Texto por Marco Fialho
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet possui uma estrutura narrativa basicamente delimitada em duas partes. Na primeira, a diretora Chloé Zhao edifica a família de Shakespeare (Paul Mescal), o seu encontro com Agnes (Jessie Buckley) e a vinda de três filhos. O filme abarca uma fase de Shakespeare antes do reconhecimento, por isso vemos ele contrariando as ordens do pai, que o quer seguindo a sua profissão, a de luveiro. Na segunda, temos a crise dessa família e a eclosão de Shakespeare pelos palcos elizabetanos de Londres. É bem notório que a primeira parte é bem inferior à segunda, contudo, precisamos admitir que vista em seu conjunto, a primeira prepara zelosamente o terreno para que tudo seja grandioso na segunda parte.
Chloé Zhao adaptou Hamnet: A Vida Antes de Hamlet do livro Hamnet, escrito por Maggie O'Farrell, em que a morte do filho Hamnet provoca uma cisão na família e empurra Shakespeare para uma crise descomunal, drama esse que deslocará para a criação de uma peça. Inclusive, uma curiosidade, é que o nome do dramaturgo inglês só é proferido uma única vez durante toda a trama do filme, enquanto o nome de Agnes é dito inúmeras vezes.
Confesso que o filme não me fisgou, mesmo que respeite o trabalho narrativo cuidadoso de Chloé Zhao, embora dramaturgicamente o resultado seja fraco, muito porque algumas escolhas que a diretora faz, tornam didática a condução das cenas, e muitas vezes, por demais apelativa no que tange o sentimentalismo. Se a segunda parte é a mais empolgante, por sua vez, é também a que traz mais equívocos dramatúrgicos.
Gosto de como Chloé Zhao constrói Hamnet: A Vida Antes de Hamlet como uma ode ao teatro, e preciso ir mais além, como trabalha a arte como um paradigma para a humanidade, como um espelho ficcional necessário para as nossas vidas. Uma pena que essa beleza de visão venha acompanhada de alguns clichês para lá de manjados. Algumas explicações e reiterações banalizam a trama, por serem desnecessárias, como a aparição da imagem do filho na cena final, algo que já estava implícito para o espectador, que torna o filme deveras enfadonho.
Outro dado desfavorável a Hamnet: A Vida Antes de Hamlet é o excesso de cenas expositivas que Chloé Zhao impõe ao espectador. Tudo é narrado bem explicadinho, para que possamos ter todas as peças para que ao final possamos preencher o quebra-cabeça que o filme propõe na segunda parte londrina. Não à toa, a primeira parte é mais extensa e mais cansativa, quase que um desafio para o espectador chegar até a segunda, onde a dinâmica muda e torna-se mais interessante. No todo, a mise en scène é insossa, a câmera não vai além do descritivo e não acrescenta muito à narrativa do filme. As interpretações são frias, sem brilho algum, apenas Jessie Buckley tem uns bons momentos, mas também tem uns patéticos, como ela no teatro elizabetano. Paul Mescal não reluz, está apagado na pele de uma das maiores personalidades da história.
Para um filme com uma narrativa clássica, Hamnet: A Vida Antes de Hamlet pode ser considerado arrastado, e a própria vida de Shakespeare é retratada como mais uma, sem brilho, apenas como um trabalhador fugindo do trabalho, não há indícios sequer dos seus talentos. Essa primeira parte, o enfoque é bem maior para a personagem de Agnes, uma mulher interessante que vem de uma origem pagã, manipuladora de ervas, de uma época em que a industrialização não havia criado a urbanização de tantas cidades pelo mundo e que as florestas possuíam maior expressividade social. Mesmo que tudo pareça frugal, Chloé Zhao não se desvia do artificialismo nas encenações. Em nenhum momento somos sugados para sonhar com aquelas vidas a nossa frente, nada é muito convincente, tudo é por demais aguado e desinteressante.
Muito se fala de uma visão do feminino que o filme traz, uma sensibilidade que viria de uma relação mágica de Agnes com a natureza, e mais especificamente com as ervas, algo oriundo de doutrinas pagãs, uma herança dos povos que eram chamados de bárbaros pelos romanos e que foram muito combatidos mais tarde pelo cristianismo. Mas creio que discutir o papel da mulher, de Agnes mais precisamente, se torna um argumento desfavorável ao próprio filme, pois o que vemos é uma mulher submissa, embora contenha uma certa dose de encantamento, que cuida do marido e dos filhos, especialmente para que o homem possa desenvolver seus dotes intelectuais inatos.
O filme aborda o finalzinho do século XVI, uma sociedade bastante conservadora, fato este que poderia estar mais enfatizado, ao invés da narrativa se perder no melodramático e nos detalhes da vida de uma pequena cidade da Inglaterra. Que cidade era essa, que Inglaterra é essa? São caminhos que o filme não adentra e assim tudo é tratado como uma grande história atemporal até que na encenação de Hamlet reis e rainhas aparecem do nada. Inicialmente, tudo levava a crer que veríamos uma história de amor, o que logo se desfaz para um encaminhamento de uma tragédia familiar, que beira o piegas. A trilha musical é das mais redundantes, sem ousadia alguma, apenas salienta sentimentos que já estão explícitos nos personagens e na trama.
A segunda parte é realmente decisiva e mais dramática, e transcorre depois de um fato trágico na vida da família de Shakespeare. É aí que Hollywood invade a trama, para apequená-la ao querer fazê-la grande e envolvente. A música aumenta, a dramaticidade também e assim o filme escalona em emoções, as tais das emoções extravagantes para tocar os espectadores. Quando cai a ficha de Agnes que a peça Hamlet se relacionava com Hamnet, Chloé Zhao cruza os limites do aceitável e permite que seu filme descambe para soluções dramatúrgicas pobres e apelativas.
Não adianta, não consigo ver cinema como um mero espetáculo para entreter ou emocionar plateias. Essa nada mais é do que a estratégia ideológica da indústria dominante, investir no ilusionismo, na identificação dos personagem com o público, jogar com a emoção e assim subtrair o pensamento crítico pelo apelo emocional. Quando achamos que o teatro poderia ser em Hamnet: A Vida Antes de Hamlet o maior protagonista ao assumir seu mundanismo e demonstrando a força vital que só a presença dos atores permite e traz, o que vemos são clichês e a busca do choro fácil do espectador, o que apequena a ideia de teatro como princípio ativo e transformador. Acredito que Shakespeare merecia bem mais.

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