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NÓS - Direção de Jordan Peele


Atenção: para que algumas partes fossem melhor aprofundadas, a crítica contém alguns spoilers.

O espelho que esconde e revela

Por Marco Fialho

Depois do estrondoso e justo sucesso de Corra!, primeiro longa dirigido por Jordan Peele, era natural a enorme expectativa em torno do seu segundo trabalho, o filme "Nós". Dois pontos iniciais importantes: de um lado "Nós" reafirma uma inclinação de Peele para o gênero terror (mesmo que esse venha misturado com outros gêneros); de outro o tema racismo não se coloca como protagonista dessa nova obra, apesar de também estar presente em muitos momentos da trama.

Genericamente, pode-se dizer que "Nós" traz duas perspectivas de leitura, uma social e outra psicológica. Essas duas abordagens parecem correr em paralelo durante o desenvolver da trama. Há uma visível metáfora sobre o comportamento social humano, assim como há uma análise psicanalítica acerca das máscaras que utilizamos quando nos deparamos com situações traumáticas. A questão então do duplo manifesta-se não só no enredo do filme, mas também na própria espinha dorsal e constitutiva da obra.
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Como temos "Corra!" como única referência de Peele como cineasta, o fato de todos os protagonistas serem negros em "Nós" vira também um ardil da direção, já que ficamos condicionados de que o tema do racismo será novamente ser o principal no filme. Algumas pistas falsas são colocadas para nos sugestionar, como o encontro bem no início do filme, com seus vizinhos (protótipo de uma família branca) na praia, onde questões subliminares racistas aparecem para confundir ainda mais o nosso acompanhamento, como nos quisesse nos jogar inconscientemente para a atmosfera de "Corra!". 

Mas essa expressão constante do duplo parece ser o grande mote da construção narrativa de Jordan Peele. A todo momento ele está presente de alguma forma na trama, inclusive na reiterada camiseta que remete à música thriller de Michael Jackson, composta em 1982, na mesma década onde ocorreu o trauma psíquico da protagonista Adelaide (interpretada com talento pela sempre excepcional Lupita Nyong'o). Mais do que a música, Michael Jackson nos ofereceu o clipe que se transformou em um fenômeno na época. Cito aqui isso, pois nele Michael também vive uma crise identitária ao se transformar em um lobisomem. No clipe ainda vemos seres subterrâneos vindo à tona, de covas e bueiros. A roupa dele é sempre vermelha, o que nos faz relacioná-la como um elemento presente na indumentária dos "seres" que vem do subterrâneo.

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O duplo se faz presente ainda na questão temporal. Temos dois tempos bem marcados no filme. Tem o ano de 1986, período da infância da protagonista Adelaide na Praia Santa Cruz, onde ela vive um processo psíquico traumático ao se perder de seus pais em um parque de diversões. Depois a trama salta para os dias atuais, quando Adelaide viaja com marido e os dois filhos para a mesma Praia de Santa Cruz. O filme então está centrado nesse duplo tempo, mas em um único mesmo espaço. Curiosamente, ou melhor, simbolicamente, trinta anos depois o parque ainda está lá, intacto, do mesmo jeito que Adelaide o tinha deixado em 1986. 

