Pular para o conteúdo principal

Postagens

CERTO AGORA, ERRADO ANTES (2015) Direção Hong Sang-soo

Sinopse Por engano, Ham Cheon-soo (Jae-yeong Jeong) chega à cidade coreana de Suwon um dia antes do previsto. Para passar o tempo, ele vai até um antigo palácio, onde encontra uma artista chamada Yoon Hee-jeong (Kim Min-Hee). Juntos, eles vão até a loja de Yoon para admirar suas pinturas, comer sushi e se conhecerem. Em seguida, eles vão para um bar encontrar com amigos de Yoon. Ao ser perguntado se é casado, Cheon-soo admite que sim e decepciona a artista. Um Sang-soo explícito “Certo Agora, Errado Antes” é mais um filme metalinguístico de Sang-soo. Talvez seja nessa obra que essa característica tão comum em seus filmes apareça de maneira mais visível. Provavelmente pelo fato do protagonista ser um cineasta, mas também porque a própria narrativa proposta assim favorece essa proposta, já que aqui temos uma mesma história sendo contado duas vezes, mas com algumas nuances de diferença. Um registro importante é a presença no filme de Kim Min-hee, pela primeira vez sendo dirigida por Sang-...

MÃES PARALELAS (2021) Direção de Pedro Almodóvar

Viver a dor é também renascer Texto de Marco Fialho Alguns podem ter ficado surpresos com a pitada política de "Mães Paralelas", o mais recente trabalho de Pedro Almodóvar. Vale ressaltar que talvez seja mais acertado falar referência histórica ao invés de pitada política. Sim, esse viés não é tão comum aos filmes desse tão importante cineasta madrilenho. Se "Mães paralelas" discute origem é bom aqui lembrarmos da origem artística de Almodóvar, pois talvez possa ajudar no diálogo com essa obra que certamente ficará marcada na carreira dele.   É de bom tom, e talvez até necessário, regredirmos à época da ditadura fascista do General Franco (1936-1975) para poder refletir e relacionar Almodóvar com esse determinante fato histórico, crucial para a vida cultural espanhola do Século XX. Dá para medir a força política dessa ditadura que  sobreviveu a uma forte oposição (bom lembrar da Guerra Civil espanhola - 1936/39) e a ter conseguido ficar de pé até com o fim fascismo ...

COW (2021) Direção de Andrea Arnold

O que revela o olhar de Luma? Texto de Marco Fialho  Filmes que possuem animais como protagonistas não são tão raros assim. Tanto no documentário quanto na ficção os exemplos são diversos ("Cavalo de guerra" (2011), "Beethoven" (1992), "Professor Polvo" (2020), para citar alguns). Mas quando assistimos a "Cow", dirigido por Andrea Arnold, notamos de cara que ali temos algo de especial, que algo nos prende ali naquela história. O que seria esse imã a fixar nossa atenção cada vez mais na vida corriqueira de Luma, uma vaca aparentemente como outra qualquer? O nome desse imã é cinema, a capacidade que esse aparato tem para nos fisgar para qualquer acontecimento quando seus instrumentos são utilizados com a destreza adequada, que é o caso exemplar de "Cow". Cabe salientar que Andrea Arnold escolhe narrar a história de Luma como não-ficção, apesar de não abrir mão de estratégias ficcionais clássicas, como a da identificação. Pelo fato da dire...

ATAQUE DOS CÃES (2021) Direção de Jane Campion

Sinopse: Phil (Benedict Cumberbatch), um fazendeiro durão trava uma guerra de ameaças contra a nova esposa (Kirsten Dunst) do irmão (Jesse Plemons) e seu filho adolescente (Kodi Smit-McPhee) - até que antigos segredos vêm à tona.  A sutileza como estratégia para revelar o cão Texto de Marco Fialho Em 1993, a diretora neozelandesa Jane Campion ganhou o mundo do cinema com o belíssimo "O piano". De desconhecida tornou-se uma referência como cineasta. O reconhecimento por "O piano" possibilitou a chegada de sua obra anterior, o potente "Um anjo em minha mesa" (1990), uma obra fortíssima que ratificou a importância de Campion como artista. O trabalho mais recente dela, "Ataque dos Cães" traz o selo da poderosa plataforma Netflix, onde foi produzido e está sendo distribuído, e com uma repercussão surpreendente, obtendo um sucesso arrebatador. O filme foi adaptado por Campion a partir do livro homônimo de Thomas Savage. De certa maneira, "Ataque d...

NA IDADE DA INOCÊNCIA (1976) Direção de François Truffaut

A crônica de uma França antiquada Por Marco Fialho Em seu primeiro longa, “Os incompreendidos” (1959), François Truffaut abordou o tema do final da infância e entrada na adolescência, em especial dentro do universo escolar e em reformatórios, com visíveis tintas autobiográficas. Dezessete anos depois, em 1976, com “Na idade da inocência”, o cineasta francês retornaria parcialmente ao tema, mas dessa vez expandindo mais a pluralidade de personagens juvenis e adultos, centrando sua atenção mais no cotidiano de uma pequena cidade francesa chamada Thiers. A narrativa escolhida por Truffaut muito se assemelha a de um cronista social. Esse perfil de crônica do filme lhe confere uma leveza impressionante, que também pode ser visto em outra obra sua, “O homem que amava as mulheres”. O que Truffaut realiza cena a cena é um painel vigoroso de uma França antiquada em permanente conflito com uma visão de modernização americanizada e fútil, sem consistência, apesar de apelativa. O sonho das férias...

