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COW (2021) Direção de Andrea Arnold


O que revela o olhar de Luma?

Texto de Marco Fialho 

Filmes que possuem animais como protagonistas não são tão raros assim. Tanto no documentário quanto na ficção os exemplos são diversos ("Cavalo de guerra" (2011), "Beethoven" (1992), "Professor Polvo" (2020), para citar alguns). Mas quando assistimos a "Cow", dirigido por Andrea Arnold, notamos de cara que ali temos algo de especial, que algo nos prende ali naquela história. O que seria esse imã a fixar nossa atenção cada vez mais na vida corriqueira de Luma, uma vaca aparentemente como outra qualquer? O nome desse imã é cinema, a capacidade que esse aparato tem para nos fisgar para qualquer acontecimento quando seus instrumentos são utilizados com a destreza adequada, que é o caso exemplar de "Cow".

Cabe salientar que Andrea Arnold escolhe narrar a história de Luma como não-ficção, apesar de não abrir mão de estratégias ficcionais clássicas, como a da identificação. Pelo fato da diretora acompanhar sistematicamente a rotina de Luma, em um primeiro momento poderia se deduzir que o método escolhido para a narrativa seria o observacional. Porém, deve-se lembrar que esse método sistematizado pelo cinema direto norte-americano normalmente escolhe um enquadramento fixo e tenta intervir o mínimo possível na história que está transcorrendo na frente da câmera, ou câmeras se for o caso. Em "Cow" isso não ocorre, o dispositivo é outro. Andrea cola a câmera em Luma e a persegue absurdamente, com o intuito claro de criar uma identificação entre Luma e nós espectadores. A câmera, o artifício, torna-se também um personagem nessa história, ainda mais que ela é conduzida na mão, o que lhe confere uma grande liberdade de ação. Inclusive frequentemente Luma está a demonstrar o incômodo com a presença de uma câmera invasiva ao seu espaço, chegando até a agredir o equipamento de filmagem com cabeçadas propositais. 


A grande dificuldade de realizar um documentário como "Cow" é criar uma narrativa que faça sentido após a montagem. E o desafio de Andrea Arnold é imenso, porque ela abdica da voz over para narrar a sua experiência cinematográfica, deixando que tão somente a imagem e os sons capturados no ato da filmagem prevaleça. A um quê de organização temporal, pois Andrea está atenta a um ciclo que é crucial para o desfecho de sua narrativa. Se não há propriamente o ponto de vista de Luma (já que ela não está a narrar ou conduzir a cena), há um franco protagonismo dela e um acompanhamento de sua rotina. Nesse aspecto Andrea mostra-se perspicaz, pois quando opta por aproximar a câmera em demasia, espertamente aproxima o público também. Qual a vantagem disso para a narrativa? Além de tornar Luma protagonista esse método a transforma em indivíduo, a destacando do todo, que a princípio é bem homogêneo. Ao elegê-la personagem Andrea faz com que possamos ter empatia pela vaca, a torcer por ela e a sofrer com ela. Se do ponto de vista objetivo todas as vacas são iguais perante à empresa leiteira, e possuem a mesma triste trajetória (são criadas no mesmo local e para a mesma utilidade). O ato de individualizá-las, narrativamente falando, confere a elas uma dignidade que objetivamente elas não usufruem na vida. Por mais que a posição social delas permaneça inalterada pela filmagem, a construção cinematográfica proposta por Andrea Arnold interfere no que pode, ao nos fazer ver esses seres sob um outro ponto de vista, que não é mais o utilitário e sim o de seres vivos com sentimentos, que possuem subjetividade. 

Como as vacas são muito parecidas Andrea usa de artifícios eficientes para que sempre identifiquemos Luma no meio da multidão de vacas. A diretora nos condiciona a saber que Luma é marcada na traseira com a numeração 1129 (um número como nós também somos registrados). Assim, toda a vez que Luma aparece enquadrada de trás sabemos que é a ela que estamos acompanhando. Mas o que exatamente acompanhamos? Nada mais nada menos que a "rotina de trabalho" de uma vaca leiteira como Luma. O que impressiona na câmera intensa de Andrea Arnold é a busca insistente pelo olhar de Luma, o quanto ela tenta adentrar nos sentimentos dela, em especial quando suas crias são afastadas, quando tiram dela o direito à maternidade. Será que um cineasta homem conseguiria atentar para esse precioso detalhe, com a mesma abnegação de Andrea? Essas sutilezas são fundamentais para observarmos o quanto de camada pode ser acrescida pelo fato de ser uma cineasta, e mais ainda o quanto é importante uma maior pluralidade de olhares no cinema.


O que ao final ficamos nos perguntando é se as vacas são todas mesmo iguais. Ao aproximar a câmera de Luma sentimos individualmente o que sempre vemos genericamente. A câmera está ali a exibir cada sensação e reação de Luma frente a rotina que lhe é impingida. Muitas vezes nós humanos somos chamados de gado e essa aproximação da câmera em Luma nos faz refletir se estamos tão distantes assim dela quanto pensamos. Mas o que nos faz pensar e dizer isso? Para responder isso, temos que expandir a reflexão para além do cinema e nos ver, assim como Luma, como parte integrante de um sistema econômico que nos esmaga e descarta tanto quanto a Luma. 

O que "Cow" nos revela é algo bem cruel, pois afinal, para o sistema submeter animais à crueldade é mais aceitável do que a humanos. Porém, tudo é bem mais do que isso. Mais do que Luma, o que vemos ali é um processo, um ciclo opressor abusivo que coloca a produtividade, leia-se o lucro, acima da vida, uma engrenagem na qual todos os seres vivos que não controlam os meios de produção estão hoje submetidos. "Cow" descortina esse mundo da vida descartável. O cinema de "Cow" nos faz avistar isso ao mostrar o ciclo miserável de uma vaca operária. E com isso, o que Andrea faz é aproximar Luma de nós mesmos. Luma somos nós inseridos em um mundo onde a ganância dá as cartas, não importando que o objeto da exploração seja uma vaca, um outro animal ou nós seres humanos.  

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