O jogo de duplos propostos por Jordan Peele em "Nós" são realmente abundantes. Peele divide um mundo da superfície de um mundo subterrâneo, com túneis imensos e amplos habitados por estranhos seres com aparência humana, mas que mais lembram zumbis, pois não emitem falas, apenas sons próximos a grunhidos, e todos eles duplos de pessoas que vivem na superfície. O que parece incongruente é somente o duplo de Adelaide conseguir emitir palavras identificáveis. De repente, como que em um ataque zumbi, esses seres dominam a terra, explodem carros e matam seus supostos duplos. O que fica confuso na trama é que ao mesmo tempo que entendemos plenamente o surgimento do duplo de Adelaide, ficamos sem compreender o aparecimento de tantos duplos. Há inclusive um certo exagero de Peele em explicar todos os detalhes da trama de superfície, em especial na parte final do filme, onde explicações mínimas são dadas sem a maior cerimônia. "Nós" é daqueles filmes que apresentam "pegadinhas" e revelações ao final, o que nos força então a ter que relembrar tudo o que vemos antes, para tentar encaixar tantas as peças que tínhamos colocado fora do lugar quanto aquelas que estavam soltas no quebra-cabeça. Se a superfície nos é entregue, porém os simbolismos não, eles passeiam pelo filme e depois pelas nossas cabeças. No tal subterrâneo, pouco mostrado por Peele, está todo o mistério de "Nós". Apesar do roteiro apresentar simplificações e buracos, os simbolismos que carrega compensam as fragilidades aqui descritas. 
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Queria voltar no duplo negro/branco, no filme representado pela relação entre os vizinhos supostamente "amigos", ou com uma relação amigável. Há constantemente uma tensão entre seus membros, entre os pais, e entre os filhos. A família negra, por mais que se esforce, compre carros e barcos, o que socialmente os colocaria dentro de um mundo criado à imagem e semelhança dos brancos vencedores, sempre há uma desqualificação de suas conquistas, um adendo, um entretanto para diminuí-los por parte dos brancos. Há uma contraposição entre o mundo das aparências, ditado por um poder branco e impositivo de valores de reconhecimento e ascensão social, e uma crítica aos negros por assimilarem esses valores carcomidos. Quando a família branca é abatida pelos seus duplos, a reação dos filhos da família negra é de se apossar de seus bens de "maior valor". Muitos dos valores dessa família são brancos, eles coíbem os palavrões dos filhos como coisa feia, escutam música de preto, mas não assumem que a letra fala de drogas. Na infância, Adelaide para se recuperar do trauma começa, como atividade terapêutica, a fazer aulas de balé, nitidamente da cultura branca. O trauma de Adelaide, ao que tudo indica, inicia-se após ela ter se visto no espelho do parque de diversão como negra, e será na dança branca que seu duplo se revelará. Portanto, a crise de Adelaide tem uma origem étnico-racial. Ser negro numa sociedade onde o poder e suas estruturas reafirmam os valores históricos do supremacismo branco é um desafio, e ele sempre vem embalado por traumas e violências. Não à toa, o duplo de Adelaide surge com uma tesoura na mão, objeto símbolo da censura e da interdição.       

Outro duplo a permear o filme é a parábola de Jeremias 11:11. Citemos então literalmente o evangelho: "Portanto assim diz o Senhor: Eis que trarei mal sobre eles, de que não poderão escapar; e clamarão a mim, mas eu não os ouvirei." O obscuro parece caminhar lado a lado com a inocência em "Nós". Nietzsche disse que Deus está morto. Aqui parece que Peele atualiza essa ideia à luz do pensamento bíblico (vale lembrar o peso do protestantismo na formação cultural da sociedade norte-americana), já que Deus abandona a todos, os joga nas sombras e à sua própria sorte. E assim caminhamos como humanidade, com a sensação de desproteção contínua. O filme de Peele me induz a essa reflexão.
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Em um filme onde as máscaras falam e caem simultaneamente, o que chama atenção é o filho do casal que carrega consigo sua própria máscara, que muito se assemelha com o próprio lobisomem do clipe de Michael Jackson. Esse personagem parece estar mais próximo do seu duplo do que os outros e isso fica evidente quando ele mata seu duplo ao controlar seus passos para trás. Ele é quem entra com a mãe na sala de espelhos, onde os duplos da mãe se encontram para um acerto de contas entre passado e presente. É o momento dos tempos se encontrarem, para quem sabe azeitar as coisas e os traumas. Encarar o espelho é o grande desafio de Adelaide e que a levará para o mundo subterrâneo onde a sua infância traumática se encontrará com a do menino. A imagem do início do filme, onde coelhos estavam presos individualmente em gaiolas retorna, só que agora os coelhos circulam pelo ambiente, sem direção e destino. Mãe e filho sairão de lá do mundo subterrâneo, mas será que suas inocências também?

Visto no Espaço Itaú de Cinema 4, no dia 21/03/2019.

Cotação: 4/5 



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