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Mostrando postagens de janeiro, 2026

MILONGA (2023) Dir. Laura González

Texto por Marco Fialho Milonga marca a estreia de Laura González como diretora de longas. Pode-se dizer que esse é um belo filme inaugural por saber se apropriar de um ponto de vista, o da personagem Rosa, interpretada pela chilena Paulina García, uma das mais prestigiadas atrizes do mundo, para levar os espectadores a mergulhar na vida dessa solitária senhora, uma recém viúva, cujo filho está preso numa penitenciária. Como é bom ver um filme em que um personagem é o centro do desenvolvimento do enredo. No decorrer da trama vamos conhecendo detalhes e sutilezas acerca de Rosa, vamos nos surpreendendo e encantando com ela. Paulina García sabe como investir nos gestos e olhares, jogando com a nossa atenção e nos despertando para as suas ações e silêncios.  Se tem algo que se destaca na vida da personagem é a sua casa, vistosa e opressiva, que muito diz sobre um passado confortável que teve ao lado do marido, mas que a aprisionou sobremaneira. Mas ao mesmo tempo, Rosa deixa entrever q...

A VOZ DE HIND RAJAB (2025) Dir. Kaouther Ben Hania

Texto por Marco Fialho Nos últimos anos vivemos o assombro da dominação violenta do Estado de Israel em Gaza contra os palestinos. As imagens que chegam pelas reportagens de TV e pelos filmes* são chocantes, de uma desumanidade impossível de aceitar. A indiferença perante a essa ocupação torna-se algo igualmente cruel. A Voz de Hind Rajab , produção da Tunísia, dirigida por Kaouter Ben Hania só fez confirmar o absurdo e as denúncias que lembram os direitos humanos como um elemento fundamental para impor limites para uma agressão de um Estado contra um povo.  A Voz de Hind Rajab poderia ser um documentário, mas não é, na verdade até esbarra nele na sua proposta de mostrar um grupo humanitário, chamado de Crescente Vermelho, que tenta salvar uma criança de 6 anos da morte eminente, depois que um tanque israelense matou seus tios numa rua, situada no bairro de Tel-Hawa, em Gaza. Praticamente todo o filme mostra o trabalho desse grupo no telefone tentando manter a esperança da menina, ...

SIRÂT (2025) Dir. Oliver Laxe

Texto por Marco Fialho A primeira impressão que Sirât nos deixa é de ser uma parábola sobre uma determinada região geopolítica mundial e o que corrobora com essa ideia é o próprio espaço em que o filme transcorre, isto é, o deserto do Marrocos, bem na entrada do Continente africano para os europeus.  Do ponto de vista narrativo, Sirât parte de um filme de busca para um de sobrevivência em um piscar de olhos. Não tem como não ler essa obra sem pensar na relação que a Europa desenvolveu com o Continente vizinho, de como impôs domínios políticos e provocou guerras, atiçando animosidades constantes, assim como sucessivos deslocamentos populacionais.   Logo na cena inicial temos a montagem de enormes caixas de som para a realização de uma festa rave no meio do deserto. Para os europeus, a África é um grande salão de festas e essa é uma metáfora bem interessante que Sirât evoca. Só que no meio dessa festa onde o paraíso se avizinha, tem um inferno bem mais próximo, algo que um...

A ÚNICA SAÍDA (2025) Dir. Park Chan-wook

Texto por Marco Fialho Algo que se deve valorizar em um realizador é a sua ousadia. E isso, o sul-coreano Park Chan-wook mostra que tem, e de sobra, ao filmar A Única Saída , adaptação do livro O Corte , de Donald E. Westlake, também adaptado pelo cineasta grego Costa-Gavras, em 2005. Enquanto a versão de Costa-Gavras é mais seca, a de Park Chan-wook é um thriller mais escancaradamente cômico e surreal.  A Única Saída pode não está no mesmo patamar de outras obras geniais do diretor, como a trilogia da vingança composta pelos extraordinários Mr. Vingança (2002),  Old Boy (2003) e Lady Vingança (2005) ou ainda de  A Criada  (2016), mas mantém a qualidade visionária desse diretor que é um dos grandes criadores do cinema do século XXI. É bem curiosa a maneira como Park Chan-wook constrói A Única Saída , partindo de uma atmosfera inicial paradisíaca, até o personagem Yoo Man-soo.(Lee Byung-hun) adentrar no inferno, para se tornar um serial killer . Quando Park filma o pa...

