Pular para o conteúdo principal

HAMNET: A VIDA ANTES DE HAMLET (2025) Dir. Chloé Zhao


Texto por Marco Fialho

Hamnet: A Vida Antes de Hamlet possui uma estrutura narrativa basicamente delimitada em duas partes. Na primeira, a diretora Chloé Zhao edifica a família de Shakespeare (Paul Mescal), o seu encontro com Agnes (Jessie Buckley) e a vinda de três filhos. O filme abarca uma fase de Shakespeare antes do reconhecimento, por isso vemos ele contrariando as ordens do pai, que o quer seguindo a sua profissão, a de luveiro. Na segunda, temos a crise dessa família e a eclosão de Shakespeare pelos palcos elizabetanos de Londres. É bem notório que a primeira parte é bem inferior à segunda, contudo, precisamos admitir que vista em seu conjunto, a primeira prepara zelosamente o terreno para que tudo seja grandioso na segunda parte.

Chloé Zhao adaptou Hamnet: A Vida Antes de Hamlet do livro Hamnet, escrito por Maggie O'Farrell, em que a morte do filho Hamnet provoca uma cisão na família e empurra Shakespeare para uma crise descomunal, drama esse que deslocará para a criação de uma peça. Inclusive, uma curiosidade, é que o nome do dramaturgo inglês só é proferido uma única vez durante toda a trama do filme, enquanto o nome de Agnes é dito inúmeras vezes.      

Confesso que o filme não me fisgou, mesmo que respeite o trabalho narrativo cuidadoso de Chloé Zhao, embora dramaturgicamente o resultado seja fraco, muito porque algumas escolhas que a diretora faz, tornam didática a condução das cenas, e muitas vezes, por demais apelativa no que tange o sentimentalismo. Se a segunda parte é a mais empolgante, por sua vez, é também a que traz mais equívocos dramatúrgicos.

 Gosto de como Chloé Zhao constrói Hamnet: A Vida Antes de Hamlet como uma ode ao teatro, e preciso ir mais além, como trabalha a arte como um paradigma para a humanidade, como um espelho ficcional necessário para as nossas vidas. Uma pena que essa beleza de visão venha acompanhada de alguns clichês para lá de manjados. Algumas explicações e reiterações banalizam a trama, por serem desnecessárias, como a aparição da imagem do filho na cena final, algo que já estava implícito para o espectador, que torna o filme deveras enfadonho.  

Outro dado desfavorável a Hamnet: A Vida Antes de Hamlet é o excesso de cenas expositivas que Chloé Zhao impõe ao espectador. Tudo é narrado bem explicadinho, para que possamos ter todas as peças para que ao final possamos preencher o quebra-cabeça que o filme propõe na segunda parte londrina. Não à toa, a primeira parte é mais extensa e mais cansativa, quase que um desafio para o espectador chegar até a segunda, onde a dinâmica muda e torna-se mais interessante. No todo, a mise en scène é insossa, a câmera não vai além do descritivo e não acrescenta muito à narrativa do filme. As interpretações são frias, sem brilho algum, apenas Jessie Buckley tem uns bons momentos, mas também tem uns patéticos, como ela no teatro elizabetano. Paul Mescal não reluz, está apagado na pele de uma das maiores personalidades da história.         

Para um filme com uma narrativa clássica, Hamnet: A Vida Antes de Hamlet pode ser considerado arrastado, e a própria vida de Shakespeare é retratada como mais uma, sem brilho, apenas como um trabalhador fugindo do trabalho, não há indícios sequer dos seus talentos. Essa primeira parte, o enfoque é bem maior para a personagem de Agnes, uma mulher interessante que vem de uma origem pagã, manipuladora de ervas, de uma época em que a industrialização não havia criado a urbanização de tantas cidades pelo mundo e que as florestas possuíam maior expressividade social. Mesmo que tudo pareça frugal, Chloé Zhao não se desvia do artificialismo nas encenações. Em nenhum momento somos sugados para sonhar com aquelas vidas a nossa frente, nada é muito convincente, tudo é por demais aguado e desinteressante.

Muito se fala de uma visão do feminino que o filme traz, uma sensibilidade que viria de uma relação mágica de Agnes com a natureza, e mais especificamente com as ervas, algo oriundo de doutrinas pagãs, uma herança dos povos que eram chamados de bárbaros pelos romanos e que foram muito combatidos mais tarde pelo cristianismo. Mas creio que discutir o papel da mulher, de Agnes mais precisamente, se torna um argumento desfavorável ao próprio filme, pois o que vemos é uma mulher submissa, embora contenha uma certa dose de encantamento, que cuida do marido e dos filhos, especialmente para que o homem possa desenvolver seus dotes intelectuais inatos. 

