Texto por Marco Fialho
Jovens Mães, novo trabalho dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne é, como se diz na gíria, um puro suco dessa dupla de experientes e premiados cineastas belgas, além do filme ser o representante da Bélgica no Oscar de 2026 e ter sido agraciado pelo melhor roteiro no Festival de Cannes 2025. A primeira exibição no Brasil foi na Mostra Internacional de cinema de São Paulo, onde a obra recebeu o Prêmio Humanidade, devido ao tratamento sensível devotado ao tema.
Confesso que esse filme é um dos mais tocantes dos irmãos Dardenne, que mantém as mesmas ideias de suas obras anteriores, de retratar as difíceis condições sociais da França, seja de imigrantes ou de outros grupos fragilizados no país, mas o maior diferencial de Jovens Mães é o esforço dos irmãos em positivar as experiências dessas jovens, assim como apontar uma esperança para o futuro, o que nem sempre as obras deles sinalizou.
Jovens Mães parte da realidade de cinco jovens que se tornaram mães antes de atingir a maioridade. A escolha de cinco jovens é um dos méritos do filme, pois possibilitou que os irmãos Dardenne mostrassem o quanto complexo é o tema, o quanto cada caso é específico e envolve problemas socias e familiares diferentes. Essa visão multifacetada do filme seria a parte mais problemática para a construção da obra, porém os irmãos Dardenne conseguem um equilíbrio fantástico, fazendo a narrativa ser fluida e atenciosa com os cinco casos abordados.
O tom realista, que é a marca de todos os filmes dos irmãos Dardenne é aqui ratificada e com louvor. Eles mostram muita experiência para filmar cada vez melhor com a câmera na mão, uma marca inconfundível do cinema desses irmãos belgas. Em Jovens Mães essa câmera na mão destaca um carinho com as personagens, já que esse artifício parece orgânico à narrativa, já que está mais suavizado, nota-se um cuidado de fazer dessa câmera algo o mais singelo possível.
Há muito cuidado na abordagem, pois eles sabem que estão a retratar um tema para lá de delicado e que envolve sentimentos à flor da pele. Não há cenas apelativas, algumas são fortemente emocionais, embora os irmãos se esforcem por manter algum distanciamento, sem abrir mão da contundência do tema em si. Todas as cinco personagens protagonistas tem um ponto em comum, um abrigo, que acolhe mães menores de idade.
O tema da maternidade precoce está no cerne de Jovens Mães, e os irmãos Dardenne escolhem casos que são cercados por outras vulnerabilidades, como o racismo, da doação, de mães em situação de rua, o abandono parental e também maternal. Jessica, Perla, Ariane, Julie e Naïma tem nome, corpo, angústias, sofrimentos e sentimentos contraditórios da gravidez a princípio inesperada, mas na qual precisarão conviver e resolver os maiores percalços que se colocam.
Os irmãos Dardenne são esses cineastas que abraçaram a temática social e corajosamente tem trazido à baila filmes em que pesam a mão no realismo social, como em Rosetta (1999), O Filho (2002), A Criança (2005), O Silêncio de Lorna (2008), O Garoto da Bicicleta (2011), A garota Desconhecida (2016), O Jovem Ahmed (2019), Tori e Lokita (2022). Em quase todos os filmes temos uma discussão em torno da paternidade, maternidade e juventude, assuntos que frequentemente orbitam o cinema desses cineastas. Jovens Mães é mais um deles, talvez o mais terno deles, aquele que sinaliza uma possibilidade de um mundo melhor para os jovens. Será um sinal de maturidade desses irmãos ou algo temporário e somente episódico? Esse é um ponto para ficarmos atentos quando formos assistir aos próximos trabalhos deles.

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