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INFERNINHO - Direção de Guto Parente e Pedro Diógenes

A beleza para além das aparências Por Marco Fialho É preciso se comemorar muito mesmo quando um filme com as características de "Inferninho", dirigido por Guto Parente e Pedro Diógenes, ambos integrantes do Alumbramento, o mais famoso coletivo audiovisual brasileiro, chega ao nosso afunilado circuito comercial. A obra já havia sido exibida na Mostra Caleidoscópio, do Festival de Brasília 2018, onde teve uma ótima repercussão. O filme consegue mesclar dois elementos que raramente são presentes em uma mesma obra, por serem bem díspares: estranhamento e doçura. O espectador então é permanentemente invadido por sensações aparentemente ambíguas, pois de uma só vez é mergulhado em um ambiente de submundo bizarro e eivado de ternura. Antes de tudo, "Inferninho" propõe um pensamento acerca do mundo aparente, ou melhor, sobre o mundo das aparências. Os diretores conseguem fazer de "Inferninho" uma ode ao amor, com personagens expressivos vindos desse submund...

AMANDA - Direção de Mikhaël Hers

Contenção e explosão na medida certa Por Marco Fialho Tem filmes que são tiros certeiros. "Amanda" é um deles. O grande mérito de Mikhaël Hers está na economia de recursos narrativos. Todas as cenas são executadas sem excessos e com uma competência de quem sabe de qual ponto de vista contará a história. Apesar de ser um drama de muita intensidade há uma contenção das emoções que são represadas para apenas explodirem no momento exato e conclusivo. Toda a história de "Amanda" foi dividida para que fossemos lentamente nos relacionando com os personagens. Pouco a pouco, cena a cena, vamos nos envolvendo com eles, pelas suas humanidades, por tudo que faz deles pessoas comuns. Sim, porque não há nada mais tocante do que a vida de gente como a gente. E assim acompanhamos a rotina banal de Amanda (Isaure Multrier), seu tio David (Vincent Lacoste) e sua mãe Sandrine (Ophelia Kolb). Tudo caminha como previsto dentro de um universo de uma família de classe média pari...

A SOMBRA DO PAI - Direção de Gabriela Amaral Almeida

O zumbi que somos Por Marco Fialho Em tempos de tantos super-heróis poderosos que ocupam quase todas as salas de cinema, porque não olharmos para o lado e enxergar aqui em nosso valoroso cinema, super-heróis potentes, daqueles que não se escondem em meio a fundos azuis e mega efeitos especiais? Penso mais especificamente em Dalva, a heroína do terror dramático "A sombra do pai". Inclusive, é muito difícil falar desse filme sem mencionar o expressivo trabalho dessa precoce Nina Medeiros, atriz que brilha ao construir essa enigmática Dalva, de meros nove anos, mas de um magnetismo de botar medo em muitos adultos por aí, com uma interpretação calcada integralmente no olhar da personagem. "A sombra do pai" é o segundo longa de Gabriela Amaral Almeida, diretora que foi muito incensada pelo grande sucesso de seu primeiro longa, "O animal Cordial". Comparando as duas obras, nota-se um refinamento da diretora na nova obra, um vigoroso movimento para o lapi...

AMOR ATÉ AS CINZAS - Direção Jia Zhang-Ke

O progresso decadente da China por trás de Qiao e Bin Por Marco Fialho "Amor até às cinzas", novo filme do cultuado diretor chinês Jia Zhang-Ke, é por demais traiçoeiro. Há nele algo de escorregadio e isso não está propriamente explícito na trama. É necessário se pensar um pouco sobre seus personagens, pois eles são todos tão nebulosos que nos criam uma barreira, um distanciamento para com eles. Não à toa assistimos a diversas traições durante o transcorrer da história. Entretanto, a maior traição mesmo vem de Jia, pela forma como ele insere os personagens na trama. A impressão que temos continuamente é que tudo que vemos não é exatamente o que é, e esse parece ser o ardil proposto pela narrativa de Jia Zhang-Ke. Jia Zhang-Ke se impõe como um manipulador exemplar em "Amor até às cinzas" ao misturar artesania e autoralidade de uma só vez. Imprime minuciosamente sua visão acerca de uma China corroída por dentro, mas como se a sua própria narrativa também estive...

CHUVA É CANTORIA NA ALDEIA DOS MORTOS - Direção Renée Nader Messora e João Salaviza

A humanização de Ihjãc Por Marco Fialho No ano passado vimos "Ex-pajé", intrigante filme-denúncia de Luiz Bolognesi sobre um pajé da etnia Paiter Suruí, que abre mão de sua tradicional função religiosa para virar um varredor de chão em um templo evangélico, por ser convencido pelos brancos que suas práticas culturais e espirituais anteriores eram demoníacas. Agora em 2019, nos chega aos cinemas "Chuva é cantoria na aldeia dos mortos", dirigido pelo casal Renée Nader Messora e João Salaviza, que apesar de não ter o caráter de denúncia de "Ex-pajé", aborda também o tema da religiosidade em outra etnia indígena, os Krahô, só que adotando um viés mais poético e psicológico. Entretanto, essa reincidência de temáticas não deve ser desconsiderada, pois em ambos os casos estão presentes o etnocídio dos povos indígenas pela cultura branca colonizadora. Por essas qualidades, "Chuva é cantoria..." foi agraciado com o prêmio "Un certain regard...