O filme aborda o finalzinho do século XVI, uma sociedade bastante conservadora, fato este que poderia estar mais enfatizado, ao invés da narrativa se perder no melodramático e nos detalhes da vida de uma pequena cidade da Inglaterra. Que cidade era essa, que Inglaterra era essa? São caminhos que o filme não adentra e assim tudo é tratado como uma grande história atemporal até que na encenação de Hamlet, reis e rainhas aparecem do nada. Inicialmente, tudo levava a crer que veríamos uma história de amor, o que logo se desfaz para um encaminhamento de uma tragédia familiar, que beira o piegas. A trilha musical é das mais redundantes, sem ousadia alguma, apenas salienta sentimentos que já estão explícitos nos personagens e na trama.       

A segunda parte é realmente decisiva e mais dramática, e transcorre depois de um fato trágico na vida da família de Shakespeare. É aí que Hollywood invade a trama, para apequená-la ao querer fazê-la grande e envolvente. A música aumenta, a dramaticidade também e assim o filme escalona em emoções, as tais das emoções extravagantes para tocar os espectadores. Quando cai a ficha de Agnes que a peça Hamlet se relacionava com Hamnet, Chloé Zhao cruza os limites do aceitável e permite que seu filme descambe para soluções dramatúrgicas pobres e apelativas. 

Não adianta, não consigo ver cinema como um mero espetáculo para entreter ou emocionar plateias. Essa nada mais é do que a estratégia ideológica da indústria dominante, investir no ilusionismo, na identificação dos personagem com o público, jogar com a emoção e assim subtrair o pensamento crítico pelo apelo emocional. Quando achamos que o teatro poderia ser em Hamnet: A Vida Antes de Hamlet o maior protagonista ao assumir seu mundanismo e demonstrando a força vital que só a presença dos atores permite e traz, o que vemos são clichês e a busca do choro fácil do espectador, o que arrefece a ideia de teatro como princípio ativo e transformador. Acredito que Shakespeare e o próprio teatro mereciam bem mais.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

CLOSE-UP (1990) Dir. Abbas Kiarostami

Texto por Marco Fialho "A arte é um sentimento que se experimenta, que o artista desenvolve nele para compartilhar com os outros". Frase que o personagem Sabzian atribui a Leon Tolstói Estudar o cinema de Abbas Kiarostami é mergulhar no imaginário do cinema. Um dos ícones do cinema iraniano dos anos 1980 e 1990, o diretor realizou obras cruciais para o pensamento cinematográfico contemporâneo. Obras como Gosto de Cereja (1997), Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987), Através das Oliveiras (1994), A Vida e Nada Mais (1992), e outras já produzidas nos século XX1, como Dez (2002), Cópia Fiel (2010) e Um Alguém Apaixonado (2012), todas fundamentais e merecedoras de serem estudadas, não só individualmente, mas também em conjunto para melhor se compreender o pensamento original desse cineasta iraniano, que junto com tantos outros seus contemporâneos, como Mohsen Makhmalbaf, Jafar Panahi e Majid Majidi, formaram a base do que hoje chamamos de cinema iraniano. Mas nesse texto vou come...

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

RETROSPECTIVA VIVIAN OSTROVSKY

Texto por Carmela Fialho Retrospectiva Vivian Ostrovsky "Para mim, cinema experimental significa ter liberdade total - liberdade de duração, de tema, de forma.(...) fazer o que você quer sem se submeter às regras comerciais. São outros valores, não é tanto sobre ser longe da indústria, mas sobre liberdade de criação. De resto, é frustrante ver que hoje o cinema está cada vez mais padronizado, com poucas surpresas".  Vivian Ostrovsky em entrevista inédita a Fernanda Pessoa, extraído do Catálogo do 31º Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade 2026. Na retrospectiva Vivian Ostrovsky, assistimos ao programa 2, denominado corpos em trânsito, com os filmes Movie ( V.O.)  (1982); Idas e Vindas   (1984); Copacabana Beach  (1983); Domínio Público  (1996); e U.S.S.A (1985). O que unifica os cinco curtas são as filmagens de corpos humanos em diferentes atividades do cotidiano em várias regiões do planeta, como Estados Unidos, França, Brasil e a antiga União ...