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UM SILÊNCIO (2024) Dir. Joachim Lafosse

Texto por Marco Fialho Não há dúvidas que o tema da pedofilia é um dos mais importantes a serem tratados pelo cinema. O problema é que Um silêncio , dirigido por Joachim Lafosse,   torna o tema desinteressante do ponto de vista cinematográfico. O famoso "quase nada acontece aqui" é a norma do filme, e olha que o tema poderia render muitas discussões pertinentes.     Nem a presença de atores como Daniel Auteuil e Emmanuelle Devos salvam o filme de alguma forma. Ambos estão apagados, tanto fazia se ter outros atores em seus lugares. Um dos maiores problemas é Um Silêncio não ter um roteiro que realmente permita que os personagens retirem dele algo de substancial. A maneira expositiva e lenta da encenação pouco ajuda que a obra seja vista por uma ótica mais profunda. Matthieux Galoux não emplaca seu personagem ao primar por uma acentuada apatia interpretativa.  Como a história começa pelo fim, ficamos na espera que não apenas os fatos se enfileirem, como também que...

HELLBOY E O HOMEM TORTO (2024) Dir. Brian Taylor

Texto por Marco Fialho Hellboy e o Homem Torto , quarto filme da franquia Hellboy, dirigido por Brian Taylor, é uma adaptação de um HQ com o mesmo título de Mike Mignola, talvez o mais sinistro de todos realizados até agora, que parte de uma história de terror, uma mescla de filme de fantasma com de demônio.  O elemento fantástico também está bastante presente desde o início da trama, quando Hellboy, agora interpretado por Jack Kesy, e uma novata cientista da BPDP (Bureau de Pesquisa e Defesa Paranormal), Bobbie Jo Song (Adeline Rudolph) se deparam com uma estranha aranha gigante dentro de um trem numa região de florestas das Montanhas Apalaches. Essa parte do filme é bem estranha, porque há o incidente do trem e logo a seguir eles estão dentro de uma floresta se deparando com forças malignas ligadas à bruxaria. No meio dessa confusão a dupla encontra Tom Ferrell (Jefferson White), um homem órfão e enfeitiçado por um pequeno osso.  Tudo soa sinistro em Hellboy e o Homem Torto ...

STOP MAKING SENSE (1984) Dir. Jonathan Demme

Texto por Marco Fialho Para comemorar 40 anos da filmagem de Jonathan Demme do célebre show Stop Making Sense , do Taking Heads, a A24 traz para os cinemas brasileiros uma cópia restaurada do filme. Intessante como o diretor optou por praticamente não mostrar muito o público, o deixando aparecer sobretudo pelo som de alguns momentos de aplausos. Vale lembrar a importância de Talkink Heads e seu líder David Byrne para a história do pop/rock mundial, e porque não, para a própria música brasileira, já que é bem conhecido o diálogo em especial com Caetano Veloso, que resultou em um show chamado Caetano Veloso e David Byrne Live At Carnegie Hall , em 2012.   A filmagem do show Stop Making Sense , de 1984, contou com uma performance cinematográfica de Jonathan Demme igualmente engenhosa, com suas câmeras pensadas rigorosamente música a música de maneira a extrair a força e a pulsação que é inerente a este show dos Talkink Heads. Demme captura a performance perfeita da banda, dando ê...

OS FANTASMAS AINDA SE DIVERTEM: BEETLEJUICE BEETLEJUICE

Texto por Marco Fialho Em tempos de remakes e continuações, o mercado de exibição tentam resgatar novos ares por meio de uma onda de revivals , entre eles, o filme Os Fantasmas Ainda Se Divertem: Beetlejuice Beetlejuice , em que o diretor Tim Burton pouco arrisca nessa versão século 21 do clássico Os Fantasmas Se Divertem (1988). Qual seria a necessidade de trazer à baila novamente alguns personagens 36 anos depois do grande sucesso da obra original? Essa é uma pergunta pertinente e que lá no final da crítica eu vou dissertar com mais cuidado e atenção.    Por ora, voltemos ao filme. O primeiro terço dele até cria uma sensação de que algo poderia acontecer e nos surpreender, mas isso não ocorre porque vemos a massa desse bolo narrativo desandar e chegar a solar nos dois segundos terços do filme. A presença de Winona Ryder e Michael Keaton é o que mais funciona nessa continuação e o que impede o fracasso total da produção.  A direção de Tim Burton até tem seus momento...

BLACK RIO! BLACK POWER! (2024) Dir. Emilio Domingos

Texto por Marco Fialho  Em  Black Rio! Black Power! , o diretor Emilio Domingos reafirma o compromisso do seu cinema com a cultura negra periférica ao por como tema central desse documentário o papel social e cultural dos bailes black, em especial os do subúrbio carioca. Depois de  A Batalha do Passinho  (2012),  Deixa na Régua  (2016) e  Favela É Moda  (2020), agora Emilio adentra no universo dos bailes de  soul music  dos subúrbios cariocas.     A primeira cena até sugere a formação de um baile nostálgico, quando vemos desembarcar de um caminhão estacionado em frente ao Grêmio Social Esportivo Rocha Miranda, um poderoso arsenal de caixas de som. Mas logo somos dissuadidos dessa ideia inicial, já que as mesmas apenas servem para formar o fundo do cenário onde os diversos personagens vão dar os seus depoimentos ao diretor.   O que mais me impressionou em  Black Rio! Black Power! foi a força e a densidade dos dep...