HAMNET: A VIDA ANTES DE HAMLET (2025) Dir. Chloé Zhao

Texto por Marco Fialho Hamnet: A Vida Antes de Hamlet possui uma estrutura narrativa basicamente delimitada em duas partes. Na primeira, a diretora Chloé Zhao edifica a família de Shakespeare (Paul Mescal), o seu encontro com Agnes (Jessie Buckley) e a vinda de três filhos. O filme abarca uma fase de Shakespeare antes do reconhecimento, por isso vemos ele contrariando as ordens do pai, que o quer seguindo a sua profissão, a de luveiro. Na segunda, temos a crise dessa família e a eclosão de Shakespeare pelos palcos elizabetanos de Londres. É bem notório que a primeira parte é bem inferior à segunda, contudo, precisamos admitir que vista em seu conjunto, a primeira prepara zelosamente o terreno para que tudo seja grandioso na segunda parte. Chloé Zhao adaptou Hamnet: A Vida Antes de Hamlet  do livro Hamnet, escrito por Maggie O'Farrell, em que a morte do filho Hamnet provoca uma cisão na família e empurra Shakespeare para uma crise descomunal, drama esse que deslocará para a criação ...

QUEM BATE À MINHA PORTA? (1967) Dir. Martin Scorsese

Texto por Marco Fialho A estreia cinematográfica de Martin Scorsese é um acontecimento. Quem Bate à Minha Porta?  é resultado de um filme que o diretor iniciou ainda como estudante na Universidade de Nova York, em 1965. O que mais chama atenção no filme é a sua grande ousadia narrativa, com várias tomadas criativas com a câmera em movimento e closes expressivos.  Se Quem Bate à Minha Porta?  é marcada por uma certa irregularidade e por uma direção errática, há uma notória paixão de Scorsese pelo cinema e sua história. Algumas influências são bem explícitas, como John Cassavettes, em especial na narrativa livre e inventiva de seu primeiro longa,  Sombras , de 1959. Gosto como o filme dialoga com Os Boas Vidas (1953), de Federico Fellini, por meio de um grupo de amigos de um bairro em Scorsese, sempre a sua Little Italy, enquanto em Fellini, temos a sua Rimini. Entretanto, mais uma vez, Scorsese presta homenagem aos seus ancestrais italianos.  Quem Bate à Minha Po...

ALICE NÃO MORA MAIS AQUI (1974) Dir. Martin Scorsese

Texto por Marco Fialho  Uma primeira informação importante sobre Alice Não Mora Mais Aqui é que esse é um projeto que foi iniciado pela atriz Ellen Burstyn, que buscava um diretor para o roteiro de Robert Getchell, até que Francis Ford Coppola indicou o jovem Scorsese para ela. Então Burstyn vê Caminhos Perigosos , seu último filme e se apaixona e decide conversar com Scorsese.  A maior preocupação de Burstyn era garantir que a história tivesse uma perspectiva feminina ao invés de masculina, como quase todas são narradas. Por isso, a viúva Alice Hyatt é a grande protagonista de Alice Não Mora Mais Aqui , que junto com seu filho Tommy (Alfred Lutter) tentam recomeçar uma vida mudando de cidade.  A consagrada e exigente crítica estadunidense Pauline Kael se entusiasmou com a obra, a denominando de "cheia de engraçada malícia e vertiginosa vitalidade", mas surpreendentemente, não se atentou para a proposta feminista do filme. Já o crítico, também estadunidense, Roger Ebert n...

