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EX-PAJÉ - Direção Luis Bolognesi

O aniquilamento espiritual de uma cultura Crítica de Marco Fialho A primeira cena de Ex-pajé, uma imagem de arquivo de 1969, talvez diga mais do que se imagina a princípio, e muito sintetize o que veremos no restante do filme: o primeiro contato dos indígenas da tribo Paiter Suruí com os homens brancos. O filme aborda não a fase da evangelização propriamente dita, mas sim as suas consequências, o resultado do processo acachapante no qual os habitantes originários passaram, em especial nos últimos cinquenta anos, quando as mãos impolidas do Regime Militar pesou sobre eles. Mas toda essa perspectiva histórica no filme vai recair sobre o próprio ex-pajé Perpera, o protagonista dessa impactante obra. Logo nos créditos, Bolognesi explicita bem aonde quer chegar. Cita Pierre Clastres quando esse diz, a grosso modo, que "o genocídio mata o corpo, mas o etnocídio mata o espírito." Ser mais elucidativo que isso é impossível. O filme passa então a narrar um cotidiano contraditó...

CONSTRUINDO PONTES - Direção Heloísa Passos

O trem, o pai, a filha e as Sete Quedas Crítica de Marco Fialho Cada vez mais aparecem em festivais Brasil afora filmes que narram experiências familiares, a partir de uma vivência do próprio diretor/diretora. Mas como entender essas obras como pertencentes a todos nós, não apenas como um mero registro de uma relação entre um indivíduo e sua família, o que reduziria o filme a um interesse meramente pessoal do realizador. Esse desafio, "Construindo pontes", dirigido por Heloísa Passos, consegue ultrapassar com louvor. O filme abarca além da questão da relação familiar, claro, outros aspectos relevantes para nós público de cinema, como o próprio questionamento sobre o que é um filme, como ele se constrói, pois assim como as pontes ele também precisa ser edificado, por mais que sua elevação não se dê pelos mesmos critérios de cálculo e matemáticos de uma ponte. Mas será mesmo que não? Densidade, concretude, ordenação de planos, enquadramentos, movimentos de câmera, te...

O DIA DEPOIS - Direção de Hong Sang-Soo

O cinema de Hong Sang-Soo e a reinvenção do cotidiano Crítica de Marco Fialho Um dos cineastas mais produtivos do mundo, o coreano Hong Sang-Soo nos brinda com mais uma de suas pérolas, o filme "O dia depois". Várias de suas marcas como diretor estão presentes nesse novo trabalho. O que vem chamando atenção nesse coreano é justamente isso, que a cada novo filme fica evidente que sua obra não pode ser estudada isoladamente, sob o risco de um esvaziamento estético significativo. Há uma clara intenção de repetição de procedimentos cinematográficos, jogos constitutivos temporais, de construção de mise-en-scène e interpretações que nos impele para um entendimento mais amplo desse universo. Só em 2017, Hong Sang-Soo nos brindou com 3 obras substanciais e importantíssimas ("Na praia à noite sozinha", "A câmera de Claire", e essa agora, "O dia depois"). Todas as histórias dos filmes de Hong Sang-Soo retratam situações cotidianas, até certo ponto ba...

O PROCESSO - Direção Maria Augusta Ramos

A nuvem soturna que paira sobre nós Crítica de Marco Fialho Vivemos o momento político mais indefinido de nossa história republicana. Um sujeito otimista pode ser considerado hoje um ingênuo. Nesse contexto de franca instabilidade, inclusive emocional, surge "O Processo", filme dirigido por Maria Augusta Ramos, uma de nossas mais importantes documentaristas. O labirinto kafkaniano é uma referência visível no filme, pois o que está a ser denunciado pela diretora são os inúmeros procedimentos amparados por leituras realizadas a partir do direito constitucional, mas com um rigor bastante incomum em terras brasilis . O estranho é que em um país onde os pormenores nunca foram levados a sério, muito pelo contrário, sempre foram totalmente desprezados, de repente tornaram-se premissas e provas incontestáveis para acusação apenas de um grupo político. Quem não desconfia disso é no mínimo mal intencionado. Uma das mais...

WESTERN - Direção Valeska Grisebach

Muito para além das imagens Crítica de Marco Fialho O ponto forte do filme "Western", dirigido pela alemã Valeska Grisebach, está em algo posto para além da cena. Trata-se de uma obra onde o que não vemos no quadro assume proporções determinantes para o enredo em si. A relação histórica entre Alemanha e Bulgária contorna permanentemente o que acontece em cena e protagoniza diversos conflitos desencadeados em "Western". O que proponho então é pensá-lo tendo como referência sempre o extra-campo. Desse ponto de vista, o próprio título "Western" se torna mais um elemento a ser visto e refletido. Qual seria a analogia a ser feita? Afinal, várias são possíveis e a Alemanha sequer é um país fronteiriço à Bulgária. Mas em se falando disso, o que seriam as fronteiras do mundo de hoje? E as que existem, o que elas determinam e delimitam exatamente? Mas esse é um daqueles filmes muito mais para nos desafiar do que para obtermos respostas rápidas, ideais p...