O CENSOR - Direção Cavi Borges, Patrícia Niedermeier e Alexandre Varella

Sexo é expressão e a censura é pornográfica! Por Marco Fialho Há mais de um ano criei essa página de blog e até o momento todos os textos e palavras aqui proferidas  foram dedicadas integramente ao cinema. Agora posso dizer garbosamente que este humilde espaço tão dedicado à impura sétima arte está sendo devidamente desvirginado por uma peça teatral (e aqui o desvirginado soa muito mais do que uma simples e casual palavra). Mas como não poderia ser diferente esse sacrilégio, ainda assim, vem espirrado pelo cinema, afinal de contas estamos aqui para falar da peça, ou melhor, da peça-filme, tal e qual a define o próprio diretor Cavi Borges (vale registrar que a direção é  codividida com o ator Alexandre Varella e a atriz Patrícia Niedermeier). Sim, nada mais cinematográfico do que isso, nosso maior agitador carioca ser um dos partícipes que nos fará mergulhar em outros mares, o das artes cênicas. Então, agora que meu escafandro já está em seu devido lugar, mergulhemos,...

EM TRÂNSITO - Direção de Christian Petzold

O encontro fatal entre o século 20 e o 21 Por Marco Fialho Christian Petzold vem se firmando como um dos diretores mais consistentes do momento. Depois de "Bárbara" (2012) e de "Phoenix" (2014), ele nos brinda com o criativo "Em trânsito", filme em que desenvolve uma trama que requer toda a atenção do público por conter camadas de tempo que dialogam magistralmente. E é o ardil do tempo o maior diferencial dessa obra, a faceta desafiadora que instiga a pensar sobre as possíveis aproximações entre duas épocas históricas distintas. O mais curioso nesse jogo temporal montado por Petzold é a forma como ele se estabelece. Não há idas e vindas no tempo, o enredo se desenvolve linearmente, supostamente em um tempo presente. A ocupação alemã na França transcorre em paralelo à problemática dos refugiados africanos de hoje, ambas coabitam no mesmo espaço, na Marselha de nossos dias. O que os diferencia é apenas nosso olhar, que estranhamente se depara com ca...

UM ELEFANTE SENTADO QUIETO - Direção de Hu Bo

Por Marco Fialho A obra única, derradeira e genial de Hu Bo A longa duração do filme "Um elefante sentado quieto" pouco importa, ou melhor, importa, e muito, pois cada minuto de seus 254 minutos é valioso e preciso, fragmentos preciosos que levamos para casa ao final desse drama ao mesmo tempo tão intimista (existencial) e social. Cada plano é executado com um rigor impressionante. Uma obra-prima que parece ser de um experiente cineasta, mas que foi realizada pelo jovem Hu Bo, de apenas 29 anos. O diretor Hu Bo suicidou-se logo após terminar o filme. É incrível a existência de uma dor sincera que o diretor consegue impingir a cada tomada de "Um elefante sentado quieto". Inclusive, no filme ocorrem dois suicídios, o que mostra o quanto o tema estava presente em seu pensamento. A atmosfera do filme fica a cargo de uma fotografia descolorida, onde as cores esmaecidas possuem um desagradável tom esverdeado, que muito lembra aquela carne em processo de putrefação....

AS FILHAS DO FOGO - Direção Albertina Carri

O empoderamento do sexo selvagem feminino Crítica por Marco Fialho "A pornografia é o erotismo dos outros"                                                          Guillaume Apollinaire "As filhas do fogo" é no mínimo um dos filmes mais diferentes do ano. Dirigido por Albertina Carri, a obra tem sim aqui e ali seus altos e baixos, suas irregularidades, mas como negar que nela há algo de impactante e que de certa forma faz muitas pessoas saírem constrangidas da sala de cinema. Em ocasião da morte de Domingos Oliveira, ouvi uma frase dele que achei que se encaixa mais do que nunca a "As filhas do fogo": "que a arte coloca no mundo coisas que antes não estavam lá". A ideia de fazer um road movie com onze mulheres se "pegando" durante duas horas é algo surpreendente, ou não é? Ouvi algumas críticas falarem que o filme é mais sexo do q...

NÓS - Direção de Jordan Peele

Atenção: para que algumas partes fossem melhor aprofundadas, a crítica contém alguns spoilers. O espelho que esconde e revela Por Marco Fialho Depois do estrondoso e justo sucesso de Corra!, primeiro longa dirigido por Jordan Peele, era natural a enorme expectativa em torno do seu segundo trabalho, o filme "Nós". Dois pontos iniciais importantes: de um lado "Nós" reafirma uma inclinação de Peele para o gênero terror (mesmo que esse venha misturado com outros gêneros); de outro o tema racismo não se coloca como protagonista dessa nova obra, apesar de também estar presente em muitos momentos da trama. Genericamente, pode-se dizer que "Nós" traz duas perspectivas de leitura, uma social e outra psicológica. Essas duas abordagens parecem correr em paralelo durante o desenvolver da trama. Há uma visível metáfora sobre o comportamento social humano, assim como há uma análise psicanalítica acerca das máscaras que utilizamos quando nos deparamos com situaçõ...