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ME CHAME PELO SEU NOME - Direção de Luca Guadagnino

Elio e o mergulho no abismo Crítica de Marco Fialho Em uma propriedade não suntuosa, mas confortável e campestre no interior do norte da Itália vive uma pequena família (pai, mãe e o filho adolescente), com poucos funcionários, onde o pai é um pesquisador bem-sucedido e que todo verão recebe um aluno para ajudá-lo a organizar seu trabalho. Esse é o ambiente em que transcorre a história do filme "Me Chame pelo seu nome". O filme transita na relação entre memória e tempo, entre o permitido e o interdito. Tudo podia ser um belo melodrama, mas felizmente não é assim que essa historia nos chega, nela predomina uma cuidadosa decupagem, uma sofisticação inequívoca na construção de todas as imagens do filme. Tal como "A forma da água", de Guillermo Del Toro, "Me chame pelo seu nome" também é um filme sobre o amor, mais sobre a impossibilidade do amor entre dois homens em uma sociedade conservadora e que vive das aparências. Não podemos esquecer que durante...

ACOSSADO - Direção Jean-Luc Godard

Esse texto foi escrito e publicado originalmente no catálogo da mostra "1959: o ano magico do cinema francês", em 2009, por ocasião dos 50 anos da Nouvelle Vague Francesa. O chiste de Godard na narrativa clássica Crítica de Marco Fialho O filme de estreia de Godard é um dos mais analisados e festejados da história do cinema. E toda a celebração é proporcional ao grande impacto estético produzido por Acossado (A Bout de Souflle). Não à toa, tornou-se o maior símbolo da nascente Nouvelle Vague Francesa, assim como sua maior expressão. Se fizermos um balanço geral do muito já discorrido sobre o filme, teremos a sublinhar a supremacia irrefutável de uma ideia: o frescor artístico representado pelo filme para o cinema no final da década de 50 e início dos anos 60. Todo o cinema antes de Acossado jamais conseguiu imprimir tamanho desprendimento artístico ao debochar não só do gênero humano, mas também do próprio fazer cinematográfico. Esse inclusive era um dos aspectos ma...

A FORMA DA ÁGUA - Direção Guillermo Del Toro

A fábula bela e irriquieta de Del Toro Crítica de Marco Fialho "Que seu olhar se complete de um vazio possível. Sobre o que não é, se edifica o que é."                                                                                                                      Alejandro Jodorowsky "A Forma da Água" é um filme de monstro. Mas um filme de monstro dirigido por Guillermo Del Toro e esse detalhe diz muito sobre essa obra. Na minha opinião é o seu melhor filme desde o fenomenal "O Labirinto do Fauno". Del Toro mostra em "A Forma da Água" que é um importante esteta do gênero fantástico. Mais uma vez sua aposta recai em realizar uma fábula, todavia uma fábula moderna, adulta e consistentem...

ARÁBIA - Direção de Afonso Uchôa e João Dumans

O cinema como matéria do existir Crítica de Marco Fialho Há muito tempo um filme não me mobilizava tanto quanto "Arábia". O que passa à nossa frente é de grande impacto, uma profusão de sentimentos e de encontros. E é justamente por meio de um encontro inusitado e casual entre um rapaz e um caderno repleto de anotações que somos apresentados a um personagem. Curiosamente já havíamos visto esse personagem, mas ele parece apenas nascer para nós a partir da leitura de seus pensamentos, ou melhor, a partir da sua fabulação sobre a sua vida, como se a nossa parca existência precisasse desse processo de autofabulação para poder existir. E  isso para mim é o que mais fascina em "Arábia", fazer necessário o próprio existir do cinema por meio da nossa memória, como bem diz nosso Cristiano o que fica é a nossa lembrança de tudo que vivemos. E devido a isso essa obra nos soa tão pulsante, pois ela nos fala fundamentalmente do cinema, do seu processo para existir, da neces...

LOU - Direção Cordula Kablitz-Post

Personagem ousada em narrativa quadrada Crítica de Marco Fialho O que mais nos impele a continuar seguindo "Lou" até o fim é a incrível história dessa personagem fascinante, revolucionária e atualíssima chamada Lou Salomé, uma filósofa e pensadora inquieta. Suas atitudes e ideias conseguem soar emancipatórias tanto na sua época (final do Século 19 e início do 20) quanto hoje. Não à toa essa mulher impressionou homens extraordinários como Friedrich Nietzsche, Sigmund Freud e Rainer Maria Rilke. Pena que o pensamento de Lou não seja muito explorado pela diretora Cordula Kablitz-Post, que privilegia nitidamente mais suas posturas como mulher do que como pensadora.  Por conta disso, o ponto alto de "Lou" é justamente seu elenco. O maior destaque fica a cargo da atriz Katharina Lorenz, que interpreta Lou na fase adulta. Sua atuação, além de convencer, faz com que nós espectadores consigamos acompanhar a sua trajetória. Merece destaque também o trabalho da atriz Nic...