PROJETO FLÓRIDA - Direção Sean Baker

A Disney e seu avesso Crítica de Marco Fialho Tem filmes que começam engraçadinhos, quase despretensiosamente, como quem não quer nada. Só que a cada nova sequência tudo vai se avolumando até virar uma poderosa avalanche. Assim pode ser definido "Projeto Flórida", dirigido por Sean Baker, o mesmo diretor que antes assinou nada menos que "Tangerine", primeiro longa-metragem lançado comercialmente inteiramente realizado com câmeras de iphone. Nessa nova obra ele vem reafirmar seu talento para filmar personagens que se movimentam muito em cena. Tal como "Tangerine", Baker se entrega a uma personagem egressa de uma penitenciária, reafirmando a perspectiva dos excluídos e marginalizados pelo sistema. E ele o faz injetando em suas personagens uma dose de indignação profunda em relação a sua posição na sociedade. O que vemos em "Projeto Flórida" é um sistema dedicado e competente em vigiar e punir, entretanto, contraditoriamente frágil na assist...

TRAMA FANTASMA - Direção Paul Thomas Anderson

O poder da intimidade desnudada  Crítica de Marco Fialho A "Trama Fantasma" é o filme mais maduro de Paul Thomas Anderson. Definitivamente feito para gente grande. Uma obra repleta de sutilezas, jogos cinematográficos e ardis humanos. Visualmente é impecável, de um requinte raramente visto, uma obra-prima ímpar, tamanho seu rigor. É um deleite de ver e de pensar nas suas estruturas: imagéticas, sonoras, narrativas, interpretativas, simbólicas, psicológicas, filosóficas, enfim, um mar envolto de camadas de significados e significantes. O que ficamos nos perguntando o tempo todo durante a projeção é se prestamos atenção na superfície ou se buscamos as sombras mais profundas, mais recônditas. Nos enredamos no tátil ou divagamos em sua atmosfera? Todo o  começo do filme foi pensado para se construir uma atmosfera, uma ambiência de classe. Nela, a forma também se estabelece como conteúdo, como mensagem. Não à toa a personagem de Daniel Day Lewis, Reynold Woodcock, é um est...

ME CHAME PELO SEU NOME - Direção de Luca Guadagnino

Elio e o mergulho no abismo Crítica de Marco Fialho Em uma propriedade não suntuosa, mas confortável e campestre no interior do norte da Itália vive uma pequena família (pai, mãe e o filho adolescente), com poucos funcionários, onde o pai é um pesquisador bem-sucedido e que todo verão recebe um aluno para ajudá-lo a organizar seu trabalho. Esse é o ambiente em que transcorre a história do filme "Me Chame pelo seu nome". O filme transita na relação entre memória e tempo, entre o permitido e o interdito. Tudo podia ser um belo melodrama, mas felizmente não é assim que essa historia nos chega, nela predomina uma cuidadosa decupagem, uma sofisticação inequívoca na construção de todas as imagens do filme. Tal como "A forma da água", de Guillermo Del Toro, "Me chame pelo seu nome" também é um filme sobre o amor, mais sobre a impossibilidade do amor entre dois homens em uma sociedade conservadora e que vive das aparências. Não podemos esquecer que durante...

ACOSSADO - Direção Jean-Luc Godard

Esse texto foi escrito e publicado originalmente no catálogo da mostra "1959: o ano magico do cinema francês", em 2009, por ocasião dos 50 anos da Nouvelle Vague Francesa. O chiste de Godard na narrativa clássica Crítica de Marco Fialho O filme de estreia de Godard é um dos mais analisados e festejados da história do cinema. E toda a celebração é proporcional ao grande impacto estético produzido por Acossado (A Bout de Souflle). Não à toa, tornou-se o maior símbolo da nascente Nouvelle Vague Francesa, assim como sua maior expressão. Se fizermos um balanço geral do muito já discorrido sobre o filme, teremos a sublinhar a supremacia irrefutável de uma ideia: o frescor artístico representado pelo filme para o cinema no final da década de 50 e início dos anos 60. Todo o cinema antes de Acossado jamais conseguiu imprimir tamanho desprendimento artístico ao debochar não só do gênero humano, mas também do próprio fazer cinematográfico. Esse inclusive era um dos aspectos ma...

A FORMA DA ÁGUA - Direção Guillermo Del Toro

A fábula bela e irriquieta de Del Toro Crítica de Marco Fialho "Que seu olhar se complete de um vazio possível. Sobre o que não é, se edifica o que é."                                                                                                                      Alejandro Jodorowsky "A Forma da Água" é um filme de monstro. Mas um filme de monstro dirigido por Guillermo Del Toro e esse detalhe diz muito sobre essa obra. Na minha opinião é o seu melhor filme desde o fenomenal "O Labirinto do Fauno". Del Toro mostra em "A Forma da Água" que é um importante esteta do gênero fantástico. Mais uma vez sua aposta recai em realizar uma fábula, todavia uma fábula moderna, adulta e consistentem...