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BEM-VINDOS DE NOVO (2021) Direção de Marcos Yoshi

Um documento entre o íntimo e o histórico Os filmes realizados a partir das experiências familiares dos próprios diretores, onde eles fazem a narração em primeira pessoa,  já podem ser classificados como um subgênero do documentário. Apesar deles terem se proliferado, poucos realmente se sobressaíram para além de registros pessoais e muitas vezes dos seus umbigos. Talvez o mais emblemático aqui no Brasil seja o envolvente "Elena" (2012), da Petra Costa, que suscitou uma avalanche de obras que se ali se inspiraram posteriormente. O risco de levar esses projetos autorreferentes a frente são imensos, afinal, se todos os filmes carregam uma grande carga de subjetividade, imagina um baseado no registro cotidiano de sua família. Outro risco está na montagem desses filmes devido ao farto material proveniente da facilidade de estar perto do objeto filmado, ainda mais agora na era digital. Na 25ª Mostra de Cinema de Tiradentes eis que surge o documentário "Bem-vindos de novo...

SEGUINDO TODOS OS PROTOCOLOS (2021) Direção de Fábio Leal

O corpo como janela do existir Texto de Marco Fialho A Mostra de Cinema de Tiradentes se consagrou por apresentar filmes que buscam alguma dose de risco (mesmo se em algumas horas os próprios curadores queiram desfazer essa imagem já formada), um cinema que esbarra em fronteiras, tanto as de linguagem como as físicas (geográficas, geracionais, de pensamento ou de corpo), basta conferir o compêndio selecionado pelos curadores que exibe 26 longas escolhidos como representativos dos 25 anos desse evento, que tradicionalmente abre o circuito de festivais de cinema no Brasil. É nesse viés que se assiste a Tiradentes para testar os mais variados limites e para se ter algum momento de descoberta, e até de autodescoberta. Até o momento, o filme que mais chegou a esse ponto de clivagem foi "Seguindo todos os protocolos", do diretor pernambucano Fábio Leal (Reforma).  Pelo título já se pode supor que o filme de Leal aborda, ou pelo menos, é perpassado pelo tema da pandemia, mas evident...

"O PROCESSO", "DOM QUIXOTE" e "SOBERBA"

Welles e a literatura como indício cinematográfico Texto de Marco Fialho "Eu baderneiro, me tornei cavaleiro malandramente, pelos caminhos. Meu companheiro, está armado até os dentes já não há mais moinhos como os de antigamente"* * trecho da letra da música "O cavaleiro e os moinhos" de João Bosco com letra de Aldir Blanc A literatura marcou a vida de Orson Welles, portanto não foi casual o fato de muitos de seus projetos se apoiarem em adaptações literárias. Também não deve ser considerado desprezível que Welles, antes de Francis Ford Coppola, tenha cogitado filmar "O coração da selva", de Joseph Conrad, para ser seu primeiro filme quando assinou contrato com a grande produtora RKO. Aqui analisaremos especificamente três adaptações literárias realizadas por Welles: "Soberba" (1942), "O processo" (1962) e o polêmico "Don Quixote" (1992), montado por Jess Franco após a morte de Welles. Os três filmes apresentam histórias e tra...

"MACBETH" (1948) "OTHELLO" (1952) e "FALSTAFF" (1965)

W(elles) Shakespeare Texto de Marco Fialho Não se pode dissociar a imagem artística de Orson Welles de William Shakespeare, tão profunda foi a influência exercida pelo dramaturgo inglês na formação humana e artística do cineasta norte-americano, em especial o gosto pela ascensão e decadência de uma grande figura, seja um empresário, um rei ou um general.  Nas incursões de Welles pelo teatro, Shakespeare era um habitué. Já no cinema, Orson Welles realizou três filmes baseados nas peças do ilustre bardo inglês: "Othello", "Falstaff" e "Macbeth". Estilisticamente, "Falstaff" se diferencia bastante de "Othello" e "Macbeth", pois se caracteriza como uma comédia burlesca, já as outras duas obras como dramas com pinceladas expressionistas ditadas por uma fotografia marcadamente contrastada e por uma atuação sinistra de Welles na pele de Macbeth e outra atordoada como Othello, ambas impressionantes, a acentuar a tragédia shakespearian...

