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SHOWING UP (2022) Dir. Kelly Reichardt

A beleza no minimalismo de Kelly Reichardt Texto de Marco Fialho "Showing Up", dirigido pela diretora Kelly Reichardt, que vem se destacando como uma das diretoras mais interessantes do século XXI, é mais uma mostra do seu talento para narrar pequenas histórias que transformam personagens comuns em pessoas especiais. Para isso, Kelly filma na pequena cidade de Portland, Oregon, um drama de uma artista chamada Lizzy (Michelle Williams) na tentativa de dar um salto em sua carreira como escultora.  A diretora Kelly Reichardt mostra muita habilidade em explorar o cotidiano de Lizzy, conseguindo juntar toques de leveza e crueldade na trama. Esse equilíbrio narrativo é surpreendente e nos faz pensar muito no formato crônica como instrumento de narração, o de misturar uma descrição da vida rotineira de um personagem com pitadas ficcionais, o que provoca no espectador uma dupla sensação: a de realidade e a de mistério, pois algo mágico emerge daquela história ao mesmo tempo corriquei...

FALE COMIGO (2022) Dir. Danny e Michel Philippou

Quando os mortos comandam os vivos Texto de Marco Fialho Começo este texto refletindo sobre a crescente quantidade de filmes de terror que está tomando conta do circuito exibidor das salas de cinema. No meio de tantas produções é natural que o resultado na maioria das vezes seja a de filmes irregulares e sem consistência. Fica a pergunta: esse movimento ascendente do terror nas telas tem muito a ver com um contínuo exibir de filmes desse gênero? Nesse momento em que a quantidade predomina sobre o qualitativo, me vem um pensamento o que este fato diz à luz de uma análise cultural de uma determinada sociedade. O que levaria o despertar desse interesse por filmes em que o objetivo é fazer o público sentir medo?  "Fale comigo" é mais um filme de terror lançado pela prestigiada produtora A24 que vem a solidificar essa tendência do mercado atual. Mas será mesmo o trabalho mais expressivo exibido em 2023 a buscar caminhos diferentes em um terreno já um tanto pisado por obras anterio...

WIÑAYPACHA (2017) Dir. Óscar Catacora

A difícil tarefa de viver e morrer    Texto de Marco Fialho É muito bonito quando o cinema consegue captar uma determinada cultura que é totalmente alheia a das grandes, médias e até pequenas cidades. "Wiñaypacha" é um ótimo exemplo de um filme que adentra uma cultura inóspita de uma aldeia situada nos Andes peruano, em que os personagens falam a língua nativa aimará ao invés do castelhano, uma das etnias ameaçadas de extinção pelo violento processo de globalização, que destrói as famílias tradicionais. A história retrata o idoso e solitário casal Willka (Vicente Catacora) e Phaxsi (Rosa Nina), que tenta sobreviver a uma exaustiva rotina de trabalho diário, enquanto esperam uma improvável volta de um filho que saiu de casa.  Esse é um filme para se apreciar em sua contemplação. A história é narrada com a câmera fixa e planos longos, aqui o tempo parece imóvel nas grandes altitudes dos Andes. O casal não tem vizinhos, e de certa forma, vivem isolados de tudo e de todos, ap...

MEMÓRIAS DO CÁRCERE (1984) Dir. Nelson Pereira dos Santos

Resistir é preciso Texto de Marco Fialho "Memórias do cárcere" deve ser, dentre os filmes muito comentados do nosso cinema, um dos menos vistos pelo público. Talvez suas mais de três horas de duração colabore para isso, afinal, é difícil enquadrar o filme em uma grade programática de exibição. Até os lançamentos em mídias físicas, não foi um filme muito comercializado, lembro apenas de uma cópia especial do IMS (Instituto Moreira Salles). Nos streamings, mais recentemente ficou disponível para assinantes Globo Play e nada mais. Mas "Memórias do cárcere" é um Nelson Pereira dos Santos inspirado, apaixonado pelo personagem de Graciliano Ramos, pela sua luta e coerência de princípios. A interpretação de Carlos Vereza é impecável, contida, mas profunda. Nota-se uma direção de atores muito cuidadosa, com Nelson construindo muito bem os personagens coadjuvantes, a começar pela esposa Heloísa, vivida por uma Glória Pires no começo da carreira, aos vinte anos de idade, mas ...

BYE BYE BRASIL (1979) Dir. Cacá Diegues

O dia em que Chico Buarque e Cacá Diegues reescreveram a Aquarela de Ary Barroso   Texto de Marco Fialho "Bye Bye Brasil", dirigido por Cacá Diegues, é ao mesmo tempo um clássico e uma obra-prima do nosso cinema. Ele marca tanto as consequências de uma época que chamamos de "Milagre Econômico" (1968-73) quanto de um cinema pós-tropicalista, que compreende mais ou menos o mesmo período do milagre econômico. O filme pode ser visto como uma zombaria disso tudo, mas também como uma tentativa de analisar criticamente a complexa cultura brasileira, com a invasão cultural estrangeira em larga escala e da televisão como importante veículo de comunicação nacional, além de salientar as profundas desigualdades sociais existentes historicamente no Brasil.  A caravana Rolidei é comandada por Lord Cigano (José Wilker), um misto de empreendedor, artista popular e cafetão, e Salomé (Betty Faria), que por sua vez é um somatório de cantora, dançarina e prostituta. Eles viajam o país ...

DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS (1976) Dir. Bruno Barreto

Quando o público tinha um encontro marcado com o nosso cinema Texto de Marco Fialho O ano é 2023, o filme, "Dona Flor e seus Dois Maridos", de 1976, em 35mm. O impacto temporal é  imenso, mas o emocional é maior. Depois de quase 50 anos, é natural que a obra fale muito sobre um mundo bastante diferente do nosso, mas o encanto está lá reluzente a nos seduzir. O diretor Bruno Barreto realizou um filme que ainda hoje é uma das maiores bilheterias do cinema brasileiro, com quase 11 milhões de espectadores, ultrapassado recentemente em valores absolutos por "Minha mãe é uma peça 3" (2019) "Tropa de Elite 2" (2010).  A primeira impressão que se pode tirar de "Dona Flor e seus Dois Maridos" é de seu frescor narrativo, do quanto prazeroso esse filme se revela aos nossos olhos e corpos. E os motivos são vários. Primeiro, a história cativante de Jorge Amado, temperado por uma brasilidade baiana sedutora. Segundo, pelos protagonistas maravilhosos escalados:...

RETRATOS FANTASMAS (2023) Dir. Kleber Mendonça Filho

Tudo que é sólido se desmancha no ar Texto de Marco Fialho "De certa forma, o passado é muito mais real, ou enfim, mais estável, mais resiliente que o presente. O presente escorrega e some como areia entre os dedos, adquirindo peso material apenas em sua lembrança."                           Andrei Tarkóvski "Retratos fantasmas" é um filme-poema que envolve muitas camadas a serem consideradas. Kleber Mendonça Filho realiza um filme delicado, tocante e fundamentalmente muito pessoal. Há um risco eminente quando o diretor se emaranha de tal forma à narrativa e à própria trama, mas Kleber, de maneira comovente, se sai muito bem quando resvala em um humor fino, elegante e inteligente. Não vale muito comparar esse filme com os que vieram antes, talvez só na perspectiva de que muitos fatos presentes em seus trabalhos partiram de alguma referência concreta, em especial, o apartamento de Setúbal.    Desde a primeira...

PARA ONDE VOAM AS FEITICEIRAS (2020) Dir. Eliane Caffé, Carla Caffé e Beto Amaral

A performance como estratégia de resistência e diálogo Texto de Marco Fialho "Para onde voam as feiticeiras" é o novo e instigante trabalho da premiada diretora paulista Eliane Caffé, que desta vez divide a direção com a irmã Carla Caffé e Beto Amaral. O filme transita entre o documentário e a performance ao reunir a voz de sete artistas engajados em coletivos LGBTQIA+, pretos, indígenas e sem teto, que ocupam um pequeno espaço de uma rua do Centro de São Paulo para criar performances provocadoras em relação aos transeuntes. A todo instante, tanto a cidade quanto a equipe do filme se colocam como personagem, aparecendo em diversas cenas. A equipe sistematicamente pode ser vista ora segurando a câmera ora o boom do som, assim como os diretores são flagrados constantemente em conversas com os personagens, assim como a própria população, que vai passando e se surpreendendo e reagindo. Esse efeito surpresa, das pessoas passarem e serem pegas desprevenidas com aquela ocupação públ...

EAMI (2023) Dir. Paz Encina

A poesia da floresta e do mundo por Paz Encina      Texto de Marco Fialho Tem cinema que para existir precisa redefinir o que comumente se entende ou se espera por cinema, é o caso dos filmes da realizadora paraguaia Paz Encina. Seu novo trabalho, "EAMI" (na língua do povo Ayoreo que dizer floresta e mundo), se constrói a partir de uma busca por uma linguagem que expresse seu objeto, aqui no caso, a cultura ancestral dos povos indígenas que vivem isolados na região do chaco paraguaio. A diretora abre mão dos diálogos ao preferir incorporar à narrativa a voz over desses personagens perseguidos por um sistema opressor e desigual, mas reparem como a voz monocórdica da narração remete a uma canção de ninar, daquelas que ficam na memória pela musicalidade marcante e insistente. O filme recebeu a láurea máxima no prestigiado Festival de Cinema de Roterdã. "EAMI" é todo falado na língua dos Ayoreo, que chega aos nossos ouvidos como música, através de vozes em off oriundas ...

ELA MORA LOGO ALI (2022) Dir. Fabiano Barros e Rafael Rogante

O poder da cultura e do livro Texto de Marco Fialho Tem filmes que transbordam emoção pelas bordas da tela de cinema e por isso são inspiradores. "Ela mora logo ali" representa exemplarmente esse sentimento. O filme da dupla Fabiano Barros e Rafael Rogante é um achado por extrair uma história das águas profundas e límpidas de Porto Velho (RO). A protagonista é uma mulher preta, analfabeta (Agrael de Jesus) e que vende banana frita nos sinais para alimentar a irmã e o filho com deficiência. A força e a potência dessa personagem são evidentes desde as primeiras imagens e como é importante ver a região norte na tela e produzida igualmente por eles, que conhecem as dores e as alegrias desse lugar.  "Ela mora logo ali" possui diversas camadas que fazem dele algo realmente mágico. São muitas representatividades juntas: da mulher preta, da mãe atípica, da mãe dedicada, da mãe pobre, analfabeta e sobretudo lutadora, a da importância da leitura para a transformação social, d...