelos homens. Desde as primeiras cenas, nota-se o preconceito por meio de brincadeiras machistas contra Nejma. A montagem é muito habilidosa ao esconder algumas informações e revelá-las no momento propício em que valorize as surpresas da trama.  A direção de Emma Benestan demonstra inteligência ao saber inserir o body horror na narrat...