Pular para o conteúdo principal

NO CÉU NÃO TEM CALDO DE CANA (2024) Dir. Daniel Ricardo



Texto por Marco Fialho

Depois de assistir repetidamente No Céu Não Tem Caldo de Cana cheguei a conclusão de que esse pequeno curta é uma atualização queer de um melodrama clássico, em que as emoções são trabalhadas em um registro quase desesperado de dor e levadas a um resultado extremo. 

Como um típico melodrama, o final não é dos mais felizes, já que o filme narra fatos tristes em alguns aspectos, como a dor da perda e a dificuldade de se estabelecer uma relação duradoura nos dias de hoje. A história de mais de 40 anos de relação amorosa dos avós do protagonista é usada como um contraponto a dele própria, que se mostra sempre escorregadia e excessivamente conflituosa. 

O mais intrigante é constatar que a narração é realizada por uma pessoa morta, mas que esse sentimento se coloca mais como espiritual do que algo efetivo. A morte aqui me soa em um tom mais simbólico do que real, como que o autor tivesse narrando um sentimento que morreu dentro dele. A fotografia de Maye, me remeteu muito as imagens do fotógrafo Christopher Doyle em Felizes Juntos (1997), de Wong Kar-Wai, ao instaurar uma tristeza com os tons verdes acinzentados, que lembra a cor dos corpos mortos. Mais do que a morte em si, é a ideia dela que ronda No Céu Não Tem Caldo de Cana, aliás, desde o próprio título. E há realmente um quê de fatalismo em cada plano filmado. A impressão que fica é que pior do que um sentimento não correspondido é a sua correspondência sem acerto de convivência. É sobre essa morte que o filme especificamente trata.

Aliás, saliento o quanto No Céu Não Tem Caldo de Cana se caracteriza como uma narrativa autocentrada, já que o diretor também atua narrando sua dor amorosa. As músicas me pareceram bastante verdadeiras, doídas e extraídas diretamente de situações vividas, assim como os filmes citados pelos personagens. A música Coração Selvagem, de Belchior, mais no início, sugere uma energia esperançosa, enquanto Eu Não Sei Dançar, entoada por Marina Lima induz à separação e a dor, ao narrar um descompasso entre duas almas que não conseguiram se harmonizar.

Gosto da relação de dubiedade que o diretor Daniel Ricardo cria com a natureza, aquele ir e vir do mar, deixa um sentimento em suspenso: a vida como uma possibilidade de recomeço ou de fim. A vida a balançar e nos arremessar para algum lugar indizível e incompreensível.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

PECADORES (2025) Dir. Ryan Coogler

Texto por Marco Fialho e Carmela Fialho O cinema negro dos Estados Unidos vem se fortalecendo mercadologicamente como nunca. Diretores como Jordan Peele ( Corra! , Nós  e Não! Não Olhe! ), Barry Jenkins ( Moonlight e Se a Rua Beale Falasse ), Ava DuVernay ( 13ª Emenda  e Selma ) e Shaka King ( Judas e o Messias Negro ), Raoul Peck ( Eu não Sou Seu Negro ). Se falarmos mais retroativamente, encontraremos Spike Lee (com os clássicos  Faça a Coisa Certa , Malcoln X , e os atuais  Infiltrado na Klan e Destacamento Blood ), Melvin Van Peebles ( Sweet Sweetback's Baadasssss Song e Posse: A Vingança de Jesse Lee ) e a força do movimento Blaxploitation dos anos 1970, e o ineditismo de Oscar Micheaux nos anos 1920 e 1930.  O fato atual é que o cinema negro não é mais reservado a um nicho. Os diretores mais recentes mostram uma penetração cada vez mais efetiva no mercado. Pecadores , mais recente filme de Ryan Coogler ( Creed e Pantera Negra ) vem comprovar isso. ...

MOSTRA CINEBH 2023

CineBH vem aí mostrando novos diretores da América Latina Texto de Marco Fialho É a primeira vez que o CineFialho irá cobrir no modo presencial a Mostra CineBH, evento organizado pela Universo Produção. Também, por coincidência é a primeira vez que a mostra terá inserido um formato competitivo. Nessa matéria falaremos um pouco da programação da mostra, de como a curadoria coordenada pelo experiente Cleber Eduardo, montou a grade final extensa com 93 filmes a serem exibidos em 8 espaços de Belo Horizonte, em apenas 6 dias (26 de setembro a 1º de outubro). O que atraiu o CineFialho a encarar essa cobertura foi o ineditismo da grande maioria dos filmes e a oportunidade mais do rara, única mesmo, de conhecer uma produção independente realizada em países da América Latina como Chile, Colômbia, México, Peru, Paraguai, Cuba e Argentina, sem esquecer lógico do Brasil.  Lemos com atenção toda a programação ofertada e vamos para BH cientes da responsabilidade de que vamos assistir a obras di...