THE SQUARE - Direção de Ruben Östlund

Um museu de distorções Crítica de Marco Fialho Polêmica e cinema são duas palavras em uma parceria constante. Realmente elas combinam pra valer. Mas há nessa relação também alguns limites de razoabilidade. "The Square" para o meu gosto passa do ponto, e muito. Algo que vem me surpreendendo nos últimos anos é o quanto a sutileza vem sendo desprezada por muitos cineastas, em especial alguns europeus, historicamente bem atentos a esse aspecto. Me alarma ainda de "The Square" ter recebido o prêmio máximo em Cannes, a cobiçada Palma de Ouro. Na trama básica de "The Square", Christian é um administrador de museu que após ter seu celular roubado toma atitudes que acabam causando mais problemas em sua vida. Em paralelo, o museu contrata uma empresa de marketing numa tentativa de criar estratégias para conquistar mais público para sua próxima exposição chamada de "O quadrado". Logo no início do filme somos expostos a uma entrevista de Christian,...

RODA GIGANTE - Direção de Woody Allen

AS CAMADAS DA ILUSÃO   Crítica de Marco Fialho "Estou sempre e sempre tentando interpretar a Vida em termos de vidas, não apenas vidas em termos de caráter. Mantenho-me sempre muito consciente da Força que está por trás de tudo – Destino, Deus, nosso passado biológico criando nosso presente, não importando o nome que se dê a isso – Mistério, com certeza – e da eterna tragédia do Homem em sua luta gloriosa, autodestrutiva para fazer com que essa Força dê expressão a ele, em vez de fazer que seja apenas, como um animal, um incidente infinitesimal da expressão dessa Força."                                                                                  Eugène O'Neill Depois de uma vasta carreira de sucesso com quase 50 filmes no currículo e mantendo a realização de um ...

UMA JOVEM MULHER - Direção de Léonor Serraille

O ritmo avassalador de uma jovem mulher Crítica de Marco Fialho Um dos aspectos mais fascinantes de “Uma Jovem Mulher”, filme francês dirigido por Léonor Serraillle é a cumplicidade e a afetividade com a qual ela constrói a sua protagonista Paula (Laetitia Dosch). Claro que a interpretação de Laetitia é de uma entrega descomunal e não há uma cena do filme que ela não esteja. A câmera cola nela e só tem interesse em perscrutá-la, invadi-la e nos mostrar todas as suas contradições. Ela tem uma cicatriz na testa, uma marca física e simbólica de quem encara a vida de frente, mas de quem também apanha bastante dela. O mais interessante é que em nenhum momento a diretora se aproxima de Paula para nos convencer a afeiçoar dela e criar com ela uma identificação. Pelo contrário, logo na primeira cena tendemos a achá-la desequilibrada, mal-educada e gratuitamente agressiva.  Não criemos ilusão. Não há em "Uma Jovem Mulher" uma predominância do tempo sobre as ações, como a...

CORPO E ALMA - Direção de Ildiko Enyedi

O vermelho definitivamente é a cor mais quente Crítica de Marco Fialho Raros são os filmes húngaros a aterrissarem aqui pelas nossas bandas. A tal globalização só serviu para propagar uma cultura mainstream e afastar a comunicação entre as culturas e suas diferenças. Mas felizmente “Corpo e Alma”, dirigido com precisão por Ildiko Enyedi, vem para quebrar com essa cortina de ferro dos blockbusters . A motivação para esse inesperado pouso dessa nave húngara é consequência direta de um grande prêmio. O filme foi agraciado com a maior honraria possível, o  Urso de Ouro no Festival de Cinema de Berlim. “Corpo e Alma” deve ser o filme mais duro e também o mais terno e lírico deste ano, e essa difícil conciliação é um dos atributos que mais nos atrai nesse drama inusitado, passado em um abatedouro na Hungria. O enfoque inicial no trabalho do abatedouro é de difícil digestão e para pessoas com estômagos fortes. Entretanto toda a aspereza que vemos nessas cenas não são gratuitas,...

COM AMOR, VAN GOGH - Direção de Hugh Welchman e Dorota Kobiela

Para amar Van Gogh Crítica de Marco Fialho Com Amor, Van Gogh” é antes de tudo um filme feito para os sentidos. Desde o início é fácil perceber que a camada imagética se sobrepõe a todas as outras que compõe essa obra. A beleza da técnica de animação, inspirada no próprio estilo inconfundível do pintor se impõe de tal forma, que o melhor a fazer é relaxar e embarcar mesmo nessa inusitada proposta visual. É claro que esse desnível entre forma e conteúdo está ali bem evidente, mas não deve impedir e atrapalhar a fluência e o impacto inconteste provocado pelas suas imagens. Os diretores Hugh Welchman e Dorota Kobiela se utilizaram de 125 artistas contratados para pintar mais de 60.000 telas-frames a óleo, ao longo dos 95 minutos de filme. Mas o que mais me chamou a atenção foi a dinâmica visual que essas telas criam na imagem. Como o estilo de Van Gogh incorporava um traço brusco, pinceladas de uma rusticidade irregular, um frame não “encaixa” devidamente no seguinte, o que pr...