OTHELO, O GRANDE (2023) Dir. Lucas H. Rossi dos Santos

Texto por Marco Fialho Em  Othelo, o Grande , há uma imagem paradigmática logo no início e ela durante a projeção retorna algumas vezes. Grande Otelo está sentado em um sofá, enquanto a câmera se aproxima de seu rosto, a sua expressão séria não se modifica. O que mais intriga nessa imagem é o fato do ator não exibir um sorriso sequer, logo essa expressão que tão bem marcou a sua carreira. O que veremos a seguir no documentário é a difícil tarefa de um ator negro, inteligente e talentoso ter que lidar com os preconceitos de uma sociedade recém saída da escravidão. A potência da primeira imagem reafirma a história de uma luta e a vitória improvável desse corpo negro que se afirma contra tudo e todos. Grande Otelo, apesar de seu um metro e meio de estatura é gigante como artista e ser humano. O que o diretor Lucas H. Rossi dos Santos propõe para Othelo, o Grande é algo especial, sobretudo pela narrativa que parte da própria voz de Grande Otelo como propulsor de sua própria história. D...

ESTÔMAGO 2 - O PODEROSO CHEF (2024) Dir. Marcos Jorge

Texto por Marco Fialho Sempre que vejo um filme anunciar uma continuação, confesso que me bate uma desconfiança. É um mero truque de mercado para aproveitar o sucesso anterior ou se trata de algo pertinente. No caso de Estômago 2 - O Poderoso Chef tudo em tão forçado e envolto em clichês, que ficamos pensando sobre a necessidade da existência dessa nova aventura. O cinema de Hollywood é pródigo nesse formato, na mina de ouro que se transformou as chamadas franquias.  Dezessete anos separam o primeiro do segundo filme e o diretor Marcos Jorge mistura personagens novos com antigos. O mote principal é a inserção de Don Caroglio (Nicola Siri), um mafioso italiano, o mais novo prisioneiro do presídio em que Raimundo Nonato (João Miguel), ou Alecrim, é o chef de cozinha que domina um ambiente em que prepara almoços diferenciados tanto para os diretores do presídio quanto para o bando comandado por Etecétera (Paulo Miklos). De imediato, se cria uma rixa e uma disputa de poder entre Etecét...

NO CÉU NÃO TEM CALDO DE CANA (2024) Dir. Daniel Ricardo

Texto por Marco Fialho Depois de assistir repetidamente  No Céu Não Tem Caldo de Cana cheguei a conclusão de que esse pequeno curta é uma atualização queer de um melodrama clássico, em que as emoções são trabalhadas em um registro quase desesperado de dor e levadas a um resultado extremo.  Como um típico melodrama, o final não é dos mais felizes, já que o filme narra fatos tristes em alguns aspectos, como a dor da perda e a dificuldade de se estabelecer uma relação duradoura nos dias de hoje. A história de mais de 40 anos de relação amorosa dos avós do protagonista é usada como um contraponto a dele própria, que se mostra sempre escorregadia e excessivamente conflituosa.  O mais intrigante é constatar que a narração é realizada por uma pessoa morta, mas que esse sentimento se coloca mais como espiritual do que algo efetivo. A morte aqui me soa em um tom mais simbólico do que real, como que o autor tivesse narrando um sentimento que morreu dentro dele. A fotografia de May...

PISQUE DUAS VEZES (2024) Dir. Zoë Kravitz

Texto por Marco Fialho A estreia da atriz e modelo Zoë Kravitz não podia ser mais bem sucedida com Pisque Duas Vezes . O filme pode ser interpretado como um terror com fortes pitadas dramáticas e teor fortemente feminista. A direção explora bem a atenção, as expectativas e os olhares do espectador, que a todo instante tenta entender o que está por trás de uma trama que não entrega de cara seus maiores trunfos.  Pode-se dizer que o elenco feminino é a grande força de Pisque Duas Vezes , encabeçado pelas atrizes Naomi Ackie (Frida), Adria Arjona (Sarah), Alia Shawkat (Jess), Geena Davis (Stacy), Liz Caribel (Camila) e uma assustadora Maria Elena Olivares (Badass Maid). Zoë Kravitz articula uma história em que a sedução da riqueza e o apreço pela aparência tem um impacto no que vemos. Quando Slater King (Channing Tatum), um bilionário, surge na trama, tudo parece perfeito, mas sua habilidade para atrair mulheres para a sua ilha é imensa, nem personagem nem público sequer desconfiam qu...

CIDADE; CAMPO (2024) Dir. Juliana Rojas

Texto por Marco Fialho Cidade; Campo , novo filme da diretora Juliana Rojas, esboça uma visão permeada por uma visão cáustica da vida contemporânea ao vislumbrar tanto a vida no campo por pessoas vindas da cidade quanto de uma pessoa vinda do campo para a cidade. Para isso, a diretora dividiu o filme em duas partes independentes para abrir uma discussão sobre o tema da vida na cidade e no campo. O título traz um curioso ponto e vírgula, como um espécie de pausa poética e que mostra uma relação contraditória de distanciamento e proximidade entre os dois universos. Com esse filme, Juliana Rojas retoma um estilo de direção mais próximo ao de Trabalhar Cansa (2011), seu primeiro longa que filmou em parceria com Marco Dutra, em que os elementos fantásticos são incorporados à narrativa sem grandes extravagâncias, em especial no uso de efeitos especiais vistos com mais ênfase em seu longa anterior,  As Boas Maneiras (2017). Cidade; Campo não deixa de ter alguns momentos de autorrefer...