ATO NOTURNO (2025) Dir. Filipe Matzembacher e Marcio Reolon

Texto por Marco Fialho Tudo começa intenso em Ato Noturno , novo filme da dupla Marcio Releon e Filipe Matzembacher ( Tinta Bruta ), um thriller erótico queer com ótimas interpretações e uma premissa muito bem alinhavada, que parte de uma relação amorosa entre Matias (Gabriel Faryas), um ator ambicioso e Rafael (Cirillo Luna) um político em franca ascensão.  O filme semeia uma ideia de que políticos e atores notórios quando gays não podem expor seus sentimentos em público, mantendo um silêncio de corpos reprimidos numa sociedade conservadora pré-disposta a não aceitar a alteridade. Essa é uma camada que não impede os personagens a darem prosseguimento numa relação repleta de intimidades sexuais.  A noite é o grande palco dessa relação proibida, que se impõe por meio de cenas de grande impacto visual, com o predomínio de uma estética neon, com cores artificiais a acentuar uma atmosfera noir contemporânea. O azul, o laranja e o amarelo dão o tom noturno que contrasta com as co...

O BEIJO DA MULHER ARANHA (2025) Dir. Bill Condon

Texto por Marco Fialho Já se passaram 40 anos desde que O Beijo da Mulher Aranha (1985), dirigido por Hector Babenco, foi realizado e angariou muitos prêmios, inclusive um Oscar de Ator para William Hurt no papel de Molina, o prisioneiro gay que se contrapõe à dureza revolucionária de Valentín (Raul Julia). Essa primeira versão do livro do escritor Manuel Puig, contava ainda com a presença luminosa da brasileira Sônia Braga, como a Mulher Aranha, que a alçou à categoria de estrela internacional do cinema.  Eu sempre me pergunto porque a indústria hollywoodiana insiste em refilmar alguns sucessos do passado. Um dos requisitos para haver uma refilmagem deveria ser condicionada a essa nova versão trazer algum elemento que a diferenciasse da anterior. Até que nessa distinção, a atual versão, dirigida por Bill Condon, pelo menos isso alcançou, ao introduzir na história original um musical. A pergunta que passa a martelar em nossas cabeças é se o musical ajuda ou atrapalha a fluência do ...

MARTY SUPREME (2025) Dir. Josh Safdie

Texto por Marco Fialho Hollywood está sempre em busca de personagens extravagantes que se encaixem dentro de suas premissas enaltecedoras das individualidades, sejam elas propensas ao heroísmo ou ao anti-heroísmo. Marty Supreme , novo filme de Josh Safdie, agora sem a companhia costumeira do irmão Ben, se alinha nessa vertente temática pelo viés do anti-herói. Em Marty Supreme não é só o personagem que é over, tudo se aproxima do superlativo. O filme chega a ser sufocante tamanha a velocidade em que transcorre a narrativa. Há uma tentativa de construir uma ideia de caos em torno do protagonista, muito sustentada por uma montagem que não permite que o espectador pense, o que vemos é um atropelamento sensorial. A câmera de Josh Safdie é alucinante, persecutória, ávida por descrever cenas e situações extremas vividas por Marty Mauser (um Timothée Chalamet em uma interpretação abnegada), um jogador de tênis de mesa talentoso, egocêntrico e afeito a viver no limite.  Chamalet agrega mui...

