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EU, QUE TE AMEI (2025) Dir. Diane Kurys


Texto por Marco Fialho

Eu, Que Te Amei narra a tumultuada relação conjugal e artística de dois grandes artistas franceses: Simone Signoret (Marina Foïs) e Yves Montand (Roschdy Zem). A narrativa transcorre com desenvoltura e com uma mise en scène que não oferece grandes sobressaltos e surpresas ao narrar os bastidores desse casal que viveu mais de 20 anos juntos, com inúmeras crises e alguns bons momentos. 

No início de Eu, Que Te Amei a diretora Diane Kurys até promete algo diferente, quando vemos Marina Foïs e Roschdy Zem, a atriz e o ator que interpretam os dois protagonistas entregues à equipe de maquiagem no processo de transformação para os seus personagens. Mas a partir de então, a mágica do cinema vigora até o fim, de maneira previsível, como mais uma cinebiografia de artistas que tanto vemos por aí, repleta de minúcias da vida pessoal e os barracos da vida real.   

Entretanto, vale mencionar o trabalho de Diane Kurys em relação aos dois protagonistas e um cuidado em construir uma história calcada em um ponto de vista mais próximo ao de Simone Signoret, de como ela vivenciou a etapa final de sua carreira. O foco de Eu, Que Te Amei é fundamentalmente a fase descendente da carreira da atriz, que envelheceu e deixou de ter papéis de protagonista nos filmes, enquanto Yves Montand ascende com mais idade. O filme captura esse etarismo em relação às atrizes, desprezadas pelo mercado quando atingem à meia-idade, e o contraste com os homens, que continuam brilhando na mesma idade. 

Inclusive, pode se dizer que o machismo é o tema central de Eu, Que Te Amei, pois Diane Kurys salienta o quanto Yves Montand usufruiu de sua fama tendo vários casos com mulheres mais jovens, muitas vezes não permitindo que Signoret viajasse com ele, para que pudesse aproveitar melhor as oportunidades sexuais que apareciam nas filmagens. Mas em contrapartida, o filme mostra uma Signoret muito passiva, basicamente entregue à bebida, voltada à reclusão e quase sempre sofrendo calada ou partindo para ataques verbais às traições sucessivas do marido. Signoret embora trabalhasse, representava bem as mulheres tradicionais, que aceitavam por insegurança as atitudes machistas de Montand, pelo menos, essa é a visão que Kurys passa da vida privada da atriz.

Talvez Eu, Que Te amei falhe na sua concepção maior de enfocar mais Signoret ao frisar seu momento de decadência, ao invés de sublinhar o quanto essa mulher brilhou em papéis memoráveis, como em As Diabólicas (1955), clássico inconteste de Henri-Georges Clouzot, onde sua interpretação é memorável. O filme até se preocupa mais em sublinhar o Oscar de Melhor Atriz que Simone Signoret levou para casa pelo filme Almas em Leilão (1959), deixando simplesmente as favoritas Katherine Hepburn e Elisabeth Taylor com as mãos abanando na premiação.      

Sempre desconfio dessas narrativas que privilegiam o caráter privado e muitas vezes sensacionalista dos artistas em detrimento de suas imagens públicas. Mesmo que essas construções da vida privada humanizem e mostrem o quanto os artistas são pessoas como as outras, e não mitos a viver uma vida diferente das dos demais mortais, é interessante frisar o quanto isso mobiliza as plateias não para o conteúdo artístico e destaca mais um clima de fofocas de bastidores e outras bobagens sem importância. 

Um aspecto que a diretora frisa bastante em Eu, Que Te Amei foi o quanto Yves Montand se aproveitou da relação com Signoret para engrenar a sua até então modesta carreira como cantor e desconhecido como ator. Na própria cena inicial isso fica evidente, quando Signoret está sendo entrevistada por um programa de TV e Montand sai dos bastidores e praticamente se oferece para também ser entrevistado, ocasião que menciona estar filmando com Georges Cukor, ao lado da mega star Marilyn Monroe, que por sinal, também foi sua amante. 

O trabalho de Marina Foïs como Signoret é de extrema sensibilidade, uma pena que em certos momentos a diretora Diane Kurys se mostre por demais acadêmica em sua mise en scène, tornando os movimentos de câmera muito rígidos e planejados, o que traz um artificialismo, o que impacta bastante no resultado geral. Essa decupagem por demais salientada não permite uma maior espontaneidade dos atores, que por vezes ficam visivelmente cerceados por esse excesso de controle técnico da direção. 

Se lá no começo de Eu, Que Te Amei, Kurys se preocupa em informar que são atores a fazer o filme, a interpretar personagens que fisicamente possuem diferenças, mas que a maquiagem os transformarão, depois o que vemos é uma filmagem calcada na narrativa clássica, com preocupações visíveis de se ter pontos de virada, ápices, crises e resoluções, isto é, a direção de Diane Kurys se deixa levar pelas convenções, o que faz o filme ser algo digerível, um entretenimento inofensivo, bem acabado e formalista. Nós que acompanhamos cotidianamente o cinema queremos mais, que os diretores nos dê um algo a mais, não só um produto vendável, mais uma narrativa que nos faça tremer nas cadeiras.

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