"A MARCA DA MALDADE", "A DAMA DE SHANGHAI" e "O ESTRANHO"

Welles e o  noir   Texto de Marco Fialho A ousadia criativa de Orson Welles sempre esteve estampada nos filmes que realizou. Como diretor demonstrou muita versatilidade transitando por estilos e gêneros cinematográficos, mas sempre tendo o expressionismo como uma das referências mais visíveis. O noir se caracterizou inicialmente por subgênero do policial no cinema norte-americano em uma época em que os cineastas e técnicos da indústria cinematográfica (fotógrafos, cenógrafos, etc) europeia inundaram a América em franca fuga do regime nazista. O encantamento de Welles pelo cinema noir entrecortou a carreira e obras, em especial por uma atração pelas sombras intrínsecas ao estilo noir que fascinavam Welles . O que mais aproximou Welles do noir  foi o apreço pela investigação calcada nos pequenos poderes, de como eles são exercidos e vivenciados em um universo muito próximo ao submundo. Nessa vertente noir vamos discorrer sobre três obras específicas ("A marca da maldade", ...

CIDADÃO KANE (1941), COM SOMBRAS DE "GRILHÕES DO PASSADO OU MR. ARKADIN" (1955) e "VERDADES E MENTIRAS OU F FOR FAKE" (1973) Direção Orson Welles

Verdades e mentiras de Welles Texto de Marco Fialho Verdades e mentiras talvez sejam temas presentes em quase todos os filmes de Orson Welles, mas destacamos três deles - "Cidadão Kane", "Grilhões do passado" e "Verdades e mentiras" - como os mais expressivos desse viés tão característico de sua obra. Para Welles havia uma inter-relação entre a verdade e a mentira, duas faces de uma mesma moeda que funcionou como um ardil irônico, e constitutivo, de sua concepção cinematográfica e no qual vamos tecer algumas considerações.  Como bem descobriu o francês George Méliès lá nos primórdios, o ilusionismo é a base do cinema, na sua genética encontra-se o DNA da arte de criar ilusões por meio de truques e artifícios, assim a consciência do ilusionismo como elemento intrínseco ao cinema tornou-se a chave para penetrar na obra de Welles. A escolha do cinema como meio de expressão de Welles não foi aleatória, baseou-se na constatação de que o cinema era a linguagem a...

O SACRIFÍCIO (1986) Direção de Andrei Tarkovski

Sinopse: Família burguesa sueca celebra o aniversário do patriarca Alexander, escritor e ator aposentado. Porém, tudo muda com a notícia do início da III Guerra Mundial. Uma carta para abrir depois que o mundo acabar Texto de Marco Fialho "A minha provocação sobre adiar o fim do mundo é exatamente sempre poder contar mais uma história. Se pudermos fazer isso, estaremos adiando o fim"                                                                Airton Krenak "O Sacrifício" é a obra crepuscular de Andrei Tarkovski, apesar de ser apenas o sétimo longa do diretor russo, que viria a falecer em 29 de dezembro de 1986, aos 54 anos. Nesse filme, observa-se a preocupação do diretor em deixar para a humanidade um testamento, algo para ser lido como o sacrifício que cada ser humano deveria fazer para salvar o mundo de uma hecatombe, aqui ...

TREM DO SOUL (2021) Direção de Clementino Junior

A vitalidade do soul brasileiro Texto de Marco Fialho Depois de perder a exibição de "Trem do Soul" em alguns festivais de cinema, enfim consegui assisti-lo no Mirada Cine Fest, mesmo que com um pouco atraso. O filme cumpre uma das vertentes fundamentais do gênero documental, que é a de resgatar aspectos sociais e históricos que marcaram uma certa época. Sabemos que o tempo e os modismos são implacáveis com determinados acontecimentos do passado. Por isso "Trem do Soul" se faz presente e onipresente ao trazer à baila um tema caro à vida carioca, e mais que tudo, da vida suburbana. Esse é um dos acertos do filme: localizá-lo em seu território mais rico e fértil, o da periferia e da Baixada Fluminense. Logo na primeira cena ouvimos o som do trem, para logo a seguir assistir imagens tipicamente suburbanas, das esquinas e de pessoas transitando na estação de Rocha Miranda. São 50 anos de história do soul brasileiro registrados em quase 1 hora e meia de filme.     Mas f...

STALKER (1979) Direção de Andrei Tarkovski

Sinopse: Em um futuro indefinido, um guia (stalker) conduz dois homens conhecidos como Escritor e Professor a uma área proibida, lacrada pelo governo, a "zona". Dentro dela há uma usina desativada onde existe um aposento que possui a propriedade de realizar os desejos de quem pode entrar nele. Texto de Marco Fialho "A arte não deve apenas refletir, mas também transcender; seu papel é fazer com que a visão espiritual influencie a realidade..."                           Andrei Tarkovski, em 'Esculpir o tempo" "...a fraqueza é grande,  enquanto a força é nada..."                                             pensamento de Stalker "... é melhor uma felicidade amarga, do que uma vida apagada e triste."                               ...