TITANE (2021) Direção Julia Ducournau

Sinopse: Após sofrer um acidente de carro, Alexia precisa implantar uma placa de titânio na cabeça. Em recuperação, ela evita seus pais em favor do carro. Já adulta, Alexia ainda está apaixonada por carros e atua como  showgirl  sensual em um salão de automóveis, exibindo a cicatriz na cabeça e uma tatuagem profana no peito. Simultaneamente, ocorre uma série de crimes inexplicáveis enquanto um pai reencontra o filho que estava desaparecido há 10 anos. Titane a a toxidade ambígua no filme e do filme Texto de Marco Fialho Desde a exibição no Festival de Cannes, onde foi agraciado pelo júri oficial com a Palma de Ouro, que Titane  vem despertando sentimentos antagônicos, uns odeiam, outros amam. Como assisti ao filme somente agora, algumas semanas depois do lançamento na Plataforma MUBI, pude observá-lo também tentando entender o porquê o filme suscitou tamanhas reações tão díspares.  Se  Titane não me encantou (bem longe disso), tão pouco me acendeu uma ojeriza in...

BEM-VINDOS DE NOVO (2021) Direção de Marcos Yoshi

Um documento entre o íntimo e o histórico Os filmes realizados a partir das experiências familiares dos próprios diretores, onde eles fazem a narração em primeira pessoa,  já podem ser classificados como um subgênero do documentário. Apesar deles terem se proliferado, poucos realmente se sobressaíram para além de registros pessoais e muitas vezes dos seus umbigos. Talvez o mais emblemático aqui no Brasil seja o envolvente "Elena" (2012), da Petra Costa, que suscitou uma avalanche de obras que se ali se inspiraram posteriormente. O risco de levar esses projetos autorreferentes a frente são imensos, afinal, se todos os filmes carregam uma grande carga de subjetividade, imagina um baseado no registro cotidiano de sua família. Outro risco está na montagem desses filmes devido ao farto material proveniente da facilidade de estar perto do objeto filmado, ainda mais agora na era digital. Na 25ª Mostra de Cinema de Tiradentes eis que surge o documentário "Bem-vindos de novo...

SEGUINDO TODOS OS PROTOCOLOS (2021) Direção de Fábio Leal

O corpo como janela do existir Texto de Marco Fialho A Mostra de Cinema de Tiradentes se consagrou por apresentar filmes que buscam alguma dose de risco (mesmo se em algumas horas os próprios curadores queiram desfazer essa imagem já formada), um cinema que esbarra em fronteiras, tanto as de linguagem como as físicas (geográficas, geracionais, de pensamento ou de corpo), basta conferir o compêndio selecionado pelos curadores que exibe 26 longas escolhidos como representativos dos 25 anos desse evento, que tradicionalmente abre o circuito de festivais de cinema no Brasil. É nesse viés que se assiste a Tiradentes para testar os mais variados limites e para se ter algum momento de descoberta, e até de autodescoberta. Até o momento, o filme que mais chegou a esse ponto de clivagem foi "Seguindo todos os protocolos", do diretor pernambucano Fábio Leal (Reforma).  Pelo título já se pode supor que o filme de Leal aborda, ou pelo menos, é perpassado pelo tema da pandemia, mas evident...

"O PROCESSO", "DOM QUIXOTE" e "SOBERBA"

Welles e a literatura como indício cinematográfico Texto de Marco Fialho "Eu baderneiro, me tornei cavaleiro malandramente, pelos caminhos. Meu companheiro, está armado até os dentes já não há mais moinhos como os de antigamente"* * trecho da letra da música "O cavaleiro e os moinhos" de João Bosco com letra de Aldir Blanc A literatura marcou a vida de Orson Welles, portanto não foi casual o fato de muitos de seus projetos se apoiarem em adaptações literárias. Também não deve ser considerado desprezível que Welles, antes de Francis Ford Coppola, tenha cogitado filmar "O coração da selva", de Joseph Conrad, para ser seu primeiro filme quando assinou contrato com a grande produtora RKO. Aqui analisaremos especificamente três adaptações literárias realizadas por Welles: "Soberba" (1942), "O processo" (1962) e o polêmico "Don Quixote" (1992), montado por Jess Franco após a morte de Welles. Os três filmes apresentam histórias e tra...

"MACBETH" (1948) "OTHELLO" (1952) e "FALSTAFF" (1965)

W(elles) Shakespeare Texto de Marco Fialho Não se pode dissociar a imagem artística de Orson Welles de William Shakespeare, tão profunda foi a influência exercida pelo dramaturgo inglês na formação humana e artística do cineasta norte-americano, em especial o gosto pela ascensão e decadência de uma grande figura, seja um empresário, um rei ou um general.  Nas incursões de Welles pelo teatro, Shakespeare era um habitué. Já no cinema, Orson Welles realizou três filmes baseados nas peças do ilustre bardo inglês: "Othello", "Falstaff" e "Macbeth". Estilisticamente, "Falstaff" se diferencia bastante de "Othello" e "Macbeth", pois se caracteriza como uma comédia burlesca, já as outras duas obras como dramas com pinceladas expressionistas ditadas por uma fotografia marcadamente contrastada e por uma atuação sinistra de Welles na pele de Macbeth e outra atordoada como Othello, ambas impressionantes, a acentuar a tragédia shakespearian...