O LENDÁRIO MARTIN SCORSESE (2024) Dir. Rebecca Miller

Texto por Marco Fialho O documentário O Lendário Martin Scorsese , dirigido por Rebecca Miller, se propõe a realizar um retrato do maior e mais profícuo cineasta vivo dos Estados Unidos. São 285 minutos, que totalizam quase 5 horas, divididos em 5 episódios, um tour estupendo e delicioso pela sua gigantesca obra, composta por mais de 32 longas-metragens. Scorsese realmente é incansável como diretor e esse documentário explora bem esse viés quase alucinado de sua carreira. Rebecca Miller opta por um formato bem televisivo e convencional, partindo primeiramente de uma longa entrevista que faz com o próprio Scorsese a narrar desde a sua infância sua aproximação com o cinema e com os temas que o perseguiriam durante a sua trajetória. O grande trunfo de O Lendário Martin Scorsese é fazer dessa conversa a espinha dorsal do documentário, pois como é prazeroso acompanhar a paixão do diretor, o entusiasmo ao falar de si e da carreira.  Ainda falando estruturalmente de O Lendário Martin...

SE EU TIVESSE PERNAS, EU TE CHUTARIA (2025) Dir. Mary Bronstein

Texto por Marco Fialho Logo na primeira cena de Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria , a diretora Mary Bronstein mostra ao que veio. Uma câmera na mão está grudada no rosto Linda (uma Rose Byrne impecável) e fica nela enquanto ouvimos uma voz de uma criança e de uma outra mulher, que parece ser uma médica. Essa simples cena evidencia a angústia dessa mulher, aprisionada e enclausurada por uma situação incontrolável: sua filha se alimenta por meio de um tubo conectado a sua barriga e ela está só para encarar essa triste demanda da vida.  Mas há nisso tudo um imenso estranhamento. Não há uma imagem sequer da filha durante o filme, embora ouçamos a sua voz infantil cruzar implacavelmente a imagem. A força dessa ausência transparece o quanto a diretora Mary Bronstein faz questão de nos sublinhar a dor dessa mãe. Se não vemos a imagem da menina, por conseguinte não nos afeiçoamos a ela e centramos nossa atenção em Linda, a mãe.  E esse é o ardil fantástico de Bronstein. A sua escol...

JOVENS MÃES (2025) Dir. Jean-Pierre e Luc Dardenne

Texto por Marco Fialho Jovens Mães , novo trabalho dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne é, como se diz na gíria, um puro suco dessa dupla de experientes e premiados cineastas belgas, além do filme ser o representante da Bélgica no Oscar de 2026 e ter sido agraciado pelo melhor roteiro no Festival de Cannes 2025. A primeira exibição no Brasil foi na Mostra Internacional de cinema de São Paulo, onde a obra recebeu o Prêmio Humanidade, devido ao tratamento sensível devotado ao tema.  Confesso que esse filme é um dos mais tocantes dos irmãos Dardenne, que mantém as mesmas ideias de suas obras anteriores, de retratar as difíceis condições sociais da França, seja de imigrantes ou de outros grupos fragilizados no país, mas o maior diferencial de Jovens Mães é o esforço dos irmãos em positivar as experiências dessas jovens, assim como apontar uma esperança para o futuro, o que nem sempre as obras deles sinalizou.  Jovens Mães parte da realidade de cinco jovens que se tornaram mães an...

EU, QUE TE AMEI (2025) Dir. Diane Kurys

Texto por Marco Fialho Eu, Que Te Amei  narra a tumultuada relação conjugal e artística de dois grandes artistas franceses: Simone Signoret (Marina Foïs) e Yves Montand (Roschdy Zem). A narrativa transcorre com desenvoltura e com uma mise en scène que não oferece grandes sobressaltos e surpresas ao narrar os bastidores desse casal que viveu mais de 20 anos juntos, com inúmeras crises e alguns bons momentos.  No início de Eu, Que Te Amei a diretora Diane Kurys até promete algo diferente, quando vemos Marina Foïs e Roschdy Zem, a atriz e o ator que interpretam os dois protagonistas entregues à equipe de maquiagem no processo de transformação para os seus personagens. Mas a partir de então, a mágica do cinema vigora até o fim, de maneira previsível, como mais uma cinebiografia de artistas que tanto vemos por aí, repleta de minúcias da vida pessoal e os barracos da vida real.    Entretanto, vale mencionar o trabalho de Diane Kurys em relação aos dois protagonistas ...