Texto por Marco Fialho
Uma primeira informação importante sobre Alice Não Mora Mais Aqui é que esse é um projeto que foi iniciado pela atriz Ellen Burstyn, que buscava um diretor para o roteiro de Robert Getchell, até que Francis Ford Coppola indicou o jovem Scorsese para ela. Então Burstyn vê Caminhos Perigosos, seu último filme e se apaixona e decide conversar com Scorsese.
A maior preocupação de Burstyn era garantir que a história tivesse uma perspectiva feminina ao invés de masculina, como quase todas são narradas. Por isso, a viúva Alice Hyatt é a grande protagonista de Alice Não Mora Mais Aqui, que junto com seu filho Tommy (Alfred Lutter) tentam recomeçar uma vida mudando de cidade.
A consagrada e exigente crítica estadunidense Pauline Kael se entusiasmou com a obra, a denominando de "cheia de engraçada malícia e vertiginosa vitalidade", mas surpreendentemente, não se atentou para a proposta feminista do filme. Já o crítico, também estadunidense, Roger Ebert não só sacou o viés feminista como identificou uma mistura de estilos, ora um realismo cru e ora momentos de franco exagero que beiram o irreal, em especial as cenas bagunçadas que ocorrem na lanchonete onde Alice vai trabalhar na nova cidade.
Na verdade, Alice Não Mora Mais Aqui é um projeto típico da Nova Hollywood da época, sendo Scorsese um expoente explícito dessa tendência de reformular a narrativa dos filmes clássicos, que chegou desgastada depois do movimento black power, do feminismo, do antibelicismo pós Guerra da Coreia e do Vietnam arrombarem a porta do caretismo reinante nos Estados Unidos. Nos anos 1970, a questão ideológica está gritante e adentra por dentro das histórias e das próprias narrativas dos filmes, os filmes de Scorsese dessa época são exemplares a esse respeito.
Como vejo ecoar em Alice Não Mora Mais Aqui uma influência evidente da mise en scène dinâmica de John Cassavetes, com a câmera transmitindo a loucura de viver aquela época incerta, com personagens parecendo estar sempre à beira do precipício. Alice vive a aceleração de um mundo predisposto a engoli-la, e quando ela cruza então com personagens como Ben (um Harvey Keitel brilhante), um atropelador indócil e indomável, que instaura a violência de maneira abrupta na vida dessa jovem viúva, as consequências são atrozes.
Um dos destaques de Alice Não Mora Mais Aqui é o seu elenco maravilhoso. Ellen Burstyn mostra sua genialidade como atriz e um domínio completo de todas as facetas da personagem, ora forte ora frágil e a mercê das situações e desafios que não param de chegar. Já Kris Kristofferson nota-se o quanto ele está mais indeciso com seu personagem, mas que acaba dando uma áurea de mistério, mesmo que ela seja meio casual, por inexperiência, embora ele segure tudo por saber usar de seu carisma inato. Mas já Harvey Keitel está pleno, seu personagem dá medo, nos faz pensar em como poderíamos conter a fúria de Ben, uma preciosidade de interpretação. O jovem Alfred Lutter é um furacão em cena, seu personagem é simbólico das dificuldades de se viver nos turbulentos anos 1970 nos Estados Unidos, numa política de cada um por si. Ainda tem a intensa personagem Flo, interpretada por uma vulcânica Diane Ladd, a garçonete que a princípio rivaliza, mas depois se torna amiga de Alice. E o que dizer de Jodie Foster, com 12 anos de idade, e esse não era o seu debut, como a provocadora Audrey, e melhor amiga de Tommy, deslizando talento para atuar em cinema.
Vale inclusive reparar como Alice Não Mora Mais Aqui aborda as figuras masculinas. Há sempre uma masculinidade tóxica rondando Alice. Até os mais aparentemente calmos, como David (Kris Kristofferson), possuem seus momentos de dureza, e expõem a violência inerente à cultura da masculinidade, que reinou sem grandes questionamentos até o Século XX, mas que ainda ecoa fortemente enraizado em nossos dias.
Scorsese utiliza o menino Tommy como um alívio cômico dentro do filme. Sua inquietude às vezes se traduz por um solilóquio, até quando ele está a falar com a mãe ou os namorados, já que sua intensidade de fala é muitas vezes desprezada por todos. Sua chatice é notória, inclusive quando fica a repetir a mesma piada com todos. Mas Tommy é um ótimo termômetro da loucura do roteiro, aquele personagem que permite que tenhamos um ponto de vista mais ajustado dos conturbados acontecimentos. Em determinados momentos pensamos: que louca deve ser a vida desse moleque, sem pai, uma mãe trabalhando que nem louca para manter o lar e os namorados imprevisíveis que vão surgindo pela narrativa.
Mesmo que Alice Não Mora Mais Aqui não seja um projeto vindo da cabeça de Scorsese, o diretor consegue fazer ele parecer um típico filme seu, em especial na priorização de temas concernentes à pessoas comuns, aqui, uma garçonete cantora, ou como queiram, uma cantora garçonete. De repente, estamos totalmente tomados por essas vidas, como se estivéssemos vendo um documentário sobre alguém da nossa família, de um amigo ou vizinho. Essa capacidade incrível que Scorsese tem de penetrar na vida dessas pessoas, de retratá-las com um vigor e uma verdade assombrosas.
Certamente, Alice Não Mora Aqui não é o melhor filme de Scorsese, mas sendo seu 4º filme, reafirma mais um passo de sua consolidação como grande diretor. O que se revela é uma crônica mordaz e feminista, uma crítica à situação da mulher numa sociedade que caminha mais lenta em relação aos passos firmes de muitas mulheres valentes, que encaram a vida de frente com seus medos e inseguranças, mas também com a determinação de ser feliz custe o que custar, como bem representa Alice no contexto do filme.
Depois desse filme, Scorsese emplacaria nada mais nada menos do que Taxi Driver (1976), a obra que ressignificaria o próprio cinema desse diretor fantástico, talvez um dos maiores do cinema dos Estados Unidos, por saber lidar com a maior indústria do planeta e realizar obras-primas admiráveis, como Touro Indomável (1981), A Última Tentação de Cristo (1988), Os Bons Companheiros (1990), Gangues de Nova York (2002) e O Assassino da Lua das Flores (2023).

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